Capítulo 209: Brigas Internas
Quando iniciaram a caminhada, todos estavam em silêncio.
As meninas, claramente irritadas, apenas trocavam olhares, e olhavam para baixo, para o chão congelado.
Renato sabia o que elas estavam pensando: naquele lago subterrâneo de águas frias que abrigava uma náiade. Certamente maquinavam formas de drenar toda a água e pescar a coitada da náiade!
“Elas são legais…” pensou ele, “… mas são meio ciumentas”.
No ar, linhas coloridas e translúcidas flutuavam, como fluxos de energia ou rios flutuantes feitos de pura luz.
— São as linhas de Ley — explicou Lua. — Elas correm por toda a Feéria, conectando locais de maior concentração de magia.
— Já li sobre isso uma vez — respondeu Mical. — Elas também se conectam com lugares importantes no mundo humano, não é?
— Até é, mas… essas conexões estão ficando mais raras a cada dia. Os humanos não lidam bem com essas coisas, sabe?
— O chão tá brilhando — apontou Lírica.
E realmente estava! Era como um musgo bioluminescente. A luz corria por aquele emaranhado de fios vegetais, se ramificando, se cruzando, como sangue correndo em veias e artérias.
Lua apenas sorriu.
— As Sílfides andaram ocupadas — disse ela.
Havia, também, árvores altas em formato de cone, no qual a luz do sol tocava suas folhas e, ao atravessá-las, reluzia como pedaços de arco-íris.
Próximas às árvores, brotava do chão um tipo de flor do tamanho de uma bola de basquete, das pétalas e folhas muito brancas, com um brilho azulado que tingia o ar em volta.
Minúsculos cristais de gelo flutuavam, conferindo ao ar um brilho sutil.
Não demorou, e todos começaram a lidar com aquela visita como se fosse uma excursão. À primeira vista, era só mais um grande deserto de gelo, não muito diferente dos desertos de gelo que têm na Terra. Mas se prestar atenção aos detalhes…
Tump!
— O chão tremeu! — alertou-se Renato.
Tump! Tump!
— Tremeu de novo — observou Lírica.
O grupo olhou em volta, procurando a fonte dos tremores.
Lua deu risada, sabendo que não havia motivos para se preocupar. Ainda…
— Ali! Parece que a neve tá se mexendo! — apontou Jéssica.
— Eu tô vendo! — disse Irina. — Tá mesmo se mex… não! Não é neve! Aquilo tem braços! Eu vi um braço!
— E tem olhos! — complementou Mical. — Tá olhando pra gente.
Tump! Tump!
A cada passo da criatura, o chão vibrava feito um gongo.
— Aquela coisa tá vindo em direção — disse Clara, com calma. — Melhor pegarmos as armas.
— Não, não! Não vai ser preciso arma nenhuma! — retrucou Lua.
Foi difícil ver no início do que se tratava, porque a pele da criatura era da mesma cor de toda a neve em volta, então ela se camuflava bem a ponto de quase parecer invisível.
Mas, conforme se aproximava, foi mais fácil identificar.
Era um gigante. Seu corpo musculoso tinha cerca de sete metros. Os braços eram longos e ultrapassavam os joelhos. Seu rosto, carrancudo e de expressões bem marcadas, trazia uma barba branca e longa que descia em direção ao peito; e no alto da cabeça, tinha um par de chifres.
— É só o velho Frosti — disse Lua. — É inofensivo.
— Não parece nem um pouco inofensivo! — retrucou Irina.
Com aquelas pernas gigantes, não demorou para que Frosti os alcançasse.
A criatura fez uma pequena, porém respeitosa, reverência ao olhar para Lua.
— Senhorita! Sua mãe estava preocupada. — A voz dele era grave e profunda, e soava como o som das nevascas.
— Minha mãe se preocupa demais.
— E a senhorita se preocupa de menos.
Lua deu de ombros.
— Eu estava apenas resolvendo algumas… — Ela limpou a garganta —, algumas questões.
— Trouxe visitantes. Sua mãe não vai gostar.
— Ela não gosta de nada mesmo! Agora, se me dá licença, Frosti, eu tenho um casamento para estragar!
O gigante balançou a cabeça, demonstrando desaprovação, mas não disse mais nada, apenas continuou andando, seguindo seu caminho sabe-se lá para onde.
O grupo de visitantes ficou olhando aquela criatura de proporções colossais se afastar.
— Como o gelo aguenta? — perguntou Mical.
— Como assim? — Lua ergueu uma sobrancelha.
— Embaixo da gente tem água, não tem? Então, o gelo que estamos pisando é só uma casquinha. Como essa casquinha não quebra com o peso do gigante Frosti?
Lua ponderou por uns instantes a pergunta de Mical. Então, soltou uma gargalhada divertida.
— Ai, Mical, só você pra pensar nesse tipo de coisa!
— Agora que você falou, eu também tô meio que curiosa, sabe? — disse Irina.
— É simples — respondeu Lua. — Quando ele pisa no chão, toda água em baixo congela instantaneamente, oras! Agora, vamos indo porque já perdemos tempo demais!
— Espero que ele pise bem em cima da náiade e ela fique presa num pilar de gelo subterrâneo pra sempre… — murmurou Lírica, antes de se pôr a caminhar.
— Que maldade…! — replicou Lua.
Eles caminharam por vários quilômetros, atravessando aquele deserto gelado. Os pés afundavam na neve fofa. O ar gelava o peito ao respirar.
— Senhorita Luaaaaaaa! Senhorita Luaaaaaaa! — Um grito estridente cortou o silêncio gélido. — Senhorita Luaaaaaa!
A elemental parou.
— Droga!
— Droga por quê? — Clara ergueu uma sobrancelha.
— Porque minha mãe mandou um xereta!
O homem que se os alcançou era esguio. Mais alto que Renato, mas com certeza pesava menos. Usava um chapéu de folhas congeladas e um estiloso fraque branco que, para a percepção de Renato, se parecia muito com a roupa do Visconde de Sabugosa.
— Senhorita Lua! Finalmente te alcancei!
— Droga! Como me achou? Eu até coloquei um Glamour no caminho para…
— Sim, para enganar minha percepção. Eu sei, senhorita! Mas deveria saber que esses truques infantis não funcionam comigo. Agora, vamos voltar para o castelo!
— Ela tem um castelo?
— Sim, foi o que ouvi!
— Um castelo!
O cochicho de fofoca se espalhou entre as meninas.
— Então ela é uma garota de gelo playboy! — concluiu Irina.
— Garota do gelo playboy não! Uma marquesa! — retrucou Lua, cheia de orgulho.
— Marquesa infante! — corrigiu o homem do chapéu de folhas. — Ainda falta muito para se tornar marquesa de fato. Agora vamos indo!
Voltaram a andar.
Clara se aproximou de Renato.
— Percebeu que tá se metendo num casamento entre nobres? É assim que as pessoas terminam no cadafalso ou na guilhotina. Sabe disso, não sabe?
— Vou tentar manter meu pescoço no lugar.
— Ninguém vai guilhotinar meu irmão! — rebateu Irina. — Eu mato todo mundo antes!
— Não! — replicou Tâmara. — Eu que mato! Eu sou mais forte.
— “Mais forte”?! Humpf! Você é só uma zumbi! Garota zumbi!
— Zumbi ou não, meu corpo é mais quente que o seu! E o Renato já sentiu o calor, não é Renato?
— Agora já chega! Eu vou meter um tirão na cara dessa morta-viva sem vergonha! — Irina puxou a pistola.
— Cai dentro, “irmãzinha com complexo de brocon”!
— Me chamou de quê?!
E o estampido de pólvora explodindo em cartuchos ecoou pela paisagem gelada.
Irina atirou, Tâmara se jogou para o lado, evitando ser atingida e atirou de volta.
Mical soltou um grito de dor e caiu no chão. Sangue vermelho vivo tingiu a neve branca.
Jéssica se lançou sobre ela, tentando protegê-la com seu próprio corpo.
Os tiros foram interrompidos quando Clara puxou Tâmara e a segurou, imobilizando-a, e Renato fez a mesma coisa com Irina.
— Calma aí, calma aí! Não viemos aqui pra isso. — Clara abriu um sorriso ameaçador. — Sabiam que um desses tiros de vocês passou raspando no meu cabelo? Se estragassem meu penteado, eu jogaria as duas no Inferno sem pensar duas vezes para sofrerem amargamente por toda a eternidade. Jogaria uma grana nas mãos do Syrach para garantir torturas sem fim. Então, por gentileza, não façam coisas tão estúpidas.
— Irina, pare com isso! — disse Renato, claramente irritado. — Mas que droga! Será que vocês não conseguem ficar cinco minutos sem brigar? Eu vou ter que deixar vocês presas em casa, acorrentadas que nem cães raivosos?
Jéssica, com lágrimas de ódio nos olhos, materializou e ergueu seu fuzil.
— Vocês machucaram Mical! — Ela respirava profundamente e apertava os dentes. — Se fizerem de novo, eu mesma mato vocês duas!
— Calma, Jés, eu já… — Mical direcionava a luz verde, que saía de sua mão, para o ferimento no braço que, magicamente, estava se curando.
— Calma, nada! Essas duas inconsequentes feriram você! E se pegasse na cabeça?! E se… e se…
Irina olhou para Jéssica completamente irada e depois olhou para Mical, e seu coração se encheu de remorso. Até Lírica parecia julgá-la, com aqueles olhos frios cor de cobre.
Irina soltou a pistola no chão congelado e caiu de joelhos.
— Desculpe… por favor… me desculpem! Eu não…
— Se o tiro acertasse na cabeça, Mical estaria morta uma hora dessas! Tem noção disso?!
— Eu sei… perdão… — A voz dela era um sussurro triste.
Tâmara, com um empurrão, se afastou de Clara.
— Tá! Já saquei! A gente fez merda! Foi mal…
— Foi mal?! — A expressão que surgiu no rosto de Jéssica foi um tanto bizarra. Os lábios se curvaram como um sorriso, mas os olhos não tinham nada além de raiva e incredulidade.
— Acho que a gente não vai conseguir nada melhor dela — disse Clara, dando de ombros. — Foi mal é o máximo de “culpa” que eu já vi ela demonstrar mesmo.
Jéssica estalou a língua, indignada, e ajudou sua irmã a se levantar.
— Na próxima vez que se tornar uma ameaça para minha irmã, qualquer uma de vocês, eu mato sem pensar duas vezes! Entenderam?! Sem pensar duas vezes! E nem o Renato vai conseguir me impedir!
Renato suspirou e só conseguiu pensar: “por todos os diabos, por que todas elas tem que ser assim?!”
— Então esse é seu time unido pra enfrentar o fim do mundo? — inquiriu Lua, com uma pitada de veneno na voz.
Aerin, o rapaz do chapéu de folhas, sorriu um sorriso malicioso.
Lua percebeu e olhou para ele um tanto desconfiada.
— Você tá meio… diferente.

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