Capítulo 1: Quem... Eu sou?
Uma noite fria tomava Porto Alegre após uma chuva incessante. As ruas estavam vazias, as luzes fracas, e o vento constante mantinha as pessoas presas aos poucos lugares onde ainda havia abrigo.
Frente a todo esse cenário pós-tempestade, um pequeno bar se erguia de forma discreta em uma esquina qualquer.
Um local comum, quase inexistente quando comparado à grandiosidade da cidade. Por dentro, nada fugia do normal: mesas ocupadas sem seguir uma ordem definida, copos de bebida cheios, outros vazios, conversas baixas que se misturavam umas às outras.
Era apenas mais um lugar atravessando a noite fria, sem saber o que viria pela frente.
Acima do balcão, uma televisão antiga permanecia ligada em um canal de notícias, com o volume baixo, ofuscado pelas conversas ao redor.
Na tela, uma mensagem de emergência surgiu de forma inesperada.
A transmissão mudava para uma visão tremida de uma repórter diante de uma instituição de ensino.
⧙ Boa noite. Estamos ao vivo diretamente do bairro Rio Branco, na zona central de Porto Alegre, onde, poucas horas atrás, ocorreu o que autoridades já classificam como um dos maiores e mais hediondos crimes da história contemporânea. ⧘
Ao fundo, o local permanecia isolado por viaturas e fitas de segurança, enquanto as luzes vermelhas se refletiam nas fachadas ao redor.
⧙ Hoje, dia 4 de fevereiro de 2024, o mundo amanheceu em choque após o ocorrido no Colégio Península. Chamado de massacre sangrento, os dados reunidos nas últimas horas apontam mais de novecentas mortes, incluindo alunos, professores e funcionários da escola. ⧘
No mesmo instante, o som das conversas cessou. Olhares antes dispersos se voltaram para a televisão, agora atentos e assustados.
⧙ Este é oficialmente o maior massacre escolar da história. O impacto da tragédia ultrapassou fronteiras, provocando comoção internacional e mobilizando líderes mundiais. ⧘
Após uma breve pausa, a repórter continuou, com pesar na voz:
⧙ Até o momento, nenhum dos responsáveis por essa atrocidade foi identificado. As autoridades afirmam que os criminosos desapareceram sem deixar rastros. ⧘
A reportagem exibiu imagens borradas do interior da escola, com corpos visíveis ao longo dos corredores, concentrando-se em maior número na quadra central.
⧙ Apenas cinco estudantes do ensino médio sobreviveram. Quatro deles estavam no banheiro no momento do ataque. De acordo com seus depoimentos, tudo aconteceu de forma abrupta: ouviram um som alto, seguido de gritos. Ao deixarem o local, encontraram corredores tomados por corpos e sangue espalhado pelas paredes até a quadra central. ⧘
Um clima de desconforto se espalhou pelo bar.
⧙ Entre os sobreviventes, apenas um jovem esteve diretamente presente durante o massacre. Seu nome é Louie Kaede. ⧘
A tela mostrou uma foto antiga, seguida por outra, mais recente do garoto.
⧙ Antes do ataque, Louie possuía cabelos pretos e olhos azuis. Após o ocorrido, médicos constataram o surgimento de mechas brancas nos cabelos, palidez evidente da pele e uma alteração significativa em seu olho direito, que agora apresenta coloração avermelhada. ⧘
A transmissão prosseguiu.
⧙ Segundo especialistas, as mechas brancas seriam resultado de estresse extremo e trauma severo. Já a mudança ocular foi diagnosticada como um dano que evoluiu para um quadro de heterocromia. ⧘
A câmera voltou para o rosto sério da jornalista.
⧙ O testemunho de Louie seria a principal esperança para o avanço das investigações. No entanto, médicos confirmaram que o jovem foi diagnosticado com amnésia pós-traumática, condição que bloqueiou completamente as memórias relacionadas ao evento e toda a sua vida anterior, um fenômeno que especialistas afirmam não ter registros semelhantes na medicina moderna. ⧘
Ela fez uma breve pausa.
⧙ Para esse garoto, sobreviver acabou significando perder tudo. ⧘
A televisão seguiu ligada no bar, mas ninguém voltou a falar uma frase sequer. A notícia permanecia suspensa no ar, embrulhando a garganta de todos que a ouviam.
Silêncio.
Um silêncio tão intenso que se tornava um grito angustiante.
Era tudo o que existia naquela estranha e intimidadora sala branca.
Meu corpo estava pesado, como se os próprios ossos fossem feitos de ferro.
Até o menor movimento parecia pesar tanto quanto um carro.
Porém, mesmo contra o peso, o vazio e a própria estranheza da sala branca… eu me movi.
Pouco a pouco, eu sentia mais o meu corpo. Como se percebesse cada célula se movendo por cada veia ou artéria.
O que aconteceu?
Onde eu estava?
Quem… eu sou?
Várias perguntas dominavam minha mente.
Porém, todas foram cortadas como papel por um breve e simples som de batidas na porta:
Toc. Toc. Toc.
O som reverberou na sala branca, rompendo seu silêncio.
Logo após, uma voz, tão serena e calma quanto as ondas do mar perguntou:
— Bom dia! Paciente Louie, né? Posso entrar? — disse uma voz feminina, abrindo levemente uma pequena fresta da porta.
A voz não me era familiar, assim como nada ali. Porém, sem muitas opções e cheio de perguntas sem resposta…
— Pode… — Antes que eu pudesse terminar a fala, minha garganta congelou.
Que voz era aquela? Era a minha própria voz? Por que ela me parecia tão estranha e desconfortante?
— Paciente Louie? Está tudo bem? Vou abrir a porta — disse a doce voz, em resposta à minha frase incompleta, abrindo a porta por completo.
Revelando seus longos cabelos castanhos, reluzentes e lisos, e olhos como caramelo queimado, com uma máscara branca tampando a boca.
Sua reação ao entrar na sala e olhar em minha direção foi um choque.
Seu olhar caramelo estremeceu no mesmo instante em que encontrou o meu.
Seu corpo, coberto por tecido branco, se retraiu, como se quisesse voltar atrás no movimento.
Quase como se gritasse ao ver uma imagem assustadora.
Num instante, desviou os olhos para o lado. E, como se lutasse contra a estranheza e a repulsa, continuou:
— A-ah!.. Certo, c-como está se sentindo? — sua voz tremia, e o rosto parecia visivelmente desconfortável com a situação.
— Eu… estou bem. Só um pouco tonto… eu acho — respondi, tentando compreender a origem do desconforto da mulher à minha frente.
— E-entendi… Que bom que não teve nenhum ferimento sério… Após aquilo… sair com tão poucas sequelas é realmente um milagre… — Falou a enfermeira, ainda com o olhar desviado do meu.
Aquilo?
Ah, certo… Ela se referia a aquele local estranho, manchado por vermelho e corpos no qual acordei…
— vou chamar os seus parentes para virem lhe ver agora que acordou… Tudo bem? — respondeu a enfermeira, como se quisesse sair dali o mais rápido possível.
— Claro… sem problemas — respondi, observando apenas a sua silhueta já deixando a sala.
O que… havia deixado aquela moça tão assustada?
Seria alguma ferida? Uma cicatriz? Algum resquício do incidente?
Porém, uma dúvida tomava frente a todas as outras, como se uma foto em branco preenchesse em minha mente… Quem eram esses familiares?
Com apenas a imagem em branco na minha mente, enfim tomo forças para me levantar da cama fria daquela sala mal iluminada.
Apoio um pé de cada vez no chão, e com esforço, caminho lentamente em direção a frente de uma escrivaninha, posta abaixo de um espelho circular ao lado da cama.
Ao olhar o reflexo vindo do vidro… no mesmo instante, entendi todo o pavor e desconforto da enfermeira.
— Então foi por isso…? — disse, levando a mão ao meu olho direito, que pulsava em um vermelho vívido, como sangue.
A imagem refletida mostrava uma pele pálida, um olhar que se dividia entre céu e inferno — separados pelas simples palavras: esquerda e direita.
Cabelos pretos, manchados por mechas brancas e hostis.
Eu não sabia quem era aquela pessoa diante de mim.
Não sabia ao menos dizer se era realmente um humano… Muito menos se era apenas um.
O olhar vindo do meu olho direito, vermelho como sangue, era ameaçador, imponente e… nojento.
Eu não sabia explicar exatamente o sentimento que me invadia ao me encarar no espelho.
Mas uma coisa eu podia afirmar com certeza:
Seja lá de quem fosse aquela aparência, ou como eu a obtive, mesmo sem lembrar quem sou, o reflexo naquele espelho… não era eu.
E como uma badalada do destino, um grito estrondoso vibrou por todo corredor, do lado oposto à porta do quarto branco:
— IRMÃÃÃÃÃOOOOOOO!
Uma voz doce, quente como o sol, correu em direção à porta, e, como um raio, a empurrou com força, sem girar a maçaneta nem nada.
Diante de mim, surgiu uma pequena menina, por volta dos nove ou dez anos. Cabelos castanhos escuros, quase pretos, e olhos azuis como o próprio céu.
Essa foi a última visão que tive antes de ser completamente atropelado por seu abraço.
Um abraço tão quente quanto o sol, cheio de amor e carinho.
Mesmo sem saber quem era aquela menina… o calor vindo dela era real.
Os sentimentos que ela me passava eram inquestionáveis.
E os meus… mesmo sem reconhecê-la… também eram.
Logo atrás dela, apareceu uma mulher.
Cabelos loiros, como um ouro queimado. Vestido verde. E olhos castanhos, ainda mais claros do que os da enfermeira.
Ao entrar pela porta, correu direto em minha direção, e me abraçou com força.
Lágrimas escorriam como cachoeiras por seu rosto.
E, entre soluços banhados pela cachoeira, ela disse:
— Bem-vindo de volta… meu filho! — murmurou, afundando ainda mais o rosto encharcado no meu ombro.
Mesmo com o amor compartilhado naquele momento…
Mesmo com uma parte de mim vibrando a cada palavra delas…
Mesmo com meu olho esquerdo, azul como o céu, ficando encharcado como o mais profundo mar…
Eu não lembrava de nada.
Porém, havia uma única certeza dentro de mim:
Seja lá quem o antigo Louie era… ou onde ele está…
essas pessoas diante de mim agora são aquelas que ele mais amou no mundo.

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