Capítulo 38: O vento levou
‼️ Palavras do autor ‼️
Bom dia, boa tarde e boa noite a todos leitores de “O que eu deixei para trás?”. Como vocês podem ver, mudamos nossa capa! Era só isso mesmo, ksksks. Espero que tenham gostado da novidade! Muito obrigado pelo apoio de todos até agora e, sem mais delongas, fiquem com o capítulo!
Ao sair da sala onde a menina de olhos roxos estava hospitalizada, Kael seguiu pelos largos corredores do Hospital Central de Áurea.
Seus olhos castanhos, antes carregados de tensão, agora assumiam um tom mais firme e sério.
Em um movimento simples e preciso, puxou um comunicador do bolso da calça e pressionou um pequeno botão em sua lateral.
No mesmo instante, o transmissor começou a chiar levemente.
Então, uma voz feminina ecoou pelo dispositivo.
Suave e mecanicamente bela.
⧙ Alô, Kael? Tá aí? ⧘
— Sim, Lila. Entrei em contato porque preciso pedir algo. — respondeu o comandante, aproximando brevemente a boca do comunicador.
⧙ Ah, certo. Só me dê um segundo. ⧘
O chiado cessou.
E, poucos instantes depois, a escuridão aos pés de Kael ondulou.
Como se tivesse se tornado líquida.
Uma silhueta começou a emergir dali, moldando-se a partir da própria sombra dele.
Em questão de segundos, Lila tomou forma ao seu lado, erguendo-se da escuridão com naturalidade.
— À sua disposição, Kael. — disse ela, ajoelhando-se no chão em um gesto claro de respeito.
— Ótimo. Traga Jax até aqui.
Kael ajustou levemente o colarinho de sua camisa social, o olhar fixo no fim do corredor iluminado.
— E mande que ele fique de olho em Louie e na menina de olhos roxos durante o passeio deles pela cidade… — acrescentou, a voz baixa, controlada. — Sem ser visto.
Ele finalmente virou o rosto para Lila.
— Depois disso, me encontre na base de comando em vinte minutos, no máximo.
Seus olhar castanho endureceu ainda mais.
— Tenho uma missão pra você.
— Entendido, comandante. — respondeu Lila, antes de novamente mergulhar nas sombras.
Kael seguiu em frente pelo corredor frio do hospital.
A luz branca refletia nas paredes azuladas, enquanto o cheiro metálico, quase ferruginoso, parecia marcar sua passagem.
— Eu vou ter um trabalho danado agora… — cochichou, levando a mão ao rosto enquanto soltava um longo suspiro.
Enquanto isso…
Um silêncio pesado tomou conta do lugar.
Até que foi quebrado por uma frase que escapou da boca de Louie:
— Então… o que a gente faz agora?
A menina de cabelos negros hesitou por um instante.
O olhar deslizou pelo ambiente ao redor.
Então, ela soltou uma risada breve, mas sincera.
— Acho que… temos que sair… — disse, apontando para a porta.
— Sair? Ah! É verdade, hahaha. — respondeu Louie, levando a mão à nuca, com um largo sorriso envergonhado no rosto. — Vamos começar saindo do hospital.
Assim, os dois enfim saíram da sala.
Passaram rapidamente pelos corredores e seguiram até a saída principal do hospital.
Do lado de fora, o sol já se aproximava de seu ponto mais alto no céu, tingindo os prédios com tons de laranja e dourado.
A luz refletia nos vidros espelhados e se espalhava pelas fachadas metálicas.
Pequenas luzes flutuavam no ar, brilhando com leveza, como se ignorassem a própria gravidade.
As ruas estavam cheias de carros.
Os prédios altos exibiam gigantescos outdoors luminosos, disputando atenção acima do fluxo constante de pedestres.
O movimento da cidade era intenso e vibrante.
Graças a isso, os dois conseguiam se mover quase despercebidos em meio à multidão.
Apenas observados por Jax, que permanecia em pé no topo de um grande edifício ali por perto.
De lá, ele mantinha os olhos fixos nos dois, atento a cada passo.
E, no instante seguinte, desapareceu.
Um movimento tão rápido e preciso que teria sido completamente imperceptível aos olhos humanos.
— Então… pra onde a gente vai primeiro? — perguntou Louie, agora com um sorriso animado.
Porém, pegando-o completamente de surpresa, a menina agarrou seu braço.
Seu corpo se aproximou instintivamente do dele, enquanto o olhar corria, assustado, pelas construções gigantescas e multidão ao redor.
— “P-p-pera! Do nada!?” — pensou Louie, sentindo o rosto esquentar ao toque repentino.
Vermelho, ele quase travou por um segundo.
Mas então, ao finalmente encarar os olhos dela, percebeu.
Medo.
Um brilho assustado refletido em seu olhar.
— “Ah… entendi…” — pensou, suavizando a expressão. — “Ela deve estar assustada por causa de todo esse movimento…”
Então, em um ato de coragem, ainda que constrangedor, Louie deixou a mão escorrer lentamente até alcançar as mãos da garota.
Segurou-as com firmeza.
Em seguida, puxou-a suavemente para perto, até que ficasse diante dele, e encarou o fundo de seus olhos.
— Pode ficar calma… eu estou aqui. — disse Louie, abrindo um sorriso confiante.
Os olhos da garota, que instantes antes estavam tomados pelo medo, começaram a mudar.
— Vai ficar tudo bem.
O olhar convicto de Louie acabou por transmitir coragem, e, pouco a pouco, o brilho nos olhos roxos da menina retornou.
— T-tá bom… — ela desviou o olhar, apreensiva, fixando-o em algum ponto indefinido da rua.
— Ah! Já sei! — Louie exclamou, apertando ainda mais as mãos da menina.
— O-o quê…? — a voz dela saiu baixa, quase tropeçando nas palavras.
— Já está chegando a hora do almoço! O que acha de procurarmos algum lugar legal para comer? — perguntou Louie, animado, olhando ao redor.
— P-pode ser… eu acho.
Os olhos de Louie percorreram os arredores em poucos instantes, passeando pelas ruas que pareciam se estender sem fim por Áurea.
Ele girou sobre os calcanhares, analisando fachadas, esquinas e placas.
— Mas… onde? — murmurou para si, coçando a nuca, sem chegar a conclusão alguma.
Porém, como se o destino conspirasse a favor de Louie, uma velha folha de papel amarelada foi carregada pelo vento.
Ela rodopiou pelo ar e se prensou contra o rosto dele.
— Q-que merda é essa?!
Ele levou a mão ao rosto, arrancando o papel com pressa.
Assim que baixou o olhar para o que estava escrito, seus olhos se arregalaram.
— M-mentira… tá zoando que eu dei essa sorte?!
Em suas mãos havia um pequeno mapa da zona central de Áurea.
O papel se estendia entre seus dedos, marcado por linhas gastas e anotações quase apagadas pelo tempo.
Uma coincidência do destino… questionável, para dizer o mínimo.
Afinal, aquele “destino” tinha nome.
Jax.
— Por que o Kael me mandou numa missão pra ser babá deles? — murmurou o vigilante, observando de longe Louie comemorar como se tivesse acabado de ganhar na loteria. — Tanta gente pra escolher… e logo eu.
Óculos escuros cobriam parte do seu rosto, escondendo os olhos cor de mel, sempre atentos por trás das lentes.
Entre as pontas dos fios castanhos, pequenas mechas brancas denunciavam uma descoloração malfeita.
— Bom… fazer o quê, né. — coçou a própria nuca, soltando um suspiro preguiçoso. — Missão é missão.
O olhar voltou-se para Louie, que ainda vibrava com o achado.
— Vou, pelo menos, impedir esse pateta de se perder ou morrer antes da hora.
O menino observava atentamente o mapa aberto à sua frente.
Seus olhos — divididos entre o céu e o inferno, percorriam cada detalhe do papel, analisando traços e marcações com cuidado.
— Tá… — Louie ergueu o olhar na direção da menina de olhos roxos. — Eu lembro de o Kael chamar esse posto de Hospital Central.
— Uhum… — ela respondeu com um aceno discreto, claramente perdida, mas apreensiva demais para interromper.
— Além disso, as paredes dele são completamente brancas. Diferente de quase todos os edifícios de Áurea, que variam entre tons de dourado e azul…
— Uhum… — confirmou outra vez, apertando as próprias mãos.
Louie voltou os olhos para o mapa.
O silêncio durou alguns segundos.
— Mas… qual deles é?! — explodiu, frustrado. — Tem mais de trinta hospitais assim aqui! Todos estão desenhados iguais, e nenhum tem nome escrito! Quem é o imprestável que faz um mapa sem nome nos edifícios?!
Jax, ouvindo ao longe, apertou os punhos e mordeu os lábios, tentando conter a irritação.
— Ahhh, seu moleque ingrato pra caralho… — cochichou, puxando o ar com calma para se recompor. — Se bem que eu podia ter pego um mapa mais atual mesmo…
Ele passou a mão pelo rosto, irritado consigo próprio.
Louie, alheio à indignação silenciosa do vigilante, enrolou o mapa com descuido.
Olhou para a menina.
— Bom… o jeito vai ser procurar.
Ela assentiu, ainda segurando as próprias mãos com leve apreensão.
Sem um plano claro, os dois começaram a caminhar pela rua movimentada, misturando-se à multidão em busca de algum lugar para almoçar.
Duas horas depois...
— Ahhh! A comida estava ótima! — exclamou Louie, lambendo os beiços com satisfação.
Ele esticou os braços por um instante, como se ainda estivesse comemorando mentalmente o banquete.
— Foi a primeira vez que fui a um rodízio de churrasco com essa tal de carne mestiça! Deve ser algo original de Áurea, assim como a Cavialuva. Valeu a pena ter saído por aí procurando!
— E-estava muito bom mesmo… — a menina caminhava olhando o horizonte, com um pequeno sorriso leve no rosto.
— Foi sua primeira vez comendo churrasco? — perguntou Louie, andando de forma desleixada pela calçada.
A garota hesitou.
O sorriso desapareceu devagar.
— N-não sei dizer ao certo… — murmurou. — E-eu não lembro…
Louie travou por um segundo.
— Ah… é verdade. Desculpa. — Ele desviou o olhar, sentindo o peso da própria pergunta.
— N-não… Tá tudo bem…
Um silêncio angustiante se instalou entre os dois, os olhares evitando se encontrar.
Caminharam assim por alguns minutos, lado a lado, envoltos numa quietude desconfortável.
Até que a menina quebrou o silêncio.
— Louie… — murmurou, em voz baixa.
— S-sim…? — respondeu ele, no mesmo tom, meio receoso.
Os olhares de ambos tremiam, perdidos e cheios de dúvidas.
— Você… não tem medo…? — questionou a menina, com o olhar baixo.
— Depende do que seja… afinal, eu tenho muitos medos… — o olhar de Louie não mentia, cada medo passava vividamente por sua mente.
— Medo de… não se lembrar… ou ficar sozinho… — sua voz saía fraca, quase inaudível.
Louie escutou atentamente as palavras da menina, soltando um pequeno sorriso antes de responder:
— É claro que sinto… tu não imagina o quanto sinto.
— É… é sério mesmo? — o olhar da menina voltou-se rapidamente para o garoto.
— Sim…
— Eu não pensei que tu se sentisse assim… — disse ela, olhando novamente para a frente.
— E por que você acha isso? — perguntou Louie, encarando a própria palma da mão à sua frente.
— Não sei exatamente… eu mal te conheço… mas você sempre passa uma sensação tão… alegre e gentil.
Ela desviou o olhar por um instante. A mente parecia correr por cada memória desde o momento em que despertara no hospital.
— Tirando aquele momento em que nos conhecemos…
Louie ficou em silêncio por alguns segundos.
O sorriso leve que costumava carregar suavizou, quase desaparecendo.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Entendi…
Os dedos dele se fecharam devagar, como se tentasse organizar os próprios pensamentos.
— Mas eu sinto isso, sim… e muito.
O olhar dele caiu para o próprio peito.
— Às vezes é como se tivesse um buraco aqui dentro… e nada do que eu faço consegue preencher.
O vento passou entre eles, balançando levemente os cabelos da garota.
Louie ergueu os olhos novamente, encontrando os dela.
— E… naquele momento em que eu te vi…
Ele hesitou, mas continuou.
— Eu senti como se eu finalmente tivesse uma chance de preencher esse buraco.
Sua voz saiu mais baixa
— Como se aquela frase que você disse… e o que eu senti quando te vi… pudesse ser a resposta pra uma ferida que eu nem sei quem, ou o quê, causou.
O silêncio que se seguiu não era mais constrangedor.
Era pesado.
Louie respirou fundo outra vez.
— Eu quero muito descobrir quem eu era… — murmurou. — Talvez assim… esse buraco pare de doer.
Os olhos da menina vacilaram.
— Desculpa… me desculpa por não lembrar de nada…
— Tu não tem que se desculpar. — Louie sorriu de leve. — Pra ser sincero… até fico um pouco aliviado de ter uma pessoa tão parecida comigo por perto. E, mais importante que isso…
Ele segurou a mão dela novamente, fazendo com que a garota erguesse o olhar, surpresa.
— Agora eu não preciso enfrentar o passado sozinho.
Os olhos da menina brilharam, tomados por algo que ela não sabia explicar.
Louie apertou de leve os dedos dela antes de completar:
— Então entende uma coisa… eu não tô sozinho.
Ele sustentou o olhar dela por um instante.
— E você também não.
Aquelas palavras foram o bastante para acender algo no peito da menina.
Por um breve instante, as dúvidas e o medo perderam força, como se o vento os tivesse levado embora.
— Agora, chega de papo chato. — Louie virou-se para a frente com um sorriso repentino. — Finalmente chegamos onde eu queria!
— C-chegamos…?
Os olhos roxos dela acompanharam o gesto dele.
Ao longe, entre os edifícios dourados e azulados, erguia-se uma gigantesca praça verde, viva, contrastando com o metal e o vidro ao redor.
— Bem-vinda à Praça Harmonia!
— Uau… — escapou dela, quase num sussurro, maravilhada.
— Vamos lá! — exclamou Louie, puxando-a pela mão antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
Assim que entraram na praça, o cenário mudou completamente.
Estruturas de vidro curvado se erguiam ao redor, lembrando folhas gigantes moldadas pela luz.
Luzes douradas artificiais percorriam o chão, espalhadas como pequenos fios luminosos que piscavam suavemente a cada passo.
Esculturas pairavam suspensas no ar, girando devagar, desafiando a gravidade como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
E, no centro de tudo, erguia-se um gigantesco obelisco flutuante.
Completamente azul.
Ele girava lentamente sobre o próprio eixo, liberando pequenos pulsos de luz que se espalhavam pela praça como ondas silenciosas.
Os olhos da garota brilhavam diante de tudo aquilo.
Até que uma voz infantil atravessou a praça.
— Olha! É o herói!
Um menino pequeno disparou na direção de Louie, correndo tão rápido que quase tropeçou nos próprios pés.
— Ayo! — Louie reconheceu na hora.
Logo atrás dele vinham mais três crianças, rindo e tentando acompanhar o ritmo.
— É ele mesmo! — gritou Niko, o boné virado para trás enquanto apontava animado.
Louie soltou uma risada e se abaixou para ficar na altura deles.
— E aí, Ayo? Quanto tempo! Luma, Niko, Zibi… vocês estão bem?
— Estamos! — responderam quase ao mesmo tempo, atropelando as próprias vozes.
Niko inclinou a cabeça, curioso.
— Louie… quem é essa menina do teu lado? — perguntou, apontando discretamente. — É sua namorada?
— “Q-que?! Namorada?!” — Louie e a garota pensaram ao mesmo tempo.
Os dois ficaram vermelhos quase instantaneamente, desviando o olhar e tentando esconder o rosto como podiam.
Ayo arregalou os olhos.
— Então ela é uma heroína também?
Luma cruzou os braços, pensativa.
— Eu não acho que heroína seja quem namora o herói, Ayo…
— N-não! Não é nada disso! — Louie se apressou, agitando as mãos, nervoso demais. — Ela é… é minha amiga!
Zibi, que raramente falava, ergueu a sobrancelha.
— Sério? Então por que vocês estão de mãos dadas?
— Hã? Como assim mãos dadas…? — Louie repetiu, confuso.
Foi só então que percebeu.
Ainda segurava a mão dela.
Os olhos dele desceram devagar até os dedos entrelaçados.
— Ah! N-não é nada disso! — soltou rápido demais, quase tropeçando nas próprias palavras. — A gente só tava assim pra não se perder!
Ele largou a mão dela de imediato, como se tivesse encostado em algo quente demais.
A garota virou o rosto, ainda vermelha.
— Entendi… — comentou Niko, segurando o riso. — Então tá.
Ele apontou para a praça enquanto dizia:
— Vocês querem jogar? A gente tá com um a menos. A Luma derrubou o Kaz na fonte… de novo.
— Eu não derrubei ele! — a voz de Luma ecoou ao fundo.
A menina, observando as crianças rirem e brincarem, deixou escapar uma risada curta, porém genuína.
O grupo inteiro parou.
Todos os olhares se voltaram para ela.
Ayo foi o primeiro a falar.
— Nossa… moça, você é linda! — disse, abrindo um sorriso enorme.
A garota piscou, surpresa.
— O-obrigada pelo elogio… — respondeu, abaixando-se até ficar na altura dele.
Luma bateu palmas uma vez, impaciente.
— Tá, tá! Vamos jogar logo! Quanto mais gente, melhor! Você vem também, moça!
— Hã? Eu? Mas eu nem sei como jog—
Ela nem conseguiu terminar.
Louie segurou uma de suas mãos, enquanto as crianças puxavam a outra.
— Confia em mim, tu aprende melhor jogando! — disse Louie, soltando uma risada alta.
E, antes que pudesse protestar, já estava correndo junto com eles.
Entre tropeços, risadas e gritos animados, a tarde passou rápida demais. Quando se deram conta, o céu já começava a escurecer, tingido por tons alaranjados e violetas.
Caminhavam novamente em direção ao hospital, ambos com um sorvete que mudava de cor nas mãos.
— Hmm, que sorvete gostoso! — disse Louie, com o canto da boca sujo de creme colorido.
— É verdade… — concordou a menina, observando o próprio sorvete mudar lentamente de azul para rosa.
Louie deixou escapar uma risadinha divertida antes de continuar.
— Sorte a nossa que, por algum milagre, apareceu aquele moço estranho no meio do jogo oferecendo um mapa novo!
Ele fez um gesto exagerado com a mão livre, quase derrubando o sorvete.
— Agora a gente sabe onde fica o Hospital Central!
A lembrança pareceu atingi-lo de novo. Louie soltou uma risada e levou a mão à testa, como se estivesse vendo a cena outra vez.
— Mas vamos combinar… aquele cara era muito estranho!
Ele começou a enumerar nos dedos.
— Aquele bigode ridículo… os óculos pretos… e aquela peruca branca horrorosa!
Balançou a cabeça, incrédulo.
— E ainda saindo por aí oferecendo mapas de graça! Só podia ser muito esquisito mesmo! Hahaha!
— “Homem estranho com um bigode ridículo!? Esse moleque é muito ingrato mesmo!” — pensou Jax, escondido atrás de uma árvore, espiando Louie à distância, ainda usando o bigode torto e a peruca branca do disfarce.
Ele cruzou os braços, bufando em silêncio.
— Mas foi graças a ele que descobrimos como chegar ao hospital — comentou a menina de olhos roxos, com um sorriso leve… leve demais para alguém que, no fundo, não queria que o dia acabasse.
Louie piscou, como se tivesse sido puxado de volta à conversa.
— É verdade! — respondeu, apressando-se em recuperar o entusiasmo de sempre.
— Louie…
— Que foi?
A garota hesitou por um instante. Seu olhar vacilava, como se buscasse palavras no fundo do vazio de suas memórias.
— Muito obrigada por hoje… — sussurrou, baixo. — Eu me diverti bastante, graças a ti…
— Nem esquenta! — respondeu Louie, com um sorriso rápido. — Eu também me diverti muito.
Ela respirou fundo, apertando forte o punho esquerdo.
— Mesmo assim… eu espero que possamos fazer isso de novo alguma-
— Garoto…
A voz veio de repente, calma e firme. Um idoso alto, de cabelos grisalhos e olhos brancos, permanecia parado atrás de Louie, observando-os com atenção.
Os olhos de Louie e da menina se voltaram ao mesmo tempo para a direção de onde a voz viera.
Jax, ainda oculto atrás da árvore, franziu a testa.
— “Quem é esse cara?! Eu não senti a presença dele se aproximando!” — pensou, colocando-se em posição de combate, pronto para agir a qualquer sinal.
O idoso permaneceu parado, um sorriso calmo e simpático no rosto.
— Sabe me dizer onde estamos? — perguntou, a voz firme, porém gentil.
Louie desviou o olhar, surpreso. Um arrepio percorreu seu corpo, como se algo estranho e inexplicável tivesse acabado de atravessá-lo.
— Garoto? — chamou o velho novamente, a voz suave cortando o ar da praça.
Louie piscou, voltando à realidade.
— Ah, claro! — disse, inclinando-se sobre o mapa. Seus olhos percorriam rapidamente cada traço. — Hm… estamos na Rua da Forja, no Distrito Áureo.
O idoso inclinou levemente a cabeça, atento.
— Entendo… saberia me dizer algum ponto de referência por aqui? Como pode ver, sou cego, mas vivi neste lugar por tanto tempo que, se conhecer o entorno, consigo me localizar.
Louie franziu a testa, pensando com cuidado.
— Ah, entendi! Claro que consigo! — disse Louie, tentando se lembrar do que havia visto. — Seguindo essa rua mais atrás, tem uma arena de combate gigantesca. Já mais à frente, há uma área industrial com várias lojas.
O velho sorriu levemente, acenando com a cabeça, absorvendo cada palavra com atenção tranquila.
— Certo, muito obrigado, meu jovem! — o idoso levou as mãos aos ombros do menino. — Obrigado por ajudar este pobre velho!
— Não foi nada! Hahaha — respondeu Louie, coçando a nuca, envergonhado.
Os olhos do homem, então, de forma quase imperceptível, desviaram-se para o peito de Louie.
— Aceite isso como retribuição… — cochichou, tão baixo que mal parecia sair som.
— Senhor? Desculpe, não consegui te ouvir… — disse Louie, se aproximando mais um passo.
O velho inclinou levemente a cabeça.
O sorriso permaneceu, mas havia algo estranho nele… não parecia olhar para Louie… mas para algo além dele.
Seu dedo indicador deslizou até o peito do garoto, tocando-o com cuidado.
— O que foi rompido… eu posso unir novamente. — murmurou.
Fez uma breve pausa, o olhar fixo em um ponto que Louie não conseguia alcançar.
— Mas não por completo.
— Hã…? Como assi-
Em um instante, a visão de Louie se apagou, como se sua consciência fosse puxada para o fundo de si mesma.
— “O-o que!? Por que ficou tão escuro do nada!?
O mundo perdeu sua forma, sua cor e seu peso. Restou apenas a voz do velho, distorcida, ecoando sem direção dentro da cabeça do garoto.
— Seria uma lástima conter sua evolução novamente… — sussurrou, quase com afeto. — Por isso… cresça ainda mais.
Quando a visão clareou e o controle voltou, Louie arfou.
Seus braços e o tronco estavam tomados por uma gigantesca corrente rachada, esticada ao limite, prestes a se partir.
No instante seguinte, a corrente se recompôs, mantendo em suas superfícies algumas poucas imperfeições.
Ela se fechou… e então cedeu.
Seus elos afrouxaram levemente, liberando uma breve pulsação de energia azul, que atravessou seu corpo e desapareceu rapidamente.
— “O-o que…? Por que…?”
Louie olhou ao redor. As pessoas seguiam seus caminhos, indiferentes, como se nada tivesse acontecido.
— “Ninguém mais está vendo essas correntes…?”
Seus olhos buscavam desesperadamente por respostas, enquanto seu corpo tremia incessantemente.
— Lo… ie!?… o qu… foi?! — a voz distante da menina de olhos roxos o chamou, perguntando se ele estava bem.
Sua cabeça girava, o coração martelando alto no peito, cada batida ecoando como um tambor em seu peito.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz calma o atravessou, tirando-o daquela imagem trêmula e aterradora.
— Está tudo bem, garoto? — perguntou o velho, com o mesmo tom gentil de antes.
Louie levou rapidamente a mão à testa, cambaleando para não cair.
— Ah… e-está, sim… — respondeu, com os olhos tremendo. — “Que merda foi aquilo…?”
— Bom, muito obrigado pelas informações! Vou indo nessa. Se cuide por aí… garoto.
O idoso virou as costas e foi embora, deixando para trás uma dúvida pesada no peito de Louie.
— “Aquilo foi coisa da minha cabeça…?”
— Louie, tem certeza de que está bem? — questionou a menina de olhos roxos.
— Ah, sim, sim. Tô bem, sim. Só fiquei meio tonto… acho que foi o cansaço de ter jogado tanto Hiperbola mais cedo!
— Faz sentido… — disse a menina, soltando uma risada leve e curta.
Ainda em prontidão para agir, Jax, escondido atrás da árvore, suava frio.
— “Foi impressão minha, então?” — pensou ele. — “Devo estar ficando paranoico por ficar de babá desses moleques. Quero uma folga.”
— Certo, vamos pro hospital? — perguntou Louie. — Já deu o horário de encontro com o Kael.
— Vamos, sim! — respondeu a menina, com um sorriso resplandecente.
Assim, aproximava-se o fim daquele longo e memorável passeio pela cidade de Áurea.
O vento que os levara, agora cessava seu soprar.
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CURIOSIDADE 15
O Corte Mestiço é uma carne artificial desenvolvida a partir da fusão controlada de tecidos cultivados de boi e javali. Criada em biofazendas da Zona Oeste de Áurea, busca unir a maciez do bovino ao sabor intenso e rústico do javali, resultando em uma carne robusta, porém acessível ao paladar comum.

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