Meia hora depois do memorial…

    Louie e Nina seguiam lado a lado para casa, caminhando pelas ruas escuras da cidade.

    A luz dos postes caía sobre o asfalto seco, criando sombras que tremiam conforme os passos avançavam.

    O som distante dos carros atravessava o ar frio, surgindo em um instante, mas sumindo quase que no mesmo.

    A cidade seguia normalmente, completamente indiferente ao turbilhão dentro de Louie.

    Entre um som e outro, nas sombras que surgiam a partir das silhuetas dos irmãos, o silêncio apertava no peito do garoto, sufocando vozes e pensamentos, mesmo os mais simples e sutis.

    Louie continuava caminhando devagar, os olhos baixos, presos no chão que passava rápido sob seus pés.

    O peso da confusão parecia segurar seu corpo, enquanto a cabeça se enchia de ideias que se atropelavam sem nunca chegar a lugar nenhum.

    — “O que foi aquilo…?” — sua mente girava, tentando se prender a alguma explicação. — “Por que… aquela voz me pareceu tão… real?”

    Ele sentiu o coração disparar.

    Sem perceber, os passos começaram a acelerar, tentando acompanhar o ritmo de seu bater interno.

    Cada farol que passava iluminava suas mãos por um instante.

    Perdidas.

    Avulsas sobre o ar.

    — “Ele disse que não foi tudo uma coincidência… será que ele se referia ao massa-“

    — IRMÃO! — a voz de Nina cortou seu pensamento em um instante.

    Louie piscou, assustado.

    — Tu já passou de casa há um tempão!

    Ele ergueu a cabeça rapidamente, procurando a garota ao lado, mas encontrou apenas o vazio.

    Virou-se e só então viu a silhueta de Nina alguns metros atrás, parada sob a luz fraca de um poste, com uma mão na cintura e a outra acenando.

    — A-ah! Desculpa, Nina, já estou indo! — disse, sem graça, dando meia-volta e caminhando em direção à irmã. — “Vou perguntar pra mãe quando chegar em casa… talvez ela tenha alguma resposta… qualquer uma que seja…”

    Quando finalmente se aproximou dela, os dois voltaram a caminhar lado a lado.

    Nina retomou o passo leve de antes, saltitante, como se o frio não a afetasse tanto quanto deveria.

    Para ela, o mundo ainda era colorido e brilhante, mesmo cercada pela escuridão mais densa.

    Pouco depois, adentraram a casa.

    O interior era convidativo, confortável e quente, o completo oposto da rua no lado de fora.

    O cheiro de comida recém-feita preenchia o ar, envolvendo-os imediatamente.

    Logo na entrada, uma pequena, porém aconchegante, sala se mostrava, com um sofá de três lugares em frente a uma televisão moderna.

    Mais adiante, uma divisória separava a sala da cozinha espaçosa.

    As estantes, cheias de ingredientes, ocupavam as paredes.

    Em frente ao fogão, Emi mexia calmamente a comida dentro de uma panela.

    O vapor subia lentamente, preenchendo o ar com o cheiro agradável do carreteiro.

    — Ah! Louie, Nina, chegaram bem na hora! — gritou a mãe da cozinha. — A comida já está quase pronta!

    Nina parou por um instante, os olhos brilhando.

    — Obaaaa! O que é de comida? — retrucou, animada. — Tô mortaaa de fome!

    Emi sorriu ao ouvir o entusiasmo da filha, um sorriso sincero.

    Continuou mexendo a panela com a colher de pau, mantendo o mesmo ritmo de antes.

    — Vocês demoraram bastante hoje. — comentou, sem virar o rosto. — Já estava ficando preocupada. O frio tá começando a piorar lá fora.

    — É que a gente foi no memorial… — respondeu Nina, largando o tênis perto da porta e indo direto para a cozinha. — Aí o Louie ficou meio viajando de novo.

    Ao chegar na cozinha, Nina ficou encarando a comida, lambendo os beiços.

    Louie parou no meio da sala, sentindo o calor do ambiente pesar ainda mais sobre ele.

    Pelo contrário, fazia a sensação estranha em seu peito parecer ainda mais abafada, espalhando-se pelo corpo como fogo.

    — Eu… bem… — começou, mas a voz saiu baixa demais. — É que ainda é estranho ir lá…

    Emi assentiu levemente.

    — Imagino, meu filho.

    Ela desligou o fogo e pousou a colher com cuidado na pia.

    Só então se virou, apoiando as mãos na bancada.

    O gesto era simples, quase casual, mas carregava uma calma que parecia atravessar a sala.

    Seu olhar voltou rapidamente para Nina, que ficava nas pontas dos pés, com um olhar traiçoeiro, tentando colocar o dedo no carreteiro fervente acima do fogão.

    Sem ao menos virar o corpo, Emi levou a mão até a gola da filha, puxando-a para longe da panela quente.

    — Ei! — Nina reclamou, se debatendo rápido, fazendo careta de tristeza.

    Só depois, seu olhar se voltou completamente para Louie.

    Ao encontrar o rosto baixo do garoto, algo em seus olhos mudou.

    Não foi surpresa.

    Nem medo.

    Foi atenção.

    — Aconteceu alguma coisa? — perguntou, observando cada pequeno movimento dele.

    Nina abriu a boca, mudando rapidamente da careta de tristeza para um estranho ânimo, apesar do susto levado meia hora atrás.

    — Aconteceu sim! Tipo, foi uma loucura total! — ela gesticulou com as mãos, como se replicasse perfeitamente a cena no ar. — Louie me incomodou, daí do nada um clarão azul saiu! Foi tipo pshiiu, boom! E–

    — Nina. — Louie cortou rápido, sentindo o peito apertar. — Deixa… deixa eu falar…

    — Vai então, seu bundão chato! — respondeu ela, fazendo um bico e cruzando os braços.

    Louie respirou fundo.

    — Mãe… — começou devagar. — Hoje, lá no memorial… aconteceu uma coisa estranha comigo.

    Emi não mudou de expressão.

    — Estranha como? — perguntou, simples demais.

    Aquilo incomodou Louie mais do que ele esperava.

    — Eu senti… um calor do nada. — ele fechou a mão instintivamente. — E quando vi… tinha uma luz azul saindo da minha mão.

    Ele ergueu a mão direita.

    O silêncio se solidificou na cozinha.

    Louie esperava qualquer coisa.

    Qualquer reação.

    Fosse um susto.

    Um “como assim?”.

    Ou até mesmo um passo para trás.

    Mas nunca cogitou a falta de uma reação…

    Emi apenas observou. Seu olhar era calmo demais, como um lago sem vento, profundo o suficiente para esconder o fundo, não importando quão turbulento ele fosse.

    — E depois disso… — ele continuou, insistindo em receber alguma reação. — Eu vi e ouvi algumas coisas estranhas…

    Nina descruzou os braços, inclinando a cabeça.

    — Tu explica muito mal, irmão. — disse, mais emburrada do que realmente irritada. — Eu teria feito vinte e dez milhões de vezes melhor.

    Emi respirou fundo.

    Por um breve instante, seus ombros pareceram pesar um pouco mais.

    Ainda assim, quando falou, havia um sorriso tranquilo em seu rosto.

    — Vocês dois se machucaram?

    — N-não… — respondeu Louie, confuso.

    — Entendi… então tudo bem. — disse Emi, soltando o ar como se algo tivesse sido retirado de seus ombros.

    — Q-que? Só isso? — escapou dele. — Tu… tu não acha isso estranho?

    Emi negou levemente com a cabeça.

    — Isso não é o que importa agora…

    Ela se afastou da bancada e foi até a geladeira, de costas para ele.

    — Se vocês estão bem, então tá tudo bem.

    O coração de Louie acelerou.

    — Como assim…?

    Ela segurou seu olhar tenso e preocupado contra a geladeira por alguns segundos.

    — “Eu… pensei que ia demorar mais… vou ter que contatá-lo antes do que eu gostaria…” — seu rosto mostrava preocupação, quase irreconhecível comparado à neutralidade de antes.

    Porém, quando se virou novamente e olhou nos olhos do garoto, seus olhos pareciam tão leves quanto uma pena ao vento, e seu sorriso tão resplandecente quanto um sol na noite.

    — Não se preocupe tanto com isso agora. — disse, tentando tranquilizar, mesmo que apenas um pouco, seu filho. — Está na hora de comer. Depois nós falamos sobre isso.

    — M-mas…

    — Louie, confie em mim dessa vez. — A voz da mulher soou firme, apesar da suavidade. — Tudo tem o seu tempo.

    Louie apertou o punho.

    A dúvida o esmagava por dentro, pesada, insistente.

    — Então… tudo bem…

    Assim, a noite caiu sobre a grande cidade.

    E com ela, vieram as incertezas que Louie ainda não sabia nomear.

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