Capítulo 37: Do caos ao centro
Com isso, Kael e Louie retornaram à casa do comandante, enquanto a garota de olhos roxos permanecia em repouso no posto central de Áurea.
A noite dourada finalmente deu lugar ao amanhecer, fazendo a luz suave do grande sol artificial iluminar a cidade subterrânea, aquecendo seus prédios altos e as ruas sempre movimentadas.
Áurea despertava em paz, mas permanecia tão energética quanto de costume.
Enquanto isso…
— …orda… — murmurou uma voz doce, encantadora, abafada como um sussurro distante.
Mas ela insistia.
— …Acorda… — repetiu, agora mais forte, como se o som rompesse a barreira dos sonhos.
Louie apertava os olhos ainda mais, lutando contra o peso das pálpebras.
O corpo ainda queria dormir, mas a doce voz, agora mais próxima, não deixava.
Lentamente, seus olhos começaram a se abrir contra a própria vontade, primeiro em brechas, como se cada piscada fosse uma batalha contra a claridade.
— Acorda… — disse a voz mais uma vez, agora clara, direta e impaciente.
Louie abriu os olhos de vez, piscando contra a luz suave da manhã que entrava pela janela próxima da cama.
Seu olho vermelho parecia mais sensível à claridade, enquanto o azul refletia o brilho com intensidade.
E então, finalmente viu a origem daquela voz celestial.
Mas de celestial não tinha nada.
— EU! DISSE! ACORDAAAAA! — gritou Nina, inclinando o corpo para trás, buscando mais impulso para o golpe.
Ainda meio atordoado, Louie piscou algumas vezes para ajustar o foco dos olhos e, só então, percebeu.
Ela empunhava uma frigideira de ferro e, como se fosse uma espada, brandia-a em direção ao garoto.
Seu cérebro levou um segundo a mais para reagir. Mas quando a ficha caiu…
— “A… então era só a Nina falando…” — pensou, encantado. — “Minha querida anjinha… com uma frigideira de ferro… vindo na minha direção… pra fazer carin—”
— “FAZER CARINHO!?” — exclamou, os olhos arregalados no mesmo instante.
Quando Louie compreendeu por completo a situação, já era tarde demais…
— COM UMA PANELA!?
Ele gritou, alarmado, a expressão congelada entre o sono e o terror.
— C-c-calma aí, Nin- — berrou em desespero, sendo cortado pelo doloroso:
PAAAAAMMMM!
O som vindo do impacto ecoou alto por toda a casa.
Logo em seguida, a voz de Emi veio assustada da cozinha distante:
— Que barulho foi esse?!
E assim começava mais um dia.
Ao som de uma frigideira voando.
E de um traumatismo craniano
novinho em folha.
Um presente bem impactante de sua querida irmãzinha.
Alguns minutos depois...
Na frente do sofá da sala da grande casa de Kael, Emi estava de frente para Louie e Nina, que permaneciam de joelhos.
Com a mão no rosto, como se segurasse o próprio estresse, ela olhou para Nina e disse:
— Deixa eu ver se entendi direito… você tentou acordar ele de forma pacífica quatro veze-
— Três… — corrigiu Nina, desviando o olhar da mãe. — foram três vezes.
— Certo… tentou acordar ele pacificamente três vezes… e, por nenhuma ter funcionado, na quarta você acordou ele com uma frigideirada na cabeça? — continuou Emi, olhando para o rosto vermelho de Louie.
— Isso mesmo. — confirmou Nina, orgulhosa do que havia feito.
— Então, por que tu levou a frigideira antes mesmo de tentar acordar ele sem ela? — questionou a mãe, trocando olhares entre os dois.
— Dããããã, é que eu sou inteligente, né!
O orgulho da garota parecia querer sair do peito, de tão grande.
— Já tinha previsto que a forma pacífica não ia dar certo, então me preparei e levei a frigideira comigo!
— Tá na cara que esse era o plano dela desde o começo! — disse Louie, furioso, enquanto sentia seu machucado arder.
O olhar da mãe se perdeu por um instante, pesado, recolhendo-se junto a um suspiro cansado.
— Enfim… tenta evitar isso, Nina. Teu irmão já não tá lá essas coisas, né… — falou Emi, sendo interrompida por Louie.
— MÃE! Tu tá do lado de quem afinal!? — berrou Louie, completamente perdido.
Uma hora depois...
A manhã ainda dominava Áurea enquanto Kael e Louie caminhavam lado a lado em direção ao hospital central para visitar a menina de olhos roxos.
— Então, Louie… acordou bem? — Kael cruzou os braços, contendo uma risada ao notar a marca ainda viva na pele do garoto. — Não deve ser fácil acordar com uma frigideira na cabeça.
Os nervos de Louie saltavam da pele, a raiva estampada no rosto, junto da marca deixada por sua pequena e… nem tão inofensiva irmãzinha.
— Cala a boca! No fim, a Nina dedurou que foi ideia tua! — resmungou Louie, o corpo tremendo sob a blusa branca, a fúria à flor da pele. — Tu ainda vai ver…
— Vou esperar sentado. — o comandante soltou uma breve risada.
— Mas… obrigado, Kael. Por ter deixado a gente dormir na tua casa essa noite — disse Louie, tentando se acalmar.
— Olha só ele, todo fofinho. — provocou, com um pequeno e sutil sorriso diabólico.
— Argh… retiro tudo que eu disse! — resmungou Louie, cruzando os braços. — Tu era bem menos piadista no meu primeiro dia aqui. Agora parece uma criança de um metro e oitenta! A Nina é menos infantil que tu!
— É que naquele dia a gente podia ser atacado a qualquer momento. Não que estejamos completamente livres disso agora…
Kael desviou o olhar por um instante.
— Mas, pelo menos, a Sacrificium Sanguinis deve permanecer nas sombras por um tempo. E, principalmente… isso não chega nem perto do que o sangue do teu sangue me fazia passar.
— E o que ele fazia contigo, por acaso, é culpa minha!? — Louie se virou rapidamente para Kael, os olhos em chamas.
— Cada um com seus problemas. Agora vai ter que pagar a dívida do teu pai. — Kael levou as mãos até a cabeça, se espreguiçando.
— Miserável… mas você está certo. Bem que seria bom se as coisas ficassem assim para sempre… Ainda assim, eu preciso ir atrás deles para entender por mim mesmo quem eu era.
Louie levou a mão ao seu olho direito, vermelho como sangue, pulsando como o magma.
— E o que eu sou hoje…
A voz falhou por um instante. Seus dedos se fecharam sobre o rosto, tentando conter a ânsia de voltar ao que um dia fora.
— Até que tô começando a aceitar melhor essa coisa de ter poderes… Só que, por algum motivo, ainda sinto o mesmo nojo quando me olho no espelho…
Kael pousou a mão no ombro do garoto, firme e tranquilo.
— Tenha calma… talvez isso seja apenas um estranhamento vindo das tuas memórias. Mesmo que tu não lembre conscientemente, teu inconsciente deve estar estranhando esses novos aspectos da tua aparência.
Ele manteve o olhar à frente, sem encarar Louie.
— Mas essas mudanças repentinas são realmente estranhas. Mesmo que os laudos médicos façam sentido, considerando que a Sacrificium Sanguínis estava envolvido, vale a pena investigar mais a fundo isso.
Louie permaneceu em silêncio, o olhar perdido.
— Certo…
— Bom… — disse Kael, cortando Louie. — Chegamos.
Diante deles, uma grande construção branca se erguia.
Na fachada, uma placa exibia a palavra “Saúde” em letras prateadas.
Ao lado, destacava-se um símbolo marcante: dois triângulos dourados entrelaçados, formando uma estrela de seis pontas.
No centro da estrela, havia uma esfera escura.
Dela partiam seis linhas coloridas, cada uma se estendendo até uma das pontas.
Louie encarou o posto, assustado por seu tamanho.
— Caramba… acho que é porque a Lila teletransportou a gente direto para dentro ontem, mas esse hospital é enorme… — disse, caminhando em direção à entrada. — E aquele símbolo? O que é?
— Tecnicamente, tu veio aqui hoje, já que era de madrugada.
— Isso é detalhe! — resmungou o garoto.
— Sobre a tua pergunta… esse é o símbolo de Áurea.
Kael manteve o passo ao lado dele, o olhar erguido para a fachada branca.
— No geral, as seis pontas representam os seis tipos diferentes de poderes Kaelums. A luz que os liga no centro representa a união deles… a síntese.
— Que da hora!
Os olhos de Louie ficaram presos no símbolo.
Kael esboçou um leve sorriso de canto e seguiu em direção à porta do posto de saúde.
Louie continuou distraído, admirando o emblema, até perceber o silêncio ao lado.
Quando olhou ao redor, viu apenas a porta à frente se fechando.
— Ei! Tu podia esperar, poxa! — gritou, correndo e alcançando a entrada que Kael deixara entreaberta.
Ao entrar no hospital central de Áurea, Louie se deparou com uma ampla sala branca, quase vazia.
Havia pouquíssimos pacientes. A maioria das pessoas ali eram funcionários, vestindo uniformes brancos com detalhes verdes e o símbolo de Áurea bordado no peito.
Os assentos da recepção, praticamente vazios, chamaram sua atenção e atiçaram ainda mais sua curiosidade.
Enquanto caminhava ao lado de Kael, que seguia por um dos corredores à direita, Louie perguntou em voz baixa:
— Kael… por que tá tão vazio? Tipo, é um hospital e tal. Não era pra ter mais pacientes?
— Sim e não.
Kael nem se deu ao trabalho de virar o rosto.
— Como assim “sim e não”? Não pode ser um pouco mais específico? Vai perder a boca se falar, é? — retrucou Louie, acompanhando o homem, que caminhava de forma firme.
— Tu tá bem curioso, hein? É uma criança, por acaso? — retrucou Kael, sincero até demais.
— Ehhh? Tecnicamente, eu tenho três meses… — Louie abriu um sorriso satisfeito, como se tivesse vencido a discussão.
— Não se faz de idiota. Tu perdeu as memórias, mas tua mentalidade praticamente não foi afetada.
Kael soltou um suspiro contido, passando a mão pelos próprios cabelos enquanto continuava andando.
— Mas ok… o motivo de ter tão poucos pacientes é porque essa é a zona central.
Ele fez um gesto discreto ao redor, indicando o corredor amplo e impecável.
— A tecnologia e os recursos de saúde aqui são o ápice de Áurea. E, por si só, já estão muito acima de qualquer hospital de alto padrão em outros países.
Seus passos ecoaram pelo chão polido enquanto sua voz mantinha o mesmo tom tranquilo.
— Isso graças aos poderes dos Kaelums, que ajudam tanto na construção de máquinas e equipamentos quanto, em alguns casos, na cura direta.
— Entendi… eu acho.
Louie levou as mãos ao próprio pescoço, relaxado, inclinando levemente a cabeça.
— Mas por que a zona central?
Ele franziu a testa, tentando organizar as ideias.
— E outra coisa… por que a sociedade normal não sabe sobre os poderes? Como vocês conseguem esconder os Kaelums de tanta gente?
Louie abriu as mãos no ar, gesticulando enquanto falava.
— Sempre vai aparecer algum espertinho usando os poderes pra aprontar… ou eu tô errado?
— De onde tu tá tirando tantas perguntas? Na verdade… é uma pergunta interessante. É até estranho vir de ti, que é mais burro que um cachorro.
Kael apenas o fitou de relance, genuinamente surpreso.
— Vai começar de novo com isso? Sabia que cachorros também são bem inteligentes?!
Louie cruzou os braços, indignado com a comparação.
Kael continuou andando como se não tivesse ouvido nada.
— Sobre as zonas, eu explico depois. Já tava nos planos te dar uma explicação mais detalhada, então deixa pra outra hora.
Ele virou o corredor sem sequer olhar para trás.
— Respondendo às tuas perguntas… os incidentes são encobertos pela OPKM, a Organização de Poderes Kaelums Mundial.
Seus passos ecoavam pelo chão impecável.
— Eles administram os portadores de cada país e mantêm o equilíbrio pra evitar uma espécie de guerra atômica… só que com poderes Kaelums.
Kael ajustou o colarinho da camisa, mantendo o tom casual.
— Cada país tem suas próprias forças de Kaelums, mas, na maioria dos casos, todo mundo responde à OPKM. Áurea e algumas poucas exceções não estão sob o controle direto deles, embora haja trocas e relações amigáveis.
Louie acompanhava ao lado, atento.
— A organização, junto com o governo local, apaga qualquer vestígio da nossa existência. Alteram mentes, manipulam vídeos… a OPKM praticamente controla a mídia mundial.
Ele parou diante de outra porta.
— Inclusive, foram eles que encobriram nosso último combate, fazendo parecer um “grande ataque terrorista com uso de bombas”.
— Faz sentido… que trabalheira. Dói só de pensar nisso.
Louie coçou a nuca, mantendo a mesma expressão despreocupada de sempre.
— Olha só, chegamos! Já tinha até me esquecido de te perguntar por que a gente veio ver a menina de ontem?
Kael pousou a mão na maçaneta.
— Ela vai receber alta. Não há nenhum dano físico.
A porta se abriu lentamente.
— E os abalos no reino mental… ainda não entendemos bem o suficiente pra tentar curar.
Ao entrarem no quarto, a garota ergueu o olhar para os dois.
Seus olhos brilharam ao encontrar os de Louie, como se reconhecer um rosto familiar tornasse o ambiente um pouco menos estranho.
— Bom dia, L-Louie… — disse ela, ainda se acostumando ao nome.
— Bom dia! — o garoto abriu um grande sorriso. — Como tá se sentindo?
A garota ajeitou levemente o lençol sobre as pernas.
— Tô bem… eu acho. Tirando que ainda não lembro de nada… — murmurou, apreensiva. — M-mas a comida daqui é gostosa, pelo menos.
— Que bom. Nós viemos te ajudar agora que tu vai receber alta! — disse Louie, aproximando-se da cama.
A garota ajeitou a postura, surpresa com a empolgação dele.
Kael observava os dois em silêncio.
— Fico feliz em ouvir isso de ti, Louie.
Os dois voltaram o olhar para ele.
— Já que vai ajudar, aproveita e mostra a zona central de Áurea pra ela.
— Quê?!
Louie se virou bruscamente.
— De onde tu tirou isso do nada? Como eu vou mostrar a cidade se nem eu conheço direito?
O rosto dele começou a ficar vermelho.
— Eu só andei por aqui uma vez… e ainda fui sequestrado! — retrucou.
Ele gesticulou indignado, apontando alternadamente para si e para a garota.
— Não acha meio irresponsável mandar eu e ela, que mal conhece aqui, passear na capital de uma cidade subterrânea imensa como Áurea?
Kael permaneceu impassível, como se estivesse ouvindo uma reclamação trivial.
— Hmmmm… sim, vai tranquilo.
Kael manteve o olhar tão relaxado que parecia não se importar com as preocupações de Louie.
— Tenho uma coisa pra resolver, então nada melhor do que vocês conhecerem a cidade juntos.
Louie levou a mão à testa, tentando não surtar.
— Sendo bem sincero… depois eu que sou mais burro que um cachorro?
Ele respirou fundo, tentando processar a situação.
— Como é que um comandante, forte pra caramba, provavelmente inteligente, senão nem teria esse posto, acha que essa é uma boa ideia?
Até que, de forma inesperada, uma risada baixa ecoou pelo quarto.
Era a menina de olhos roxos e cabelos negros como carvão.
Por um instante, ela interrompeu a risada, respirando fundo.
— Calma, Louie… — murmurou, com um sorriso ainda forçado.
Ela desviou o olhar por um instante.
— Pode ser divertido… eu acho.
A garota cruzou as mãos sobre o colo, os dedos entrelaçados nervosamente.
— Tudo aqui ainda é bem estranho pra mim…
Houve uma breve pausa, como se tentasse lembrar das palavras certas.
— Mas se eu for contigo… acho que posso sentir isso um pouco menos…
Ela respirou fundo novamente e voltou a encará-lo.
— Afinal… tu é a única pessoa da minha idade que eu conheço.
O brilho intenso de seus olhos roxos parecia se apagar, como se ela tivesse dito mais do que pretendia.
— E… meu único amigo.
— A… é? Então acho que tudo bem… — respondeu Louie, sem jeito. — Se isso realmente for te ajudar…
— Bom, então vou nessa. Me encontro com vocês às nove da noite, aqui na frente do posto.
Kael começou a se virar, preparando-se para sair.
— Ah, e pega isso aqui para comprar algum lanche ou coisa do tipo.
Ele estendeu o braço, entregando a Louie cinco notas de cem reais.
— K-Kael… eu acho que isso é muito para comprar apenas um lanche — gaguejou Louie, surpreso, segurando o dinheiro com cuidado.
Mas Kael já havia saído completamente do quarto. O silêncio pesado que ficou quase doía nos ouvidos.
Louie engoliu em seco, olhando para as notas, e finalmente rompeu o vazio:
— Então… o que a gente faz agora?

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