Capítulo 32: Coração em Dois Tempos
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Fragmentos do cenário flutuavam ao redor: vidros quebrados refletindo imagens de Kael em diferentes fases da vida, o menino, o jovem, o comandante, o irmão.
E então… tudo apagou.
Como se o mundo tivesse sido engolido por um último piscar de luz.
Mas agora, Kael levava consigo algo novo.
Não só a dor.
Mas a certeza de que ela não o definia.
Fora do Reino Mental de Kael, o tempo permanecia paralisado.
Os longos minutos que se passaram dentro do espaço metafísico não foram sequer um segundo fora, no mundo real.
Kael ainda estava suspenso no ar, paralisado no meio de seu tombar.
Seu coração, separado do corpo, jazia no chão, imóvel. Não era o tempo congelado que o impedia de reagir, mas a simples verdade de que sua vida havia sido arrancada tão rápido quanto seus batimentos.
Atrás dele, Sethros também permanecia imóvel. A lâmina dourada ainda pairava no ar.
Gotas de sangue, que antes escorriam de sua espada, estavam congeladas como joias suspensas de um colar, presas no limiar entre o céu e a terra.
A luz da lua permanecia imóvel no céu, e até o vento havia parado.
O mundo inteiro encontrava-se estagnado no tempo, enquanto Kael permanecia imerso em seu Reino Mental.
Era como se o próprio tempo houvesse prendido a respiração… em respeito ao colapso de seu maior pilar.
Então, como uma rachadura no vidro da própria cronologia, os relógios voltaram a girar.
Sethros piscou e se moveu.
A lua voltou a iluminar os escombros.
A gota de sangue caiu.
O vento soprou.
E o corpo de Kael… voltou a cair.
Seus cabelos grisalhos balançaram no ar, os olhos dourados, agora sem brilho, encarando o solo.
O comandante tombava, sem coração, rumo ao triste e inevitável fim.
Sethros observava, olhos rosados atentos, os cabelos brancos com mechas internas roxas reluzindo sob a luz da lua. Havia o triunfo de mais uma batalha em seu olhar.
Até que… algo considerado impossível aconteceu.
Veias douradas, como cicatrizes de ouro vivo, começaram a se espalhar rapidamente pelo corpo de Kael, surgindo sob a pele com um brilho latejante.
E então, como se um novo sol tivesse nascido no meio da noite, Kael explodiu em uma luz dourada.
Um clarão avassalador rompeu os céus.
Era belo, cegante e assustador.
Sethros instintivamente cobriu os olhos com os braços envoltos pelo manto púrpura, tentando conter o brilho.
— O que é isso?! — exclamou, surpreso com a intensidade repentina.
Mas o clarão não durou muito.
A luz retrocedia.
Os tecidos se fechavam.
O buraco desaparecia.
A ferida sumia.
O corpo, antes suspenso e ferido, agora não carregava mais cicatriz alguma.
Era como se o próprio tempo perdesse seu rumo, e o golpe que havia matado Kael jamais tivesse realmente existido.
Kael não aparecia como alguém que foi curado, mas como alguém que nunca nem foi ferido.
Aquilo… era a reversão do próprio corpo.
O corpo de Kael enfim tocou o chão por completo, em pé.
Sem queda, e muito menos morte.
Seus pés pousaram suavemente sobre a terra arruinada, e o silêncio se tornou absoluto.
As cicatrizes douradas ainda pulsavam sob sua pele, agora mais intensas, como brasas vivas sob a carne.
Os olhos, antes apagados, ardiam em ouro flamejante, não apenas vivos… mas despertos.
Sethros deu um passo para trás.
Pela primeira vez em muito tempo, um sentimento se aflorou em seu peito.
Medo.
O mais sincero e assustador sentimento.
— Nem fudendo… isso só pode ser sacanagem… — sussurrou Sethros, gaguejando.
Kael levantou os olhos. Não havia raiva neles.
Havia apenas vontade.
Uma vontade que quebrava as leis e recusava o próprio fim.
— Então aquilo realmente deu certo… — pensou Kael, virando e revirando a mão, sentindo o pulsar de cada célula sua. — “Meu corpo tá transbordando de energia… ele parece infinitamente mais leve do que antes. É como se eu conseguisse sentir e controlar o movimento isolado de cada célula do meu corpo.”
O chão ao redor dele começou a vibrar, fazendo pequenas partículas de poeira das ruínas flutuarem no ar.
Os olhos de Sethros varreram rapidamente o ambiente ao redor, procurando alguma explicação para o que, até então, estava morto… voltar à vida.
— Sethros… — disse Kael, a voz tranquila, mas carregada de uma pressão absurda. — Está esperando o quê? Nossa luta ainda não acabou.
Ele ergueu uma mão, os dedos se abrindo lentamente. Correntes douradas de luz começaram a se formar ao redor dele, orbitando seu corpo como planetas girando ao redor do Sol.
— Seu… seu desgraçado! — indagou Sethros, materializando em sua mão a espada da justiça. — Foda-se que tu voltou dos mortos, quero ver fazer o mesmo duas vezes!
Assim, se desconstruindo, ele atacou Kael em uma velocidade ainda mais absurda do que qualquer outro golpe executado até aquele momento.
Cada movimento de sua espada varria bairros inteiros, cortando os céus e rasgando a terra.
Porém, todas as suas investidas eram facilmente paradas por Kael que, além de se defender de cada golpe, independentemente do ângulo ou da quantidade de lâminas que Sethros utilizava, contra-atacava com golpes ainda mais velozes.
— “Interessante… é exatamente como Daltro falou. Após adentrar o Reino Mental, meu nível bruto de poder e velocidade acendeu a um outro patamar. Então essa é a sensação de ser um Inércia Zero Absoluta natural?”
Pensava Kael enquanto se defendia com facilidade dos golpes de Sethros, os mesmos golpes que antes exigiam toda a sua atenção para desviar, mesmo usando a Manopla da Causalidade.
— “Mas há algo que não faz sentido… Sethros já era um Inércia Zero Absoluta. Então por que eu, que acabei de alcançar esse patamar, sou tão superior a ele?”
Diante de uma estocada de Sethros, Kael reagiu por instinto.
Envolveu a lâmina inimiga com uma luva formada a partir de seu escudo mental, travando o golpe no ar.
Em um movimento contínuo, girou a espada por cima da própria cabeça.
Então a desviou violentamente para o lado oposto, quebrando a trajetória do ataque.
— “Será que isso também tem a ver com o Reino Mental? Vou precisar pesquisar isso melhor depois.”
Em um movimento rápido, Kael paralisou a espada de Sethros no ar usando sua manipulação do tempo.
No mesmo instante, desferiu um soco limpo contra o rosto do apóstolo.
O impacto foi brutal, forte o bastante para lançá-lo para longe.
Antes que Sethros pudesse ir muito longe ou sequer tocar o chão, Kael congelou no tempo suas mãos e seus pés, interrompendo a trajetória à força.
Avançou em seguida.
Juntou as duas palmas acima da cabeça.
E as lançou para baixo com violência.
O golpe atingiu em cheio o abdômen de Sethros.
O apóstolo cuspiu sangue, ainda suspenso no ar pela manipulação temporal.
Quando Kael finalmente desativou sua habilidade, Sethros despencou no chão, sem fôlego.
O impacto foi grotesco.
O sangue do herdeiro da Justiça Caída espalhou-se desordenadamente pelo solo.
— “Q-que… merda…” — pensou, seu corpo se contorcendo de dor contra a terra gélida da cratera.
Cada músculo seu gritava em agonia, mas ele ignorou o sangramento e o cansaço. Forçou-se a se erguer, apoiando-se no próprio ódio para não cair outra vez.
Sua respiração vinha falha, não apenas pela dor, mas pela confusão que se espalhava em sua mente.
— I-isso… isso só pode ser uma PIADA! — gritou, a voz trêmula, falhando no meio das palavras.
Os olhos percorriam Kael como se tentassem desmentir a realidade à força.
— Eu… eu arranquei teu coração! — insistiu, quase implorando que aquilo fizesse sentido. — Eu vi ele cair no chão com os meus próprios olhos!
O tom subiu, ainda mais furioso.
— Então como?! — berrou. — Como tu não só sobreviveu… mas ficou ainda mais forte?!
No fundo, Sethros já sabia a resposta.
E era exatamente isso que o aterrorizava.
— Sobre o coração, a resposta é bem mais simples do que parece — respondeu Kael, com um leve sorriso debochado. — Eu voltei meu corpo ao estado em que ele estava antes do golpe. Então é como se o teu ataque nunca tivesse sido executado.
Sethros cambaleou um passo para trás, a visão borrada pela dor e o nariz entupido pelo próprio sangue.
Seu olhar percorreu os arredores de forma errática, como se buscasse uma saída que já sabia não existir.
Então, seus olhos recaíram sobre algo que ele mesmo havia causado.
E, naquele instante, a realidade finalmente o alcançou.
— I-isso é algum tipo de brincadeira?! Teu coração ainda está ali… então como!? — Apontou, a voz falhando. — COMO TU AINDA ESTÁ RESPIRANDO!?
— Hmm… sobre isso… nem eu sei responder ao certo. — disse Kael, fitando calmamente o próprio coração caído a dezenas de metros de distância. — Sabe como é… primeira vez fazendo isso. Mas acho que aquele ali é o coração do meu eu do presente, que foi arrancado. E o que está aqui comigo agora… é do meu eu do passado.
Variação da Manipulação Temporal:
Variação I:Permite ao usuário retroceder o próprio corpo no tempo, restaurando seu estado físico anterior. Ferimentos, toxinas, mutilações e até mesmo a morte podem ser revertidos, desde que o corpo ainda conserve sua memória temporal e corporal, possibilitando a ativação mesmo após o falecimento. O mundo ao redor permanece completamente intocado. A técnica funciona como uma âncora biológica, ativável pela consciência ou, em situações extremas, por instinto. Cada uso consome tempo de vida do usuário, variando de acordo com a gravidade do que é restaurado, podendo resultar na perda de horas a dias de vida. (Perda atual: 25 dias.)
Variação II: Permite ao usuário retroceder o tempo do ambiente ao seu redor, restaurando o estado espacial anterior da matéria e da energia. Estruturas destruídas, terrenos deformados, rastros de impacto e alterações físicas podem ser revertidos, desde que o local ainda preserve sua memória temporal. Cada uso consome tempo de vida fixo do usuário: perdendo 26 segundos de vida para cada quilômetro quadrado (km²) restaurado.
‼️IMPORTANTE‼️
O poder não afeta e nem retrocede seres vivos fora o próprio usuário.
— Desgraçado… — resmungou Sethros, apertando fortemente os punhos.
— “Droga… o que eu faço pra burlar essa habilidade?! Com a velocidade dele agora se igualando, ou até mesmo superando a minha, isso sem ele sequer usar aquela luva de raios verdes, é quase impossível a minha vitória em um combate direto.”
Seus olhos continuavam a vasculhar rapidamente o ambiente, em busca de alguma saída.
— “O ideal seria recuar mesmo sem a segunda Casca, mas ele não vai me dar tempo o suficiente pra carregar um teletransporte pra fora do meu campo de visão… QUE MERDA! Eu preciso arrumar alguma brecha!”
Mas seus pensamentos foram interrompidos por um forte tremor que percorreu todo o campo de batalha.
O vento começou a ser sugado com violência em direção às ruínas do Esqueletão.
Como um prelúdio do colapso iminente.
— Merda… — sussurrou Kael, sentindo o ar rarefeito puxar contra seu corpo. — “Pela força disso que tá sendo puxado… uma explosão massiva tá vindo. A Neurotempestade não vai aguentar!”
Sethros percebeu a preocupação em Kael e sorriu.
— “Hora perfeita! Vai me dar tempo o suficiente pra carregar o teletransporte e escapar por alguns quilômetros fora desse perímetro.” — Seu rosto agora esbanjava um sorriso sarcástico. — “Como sou só eu, isso vai levar poucos segundos!”
Sua espada começou a brilhar em um laranja flamejante, reunindo energia.
— E então, Kael… vai me impedir de fugir? Ou vai conter essa explosão antes que ela destrua a América do Sul inteira?! — provocou Sethros, gargalhando em meio ao caos. — Dependendo da tua escolha… gente pra caralho vai morrer! Estou ansioso pra saber qual decisão o Pilar da Força vai tomar!
Kael olhava de um lado para o outro, os olhos dourados tremendo em indecisão.
— “Droga… se eu concentrar toda a Neurotempestade nas laterais, talvez eu consiga conter a explosão, já que meus poderes brutos aumentaram drasticamente… mas, se eu fizer isso, o Sethros vai escapar!”
O vento era puxado com ainda mais força, todas as estruturas da zona segura se desfaziam completamente.
— “O que eu faço agora? Maldito!”
Com um grito de frustração, Kael tomou sua decisão.
— AAAAAAHH! QUE PORRA EU TÔ PENSANDO?!
Um tom púrpura intenso envolveu suas mãos. A energia concentrou-se nas bordas e se espalhou em uma fina camada sobre o chão da Neurotempestade, expandindo-se até formar um espesso escudo hemisférico.
— Então essa foi sua decisão, Kael? Interessante… hahahaha! — riu Sethros, à beira da loucura, enquanto o brilho da espada atingia o ápice. — Muito bem… nós nos veremos novamente, Senhor do Tempo.
Assim, deu as costas para Kael e caminhou calmamente, mesmo em meio a toda a tempestade, por algumas dezenas de metros.
Olhou uma última vez para trás e, com um pequeno sorriso na boca, desapareceu.
Sem remorso algum.
Sem qualquer reação.
Sem sequer um movimento.
Apenas uma insignificante distorção no espaço, marcando ali sua partida.
E então…
A explosão aconteceu.
Rasgando a terra e ferindo os céus.
Em um único instante, ela varreu todas as nuvens da América do Sul.
Como um aviso bem exagerado de que a batalha, enfim… tinha acabado.
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CURIOSIDADE 13:
A Anámnesis é uma variação do poder básico de Kael, Manipulação Temporal, que, por sua vez, possui duas variações. Isso pode parecer um pouco confuso, afinal é uma variação que contém duas outras variações, mas, na essência, seus efeitos são semelhantes. Ambas permitem retroceder no tempo um local, um objeto ou o próprio corpo do usuário, sem retornar a linha temporal inteira.
Esse poder não pode ser usado em outras pessoas nem retroceder o corpo de outros seres vivos, afetando apenas o próprio usuário e o ambiente ou objetos ao seu redor.

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