Capítulo 33: Cratera do destino
Após a explosão abissal resultante da troca de golpes entre Arin e a misteriosa menina de olhos roxos, Kael, que havia escolhido focar toda a sua energia para proteger o país de ser obliterado, mantinha-se firme no fundo da cratera de mil e quinhentos metros, agora um belo buraco no mapa de Porto Alegre.
Ali, no fundo daquele abismo, Kael permanecia com os braços abertos, a aura roxa ainda vibrando ao redor de suas mãos.
Suas roupas estavam completamente destruídas, transformadas em restos de tecido pendurados com vergonha alheia, mas seu corpo estava completamente intacto.
Seu rosto, por outro lado, era um pouco diferente.
Não abrigava nenhum dano, mas sim uma expressão completamente enfurecida.
A única coisa que passava por sua mente naquele momento era:
— “Seja lá qual delas fez essa merda… EU JURO QUE VOU ESGANAR ATÉ A MORTE A DESGRAÇADA RESPONSÁVEL POR ISSO!!“
Sua raiva era tão intensa que sua pele ficava vermelha como um pimentão e, como uma chaleira fervente, fumaça saia de sua cabeça.
— “Foquei a maior parte da Neurotempestade nas laterais, deixei o teto frágil de propósito para servir como uma válvula de escape… e ainda tentei proteger o máximo possível o solo. Sorte que meus poderes brutos aumentaram exponencialmente após eu entrar no Reino Mental. Se fosse o eu do início dessa luta toda, o máximo que eu conseguiria seria limitar um pouco os danos. Mas, sem dúvida, Porto Alegre se tornaria nada mais do que uma lenda urbana para as futuras gerações.”
Ele suspirou fundo, não por alívio, mas na tentativa de se acalmar antes de fazer algo que poderia se arrepender… ou não.
— Tá. Respira, Kael, respira. Desativa a Neurotempestade e não mata ninguém ainda… ainda.
A cúpula roxa começou a se dissipar aos poucos, enquanto ele ergueu os olhos para o céu completamente rasgado.
— Pelo tipo de impacto, isso foi coisa da Arin. Aquela desgraçada maluca — pensou, apertando os olhos com um sorriso forçado. — Acho que tá mais do que na hora de termos uma conversinha carinhosa… bem carinhosa.
E lá estava ela, deitada casualmente sobre o que restou do Esqueletão, como se nada tivesse acontecido.
Arin.
Uma das causadoras daquele desastre de proporções absurdas.
Provavelmente com um pouco de dor nas costas, mas nenhum arrependimento.
— Minha orelha tá quente… alguém tá falando mal de mim? — murmurou Arin, com expressão de total paspalhice enquanto encarava o céu noturno, como se esperasse que alguma estrela cadente passasse.
Até que, enfim, um pontinho brilhante apareceu no céu.
— Olha! É uma estr-
Porém, antes que completasse sua frase, notou algo estranho naquela “estrela”.
— Ué, ela parece estranha. Tá meio perto demais…
No fim, realmente era algo parecido com uma estrela cadente.
Para o azar de Arin, só parecia.
E, como um meteoro teleguiado, vinha Kael, em alta velocidade em direção a Arin, após ter dado um salto calculado, com uma potência monstruosa.
Quando a Vigilante notou, já era tarde demais…
— P-pera, senhora estrela…? SENHORA ESTRELAAAAAAAA! — Gritou, momentos antes do impacto que a afundou no chão da cratera.
BOOOM!!!
Uma cortina de poeira subiu dentro da cratera, dificultando a visão da área impactada.
Após a poeira baixar um pouco, uma figura se ergueu lentamente em meio ao novo buraco na cratera.
— Aaaaah, que alívio que eu tô sentindo agora. — exclamou Kael, alongando os braços.
Até que, do chão abaixo de Kael, um baixo murmúrio ecoava.
— Hmmmmmm… Hhmmm!
Sob os pés do comandante, algo se contorcia desesperadamente.
— HUMMMMMMM!!!
Kael, com um sorriso sarcástico, olhou para o chão abaixo de si.
— Oh meu deus, parece que pisei em algo… — gritou alto, cheio de ironia, enquanto segurava a risada.
Até que, com o rosto ainda mais diabólico, levantou o pé esquerdo da nuca de Arin.
No mesmo instante, a mulher de cabelos vermelhos e olhos verdes ergueu a cabeça rapidamente:
— AFUUUH… AFUUUUUH… — respirou alto, como se tivesse acabado de correr uma maratona.
— CARAMBOLAS! Arin! Como tu foi parar aí embaixo!? — disse Kael, quase cedendo ao gargalhar.
— K-Kael… P-por fa-favor… sai de ci… ma… — falou Arin, ainda sendo esmagada pelo pé de Kael, que pressionava exatamente a área do diafragma, fazendo ela não conseguir respirar.
— O que foi? O que tu tá falando aí embaixo? Não tô ouvindo! — a risada já escapava do canto da boca de Kael.
— O-o… P-PÉ! — gritou ela, com suas últimas forças.
— Ahhh, é claro. — disse Kael, enfim saindo de cima dela. — Agora sim eu ouvi!
No mesmo instante, ela deu um pulo, caindo sentada, botando a mão no pescoço, tentando forçar o corpo a sugar mais ar.
— Difícil de respirar? — perguntou Kael, finalmente caindo na gargalhada.
— Velho desgraça- — falou Arin, porém, antes de completar seu xingamento, viu o assustador olhar de Kael sobrepujar a risada e encarar a própria alma dela. — Q-quero dizer… o-olha o estrago que tu causou aqui. Valeu a pena piorar ainda mais essa cratera só pra fazer isso comigo?!
— COM CERTEZA. — retrucou Kael, na lata. — Comparado ao estrago que tu causou aqui, esse novo buraquinho chega a ser imperceptível.
— “Mentira não é…” — pensou Arin, virando o rosto para o lado oposto de Kael.
— Bom, isso vai dar um trabalhão para resolver. Pode ter certeza que tu vai ter um castigo à altura depois. — disse Kael, agora com o olhar mais sério. — Entendido?
— S-sim. — respondeu Arin, sentindo um calafrio.
— Então essa é a menina de olhos roxos que o Louie tinha falado? — Kael se aproximava do corpo inconsciente da menina.
— Aparentemente sim. — respondeu seca Arin, como uma criança birrenta.
— Certo. Vamos levar ela pra Áurea. — deu as costas e partiu em direção à borda da zona segura, agora devastada. — Porém, quero testar uma coisa antes.
Arin ficou sentada, ainda respirando com esforço.
— Vem logo. — berrou Kael, se afastando com passos rápidos.
— T-ta bom! — rapidamente respondeu Arin, indo em sua direção.
Já na borda superior da zona segura…
Kael, ao lado de Arin observava o abismo de mais de mil e quinhentos metros a sua frente.
— Caramba… parece bem maior olhando daqui do que lá do meio. — disse Arin, impressionada.
— Poisé, tu causou um baita estrago dessa vez também. E eu pensando que tu tinha aprendido com os erros depois da Ilha de Martim Vaz.
— Mas eu aprendi!
— Tem certeza disso?
— Sim. Eu só fiz como tu disse antes dessa missão: “Não use nada tão destrutivo a menos que seja a última opção“. — indagou Arin, com um rosto debochado. — Foi a última opção.
— Agh… tá, que seja então. — murmurou Kael, levando a mão ao rosto.
— Oooh, Kael, só não entendi ainda, como não tem nenhuma pessoa por aqui filmando ou tirando fotos? Considerando o som, provavelmente ficariam curiosos e viriam ver, não?
— Mas eu falei sobre isso na nossa reunião! — disse Kael, voltando a ficar irritado. — Tu prestou atenção por acaso?!
— É… sim? — respondeu Arin, sem nem mesmo lembrar de tal acontecimento.
— Ahh, vocês são um porre… — Kael levou a mão ao rosto, suspirando de raiva. — Eu imaginei que algo como o som poderia atrair a multidão. Então, além da evacuação de um raio de dez quilômetros para a batalha, pedi mais um quilômetro, garantindo que ninguém conseguisse ver nada dentro da Neurotempestade.
— Nossa! Mas que golpe de sorte, hein! Hahahaha — disse Arin, com um sorriso no rosto.
— Eu diria que é mais uma questão de conhecer seu próprio time…
— Tá, tá. O que tu queria testar? — questionou Arin, tentando mudar de assunto.
— Tu vai ver…
Então, com um movimento rápido, Kael se abaixou, tocando com as duas mãos no chão.
Seus olhos brilhavam em dourado, enquanto veias como ouro vivo se espalharam ao longo do seu corpo.
— Eu ainda não sei o nome disso… mas vai ser uma mão na roda daqui pra frente! — gritou, enquanto seu corpo brilhava ainda mais forte.
Assim, diversas agulhas douradas surgiram, costurando a própria terra com seus fios dourados.
Em um instante, como uma ferida aberta, fechada pelas linhas do tempo, tudo dentro do raio de dez quilômetros, incluindo o solo, prédios, carros, árvores e até mesmo o menor dos objetos, voltavam ao que eram antes da batalha.
Como se a luta que quase destruiu um continente, nunca tivesse realmente ocorrido.
— M-mas que merda é essa…? — perguntou Arin, desacreditada da visão que os próprios olhos a mostrava.
— Vai ser bem útil, né? — cochichou Kael, olhando animado a visão a sua frente. — Principalmente quando tu for lutar.
— Ei!
Assim, oficialmente o resgate de Emi, foi concluído com sucesso.
Mais tarde, naquela mesma noite, depois do fim da batalha e da improvável restauração da cratera graças ao poder Anámnesis de Kael, um barzinho qualquer localizado no extremo da Zona Sul de Porto Alegre seguia noite adentro como se nada de anormal tivesse acontecido.
O lugar era bem simples: tinha mesas de plástico, cadeiras arranhadas, e o clássico cheiro de gordura queimada misturado ao de cerveja barata
E, presa no alto da parede, uma televisão grande transmitia o noticiário.
Vários clientes viraram seus corpos em direção da tela no mesmo instante que o aviso de urgência ecoou, deixando as conversas morrerem rapidamente.
⧙ Após o roubo de um protótipo de bomba de larga escala, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas do Exército, e a evacuação de emergência na Zona Norte… ⧘
— Bah… — murmurou um homem de boné, encostado no balcão. — Todo dia é uma coisa nova agora.
A dona do bar aumentou o volume da TV, olhando atentamente para a grande tela.
⧙ …o dispositivo foi ativado dentro de um prédio abandonado conhecido como “Esqueletão”. Quando a desativação tornou-se impossível, a bomba foi levada por helicóptero aos céus, onde explodiu… ⧘
— Eu senti — disse uma mulher numa mesa perto da janela, com o rosto triste e tomado pelo álcool. — Moro a uns doze quilômetros do centro, e mesmo assim meus vidros estouraram tudo…
— Os meus também! Toda Porto Alegre, tirando o extremo Sul, sofreu com isso — respondeu outro. — Fora que os hospitais lotaram, uma galera ficou com dor no ouvido depois daquele estrondo, hahaha.
Um homem mais calado, encostado no balcão, completou:
— Pelo menos ninguém morreu a princípio…
— É verdade. — respondeu alguém da mesa ao lado, balançando a cabeça.
⧙ …a explosão liberou uma onda de choque que dissipou as nuvens sobre o Brasil… ⧘
Um sujeito mais velho soltou uma risada mais nervosa do que divertida.
— Cinco meses atrás era só trânsito, chuva e uma cidade “segura”. Agora já teve o maior massacre da história, terremoto, prédio caindo e evacuação militar de emergência… — ele levou a mão à cabeça, como quem tenta organizar os próprios pensamentos. — Muita coisa louca tem acontecido ultimamente… tô seriamente pensando em me mudar.
— Falando nisso… — um garoto de jaqueta preta se inclinou sobre a mesa, abaixando a voz como se contasse um segredo. — Vocês viram aquele vídeo?
Os olhares dos presentes no bar se viraram para ele na hora.
— Que vídeo? — perguntou alguém.
— Daquele cara estranho, usando uma máscara sinistra e um manto roxo! — continuou o garoto. — O vídeo mostra ele pulando do topo de um esqueleto de prédio abandonado aqui na Zona Sul!
— Ele morreu? — alguém cortou.
— Não! — o garoto arregalou os olhos, gesticulando animado. — Ele só sumiu no meio da queda! Simplesmente… wiiish… e do nada, puuuf. O vídeo tá circulando por tudo quanto é canto!
Um silêncio curto se formou, quebrado pelo som da televisão.
⧙ Embora Porto Alegre tenha sido poupada da destruição direta, a pressão da explosão quebrou vidros ao longo de toda a cidade e em algumas regiões vizinhas… ⧘
— Ah, para — retrucou um homem de camisa social amassada, girando a bebida dentro do copo. — Isso aí não passa de fake news. Hoje em dia vídeos não provam mais nada. Deepfake, corte, edição… tem vários meios de forjar mentira. Eu não confio nessas coisas.
— Mas é verdade! — insistiu o garoto, quase desesperado pra provar seu ponto. — O primo do meu amigo disse que o irmão dele jura de pé junto que viu isso ao vivo!
— Todo mundo sempre tem um primo de um amigo — riu o homem, balançando a cabeça. — Semana passada o meu disse que tinha uma nave alienígena pousada na Orla.
A TV continuava.
⧙ …o impacto foi grande, mas a cidade foi salva. O que poderia ser uma tragédia em massa foi evitado. ⧘
Ninguém aplaudiu.
Ninguém comemorou.
Os clientes só se voltaram lentamente aos copos, continuando com suas conversas baixas.
Porto Alegre tinha sido poupada.
Mas algo inquietante tinha ficado para trás.
E aquela não seria a última noite em que rumores soariam mais reais do que as notícias.
Enquanto isso…
Kael, exausto pela batalha, finalmente retornou a Áurea.
Arin vinha logo atrás, exibindo a clássica cara de paspalha, completamente alheia à comoção que havia causado.
Ambos seguiram para a base dos Vigilantes, localizada próxima à sede dos Comandantes.
Lá, Mira e Jax cuidavam de Emi, enquanto Zara, gravemente ferida após o embate, havia sido levada por Lila para receber tratamento urgente de Mira.
Agora, com os Vigilantes se reunindo novamente, e a cidade voltando levemente só seu silêncio cotidiano, aquela batalha deixava uma coisa claro. Aquilo era apenas o começo.
— Fala sério, Arin… tu só me arrasta pra encrenca. — resmungou Kael enquanto caminhava pelas ruas movimentadas da cidade subterrânea de Áurea, carregando nos braços a menina de olhos roxos, ainda desacordada. À frente, o prédio dos Vigilantes se erguia imponente, com seu letreiro brilhando em dourado contra o teto artificial da cidade.
— Eu já pedi desculpa, poxa… — murmurou Arin, emburrada, virando o rosto pro lado como uma criança. — …Mas ela era muito forte! Um ataque desses não deve ter feito nem cócegas nela… eu tenho certeza que ela está bem. Só está dormindo! E tu só quer me encher o sa-
— Hein? — Kael inclinou a cabeça, interrompendo no meio da frase, com um sorriso perigoso. — O que foi que tu tá dizendo aí, Arin? Quer procurar por estrelas cadentes de novo?
— N-nada não, queridíssimo senhor comandante! — respondeu Arin num salto, levando a mão ao peito e assumindo postura ereta, posição de sentido, como se estivesse em um desfile militar.
Kael soltou um sorriso lento e debochado.
— Foi o que eu pensei. Então, já está na hora da tua punição, não acha?
— Eu acho que não belíssimo senhor comandante! — Respondeu Arin, imediatamente.
— Mas que cara de pau, hein. Saiba que me bajular não vai te ajudar em nada. — Responde Kael, rindo da inútil tentativa de Arin. — Então manda ver. Quero dez mil flexões usando só o dedão da mão direita, depois alternando o dedão, mais dez mil. só depois tu pode entrar.
— O… o quê?! — Arin arregalou os olhos, a voz saindo em desespero. — Mas eu to tão cansada…
— Hum… acho que virou vinte mil pra cada agora. — disse Kael, girando levemente o ombro.
— S-sim senhor! Dez mil flexões pra já! — gritou Arin, se jogando no chão com uma falsa determinação, apoiando todo o peso do corpo no dedão da mão direita.
— Um, dois, três…
Kael apenas balançou a cabeça, soltando um riso curto antes de seguir em direção à base dos Vigilantes.
Ele adentrou a imponente entrada da base, atravessando um curto corredor metálico, quase silencioso e bem iluminado, ainda que o som abafado de Arin conseguisse alcançá-lo ao longe:
— …quatorze, quinze, dezes…
O eco ritmado das botas de Kael ressoava suavemente pelas paredes de aço, até que ele parou diante de uma porta reforçada, equipada com uma pequena tela brilhante ao lado.
Sem hesitar, Kael pousou a palma da mão direita sobre o painel.
— Seja bem-vindo de volta, comandante Kael! — anunciou uma voz robótica da porta.
Logo em seguida, engrenagens começaram a girar dentro da fortificada porta. Travas se liberaram uma a uma até que, com um leve rangido ocorreu.
Era a imensa porta de aço se abrindo lentamente.
Ao cruzá-la, Kael deu de cara com uma sala grande e moderna, de paredes metálicas revestidas por um tom cinza polido que refletia levemente a luz.
Estantes repletas de livros e documentos técnicos cobriam parte das paredes.
Alguns quadros estavam tomados por fórmulas matemáticas e esboços de diagramas incompreensíveis para olhos comuns.
Um enorme sofá branco estava virado de frente para uma televisão de última geração, embutida diretamente na parede. Ao lado, uma grande mesa oval cercada por cadeiras elegantes parecia ser o centro de reuniões estratégicas.
No meio desse ambiente, que era uma mistura de laboratório, sala de comando e espaço de convivência, descansava Zara, estirada no sofá, aparentemente repousando nele.
Na mesa, estavam reunidos Jax, Mira, Lila e Emi, que segurava um copo de água nas mãos, observando a movimentação com um olhar curioso e atento.
A entrada de Kael atraiu a atenção do grupo, mas ninguém disse nada de imediato.
— Kael! — chamou Lila, levantando o olhar ao vê-lo entrar na sala com a menina de olhos roxos nos braços. — Que bom que deu tudo certo! A Arin comentou superficialmente no comunicador como foi… Inclusive… cadê ela?
— Tá… pagando o que deve. — respondeu Kael com um sorriso satisfeito no rosto.
— Tu não mudou nada mesmo, hein, Kael. — disse Emi, observando-o enquanto repousava o copo de água sobre a mesa de vidro. — Quanto tempo já faz mesmo?
Ela soltou a pergunta com um sorriso leve, mas havia algo forçado em sua expressão, como se sua simples presença naquela cidade trouxesse lembranças dolorosas, das quais gostaria de esquecer.
— Emi… — murmurou Kael, com a voz baixa. — Vocês poderiam… nos dar um tempo?
Seu olhar se voltou brevemente aos Vigilantes.
— Claro. — assentiu Lila, já se levantando e caminhando em direção à porta metálica.
Kael então se virou para Mira e Jax, entregando cuidadosamente a jovem desacordada em seus braços.
— Mira, Jax… levem-na ao posto médico mais próximo. E Mira, use seu poder. Mesmo que ela não pareça ferida, melhor prevenir ao máximo.
— Entendido. — respondeu Mira, calma, seus cabelos loiros caindo suavemente sobre os ombros, os olhos verdes como esmeraldas fixos na menina.
— E sobre a Zara…? — Questionou Kael, virando seu olhar para ela deitada sobre o sofá.
— O mesmo que falamos pelo comunicador, ela está estável. Só inconsciente e descansando. — respondeu Mira, com um sorriso aliviado no rosto.
— Certo… isso é bom. — disse Kael, dando alguns passos até uma das cadeiras em volta da grande mesa.
Antes que os outros saíssem, ele se virou novamente para Lila.
— Ah, Lila… passe na sala de comandos e de um relatório a Aura.
— Pode deixar. — respondeu Lila com um breve aceno.
Logo depois, ela, Mira, Jax e a garota de olhos roxos saíram pela porta metálica.
Na sala, restaram apenas Kael, Emi… e Zara, ainda inconsciente no sofá.
O silêncio dominou o ambiente por alguns segundos.
— E aí, Emi… — disse Kael, quebrando o silêncio, enquanto a observava nos olhos. — Desculpa por esse incidente, se eu tivesse sido mais atento…
— Tá tudo bem, Kael. — cortou Emi, com um sorriso calmo no rosto, a luz da sala refletindo nos seus olhos castanhos claros e nos fios de cabelo cor de amarelo queimado. — Você não teve culpa nenhuma, afinal, se não fosse por vocês… nem eu, nem o Louie, nem a Nina estaríamos vivos agora.
Ela fez uma pausa breve, respirando fundo antes de continuar:
— Mas, Kael… posso te perguntar uma coisa?
— Claro… — disse ele com tranquilidade. — Fica à vontade.
— E-essa organização… — sua voz vacilou por um momento. — eles estão envolvidos com o desaparecimento do Daltro, há dez anos?
Ela abaixou o olhar, como se a pergunta afundasse sua mente em lembranças.
Kael hesitou por um instante, e então respondeu com honestidade:
— Ao que tudo indica… sim. Porém, não consegui nenhuma informação sobre o paradeiro dele, ou mesmo se ainda está vivo. Eles são mais fechados e complexos do que imaginei. Durante esses últimos dez anos, não consegui encontrar sequer um movimento deles…
— Entendi… — sussurrou ela, voltando a encará-lo. — Mas por quê? O que eles querem com o Louie agora? Por que… o passado insiste em nos alcançar?
Ela apertou os punhos, a voz trêmula.
— Eu fiz de tudo, Kael. Tentei tirar o Louie dessa vida depois do desaparecimento do Daltro. Criei ele e a Nina longe disso, longe de tudo. Mas, talvez, fosse impossível escapar. Por algum motivo, isso continua a perseguir o sangue deles.
— Emi… eu sinto muito. De verdade. O Daltro sempre foi muito mais do que um amigo pra mim… ele era como um irmão.
Ela se aproximou, devagar, até estar diante dele. Segurou suas mãos com firmeza, mesmo que seus dedos tremessem sem parar.
— Então me prometa uma coisa, Kael. — disse com a voz falhada, os olhos marejados, mas cheios de força. — Torne o Louie forte. Forte o bastante para se proteger quando for preciso. Forte o suficiente… para não ter o mesmo destino do Daltro.
Ela o encarou profundamente, como se cada palavra pesasse uma década inteira.
— Não só por mim… ou pelo Louie… Mas por ele, Kael. O Daltro sempre foi um herói para todos em Áurea, mas ele era mais do que isso. Ele era um pai… um marido. Então, por ele… por tudo o que ele significou… torne o destino do filho dele diferente.
Naquele momento, o silêncio entre os dois respondeu mais do que qualquer resposta.
Kael respirou fundo, buscando firmeza nas próprias convicções. E então, com um sorriso confiante, disse:
— Eu já tinha planejado fazer isso… mesmo que não me pedisse, Emi. Mas agora… agora vou dar tudo de mim para que isso aconteça. Pelo Louie. E pelo Daltro.
— Obrigado… Kael. — Emi esboçou um sorriso fraco, dolorido, mas cheio de amor. E com ele, uma fagulha de esperança de que, talvez, seus filhos ainda pudessem ter um futuro livre e… feliz.
E assim, enquanto a cidade subterrânea de Áurea cintilava sob sua falsa lua, projetada para imitar perfeitamente o céu, mais uma noite se encerrava.
Carregada de promessas.
Ferida por lembranças antigas.
E marcada pela esperança de que o passado… não precise ser repetido.

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