— Eu… conheço você…

    As palavras saíram travadas, mas havia algo a mais nelas. Não eram só uma dúvida, mas um eco de algo que ficou para trás. Um laço, um vínculo, uma história que talvez nem Louie nem a menina tenham vivenciado, mas que, de alguma forma, existiu.

    A garganta de Louie se trancou. Seu coração martelava forte no peito.

    Ele também sentia aquilo, aquela conexão sem explicação, como se percebesse a existência de algo que não existe.

    De algo que ele perdeu…

    …ou talvez nem tenha vivido.

    Mesmo com a mente girando e as emoções embaralhadas, escapou de seus lábios uma simples, quase infantil, mas carregada de sinceridade pergunta.

    — Quem… é você?

    Então, como um ato involuntário, como se as palavras escapassem por conta própria, Louie soltou:

    — E-eu sabia! Essa sensação… de algum jeito, eu sinto que te conheço! — Ele se aproximou da garota de olhos roxos, com o coração acelerado. — Você… quem é você? Sabe de onde eu te conheço?!

    — E… B-bom…

    — Você disse que me conhecia… como você me conheceu!? De onde nos conhecemos!?

    — E-eu… eu não sei… — respondeu a menina, recuando assustada.

    — Como assim?! Eu tenho certeza… — Louie insistiu, mas Kael colocou a mão em seu ombro, balançando a cabeça em silêncio.

    — Mas… mas ela disse que me conhecia…

    O brilho de esperança nos olhos de Louie se apagou aos poucos, como o fogo de uma vela levado pelo vento.

    A menina o observava, ainda assustada pela investida repentina de Louie, mas, quando olhou no fundo dos olhos dele, tão intensos, como se dividissem sua visão entre o próprio céu e o inferno.

    Viu o mesmo vazio que carregava dentro de si, o pânico ao perceber a lacuna deixada pelas memórias esvaídas se abrindo cada vez mais.

    — Eu… senti… — murmurou, tentando esconder o próprio rosto.

    — Hã? — Louie ergueu os olhos confuso.

    — Eu senti que te conhecia… — disse ela, os olhos trêmulos. — Me desculpa… eu não lembro de nada. Só falei aquilo por impulso, como se… como se já tivesse te visto em algum lugar.

    Kael então se adiantou, cruzando os braços e suspirando.

    — Lembra que a Lila falou que ela perdeu a memória, Louie? — disse ele, com a voz descontraída, tentando aliviar o clima. — Ou teu cérebro já fritou e não consegue processar isso?

    Ele deixou escapar uma pequena risada.

    — Hã?! Como é que é?! — Louie ficou vermelho, completamente envergonhado.

    — Quer que eu desenhe? Até um cachorro teria entendido… — provocou Kael, rindo ainda mais.

    — De novo essa de cachorro?! — rebateu Louie. — Bem que eu achei que tu parecia um disco de vinil velho, que só sabe repetir a mesma coisa!

    Kael virou na hora e, sem pensar duas vezes, deu um belo cascudo na cabeça de Louie.

    — Quem parece um vinil velho aqui, seu muleque?! — o rosto de Kael se contorceu em raiva. — Tu não tá vendo que tá assustando ela, seu idiota?

    A menina recuou ainda mais para trás, por reflexo ao golpe de Kael.

    — “Acho que tu também tá assustando ela Kael…” — Pensou Lila, com um olhar julgador sobre o comandante.

    Louie, agora com um belo galo surgindo no topo da cabeça, se levantou devagar, coçando a testa com uma expressão de desentendido.

    Porém, quando seu olhar se encontrou com o da menina, ele entendeu.

    O que viu nos olhos trêmulos dela, ainda que por um breve momento, foram os mesmos olhos do garoto de três meses atrás… acordando em frente às paredes brancas e gélidas do hospital, completamente perdido, sozinho e… confuso

    Um Louie que não sabia quem era, nem por que existia.

    Não que agora tudo tivesse mudado, longe disso. Mas, graças ao apoio da mãe, da irmã… e de Kael, ele havia percebido que ainda tinha um lugar no mundo.

    Mesmo sem todas as respostas, ele sabia que esse “novo Louie” já tinha um começo, uma história própria para trilhar.

    Só que a situação da garota era ainda mais solitária. Diferente dele, ela não tinha ninguém por perto. Nenhum abraço esperando, nenhuma casa pra voltar. Nenhum sol pra aquecer o peito.

    Percebendo seu erro, em um instante ajeitou sua postura. Inspirou fundo e, em silêncio, se curvou diante dela, o rosto marcado por um arrependimento sincero.

    — Me desculpa… de verdade.

    A garota, ainda assustada, piscou algumas vezes. Não sabia como reagir àquilo.

    — T-tá tudo bem… p-por favor, levanta a cabeça…

    — Não, não tá tudo bem. — insistiu Louie, sua voz baixa, porém assertiva. — Eu errei. Passei pela mesma dor que você. E devia ser o primeiro a te entender. Mas fiquei empolgado com a chance de saber o que aconteceu, o que me deixou assim… e me deixei levar. Então, me desculpa. De verdade.

    — Agora sim… — murmurou Kael , atrás do garoto, com um sorriso orgulhoso no rosto.

    — Tá emocionado pela iniciativa do pupilo, né? — cutucou Lila, segurando uma risadinha.

    — Fala isso mais uma e vai pagar dez mil flexões com a ponta do dedão igual a Arin. — retrucou Kael, sem nem virar o rosto.

    — Não tá mais aqui quem falou! — Lila respondeu, sentindo um calafrio subir pelas costas.

    Louie levantou os olhos devagar, encarando a menina com cuidado.

    — Então… você se importa se a gente começar de novo?

    A garota hesitou por um segundo, mas dessa vez não recuou.

    — N-não… tudo bem.

    — Obrigado. — disse Louie, agora com um sorriso genuíno. — Prazer, me chamo Louie Kaede… e gostaria de ser seu amigo.

    — “Acho que foi um pouco direto demais, Louie…” — Pensaram Kael e Lila ao mesmo tempo,.

    A menina arregalou os olhos, surpresa com a frase… mas logo baixou o olhar e respondeu:

    — Desculpa, eu… eu não sei o meu nome. Mas… se for possível… seria bom ter um amigo. Eu acho…

    — Tá bom! — exclamou Louie, com um sorriso largo no rosto. — Quanto ao nome… se tu não lembrar ou não descobrir, pode deixar que eu invento um pra você! Sou ótimo com nomes!

    — “Então além de ser direto, é intrometido e um mentiroso de carteirinha…” — pensaram Kael e Lila, novamente ao mesmo tempo.

    A garota soltou uma risadinha involuntária, cobrindo a boca como se tentasse contê-la.

    — Certo… vou contar com você caso chegue a hora, então.

    E assim, sob a luz pálida da lua artificial de Áurea, a noite seguia seu curso como sempre.

    Mas, sem saber, Louie e a garota haviam dado o primeiro passo rumo a algo que transformaria tudo.

    Um laço que, um dia, os sustentaria mesmo à beira do abismo…

    …ou os afundaria nele.

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