Capítulo 29: Céu em fissão
Nas ruínas do Esqueletão, travava-se uma batalha silenciosa entre forças opostas: a gravidade e a atmosfera, o peso do afeto contra a beleza da indiferença.
De um lado, a ânsia de proteger sentimentos tão frágeis quanto vidro; do outro, a frieza implacável de alguém que já não se lembrava dos seus.
Era a luta entre o que ama e o que não sente, entre quem tenta segurar o mundo e quem lutava para vê-lo ruir.
E ali, sobre os escombros do antigo Esqueletão, selava-se enfim… o desfecho dessa colisão entre proteção e destruição, passado e presente, memória e vazio.
Arin mantinha o olhar fixo na menina de olhos roxos, que finalmente desviara sua atenção da colossal Neurotempestade sobre suas cabeças.
Agora, seus olhos se encontravam, dois mundos colidindo frente a frente.
A garota a encarava com tanta neutralidade que chegava a ser mecânica.
Já Arin olhava com os olhos em chamas.
Ali, no coração da cratera, o começo do fim teria início.
Ela não era mais aquela pequena garota impotente.
Ela não tinha mais por que temer a própria força.
Dessa vez…
Ela não ignoraria suas limitações como sempre fizera.
Ela as enfrentaria de frente e as superaria.
Porque agora… ela carregava um nome, um propósito e a responsabilidade de todos que ainda acreditavam nela.
As duas oponentes ergueram lentamente as mãos, como se marcassem uma contagem regressiva.
Cada gesto era belo, mas carregava uma pressão descomunal.
Não havia mais dúvidas, a próxima troca de golpes seria a última.
Porém, antes que tivessem a chance de começar…
Um estouro brutal reverberou por toda a extensão da cúpula roxa.
O chão sob os pés das duas vibrou violentamente, rachaduras se abrindo como cicatrizes no solo.
A menina de olhos roxos, posicionada bem no centro da profunda cratera esculpida por seu próprio poder gravitacional, cambaleou por um momento, tentando manter o equilíbrio em meio ao tremor crescente.
Arin se virou instintivamente.
Seus olhos verdes vasculharam a borda da Neurotempestade, onde a barreira púrpura rachava repetidamente, mostrando a potência do impacto distante.
— “Esse som… veio de dez quilômetros daqui, no final da barreira.” — pensou, seus cabelos ruivos dançando como labaredas. — “Mas, se tem alguém com quem eu não preciso me preocupar… é o Kael.”
Um sorriso debochado se formou nos lábios de Arin.
Ela apoiou a mão no queixo, observando a distorção na parede da cúpula como quem avalia uma obra de arte.
— Tenho é pena de quem está enfrentando ele… — sussurrou, rindo sozinha.
Logo em seguida, balançou a cabeça e voltou os olhos para frente.
A menina de olhos roxos ainda tentava se estabilizar, a expressão inalterada.
— “Certo, foco. Já estava me distraindo…” — murmurou Arin com um suspiro rápido. — “Preciso resolver isso aqui logo.”
Seus olhos se suavizaram por um instante.
— “Tô morrendo de vontade de ver a tia Emi… já faz o quê? Dez anos? Ela ainda estava grávida da Nina quando se mudou de Áurea…”
Sua expressão mudou, ficando mais firme.
— “É por isso que eu vou vencer aqui.”
O ar ao redor dela começou a sair do controle, como se estivesse sendo pressionado de todos os lados.
Ainda fitando a menina de olhos roxos, falou com ironia.
— Tu aí… vamos começar então? — Um sorriso debochado surgiu no canto de sua boca. — Tenho muita coisa pra fazer depois que te capturar.
A menina, ainda inexpressiva, enfim estabilizou os pés no solo fragmentado.
Sua cabeça girou lentamente até encontrar o olhar de Arin.
Mas Arin não esperou resposta.
— Como foi mesmo que tu fez aquilo…? — perguntou em tom casual, brincando. — Tu criou aquela bola roxa girando teu poder, né?
— Deve ter sido algo desse tipo. — Tentava buscar no fundo das lembranças. — Hmm… será que eu consigo fazer o mesmo usando ar?
Ela ergueu as mãos à frente.
O ar ao seu redor começou a tentar escapar, se distorcendo, como se o próprio espaço estivesse sendo puxado para o centro de suas palmas.
O vento, antes apenas uma brisa leve, agora rugia como um furacão sendo enforcado por uma única força.
Em segundos, o que começou do tamanho de uma bola de tênis tornou-se uma esfera translúcida do tamanho de um corpo humano, girando em uma velocidade absurda.
Uma esfera de ar hiperdensificado.
As correntes ao redor da esfera cortavam o solo como lâminas invisíveis.
Estruturas a quilômetros de distância começaram a ruir, dilaceradas por fendas de ar comprimido.
O chão da antiga cratera, já instável, desabava em fragmentos, como um quebra-cabeça colapsando.
E a própria noite parecia ser puxada junto.
As estrelas, a lua, as sombras, tudo parecia ser submetido pela força daquela esfera monstruosa.
A menina de olhos roxos e cabelos negros como carvão reagiu tardiamente, como se uma programação tivesse sido ativada com atraso.
Sem emoção.
Sem medo.
Sem a menor hesitação.
Apenas levantou os braços, espelhando Arin, como uma marionete erguida por fios.
E então, o ar ao seu redor cedeu espaço para o que viria a seguir.
Um novo vórtex gravitacional começava a se formar, maior, mais denso, mais instável, mais forte.
A esfera púrpura crescia no centro da cratera, sugando tudo ao redor com uma fome insaciável.
Até mesmo a luz da lua, antes distante e fria, agora era puxada em feixes roxos, completamente engolida pela gravidade do orbe crescente.
O vórtex girava com intensidade cada vez maior.
A área de destruição ao redor se estendia a cada segundo, indo de dezenas de metros, para centenas, até os milhares.
Parecia um buraco aberto no tecido do mundo.
Enquanto Arin dominava o ar.
A garota moldava o próprio peso do planeta.
Forças opostas, tão diferentes quanto céu e abismo, mas agora prestes a colidir no centro de um mundo em colapso.
Arin avançou um passo, os olhos faiscando em determinação.
A esfera de ar hiperdensificado girava sobre sua palma aberta como um furacão condensado.
A pressão era insana. Faíscas de vento cortante escapavam como lâminas disparadas em todas as direções.
O solo tremia.
Estruturas distantes se rompiam.
Era como se a própria atmosfera implorasse por piedade.
Arin ergueu o braço, com firmeza e confiança.
— Vamos ver… qual é a bola mais irada! — gritou, com um sorriso desafiador estampado no rosto.
E lançou.
A esfera, levemente azulada, voou como uma bala, densa, comprimida e afiada, girando em alta rotação enquanto atravessava o ar.
Por um instante, o som parou.
Como se o mundo inteiro prendesse o ar.
Então, tudo colidiu.
A esfera de ar comprimido foi completamente absorvida pelo Horizonte Sintético.
E o limite… se partiu.
A gravidade falhou.
O som se atrasou.
A luz… simplesmente desapareceu.
Então, tudo rompeu.
Uma implosão brutal devorou o centro da cratera num piscar de olhos.
A terra afundou para dentro de si mesma e, em seguida, recebeu o recuo.
Do núcleo colapsado, uma explosão vertical de energia atmosférica partiu rumo aos céus e à cidade.
Não era radiação.
Não era energia.
Era o ar, o vácuo, a força da atmosfera tentando corrigir seu erro.
O solo tremeu em ondas concêntricas, se desfazendo como papelão molhado.
A cratera se expandiu em segundos, engolindo os dez quilômetros da zona norte como se o chão tivesse cedido diante de uma força imparável.
E então… a Neurotempestade tremeu.
A cúpula púrpura, até então impenetrável, reverberou com um estrondo ensurdecedor.
E rachou.
Lá no alto, uma fenda se abriu com a explosão do próprio céu.
Mas, em vez de colapsar para os lados, a energia da explosão foi canalizada para cima, como uma lança de vento e gravidade atravessando a barreira roxa, varrendo as nuvens do céu noturno.
E isso era intencional.
A Neurotempestade, projetada por Kael, foi forçada a liberar todo o excesso de energia aos céus, evitando destruição lateral que afetaria em cheio todo o país.
Assim, a fúria não se espalhou. Ela subiu.
A coluna de energia ascendeu por quilômetros, furando as nuvens.
E então, como consequência da explosão, o céu se limpou.
As nuvens sobre a zona norte foram dispersas em um instante.
Não… não só elas.
Uma onda atmosférica percorreu distâncias absurdas, cruzando o mesmo oceano diversas vezes antes de finalmente se dissipar.
Todo o Brasil viu.
No Amazonas, o céu se abriu completamente.
Em Brasília, os radares climáticos enlouqueceram diante de uma onda atmosférica que não deveria existir.
No litoral, a lua refletia sobre o oceano com um brilho vívido e antinatural, como se o mundo tivesse sido tocado por uma força fora de escala.
E em Porto Alegre, no coração do epicentro, restavam apenas os restos da devastação e o som ensurdecedor deixado para trás, prestes a estilhaçar os vidros de milhares de casas e prédios por toda a cidade.
Na cratera, a poeira pairava densa.
Arin jazia deitada sobre o solo irregular, os olhos voltados para o céu agora limpo.
A respiração vinha profunda, pesada. Não por falta de ar, mas pela tensão enfim saindo do corpo.
O calor ainda ardia em sua pele, os músculos tremiam, e o suor escorria calmamente pela sua testa.
Um sorriso se formou em sua boca, calmo, mas alegre.
— É… talvez eu tenha exagerado um pouco. — murmurou, sem tirar os olhos do céu.
— O Kael vai me dar uma bronca daquelas por causa do tamanho do estrago…
Seu olhar então se arrastou para a frente.
E ali, diante do abismo recém-criado, estava o resultado.
Dez quilômetros de solo haviam sido varridos do mapa.
A cratera era absurda, desumana até mesmo para as armas nucleares da atualidade. Com mais de mil e quinhentos metros de profundidade, era a maior cicatriz já aberta pela humanidade na crosta da Terra.
Um pequeno lembrete do exagero de uma irmã desesperada.
E bem no centro de tudo…
Ela ainda estava de pé.
A garota de olhos roxos.
Seu manto lilás, agora reduzido a trapos, pendia apoiado em seu corpo.
Os cabelos negros levemente bagunçados graças à explosão.
Seu corpo tremia, mas se recusava a cair.
Arin, que ainda observava o céu, piscou lentamente, sentindo por um segundo o sabor de liberar tanta energia acumulada por anos.
E então, virou seu rosto brevemente, focando na figura imóvel adiante.
O seu rosto demonstrou expressões demais de uma única vez: cansaço, espanto e ânimo.
Com esforço, ela se ergueu devagar, apoiando as mãos nos joelhos.
— Entendi… então isso não foi o suficiente, né? — disse em voz baixa, incrédula.
Os olhos da menina, ainda opacos e impassíveis, brilharam de leve.
Mas não era um reflexo programado.
Não era uma resposta automatizada.
Era algo… novo.
Era vivo.
Como se, na colisão insana de forças opostas, alguma coisa dentro dela tivesse se quebrado… ou melhor, enfim se libertado.
— Certo… vamos de novo então! — murmurou Arin, agora de pé, seus olhos verdes atentos ao menor sinal de movimento da oponente.
Mas ela não teve chance de recomeçar.
Sem aviso, a menina caiu.
O corpo da garota de olhos roxos tombou lentamente para frente.
Arin ficou sem entender nada, com uma cara de pastel estampada no rosto.
Não havia ferimentos graves visíveis na menina.
Nenhum sangue.
Nenhuma fratura aparente.
O que cedeu não foi o corpo.
Foi o que havia dentro dele.
A mente.
Aquela que estivera presa, suprimida, ordenada por comandos, agora finalmente liberta.
E ali, no fundo daquela cratera colossal, sob a fria lua e o céu limpo, Arin entendeu.
Não era sobre vencer a oponente à sua frente.
Era sobre libertar.
Ela deu um passo à frente, ainda ofegante, encarando o corpo caído da garota no chão.
E então, quase sem perceber, sussurrou para si mesma.
— …Ela caiu mesmo?
O alívio era genuíno.
Porque, por mais batalhas que já tivesse vencido, por mais inimigos que tivesse deixado para trás, essa não parecia ter acabado com a queda de uma oponente.
E sim com a conquista de uma possível aliada.
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FRAGMENTO HISTÓRICO 12:
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⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 009 ⟭
Diário pessoal — Observações
Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.
(Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)
Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”.
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𐌌 Após aproximadamente uma Hora Diurna desde o desmoronamento, Lucanus e eu tentamos, sem sucesso, remover os escombros que bloqueavam a entrada por onde havíamos passado.
As rochas que selaram a passagem possuíam um peso descomunal, cada uma delas equivalente a centenas talentos romanos, formando um bloqueio que não poderia ser vencido apenas com força humana. Após sucessivas tentativas, fomos obrigados a aceitar aquilo que já se tornava evidente.
Não havia saída por ali.
Diante dessa constatação, chegamos à conclusão de que nossa única alternativa seria avançar para o interior da caverna, na esperança de que o túnel conduzisse, em algum ponto, a uma abertura ou passagem secundária.
Lucanus, mais experiente em situações adversas, improvisou uma tocha utilizando galhos secos encontrados ao longo do caminho e partes de nossas próprias vestes.
A chama tremula, lançando sombras irregulares contra as paredes de pedra, mas é suficiente para romper a escuridão imediata à nossa frente.
À medida que avançamos, o ar torna-se mais frio e denso. É possível perceber que a noite se aproxima do lado de fora, e temo que o frio se intensifique ainda mais nas profundezas da montanha.
Seja o que for que nos aguarde adiante, não podemos nos dar ao luxo de demorar.
Seguiremos em frente enquanto ainda nos resta luz.
Atualizarei este registro conforme a situação permitir.
Assinado: Marek Aurellum
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⟬ FIM DO FRAGMENTO ⟭
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DECIFRANDO PALAVRAS OU CONCEITOS:
O talento romano era uma antiga unidade de peso, equivalente a cerca de trinta quilos, e a menção a dezenas de talentos indica um peso impossível de ser removido por poucos homens.
DECIFRANDO PALAVRAS OU CONCEITOS:
Hora de Luz:
(ou Hora Diurna)
12 horas divididas entre o nascer e o pôr do sol, com a duração variando conforme a estação do ano (no verão, as horas são mais longas; no inverno, mais curtas).
Hora de Noite 12
(ou Hora Nocturna):
12 horas divididas entre o pôr do sol e o nascer do sol, também com a duração variando conforme a estação.
Essas horas não tinham um tempo fixo como o nosso (60 minutos), mas eram proporcionais à quantidade de luz ou escuridão do dia.

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