Capítulo 41: Fragmentos suspensos
‼️Motivo‼️
Peço desculpas a todos. Sei que o capítulo 41 de O que eu deixei para trás, intitulado “Fragmentos Suspensos”, deveria ter sido publicado ontem, dia 01/03/26, às 18h.
No entanto, acredito que ocorreu algum bug na Illusia, pois minha barra de autor não estava aparecendo. Por isso, optei por realizar a postagem hoje, 02/03/26, um pouco mais cedo.
Peço desculpas novamente pelo inconveniente e agradeço a compreensão de vocês.
Agora, fiquem com o capítulo!
Poucos minutos depois do jardim...
Louie e Aya andavam lado a lado pela calçada de Áurea.
As luzes da cidade começavam a acender, refletindo nas fachadas, aquecendo o ar frio da noite.
— O Louie… só agora eu me toquei — disse Aya, desviando o olhar para as vitrines iluminadas — por que tu vive indo em cafeteria se tem café de sobra em casa?
Ele se espreguiçou, indiferente à pergunta.
— Sei lá. Coisa paga sempre parece melhor.
Aya riu baixo.
— Parece ou tu acha?
— Qual a diferença?
Ela balançou a cabeça, observando a rua à frente.
— Deixa quieto…
Uma pequena cafeteria surgiu à frente, iluminada por luzes quentes que dissipavam a escuridão da noite.
O cheiro de café fresco e pão recém-assado escapava pela porta entreaberta.
Eles atravessaram rapidamente a entrada, o tilintar do sino cortando o silêncio da rua pouco movimentada.
Aya passou os olhos pelo lugar, vendo várias mesas de madeira, xícaras fumegantes e o brilho refletindo nas janelas.
— Nossa… é bem bonito aqui por dentro… — cochichou, observando o ambiente.
Louie acompanhou o olhar dela por um instante, e então ambos seguiram até uma mesa vazia no canto da parede, acomodando-se com cuidado.
— Verdade. — comentou, desviando a atenção enquanto tocava na tela de um pequeno tablet posicionado no centro da mesa. — Agora só falta saber se o café é bom também.
Aya apoiou o queixo na mão, o olhar se perdendo através da janela do estabelecimento.
— Louie… sobre o que tu acha que vai ser essa primeira missão que o Kael nos falou?
Ele demorou um segundo a responder, os olhos ainda presos à tela.
— Pior que não faço a menor ideia. — disse por fim, selecionando as bebidas.
Aya respirou fundo antes de continuar.
— Ele comentou outro dia que ia ser sobre alguma coisa envolvendo aquela cela estranha… — a voz dela ficou um pouco mais baixa. — Aquela em que tu ficou preso dois meses atrás.
No instante em que a palavra cela foi dita, os dedos de Louie hesitaram sobre o tablet. Seus olhos tremeram por um breve momento, quase imperceptível.
— E-entendi… — murmurou, forçando o toque final na tela antes de pousar o aparelho sobre a mesa.
Aya não percebeu a estranha reação do garoto e continuou:
— Tomara que seja. — disse, agora com um leve brilho nos olhos. — Quero entender logo quem eu era antes de tudo isso…
Ela sorriu, claramente empolgada com a ideia da missão.
O nervosismo de Louie, porém, se intensificou num instante.
O ar parecia mais pesado.
Seu peito apertou, a respiração ficando acelerada.
Um suor frio percorreu sua testa, como se o próprio corpo estivesse reagindo antes que ele pudesse pensar.
Era um reflexo.
Um instinto de defesa.
E então, antes que conseguisse segurar as palavras, elas escaparam.
— E por quê…? — questionou, com a voz fraca, os olhos baixos.
Aya piscou, surpresa.
— O quê? Como assim?
Louie apertou as mãos sobre as pernas, os dedos tremendo levemente.
— Por que a gente vai se envolver com eles de novo?
— D-desculpa, Louie… — ela recuou a cabeça, confusa. — Eu acho que não entendi…
Ele respirou fundo, como se cada palavra exigisse muito esforço.
— Nossa vida tá boa… — murmurou, em um tom baixo, porém pesado. — A gente tá feliz. Por que ir atrás deles?
Ele ergueu o olhar por um instante, o suficiente para encontrar o dela.
— Eles já mostraram o quão fortes são. Se a gente fizer algo de novo… — a voz dele falhou por um instante. — talvez o mesmo incidente de dois meses atrás aconteça outra vez…
Um silêncio pesado se formou entre os dois.
— Será que isso… vale a pena?
A pergunta de Louie carregava não só cautela, mas o receio de perder o que eles tinham conquistado.
Aya engoliu em seco.
— Mas… — começou, hesitante. — tu não quer descobrir qual é a relação deles com a gente?
Louie assentiu devagar, cada movimento carregado de tensão e medo.
— Eu quero. — admitiu, o olhar perdido em dúvidas. — Mas o risco é alto demais…
A voz dele tremeu, carregando as lembranças de tudo que passou naquele curto, porém agoniante momento.
— O Louie de dois meses atrás aceitaria uma missão assim sem nem pensar… — continuou, respirando fundo. — Mas agora… sei o que é quase perder quem se ama.
Ele fez uma pausa, pesando em cada palavra.
— Eu não quero perder a Emi, a Nina… o Kael… — a última parte saiu tão baixo quanto um sussurro. — Eu não quero perder você.
Louie apertou os dedos sobre a mesa.
— Vocês são meu único vínculo com esse mundo, Aya.
Aya sentiu o coração apertar por um momento.
— O-o que tu quer dizer com isso…? — perguntou, a voz saindo travada, ecoando baixo entre eles.
O medo estava estampado no semblante do garoto.
Louie manteve o olhar baixo por alguns segundos, os dedos cerrados sobre a mesa, como se precisasse de algo sólido para apertar antes de falar.
— A verdade, Aya… — ele respirou fundo. — é que eu tô feliz.
Aya piscou, surpresa.
— Eu finalmente sinto que me encaixei. Que sou eu mesmo. — a voz dele tremia, mas não vacilava. — Tem pessoas que eu amo. Tem coisas que eu gosto. Claro, eu ainda sinto o latejar do vazio de quem eu fui… mas agora…
Ele ergueu o rosto devagar.
— …agora eu sinto muito mais medo de perder alguém importante pra quem eu sou hoje.
As palavras saíram quase num sussurro.
Uma lágrima escapou pelo olho esquerdo de Louie, descendo sem pressa até cair sobre a superfície da mesa. Depois outra. E mais uma.
Aya prendeu a respiração.
— Louie… — os olhos dela tremeram, o peito apertando enquanto finalmente compreendia. — E-eu…
Antes que conseguisse continuar, um pequeno sino soou ao fundo do café.
Tilim.
Louie estremeceu levemente, como se aquele som o puxasse de volta à realidade.
Ele levou a mão ao rosto, limpando as lágrimas com rapidez, e forçou um sorriso que não alcançou a máscara da verdade.
— O-olha… é o nosso café. — disse, evitando encará-la. — Vou lá buscar. Espera aqui que eu já venho.
Sem dar espaço para resposta, ele se levantou depressa, os dedos ainda trêmulos sobre o ar, e avançou até o balcão, passando com cuidado entre mesas vazias e ocupadas.
Aya o acompanhou com o olhar até ele se afastar por completo, sentindo cada passo dele ecoar sobre o chão de madeira.
— “Que estranho… é a primeira vez desde que conheci o Louie que vejo ele chorar assim.”
Ela apertou as mãos no colo, sentindo o suor escapar entre seus dedos.
— “Eu entendo o medo dele. Depois do que me foi dito que aconteceu… da Emi e da Nina terem sido feitas de refém…”
A ideia apertou seu peito, fazendo sua respiração falhar por um instante.
— “Mas lembro dele no hospital, desesperado, perguntando o que eu sabia… implorando por alguma resposta sobre quem era…”
Os olhos de Aya se buscavam por respostas, perdidos entre o tilintar distante de xícaras e o chiar que subia das chaleiras ferventes atrás do balcão.
— “O que aconteceu nesses dois meses… pra fazer ele temer tanto assim buscar quem ele era?”
Ela desviou o olhar para a própria palma aberta, sentindo o vazio que parecia se espalhar entre seus dedos.
— “Mas… e eu?”
Engoliu em seco, sentindo o aroma forte do café percorrer a cafeteria, um cheiro doce que parecia desafiar o gosto amargo das incertezas em seu peito.
— “Como eu me sinto ao arriscar o pouco que tenho pra ir atrás de quem eu era? Eu sei que conheço o Louie, a Emi, a Nina… todos… há pouco tempo…”
Sua mente estava agitada, e cada gesto do barista, acompanhado pelo tilintar do sino no balcão, embaralhava ainda mais seus pensamentos.
— “…ainda assim… eles são tudo o que eu tenho agora.”
Ela respirou fundo, tentando se recompor, enquanto via ao longe Louie se aproximando com cuidado, equilibrando os dois cafés nas mãos.
O vapor subia devagar, envolvendo o ar em uma neblina delicada que tornava ainda mais enevoada a percepção que ela tinha do garoto.
— Voltei. — disse Louie, aproximando-se da mesa com um sorriso forçado, tentando esconder a tensão que corria pelos dedos, fazendo o café diante dele ondular suavemente.
— Louie… — chamou Aya, a voz baixa, carregada de preocupação.
— Vamos esquecer o que eu falei antes. — ele a interrompeu rápido.
Essas simples palavras pareciam tentar apagar as manchas de seu breve choro gravadas na mesa de madeira, mas falhavam inevitavelmente.
— E vamos experimentar esse café, que parece delicioso.
Depositou uma das xícaras à frente dela com cuidado, os dedos passando levemente pela borda quente.
Pegou a outra xícara, levando-a até a frente de onde estava sentado anteriormente, e respirou fundo antes de tentar soar alegre.
— A gente tem bastante tempo pra pensar sobre aquilo depo-
Porém, interrompendo sua fala, e impedindo Louie de pousar a xícara sobre a mesa, um estouro seco e violento ecoou pelas paredes da cafeteria.
O som não foi de algo caindo.
Foi de algo atravessando.
O chão tremeu sob seus pés. As luzes se atrasaram. O ar pareceu ser arrancado do ambiente.
— O qu-
Louie não chegou a terminar.
Em um movimento rápido demais para ser acompanhado, uma figura atravessou o salão. Um homem alto e musculoso, vestindo uma túnica azul-clara, avançou como uma lâmina em linha reta.
Seus cabelos longos e cinza ondulavam atrás de si, soltos, flutuando no ar pela alta velocidade.
Aya piscou.
E Louie já não estava mais ali.
O homem agarrou Louie com precisão, um braço firme envolvendo seu torso, o outro sustentando o movimento.
Não houve impacto direto.
Foi uma arrancada perfeita.
No instante seguinte, os dois atravessaram a parede oposta da cafeteria.
— “L-Louie!” — o pensamento escapou de Aya muito antes do som poder se manifestar.
Seu corpo tentou se mover, porém não conseguiu.
Aquilo era rápido demais…
Ainda assim, entre os cacos suspensos no ar, Aya tentou acompanhar a figura desaparecendo pelo buraco aberto na parede.
Não viu o rosto.
Não viu os olhos.
Aquilo ultrapassava qualquer tempo que o corpo dela conseguia reagir.
Mas… por um breve relance, viu um grande símbolo gravado nas costas da túnica azul-clara.
Um olho aberto, de contorno branco e frio.
E, em sua pupila… uma ampulheta.
O coração de Aya disparou.
— “O… o que foi isso…?” — pensou, rápido demais para as palavras saírem.
Seu olhar ainda estava fixo no buraco na parede.
A ideia finalmente teve tempo de se formar.
Eles levaram o Louie.
Seu peito apertou. O ar parecia não chegar mais aos pulmões.
E assim… o mundo recuperou seu tempo.
CRASH.
O som do concreto se despedaçando ecoou tarde demais. Vidros explodiram em todas as direções, mesas foram arremessadas, e uma nuvem espessa de poeira e estilhaços engoliu o ambiente.
O cheiro de café quente se misturava ao de cimento partido e vidro queimado.
Com um atraso cruel, a xícara de Louie, que ele ainda segurava antes de tudo acontecer, escorregou no ar vazio.
A porcelana se espatifou no chão da cafeteria, espalhando café quente entre os estilhaços.
Logo após, o caos chegou à cena.
— O QUE ACONTECEU!?
— TÁ TODO MUNDO BEM!?
— TEM ALGUM FERIDO!?
— ALGUÉM CHAMA AJUDA!
Os gritos ecoaram por todos os lados, mas Aya mal os ouvia.
As mãos dela começaram a tremer.
— Não… — sussurrou, enfim dando um passo à frente. — Isso… isso não pode…
A poeira começou a baixar.
O espaço vazio onde Louie estava em pé momentos antes se destacava pela ausência.
Aya sentiu suas pernas falharem e caiu de joelhos entre os cacos de vidro espalhados pelo chão.
Aya fechou os olhos com força.
E o grito que veio depois foi pior do que o estrondo.
— L-LOUIEEE!!!

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