Capítulo 31: O Começo Depois do Fim
Um pouco antes da explosão que varreu completamente a área evacuada.
— Foi uma boa luta, Kael… obrigado por ser um brinquedo tão divertido… — sussurrou Sethros, com a voz baixa, enquanto o brilho da espada dourada se intensificava dentro de Kael. — Mas a nossa diversão… acabou aqui.
Então, com um último suspiro súbito e o brilho da lâmina que cravava o tempo, o coração de Kael foi teletransportado para longe do próprio corpo, como se uma peça fosse arrancada de um quebra-cabeça outrora completo.
E junto dessa peça, um dos três membros da Trion de Áurea, nomeado como Pináculo da Força, agora caminhava no limiar entre a vida e a morte.
Em um único movimento veloz, Sethros arranca a espada dourada das costas de Kael.
Naquele instante, o mundo pareceu congelar.
Tudo desacelerou.
E então… o corpo de Kael começa a tombar para frente.
— “Então… vai ser assim que eu vou cair?” — pensa Kael, a mente mergulhada numa última corrente de consciência.
A queda continua.
Lenta.
Como se tudo à volta do comandante estivesse atrasado no tempo.
Um curto e torturante tempo de reflexão final para Kael.
De tudo o que tentou.
— “Me desculpa, Daltro…”
De tudo o que acreditou.
— “…parece que eu falhei…”
E de tudo o que, no fim, não conseguiu impedir.
— “…em cumprir minha promessa…”
Enfim, sem aviso algum, o mundo ao redor se desfaz.
O lento som da queda, o triste som da lâmina e o angustiante grito da dor… tudo some em um instante.
Quando os olhos de Kael se fecham, o mundo se contorce em um piscar.
Ao abri-los novamente, já não existe cratera, nem batalha, nem mesmo Sethros.
O que existia agora era apenas um lugar.
Mas não um lugar normal, era como um reino do além esculpido em frente à morte.
Um plano metafísico fora do tempo e do espaço, onde o chão parecia feito de vidro e o céu se movia em espirais lentas de ampulhetas quebradas e engrenagens flutuantes.
Relógios sem ponteiros giravam em círculos incompletos no ar.
A luz era fria, como a de um amanhecer que nunca chegava.
Tudo ali parecia suspenso, um ciclo preso entre passado e presente, sem nunca tocar no futuro.
E, à frente dele… ela o aguardava.
Tão ilusória quanto uma miragem, e ainda assim tão real quanto uma lembrança.
Uma garota com aparência jovem, de pele branca como papel, cabelos longos e grisalhos esvoaçando mesmo sem vento, e olhos cinzentos, profundos e calmos, distantes como a própria lua.
Ela brilhava mais do que o sol naquele falso amanhecer.
— Então… tu veio me buscar — murmurou Kael, com um sorriso triste, mas cheio de nostalgia. — Eu devia ter imaginado isso. Nem imagino o quanto tu vai me zoar por estar certa… e eu errado… de novo.
Ele suspira, observando a figura à sua frente com um olhar que carrega muito mais que saudade. Carregava uma falsa aceitação.
— No fim… não importa se é o Kael de doze anos ou o Kael de agora… o tempo continua o mesmo. Sempre indomável.
A garota não responde de imediato. Apenas o observa com um olhar calmo.
E quando seus olhos se fixam sobre ele… não veem o homem ferido da batalha.
Veem uma criança.
Pequena, frágil, de cabelos grisalhos bagunçados, o mesmo Kael de doze anos.
O mesmo olhar cansado de quem já havia suportado experiências que nenhuma criança deveria conhecer tão cedo.
Ela sorri brevemente.
Mas seu simples sorriso calado diz mais do que qualquer palavra.
Em um gesto simples e afetuoso, a menina levou lentamente a mão até a cabeça do pequeno Kael.
Por um instante, seu semblante era tão doce, como se quisesse apenas confortá-lo de tudo o que ele já experienciou.
Mas então, com a rapidez de um raio e a naturalidade de quem fazia aquilo desde sempre, o carinho virou um cascudo certeiro no topo da cabeça dele.
— O qu-AAAI! — exclamou Kael, levando as duas mãos à cabeça, em choque e dor, mas, estranhamente, vivo.
— Seu IDIOTA! — gritou a menina, os olhos cinzentos agora ardendo como fogo. — Quem foi que disse que tu podia vir pra cá!?
Aquela voz suave.
Aquele tom agressivo.
Aquela intensidade explosiva.
Tudo nela era como uma memória vívida que atravessava os anos e o tempo.
Kael, ainda na forma de uma criança, com os cabelos grisalhos bagunçados e o rosto surpreso pelo golpe, ergueu os olhos lentamente, encarando a menina à sua frente.
E então sorriu.
Um sorriso desbotado, cansado e infinitamente triste.
— Pelo visto, tua personalidade não mudou nada… Lira.
Sua voz saía falhada, como se cada sílaba fosse aprisionada por lembranças profundas demais para serem ditas.
— Admito que senti um pouco de falta disso.
Os olhos dele brilhavam com uma nostalgia dolorosa. Não pela dor física, mas porque aquele cascudo, aquele gesto tão simples e irritante, o fazia lembrar que ela tinha existido de verdade. Que tinha sido real.
— Talvez não tenha sido tão ruim assim vir parar aqui no além… — murmurou, com um riso fraco. — Se isso me deu ao menos a chance de te ver de novo, já valeu a pena.
Cada palavra era como uma rachadura na máscara que usava no rosto, por onde a saudade finalmente vazava.
Não havia mais o Comandante.
Nem o herói de Áurea.
Muito menos o estrategista frio.
Aquele era apenas um irmão que nunca superou a perda.
E, diante de si, pela primeira vez em anos, ela estava presente.
Real.
Brilhante.
Indomável.
Lira, sua querida e falecida irmã mais velha.
O rosto da garota, que momentos antes queimava em raiva, se tranquilizava novamente.
E então, tão suave quanto a luz da lua, um sorriso resplandecente surgiu naturalmente em seu rosto.
— Seu muleke! — disse ela, com uma risada debochada. — Estava com tanta saudade assim da tua irmazona?
A voz dela soava irritante, farpando sem dó nem piedade o próprio irmão.
Kael, ainda na forma de seu eu de doze anos, desviou o olhar, tentando esconder o constrangimento.
— Estou começando a mudar de ideia… — murmurou, evitando encará-la diretamente, mas com um sorriso sem graça nos lábios.
Era claro, não havia uma gota de verdade naquela frase.
Só a vergonha e a saudade reprimida de um menino de doze anos.
— Entendi… não é querendo te decepcionar, mas esse não é o além não. — disse Lira, com um sorriso suave, enquanto levava a mão levemente até a testa do irmão. — E, principalmente, não é tua hora ainda.
— Quê…? Como assim, maninh—?
Poc!
Um peteleco certeiro interrompeu sua pergunta.
— Tu não acha que ainda tem muita coisa pra fazer? — questionou Lira, sorrindo lindamente.
Kael hesitou, com o olhar baixo.
Ficou em silêncio por longos segundos.
Então, olhando para as próprias mãos, murmurou com a voz travada:
— Bem, sim… eu acho.
Fechou os dedos devagar, como se tentasse agarrar um tempo que já escorregava entre eles.
— Mas eu não tenho o que fazer, irmã… — a voz saiu trêmula, engolida por um desabafo que estava preso havia anos. — Tu sabe o quanto eu tentei. Quantas vezes eu tentei voltar a ser quem eu era… o quanto lutei pra consertar tudo… mas…
Ele apertava seus punhos. Os olhos, já úmidos, se ergueram apenas até a altura da cintura da irmã, sem coragem de encará-la de frente.
— Eu revivo aquilo toda noite… — sussurrou, com a voz quebrada. — Cada maldita noite, eu acordo encharcado de suor com essa merda de culpa entalada na garganta. Eu sonho com aquele dia. Com cada detalhe. Com cada morte. Com cada grito.
Suas mãos agora tremiam sem parar.
— É um ciclo. Um pesadelo sem fim que, mesmo depois de décadas, ainda me assombra… — disse, apertando os punhos com ainda mais força. — E, cada vez mais, o peso da culpa por não ter conseguido fazer nada aumenta. E o tempo, aquele do qual me intitulam personificação… continua seguindo em frente, indomável.
O meta-espaço ao redor dos dois se modificava, tornando-se um tapete infinito de vermelho sangue.
E, sobre ele, centenas… não, milhares de Liras mortas jaziam espalhadas pelo chão.
— Enquanto eu… eu continuo preso naquele mesmo dia. Nos mesmos erros. Nas mesmas mortes.
As palavras vinham sufocadas, carregando o peso de um trauma irreversível.
E então, involuntárias, mas necessárias, as lágrimas caíram.
Junto ao choro, seus joelhos se dobraram. Não por fraqueza, mas pelo cansaço acumulado de décadas carregando aquele fardo sozinho.
Aquela não era só a dor de uma criança traumatizada. Era, antes de tudo, o luto de quem nunca teve tempo para chorar.
Ali, diante de uma das poucas pessoas que um dia o enxergaram como algo além de uma mera peça significativa, Kael desabou.
Como um menino de doze anos.
Como um irmão sem rumo.
Como alguém que só queria… parar de falhar.
Lira observou o irmão ajoelhado, desmoronado diante dela, os ombros tremendo e o rosto escondido pelas mãos pequenas.
Seu olhar se suavizou. Ela se abaixou devagar, ficando na altura dele e, com um toque leve, afastou a mão de Kael do rosto.
— Olha para mim, Kael… — disse, com uma voz doce, triste pelo ocorrido, mas orgulhosa da coragem dele em falar tudo aquilo. — Tu não precisas carregar isso sozinho.
Kael hesitou, mas ergueu o olhar. Seus olhos castanhos, agora molhados, encontraram os dela, calmos, cinzentos e cheios de força.
— Eu sei que tu tá quebrado diante de um passado que não muda, como se cada tentativa falha de voltar no tempo pra consertar tudo fosse culpa tua. — Ela sorriu de leve e levou a mão até os cabelos bagunçados do irmão, ajeitando-os com carinho. — Mas, sabe… mesmo quando eu estava viva, tu sempre achava que tinha que carregar tudo sozinho.
— Eu… eu achei que, se eu fizesse tudo certo, as coisas iam mudar… — murmurou Kael, com a voz falhada. — Que se eu me esforçasse mais, se eu repetisse mais, se eu tentasse mais, talvez conseguisse impedir o pior.
Lira riu baixinho, uma risada triste, como quem sabe exatamente o peso de se cobrar tanto, até se despedaçar por dentro.
— Tu sempre quis proteger todo mundo. Mas esqueceu de proteger a ti mesmo no caminho.
Ela se inclinou mais perto, tocando a testa dele com a própria.
— Sabe… todo mundo erra, infelizmente ninguém é perfeito, e nunca vão ser. E a resposta não está em não errar ou voltar tudo até acertar, Kael… — sua voz ficou mais calma, tentando acalmar o irmão. — …só em voltar a si mesmo para o que sempre foi.
Kael arregalou os olhos, confuso, com o coração disparado.
— C-como assim?! — exclamou, erguendo o rosto e encarando-a com urgência, as lágrimas ainda escorrendo sem controle. — Como eu volto a mim mesmo? Eu não sei mais quem eu sou, Irmã… eu só me lembro do medo… da falha… de tudo o que perdi!
Lira sorriu com amor, mas havia um toque diferente agora, como se ela mesma estivesse sendo puxada pelo tempo.
— Não tenho muito tempo… — disse, já sentindo o corpo começar a se desvanecer em fragmentos de luz fria. — Mas tu vai encontrar esse caminho. Eu sei que vai. Porque tu ainda tem algo que nunca perdeu.
— O quê…? — sussurrou Kael, esfregando o pulso nos olhos.
Lira estendeu a mão mais uma vez, os dedos tremendo ao roçar o rosto dele com um último gesto de carinho, antes de descer lentamente até seu peito.
— O coração. — sussurrou, com um sorriso brilhante, cheio de amor, nostalgia e saudade. — E, apesar de tudo, ele ainda é teu.
Ela se ergueu lentamente e acenou com leveza, os olhos cinzentos começando a se desfocar, como uma ilusão se apagando no horizonte.
— Confia em ti mesmo… meu querido e amado irmãozinho idiota. — disse, entre risos e lágrimas. — …E volta. Mas não pro passado. Volta pra tua essência. Porque, mesmo que o passado seja irreversível, o futuro sempre pode ser mudado.
E então, como poeira ao vento, Lira foi puxada para longe, os fios de cabelo prateados se esvaindo como névoa sob a luz tênue do tempo fragmentado.
— O-o quê…? Lira… não, volta aqui! — gritou Kael, a voz trêmula, ainda em sua forma infantil, o corpo tremendo, os olhos arregalados.
Ele estendeu o braço com tudo que tinha, como se, naquele gesto, pudesse agarrar o impossível, como se o toque de um dedo fosse o bastante para impedir o mundo de levá-la embora de novo.
Lira, agora se afastando, já envolta por fragmentos de luz, virou-se uma última vez, com um sorriso debochado e doce, como só ela sabia fazer.
— Ah, verdade! — gritou, pondo as mãos em concha diante da boca. — Manda um abraço pro Veltor por mim!
Ela acenou com alegria, enquanto o corpo continuava a se apagar, cintilando como se o próprio tempo a desfizesse lentamente.
— Estou contando contigo, irmãozinho! — disse, com a voz cada vez mais distante, mas ainda forte, mais viva do que uma simples lembrança.
— Lira… não… — sussurrou Kael, a voz falhando.
E, então, ele estava novamente sozinho, naquele espaço suspenso entre a existência e a não existência.
— Por favor… não vai embora…
Seu pequeno corpo tremia.
— Eu… eu não consigo… sem ti… — murmurou com a voz baixa.
A silhueta de Lira já havia desaparecido no horizonte sem fim.
E, ali, sozinho naquele reino onde o tempo se dobrava sobre si mesmo, Kael chorou.
Não como um guerreiro. Não como um comandante.
Mas como um menino que só queria sua irmã de volta.
As lágrimas escorriam como uma chuva dolorosa, mas cada gota parecia carregar o peso de anos, de promessas quebradas, de memórias que insistiam em doer.
Ele apertou os punhos.
E ali, no fundo do que restava de si, algo ainda ardia.
Algo que Lira deixara para trás.
Uma pequena faísca.
Um lembrete de que, mesmo ferido… ele ainda estava vivo.
Kael permaneceu de joelhos por mais um instante, sentindo a solidão daquele vazio temporal se comprimir ao redor de seu peito.
Então, finalmente, murmurou, não para alguém, mas para o eco de tudo o que havia sido.
— O que eu tô fazendo…? De que adiantaram esses anos de vida…? — ergueu o rosto, os olhos marejados brilhando à luz tênue do nada. — Anos de lutas… de dores… de perdas…
Seus olhos, agora mais maduros, focaram na própria versão infantil ajoelhada à sua frente. Frágil. Quebrada.
— Pra que serviu tudo isso… se eu continuo preso nesse mesmo ciclo maldito? — disse com raiva. — Se continuo sendo aquela criança indefesa, incapaz de proteger todo mundo… outra vez, e outra, e outra…?
O silêncio dominou o redor.
Kael se ergueu lentamente.
O peso nos ombros parecia o mesmo, mas o olhar, não.
Com um movimento calmo, levou a mão até a nuca, e, nesse toque, sua aparência começou a mudar.
Os cabelos se alongaram, os traços amadureceram, e a infância cedeu espaço ao presente.
A luz em seus olhos não era mais a de um menino perdido, mas de alguém traumatizado, e ainda assim disposto a lutar contra o próprio trauma.
— Entendi, Lira… — murmurou, com um leve sorriso triste no canto da boca. — Eu não preciso voltar no tempo, né? Eu só… preciso voltar a mim mesmo.
Ele soltou um suspiro profundo, acompanhado de um riso leve.
— No fim das contas… nem morrer em paz eu posso.
Fechou os olhos por um segundo.
— Tá certo. Se ainda tem algo que eu posso fazer, então não tenho escolha.
E, naquele instante, o universo ao redor começou a tremer.
O Reino Mental de Kael, aquele espaço meta-físico e atemporal, feito de ecos e memórias passadas, começou a se distorcer.
O chão de vidro estralou, e nele surgiram rachaduras douradas, como se a luz estivesse vazando pelas cicatrizes do espaço.
Era como se o próprio tempo se reconfigurasse ao redor dele.
Fragmentos do cenário flutuavam ao redor: vidros quebrados refletindo imagens de Kael em diferentes fases da vida, o menino, o jovem, o comandante, o irmão.
E então… tudo apagou.
Como se o mundo tivesse sido engolido por um último piscar de luz.
Mas agora, Kael levava consigo algo novo.
Não só a dor.
Mas a certeza de que ela não o definia.

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