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Capítulo 42: Quedas em desordens
CAPÍTULO ANTERIOR:
— Não… — sussurrou, enfim dando um passo à frente. — Isso… isso não pode…
A poeira começou a baixar.
O espaço vazio onde Louie estava em pé momentos antes se destacava pela ausência.
Aya sentiu suas pernas falharem e caiu de joelhos entre os cacos de vidro espalhados pelo chão.
Aya fechou os olhos com força.
E o grito que veio depois foi pior do que o estrondo.
— L-LOUIEEE!!!
Alguns minutos antes — Áurea: Base de Comando.
Kael, de olhos castanhos atentos e cabelos brancos presos para trás, estava sentado em sua cadeira, diante da escrivaninha.
Vestia uma camisa social branca, com as mangas dobradas até os antebraços.
Com movimentos calmos, mexia brevemente em um amontoado de papéis espalhados à sua frente.
A sala da Base de Comando era quieta.
As paredes de concreto polido exibiam algumas marcas deixadas pelo tempo, repletas de painéis holográficos riscados e mapas de cada Zona da cidade fixados em suportes metálicos.
Uma luz fraca descia da lâmpada do teto, concentrando-se principalmente sobre a mesa de trabalho, onde a papelada estava espalhada.
Não havia nada ali que trouxesse conforto, apenas funcionalidade.
Pela porta lateral, uma silhueta conhecida adentrava o cômodo.
— Essa sala continua tão fria quanto sempre… — a velha voz feminina ecoou pelo ambiente, rouca.
— É impressão sua. — respondeu Kael, certeiro.
— Tenho certeza que esse não é o caso. — a voz vinha de Aura Silvani. Com cabelos laranjas lisos até os ombros e olhos castanhos, ela era membro da Trion, conhecida como Pináculo da Experiência.
Seus olhos varriam Kael, lendo atentamente alguns papéis.
— O que veio fazer aqui? — questionou Kael, sem se alongar muito.
— Isso é jeito de falar com sua mestra? — Sua voz saia com certo deboche. — Quer impedir ela de ver seu pequeno e pobre pupilo?
— Claro que não. — Kael batucava seu dedo indicador levemente na mesa, sem tirar os olhos do papel. — Só é incomum a sua visita.
A mulher se aproximava da mesa, observando atentamente seu aluno.
— Como foi o exame da OPKM sobre a Inércia Zero Absoluta? — perguntou, sentando em frente à escrivaninha de Kael.
— Foi como o esperado. Eu realmente atingi esse patamar. Só não sei quando a informação oficial vai sair.
— Entendi… o teste realmente era tão ruim e doloroso quanto o Daltro falava? — questionou Aura, com um sorriso nostálgico.
— Não, eles só tiraram meu sangue para analisar a velocidade de movimento isolada de cada célula. Em resumo, aquele desespero todo dele era puramente por seu medo de agulha. — disse Kael, com um breve sorriso sincero.
— Verdade! — concordou a mulher, rindo.
— Inclusive, pelo que eu fiquei sabendo, possivelmente não fui só eu. Estavam dizendo lá que o Ryusei do Japão, o Femi Adebayo da Nigéria e o Yuri Aruanã, daqui do Brasil, atingiram esse nível também. — falou o comandante, depositando sobre a mesa os papéis que lia.
Enfim, seu olhar se encontrou com o de sua mestra.
— Nós já sabíamos que estávamos próximos desse patamar, mas muitos atingiram isso em pouco tempo. — continuou. — A OPKM tá uma loucura.
Kael então apoiou os dois cotovelos na mesa.
— A previsão é que uma boa parte dos outros Decastellum chegue à Inércia Zero Absoluta ainda este ano.
A mulher responde com uma leve risada.
— Que interessante… não lembrava de tu ser tão fofoqueiro assim.
— Se fosse pra falar isso era melhor nem ter falado nada. — respondeu Kael, com um olhar de desdém.
— Vou lembrar disso na próxima. — respondeu Aura, cheia de deboche. — Mas me diga, como está indo o treinamento de Louie e Aya?
— Ambos evoluíram muito. — Kael falou com calma. — Em termos de corpo Kaelum, estão próximos de um Millestellum de ranking baixo. Aya já era muito acima do normal para a idade, especialmente na potencia de sua síntese de gravidade. Já Louie teve um grande impulso graças à super força.
— E em relação aos poderes? — perguntou Aura.
— Ainda estão pouco desenvolvidos e controlados. — Kael cruzou os braços.
— Mesmo assim, é impressionante chegarem a isso. Aqui em Áurea, dá para contar nos dedos as crianças da idade deles que atingiram esse patamar. — Aura apoiou o queixo na palma da mão.
— Você se refere aos Sex Lux Cras? — questionou o comandante. — Os seis estudantes das escolas Éteris, Venturis e Ignis… a chamada nova geração de Áurea, que vêm demonstrando grande potencial em combate, estratégia e pesquisa?
— Eles mesmos. — Um leve sorriso surgiu no rosto de Aura. — Esses jovens talvez sejam o futuro de Áurea, assim como os vigilantes e Elian são hoje… ou como você, Veltor, Daltro, Lira e… Aiden Silvani eram chamados.
— Aiden… — um sorriso nostálgico surgiu em seu rosto.
— Hoje em dia ele estaria com quarenta e um anos, assim como você, Kael.
— É verdade…
Kael ficou em silêncio por um instante antes de soltar um pequeno suspiro.
— Mas você está certa. Pelos boatos que ouvi, essa pode ser a geração mais talentosa já registrada na história de Áurea.
— Com certeza. — A mulher cruzou as pernas com elegância. — E como está seu relacionamento com Veltor?
O comandante desviou o olhar.
— Durante esses últimos dois meses tentei conversar com ele… sobre o que vi no Reino Mental. Mas Veltor sequer me deu a chance de explicar.
— Entendi… uma hora vai dar certo. Ele pode estar ressentido contigo, porém ainda assim é teu irmão. Mesmo não sendo de sangue, ele com certeza te ama de verdade. Isso é algo incontestável. — disse a voz da experiência, levantando-se e indo em direção à porta.
— Espero que você esteja certa…
— Bom, vou me retirar por agora. Mas saiba que meu amado pupilo pode me fazer uma visitinha a hora que quiser.
— Certo, certo. Já vai tard- — começou Kael, mas foi interrompido.
Uma gritaria explodiu na entrada da base de comando.
— VOCÊ NÃO PODE ENTRAR AQUI ASSIM, GAROTA! — gritava um guarda, bloqueando a passagem de Aya.
Aura, que já estava próxima da saída, parou no meio do passo.
— Eu preciso falar com o Kael urgente! — disse a menina.
— O COMANDANTE ESTÁ EM SUA SALA. NÃO PERTURBE ELE E SAIA LOG…
— Chega. — a voz de Kael ecoou enquanto sua silhueta surgia no corredor. — Deixe-a entrar.
O guarda recuou imediatamente, permitindo a entrada de Aya.
— Kael!
— Aya, o que aconteceu? — disse o Pináculo da Força, aproximando-se. — Por que todo esse desespero? E por que não usou o cartão de acesso que te dei?
— Ele não está comigo! — cortou a menina, em tom urgente. — I-isso não importa agora! Levaram ele, Kael!
— Que? — o comandante franziu a testa, confuso.
— N-nós estávamos no café até que…! Até que, do nada, uma explosão aconteceu e um cara com um olho grande e uma ampulheta nas costas… apareceu… e-e…
— Um olho… e uma ampulheta? — murmurou Aura, quase para si mesma.
Kael lançou um olhar rápido para sua mestra, percebendo a mudança em sua expressão.
— AYA! — exclamou ele em seguida, voltando a focar na garota. — Seja objetiva. Quem foi levado?
— O-o Louie… — sua voz falhou por alguns instantes. — O Louie foi levado!
Os olhos de Kael ficaram sérios, focando na menina.
Aura permaneceu em silêncio atrás deles, o olhar agora muito mais atento.
— Rápido. Vamos entrar. Me explica o que aconteceu lá dentro. — disse Kael, avançando para dentro da base.
Aura virou-se junto com eles e os seguiu sem dizer mais nada.
Enquanto isso… — em algum ponto subterrâneo do mundo.
O salão se estendia nas profundezas da terra, esculpido diretamente na rocha negra.
A luz era escassa, engolida pelas paredes irregulares, fazendo com que o espaço parecesse a parte interna de um ser vivo, respirando lentamente.
O ar era pesado, denso o suficiente para esmagar instantâneamente os pulmões de seres tão insignificantes quanto humanos.
No centro do salão, uma longa mesa de reuniões atravessava o ambiente. Sete cadeiras a cercavam de um lado. Apenas quatro estavam ocupadas.
Na extremidade mais distante, acima de todos, erguia-se um trono assustador, fundido à própria pedra do chão.
Sobre ele, algo permanecia sentado.
Uma figura inteiramente coberta por sombras vivas, muito além da ausência de luz.
Elas se mexiam sutilmente, como se tivessem vontade própria, distorcendo e absorvendo quaisquer poucos resquícios de luz no ambiente. A silhueta tinha forma humana, porém sem qualquer traço de humanidade.
Seu simples existir, era a maior blasfêmia contra a própria realidade.
O silêncio reinava absoluto.
Então, uma voz suave quebrou o ar.
— Como você pôde permitir que algo assim acontecesse? — uma voz masculina, surpreendentemente doce, deslizou pela sala como o mais letal veneno misturado o mais doce mel.
O dono da voz estava recostado na cadeira, confortável demais para aquele ambiente.
Seu corpo se camuflava na escuridão, mas seus olhos rosados brilhavam com nitidez, assim como os cabelos lisos que caíam até o pescoço, refletindo um tom rosado cintilante.
Ele inclinou a cabeça lentamente, como se analisasse um ser defeituoso a frente.
— Fugir já seria vergonhoso o suficiente. Mas perder a posse da Segunda Casca… isso ultrapassa a incompetência, Sethros. Sinceramente, fico curioso sobre o que se passava na sua cabeça naquele momento.
A cadeira de Sethros se moveu com força. O som do atrito ecoou rapidamente sobre o silencioso salão.
Ele estava jogado de qualquer maneira sobre seu assento, uma perna pendurada, o tronco inclinado para frente. Seus olhos rosados ardiam de raiva, e ranger de sua mandíbula era não só audível, mas visível mesmo em meio a penumbra.
— Tu fala demais para o único apóstolo que mesmo após tantos experimentos, nem ao menos alcançou a Inércia Zero Absoluta.
A voz de Sethros era áspera, carregada de desprezo e desdém.
— Então por que tu não cala a porra da tua boca? — rosnou Sethros, furioso. — Tu não tem o direito de falar assim comigo, Forneus. Além de ser o mais fraco, é o apóstolo mais burro dentre todos nós também.
Forneus sorriu levemente, satisfeito com a reação explosiva de Sethros.
— Será mesmo? — respondeu, cruzando os dedos diante do rosto. — Porque, até onde eu sei… não fui eu que fugi de um simples Kaelum humano.
Sethros se inclinou ainda mais para frente, os dedos cravando no braço da cadeira.
— Tá querendo morrer seu desgraçado!?
A voz de Forneus surgia debochada.
— E tu teria essa coragem?
— Seu filha da put-
— CHEGA.
A palavra cortou o ar com violência.
A figura sentada entre eles se moveu o suficiente para ser notado.
Seu corpo permanecia oculto, mas seus cabelos negros eram visíveis, rígidos, alinhados com perfeição. Os olhos rosados observavam os dois com frieza total.
Com a postura ereta e as mãos jogadas sobre a mesa, ele continuou:
— O senhor Raziel não convocou uma reunião de emergência para assistir a uma disputa infantil de egos fracos.
O silêncio caiu de imediato.
Forneus desviou o olhar, o sorriso desaparecendo por um instante.
Sethros apertou o punho, recuando na cadeira, embora a raiva ainda fosse visível.
Alguns segundos lentos se passaram.
O silêncio retornou.
Mais profundo.
Mais pesado.
Então…
A sombra no trono se moveu.
Não de forma brusca, e mesmo assim, o chão vibrou levemente, como se algo absoluto tivesse se ajustado.
O ar se tornou ainda mais pesado, dificultando a respiração dos presentes na estranhamente vivida sala.
Quando a voz enfim ecoou, um aperto surgiu no peito de todos.
— Obrigado… Zazel.
Tão baixa quanto um sussurro, entretanto, tão pesada quanto um decreto.
— Darei início à reunião.
Nenhum dos apóstolos se opôs. Ou melhor… nenhum ousou fazer isso.
Zazel respirou fundo antes de falar novamente da forma mais respeitosa possível.
— E quanto ao apóstolo de Mammon?
A sombra o fitou rapidamente, antes de responder com sua voz grave.
— Não poderá comparecer. Mesmo sendo uma convocação de emergência, seria suspeito que deixasse Áurea sem um motivo plausível. E não houve tempo suficiente para forjar um álibi. Assim como deixei a consciência do Oblivyss com ele, para facilitar nosso contato.
Zazel se curvou para frente, agradecendo pela resposta.
— Entendi. Obrigado por responder tal pergunta tola.
Sethros, que antes transbordava agressividade, agora perguntava com um respeito quase impensável para alguém de sua personalidade.
— Mestre Raziel… se me permite, qual é o propósito desta reunião de emergência?
Um breve silêncio se infiltrou no salão.
A sombra no trono permaneceu imóvel.
— Eu… vou mudar a ordem das quedas.
Por um instante, ninguém reagiu. Então, quase ao mesmo tempo:
— O quê?
As três vozes ecoaram em uníssono.
Forneus foi o primeiro a recuperar a compostura diante a essa revelação.
— Haveria algum motivo específico para essa mudança repentina no plano, senhor Raziel?
A presença no trono se intensificou.
— Sim. — respondeu de forma simples. — Mas não posso revelar ainda.
Um curto silêncio reverberou pelo local.
— Aqueles que participarão da nova segunda queda serão: Sethros, Zazel e Forneus.
A sombra então se voltou levemente para uma silhueta completamente oculta em sombras ao lado de Zazel.
— Tannin permanecerá comigo.
Todos concordaram no mesmo instante.
— Entendido. — responderam, quase como um reflexo.
O silêncio voltou a dominar a sala.
Então Raziel ficou imóvel.
Por um breve momento, seu olhar pareceu se perder no vazio do inconsciente, como se algo intangível tivesse acabado de alcançar sua mente.
Seus dedos, feitos da mais pura escuridão, bateram lentamente contra a mesa.
— Interessante…
Sethros ergueu o olhar.
— O que houve, mestre Raziel?
A sombra inclinou levemente a cabeça, ainda processando a informação recém-recebida.
Então respondeu, com a mesma frieza de sempre:
— Era uma mensagem do apóstolo de Mammon, enviada a partir do Oblivyss… Louie Kaede foi sequestrado.
— Sequestrado!? Por quem!? — questionou Sethros, levantando-se em um pulo.
Todos olhares se voltaram atônitos para a sombra.
— Um grande olho… e uma ampulheta negra.
— O que…? — sussurrou Sethros, voltando a se sentar lentamente.
Raziel apoiou o queixo na mão, pensativo.
— Parece que as coisas ficaram ainda mais interessantes. Escutem com atenção.
A sala ficou em completo silêncio.
— Louie foi levado para o mesmo lugar que será a missão de vocês.
Os três permaneceram atentos.
— O objetivo de vocês é simples…
Seus olhos sombrios percorreram a mesa.
— …recuperar a minha criação chamada Kaelumnex.
A palavra ecoou na sala como o toque de um sino antigo.
— E… preparar a rachadura para a quebra de Louie Kaede.
Por um momento, os olhos de Sethros brilharam.
Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Preparem-se para partir imediatamente.
O olhar de Raziel percorreu todos os presentes antes de anunciar, por fim:
— O destino será… Vallheim Vestrak.

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