Capítulo 20: Peões no Tabuleiro
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Louie ainda olhou para as próprias mãos, sujas, trêmulas e… vermelhas.
Cor vinda de seu próprio sangue, que escorria do apertar de seus punhos.
— Só mais uma coisa… — disse em voz baixa. — Eu sei de algumas coisas sobre eles… deixa pelo menos eu passar essas informações pra vocês…
— Certo… — respondeu Kael, calmo.
E ali, entre ruínas, vigilantes e reencontros, a próxima missão tinha seu início…
O resgate de Emi.
As nuvens cinzentas ainda dominavam o céu de Porto Alegre, deixando o clima pesado.
A noite se tornava cada vez mais real, acompanhada pelo leve barulho das gotas de chuva tocando as ruas e calçadas da cidade, deixando uma falsa sensação de tranquilidade.
Já fazia uma hora desde que Louie e Nina, acompanhados de um pequeno esquadrão, haviam sido enviados de volta para Áurea.
A população, sem saber do que ocorria nos bastidores, seguia suas rotinas habituais, como se aquela não passasse de uma noite como qualquer outra.
Ainda assim, os noticiários que passavam em uma pequena televisão de tubo, em uma lanchonete não muito longe do prédio em ruínas, apresentavam sua manchete:
⧙ “O desabamento de um prédio abandonado na região sul de Porto Alegre tem alarmado a população local. Agora reduzido a escombros, o edifício, outrora planejado para ser um centro empresarial, foi largado e esquecido com o tempo… assim, cedendo e, como consequência, levando uma vida consigo.” ⧘
Kael, agora sentado na lanchonete, olhava inquieto para a velha televisão, esperando com ansiedade o relatório de Lila, encarregada de vasculhar os destroços em busca de pistas sobre o paradeiro de Sethros e Emi.
⧙ “O homem falecido no fim da tarde, vítima do colapso do velho prédio, não possuía registros de identidade, o que levou a polícia a supor que se tratava de um morador de rua que, por uma infelicidade do destino, usava o edifício obstruído como moradia.” ⧘
Foi então que uma figura familiar se aproximou, com passos leves que ecoavam sobre o piso, atravessando a pequena lanchonete e passando entre as mesas e cadeiras de madeira.
Trazia um café quente nas mãos, a fumaça e o aroma se espalhavam levemente, guiados pelo vento calmo que vinha junto da chuva fraca.
— Olha… em todos esses anos, é a primeira vez que te vejo tão nervoso, Kael — comentou Arin, os cabelos vermelhos como fogo balançando a cada passo, e os olhos verdes como esmeralda, receptivos e amáveis como sempre.
Ela se sentou na cadeira à frente da mesa onde Kael estava, cruzando as pernas com tranquilidade, apoiando o copo sobre a superfície de madeira.
Kael soltou um breve suspiro, ainda sem desviar o olhar da televisão.
— Tá tão na cara assim?
— Totalmente. — Arin cruzou os braços, soltando uma leve e curta risada. — Eu sei que tu tá preocupado com ela…
— Eu preciso encontrá-la… — disse Kael; sua voz, normalmente alegre, cedia lugar a uma cheia de preocupação. — Tu é uma das poucas pessoas que sabe que o provável motivo do desaparecimento dele está ligado a essa organização… só isso já mostra o nível de perigo que ela representa.
Arin assentiu lentamente.
— Eu sei… — cochichou Arin, logo após, sorriu de leve com um brilho nostálgico no olhar. — Mas isso também me faz pensar em como ele reagiria se ainda estivesse aqui… e soubesse que a Emi, Nina e Louie tinham sido sequestrados…
Kael soltou uma risada feliz, como se checasse uma gaveta cheia de memórias.
— Nem me fala… ele viraria Porto Alegre de cabeça pra baixo atrás deles.
— Com certeza! — respondeu Arin, rindo também. — Sabe… eu queria ter passado mais tempo com ele. Mesmo com tão pouco convívio, posso dizer o quanto ele era incrível… fora o tanto que eu e minhas irmãs devemos a você e a ele… se não fosse por vocês… nós nem estaríamos aqui hoje.
Kael fechou os olhos por um instante, como se tentasse reviver o mais vividamente possível essas boas e velhas memórias.
— É por isso mesmo que… não posso falhar com ela também! — disse Arin, com um olhar confiante e uma determinação inabalável.
Kael apenas observou Arin em silêncio por um segundo, enquanto deixava a garota de cabelos ruivos falar.
— Então não se preocupa, Kael. Assim como eu sinto que devo algo a ele e vejo essa missão como uma chance de retribuir… a Lila sente o mesmo. Logo ela traria a localização exata onde ele está. Afinal, minha irmãzona é uma das melhores investigadoras de todo o mundo!
— Você tá certa, Arin… — disse Kael, agora com um olhar mais calmo. — Não vamos permitir que algo tão precioso para ele seja destruído tão facilmente assim. Vamos dar o nosso máximo.
— Certo! — respondeu Arin com um sorriso de orelha a orelha.
E então, como o badalar de um sino noticiando o começo, os comunicadores de ambos vibraram e chiaram em sincronia.
Em um movimento simples, Kael puxou o seu da cintura e analisou a mensagem que acabara de chegar.
Rapidamente um sorriso se formou em seus lábios.
— Aguenta firme, Emi… Logo, logo vamos te salvar.
Meia hora antes…
Na zona norte de Porto Alegre, entre construções esquecidas e avenidas movimentadas, um gigante de concreto deteriorado se erguia contra o céu chuvoso… o Esqueletão.
Um prédio abandonado de 19 andares às margens da Avenida Castelo Branco.
Esquecido pelo tempo e pela cidade, tornava-se o esconderijo perfeito para Sethros, que havia o transformado em sua base temporária.
No décimo segundo andar, Emi estava presa, inconsciente e algemada a uma barra metálica fundida ao chão.
O vento vindo da chuva entrava pelas frestas da velha estrutura, trazendo consigo uma brisa úmida e fria, acompanhada de um assobio macabro.
Lá embaixo, Porto Alegre seguia em sua rotina, sem saber que ali, no alto do concreto inacabado, os primeiros passos de uma inevitável futura guerra avançavam cada vez mais.
Foi então que uma voz entre choros e soluços ecoou pelos escombros.
— Irmã-… digo… M-mestre Sethros… — respirou pesado Gorthok, mal conseguindo se manter de pé. Seu corpo coberto de feridas e hematomas, o sangue ainda impregnado na roupa. — A… Casca… ele fugiu da cela…
Ele engoliu em seco, sentindo o peso da culpa de ter deixado aquele que mais amava para trás.
— O Vorgath… ele… ele se sacrificou. — Seus olhos se recusavam a olhar diretamente para Sethros, seu corpo se recusava a parar de tremer, e a culpa… a culpa se recusava a abandoná-lo…
— Ele ficou para trás segurando a Casca… só para que eu conseguisse chegar até aqui… pra te avisar…
Sethros estava sentado de forma desleixada e despreocupada em uma cadeira simples; seus olhos rosa reluziam um brilho de puro… tédio. Enquanto em sua testa, um pequeno curativo infantil rosa aparecia.
— Hhmm… só isso? — murmurou, olhando fixamente o teto da sala, enquanto mexia no pequeno curativo.
— H-ham? C-como assim? A-acho que eu não entendi, mestre Sethros… — respondeu Gorthok, confuso, seus olhos e corpo tremendo. — A Casca fugiu… E… o Vorgath… nosso irm-
Antes que pudesse continuar, Sethros o interrompeu.
— Não se preocupe com a Casca. Eu já tô ligado que ele escapou da cela feita pelo Tecnicista. Tinha algumas microcâmeras dentro da cela, então eu vi tudo. — disse, trazendo sua mão para o colo e levando um dedo após o outro até o dedão, estalando-os.
— Além disso, essa missão não era algo importante para início de conversa. Os planos mudaram desde que o sacrifício no colégio teve aquele imprevisto. — continuava, enquanto terminava de estalar os dedos. — Vamos continuar com o sacrifício no próprio motor. Então não faz muita diferença a Casca voltar para Áurea… eu só queria me divertir e… tirar uma certa dúvida. Mas é uma pena mesmo… eu fiquei realmente animado. Seria incrível quebrá-lo pessoalmente. Mas enfim… ainda não é o momento.
— M-mas mesmo assim… o Vorgath… ele…
Sethros, em um movimento bruto, voltou seu olhar para Gorthok. Seus olhos sérios, indiferentes e ameaçadores como o de uma cobra.
— E o que tem demais um capanga de segunda morrer? — disse, com desprezo e desgosto estampados no rosto. — Tem centenas de outros Kaelums na Sacrificium Sanguinis tão fortes, se não mais que vocês, meras… falhas.
Naquele instante, um arrepio percorreu Gorthok.
Mas não era medo.
Era algo mais profundo… mais doloroso…
Era como se encarasse um abismo sem fim, e o abismo o encarasse de volta.
E então, como se a última engrenagem girasse, ele compreendeu aquele sentimento.
O que Vorgath sentia naquele momento, era o mais puro e sincero… entendimento.
Ele finalmente entendeu tudo. Eles nunca representaram mais do que peças. Peões com a única finalidade de morrer pelo seu rei.
Nem toda a lealdade, nem todos os sacrifícios…
Nem mesmo a morte de Vorgath, que passou por inúmeros experimentos e seguiu sem questionar suas ordens, significava algo para aquela organização.
A Sacrificium Sanguinis nunca se importou.
E Sethros…
Aquele que um dia o chamou de “irmãozão”…
Até ele… mudou.
Seu coração acelerou, sua garganta travou, e até mesmo a voz de Sethros o apressando para que saísse ao fundo ficou abafada.
Tudo que conseguia escutar agora era o som da própria respiração, afobada, engasgada, prendendo um grito que não conseguia sair.
— Eu entendi, mestre Sethros… — murmurou.
Em um instante, as paredes da sala se deformaram como se a argila estivesse viva.
Virando-se, centenas de espinhos dispararam na direção de Sethros. Mas, ao invés de surpresa… Sethros apenas sorriu.
Um brilho dourado preencheu toda a sala.
O impacto sacudiu o prédio inteiro, fazendo a poeira subir.
O som da destruição ecoou por toda a cidade.
— “Eu… acertei ele?!” — pensou Gorthok, abanando com a mão a poeira, que o impedia de ver sequer um palmo à sua frente.
Mas, quando Gorthok finalmente conseguiu ver, seu corpo gelou por completo.
Afinal… não havia ninguém diante dele.
— O quê…? — sussurrou, virando-se por instinto.
— O que significa isso… Gorthok? — disse Sethros, agora atrás dele; sua voz era mortal como veneno, e seu olhar, cortante como a lâmina dourada que carregava em mãos.
— “Merda!!!” — pensou Gorthok, em choque. — “Eu pensei que um ataque repentino com tudo que eu tinha seria a melhor opção, mas não fui rápido o suficiente… ele já havia conseguido invocar a Espada da Justiça…
— Sabe… Eu ainda estava pensando no que ia fazer. Confesso que eu estava bem entediado… Ia ter que esperar até Áurea vir buscar a refém pra me divertir um pouco com eles… mas, veja só… — disse, erguendo a lâmina com um sorriso macabro no rosto. — Talvez você sirva como um aquecimento até lá…
Sethros avançou um passo de forma lenta.
— Então… sou obrigado a te fazer uma pergunta…
Gorthok deu um passo de cada vez para trás, tentando se distanciar de Sethros, completamente assustado pelo seu olhar.
— Eu devo… interpretar isso como traição…? — perguntou Sethros, lambendo os próprios lábios, como se estivesse ansioso por isso. — Certo, certo… o silêncio já responde por ti.
— Mas, meu querido “irmãozão”… você sabia que traidores… MERECEM O MAIOR DENTRE TODAS AS PENAS!?
E, por fim… o sangue se espalhou pelo Esqueletão…
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CURIOSIDADE 5:
Como já avia dito antes, por causa da dor de cabeça de Louie, ele interpretou o nome de Sethros como Seprus, e, consequentemente, compartilhou para Kael e os vigilantes como Seprus também.
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CURIOSIDADE 6:
A OPKM foi fundada por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, a partir de seu grande compilado de estudos sobre os poderes Kaelum, conhecido como “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”. Sua criação surgiu do desejo de investigar, registrar e compreender as estranhas manifestações Kaelum que ocorriam de forma oculta pelo mundo.
Esse processo evoluiu em três grandes estágios:
Estágio 1: descobrimento e estudo de ocorrências consideradas anômalas.
Estágio 2: fatos, hipóteses e teorias sobre o desconhecido.
Estágio 3: criação da OPKM sob o nome original “Ordo Primorum Kaelum Manifestorum” (Ordem das Primeiras Manifestações Kaelum).
Com o passar dos séculos, a função da organização se ampliou e sua sigla foi reinterpretada para sua forma moderna: Organização de Poderes Kaelum Mundial.
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FRAGMENTO HISTÓRICO 2:
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⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 001 ⟭
Diário pessoal — Observações
Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.
(Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)
Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”.
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𐌌 Nos últimos dias, um boato tem percorrido toda Ariminum. Dizem ter visto, em meio à última tempestade, um homem caminhando dentro do próprio furacão, o mesmo que varreu do mapa várias fazendas no interior da Gália Cisalpina.
O mais estranho é que todas as fazendas destruídas pertenciam a donos ligados ao mesmo grupo de navegadores, homens que viviam do comércio marítimo e tinham fama de lidar com assuntos nem sempre honestos.
Correm rumores de que a tragédia foi obra de um dos membros desse grupo. Contam que ele teria encontrado um enorme tesouro escondido e, ao tentar ocultá-lo, foi descoberto, aprisionado e abandonado em mar aberto durante uma tempestade terrível. Agora, dizem que seu espírito voltou para buscar vingança contra aqueles que o traíram.
Eu, Marek Aurellum, há pouco admitido como vigiles de minha cidade, Ariminum, não acredito nessas histórias furadas. Para mim, tudo não passa de exageros da população. Provavelmente foi apenas mais um ato da deusa Tempestas, cuja força e mistério jamais serão totalmente compreendidos por nós, simples mortais.
❖━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━❖ ⟬ FIM DO FRAGMENTO ⟭❖━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━❖
Decifrando palavras ou conceitos:
O que é Vigiles?
“Os vigiles eram responsáveis pela vigilância urbana em Roma e em cidades sob influência romana, cuidando de incêndios, manutenção da ordem e prevenção de crimes. Além da patrulha, atuavam como investigadores, seguindo as ordens do magistrado local, recolhendo informações sobre delitos, interrogando testemunhas e monitorando comportamentos suspeitos.”

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