Capítulo 4: A Voz do Silêncio
Meia hora depois do memorial…
Louie e Nina seguiam lado a lado para casa, caminhando pelas ruas escuras da cidade.
A luz dos postes caía sobre o asfalto seco, criando sombras que tremiam conforme os passos avançavam.
O som distante dos carros atravessava o ar frio, surgindo em um instante, mas sumindo quase que no mesmo.
A cidade seguia normalmente, completamente indiferente ao turbilhão dentro de Louie.
Entre um som e outro, nas sombras que surgiam a partir das silhuetas dos irmãos, o silêncio apertava no peito do garoto, sufocando vozes e pensamentos, mesmo os mais simples e sutis.
Louie continuava caminhando devagar, os olhos baixos, presos no chão que passava rápido sob seus pés.
O peso da confusão parecia segurar seu corpo, enquanto a cabeça se enchia de ideias que se atropelavam sem nunca chegar a lugar nenhum.
— “O que foi aquilo…?” — sua mente girava, tentando se prender a alguma explicação. — “Por que… aquela voz me pareceu tão… real?”
Ele sentiu o coração disparar.
Sem perceber, os passos começaram a acelerar, tentando acompanhar o ritmo de seu bater interno.
Cada farol que passava iluminava suas mãos por um instante.
Perdidas.
Avulsas sobre o ar.
— “Ele disse que não foi tudo uma coincidência… será que ele se referia ao massa-“
— IRMÃO! — a voz de Nina cortou seu pensamento em um instante.
Louie piscou, assustado.
— Tu já passou de casa há um tempão!
Ele ergueu a cabeça rapidamente, procurando a garota ao lado, mas encontrou apenas o vazio.
Virou-se e só então viu a silhueta de Nina alguns metros atrás, parada sob a luz fraca de um poste, com uma mão na cintura e a outra acenando.
— A-ah! Desculpa, Nina, já estou indo! — disse, sem graça, dando meia-volta e caminhando em direção à irmã. — “Vou perguntar pra mãe quando chegar em casa… talvez ela tenha alguma resposta… qualquer uma que seja…”
Quando finalmente se aproximou dela, os dois voltaram a caminhar lado a lado.
Nina retomou o passo leve de antes, saltitante, como se o frio não a afetasse tanto quanto deveria.
Para ela, o mundo ainda era colorido e brilhante, mesmo cercada pela escuridão mais densa.
Pouco depois, adentraram a casa.
O interior era convidativo, confortável e quente, o completo oposto da rua no lado de fora.
O cheiro de comida recém-feita preenchia o ar, envolvendo-os imediatamente.
Logo na entrada, uma pequena, porém aconchegante, sala se mostrava, com um sofá de três lugares em frente a uma televisão moderna.
Mais adiante, uma divisória separava a sala da cozinha espaçosa.
As estantes, cheias de ingredientes, ocupavam as paredes.
Em frente ao fogão, Emi mexia calmamente a comida dentro de uma panela.
O vapor subia lentamente, preenchendo o ar com o cheiro agradável do carreteiro.
— Ah! Louie, Nina, chegaram bem na hora! — gritou a mãe da cozinha. — A comida já está quase pronta!
Nina parou por um instante, os olhos brilhando.
— Obaaaa! O que é de comida? — retrucou, animada. — Tô mortaaa de fome!
Emi sorriu ao ouvir o entusiasmo da filha, um sorriso sincero.
Continuou mexendo a panela com a colher de pau, mantendo o mesmo ritmo de antes.
— Vocês demoraram bastante hoje. — comentou, sem virar o rosto. — Já estava ficando preocupada. O frio tá começando a piorar lá fora.
— É que a gente foi no memorial… — respondeu Nina, largando o tênis perto da porta e indo direto para a cozinha. — Aí o Louie ficou meio viajando de novo.
Ao chegar na cozinha, Nina ficou encarando a comida, lambendo os beiços.
Louie parou no meio da sala, sentindo o calor do ambiente pesar ainda mais sobre ele.
Pelo contrário, fazia a sensação estranha em seu peito parecer ainda mais abafada, espalhando-se pelo corpo como fogo.
— Eu… bem… — começou, mas a voz saiu baixa demais. — É que ainda é estranho ir lá…
Emi assentiu levemente.
— Imagino, meu filho.
Ela desligou o fogo e pousou a colher com cuidado na pia.
Só então se virou, apoiando as mãos na bancada.
O gesto era simples, quase casual, mas carregava uma calma que parecia atravessar a sala.
Seu olhar voltou rapidamente para Nina, que ficava nas pontas dos pés, com um olhar traiçoeiro, tentando colocar o dedo no carreteiro fervente acima do fogão.
Sem ao menos virar o corpo, Emi levou a mão até a gola da filha, puxando-a para longe da panela quente.
— Ei! — Nina reclamou, se debatendo rápido, fazendo careta de tristeza.
Só depois, seu olhar se voltou completamente para Louie.
Ao encontrar o rosto baixo do garoto, algo em seus olhos mudou.
Não foi surpresa.
Nem medo.
Foi atenção.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, observando cada pequeno movimento dele.
Nina abriu a boca, mudando rapidamente da careta de tristeza para um estranho ânimo, apesar do susto levado meia hora atrás.
— Aconteceu sim! Tipo, foi uma loucura total! — ela gesticulou com as mãos, como se replicasse perfeitamente a cena no ar. — Louie me incomodou, daí do nada um clarão azul saiu! Foi tipo pshiiu, boom! E–
— Nina. — Louie cortou rápido, sentindo o peito apertar. — Deixa… deixa eu falar…
— Vai então, seu bundão chato! — respondeu ela, fazendo um bico e cruzando os braços.
Louie respirou fundo.
— Mãe… — começou devagar. — Hoje, lá no memorial… aconteceu uma coisa estranha comigo.
Emi não mudou de expressão.
— Estranha como? — perguntou, simples demais.
Aquilo incomodou Louie mais do que ele esperava.
— Eu senti… um calor do nada. — ele fechou a mão instintivamente. — E quando vi… tinha uma luz azul saindo da minha mão.
Ele ergueu a mão direita.
O silêncio se solidificou na cozinha.
Louie esperava qualquer coisa.
Qualquer reação.
Fosse um susto.
Um “como assim?”.
Ou até mesmo um passo para trás.
Mas nunca cogitou a falta de uma reação…
Emi apenas observou. Seu olhar era calmo demais, como um lago sem vento, profundo o suficiente para esconder o fundo, não importando quão turbulento ele fosse.
— E depois disso… — ele continuou, insistindo em receber alguma reação. — Eu vi e ouvi algumas coisas estranhas…
Nina descruzou os braços, inclinando a cabeça.
— Tu explica muito mal, irmão. — disse, mais emburrada do que realmente irritada. — Eu teria feito vinte e dez milhões de vezes melhor.
Emi respirou fundo.
Por um breve instante, seus ombros pareceram pesar um pouco mais.
Ainda assim, quando falou, havia um sorriso tranquilo em seu rosto.
— Vocês dois se machucaram?
— N-não… — respondeu Louie, confuso.
— Entendi… então tudo bem. — disse Emi, soltando o ar como se algo tivesse sido retirado de seus ombros.
— Q-que? Só isso? — escapou dele. — Tu… tu não acha isso estranho?
Emi negou levemente com a cabeça.
— Isso não é o que importa agora…
Ela se afastou da bancada e foi até a geladeira, de costas para ele.
— Se vocês estão bem, então tá tudo bem.
O coração de Louie acelerou.
— Como assim…?
Ela segurou seu olhar tenso e preocupado contra a geladeira por alguns segundos.
— “Eu… pensei que ia demorar mais… vou ter que contatá-lo antes do que eu gostaria…” — seu rosto mostrava preocupação, quase irreconhecível comparado à neutralidade de antes.
Porém, quando se virou novamente e olhou nos olhos do garoto, seus olhos pareciam tão leves quanto uma pena ao vento, e seu sorriso tão resplandecente quanto um sol na noite.
— Não se preocupe tanto com isso agora. — disse, tentando tranquilizar, mesmo que apenas um pouco, seu filho. — Está na hora de comer. Depois nós falamos sobre isso.
— M-mas…
— Louie, confie em mim dessa vez. — A voz da mulher soou firme, apesar da suavidade. — Tudo tem o seu tempo.
Louie apertou o punho.
A dúvida o esmagava por dentro, pesada, insistente.
— Então… tudo bem…
Assim, a noite caiu sobre a grande cidade.
E com ela, vieram as incertezas que Louie ainda não sabia nomear.

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