Índice de Capítulo

    Lua suspirou e baixou os ombros.

    — É a minha mãe, entende? Ela quer me casar com um… um K’allpaq! — A elemental não escondeu a repulsa na voz. — Pode acreditar nisso? Com uma mãe dessas, quem precisa de inimiga?

    — Um o quê? — Clara ergueu uma sobrancelha. — Nunca ouvi falar nessa coisa.

    — É porque eles estão quase extintos. São monstros que vivem nas montanhas geladas dos Andes. São gigantes, parecidos com trolls! Uns brutamontes mais burros do que uma porta e violentos pra caramba! Mas, aparentemente, esse tem algumas posses nos Andes e isso é bom para o nosso clã e blablablá! Não suporto essa politicagem!

     — Ele parece um bom partido. Você deveria se casar, Lua! Tá encalhada há quanto tempo? — Clara riu de um jeito zombeteiro.

    Lua bufou, irritadiça.

    — Eu não vou me casar com um monstro! Fala sério! Um casamento arranjado?! Por acaso estamos voltando para a idade média? E aposto que ele só quer se casar comigo por causa dos meus poderes de gelo!

    — Ora, ora, como é que os jovens dizem hoje em dia, Renato? A Terra não gira; ela capota. Não foi você e sua irmãzinha de fogo que negaram ajuda quando pedimos?

    — Ah, qual é, Clarinha? Vocês iam enfrentar o Mercenário Possuído, caramba! Ele me dava arrepios! Como é que eu podia saber que você tinha o Condutor de Arimã contigo! Falando nisso… — Lua desviou os olhos, como se sentisse vergonha de completar a frase.

    — Falando nisso? — insistiu Clara.

    — É aí que entra a ajuda que eu preciso. Nosso clã tem alguns costumes meio… antiquados! Minha mãe me prometeu em casamento para esse monstro, e eu não posso rejeitar, sabe? Mas…

    — Mas?

    — Mas um outro homem pode derrotar o meu atual pretendente num duelo. E eu não conheço mais ninguém que poderia derrotar aquele K’allpaq. Não tem mais ninguém que eu poderia pedir! O Renato não podia…

    — Não! De jeito nenhum! — Clara foi categórica.

    — Mas é você quem decide por ele? Até onde eu sei… a ordem do pacto se inverteu e… — A voz da garota do gelo tinha um veneno que irritou Clara.

    — Lua… — A súcubo deixou um som parecido com um rosnado sair da garganta. Sua expressão não era nada amigável. — Isso não seria o mesmo que o Renato disputar sua mão em casamento?

    As outras garotas se entreolharam. Até Renato passou a prestar mais atenção na conversa.

    — N-não! De jeito nenhum! Se o K’allpaq for derrotado, ele vai ser desmoralizado e obrigado a desistir do casa mento! E aí eu ganho mais um tempo para curtir minha vidinha de solteira! O Renato vencer ele, não significa que a gente… não! Eca! Você sabe muito bem que eu não tenho interesse em seres humanos, Clarinha! Como pode pensar isso de mim?!

    “‘Eca?’ Também não precisava falar desse jeito” pensou Renato, com uma pontada de ressentimento.

    Ele se moveu na cama, se erguendo. Tâmara se agarrou ainda mais nele e, quando ele se levantou, ela permaneceu grudada em seu corpo, como um bicho preguiça abraçado num tronco de árvore.

    O garoto suspirou.

    — Eu não posso ir agora. Tem uma… uma coisa que eu preciso fazer.

    — Sua voz não tá meio melancólica pra quem tá cercado de lindas garotas? — perguntou Lua, se aproximando da cama.

    Jéssica balançou a cabeça, indignada.

    — Que insensível da parte dela!

    — Muito insensível! — concordou Clara.

    — Insensível demais! — continuou Lírica.

    — Nem eu seria tão insensíve assiml! — disse Tâmara, com o rosto afundado no peito de Renato.

    — Ah, ela não sabe, gente… — Mical tentou apaziguar. 

    — Não sabe o quê? — Lua franziu o cenho.

    — O melhor amigo do Renato morreu de maneira brutal e cruel — disse Mical. — Foi uma tristeza. E o corpo só foi liberado pela perícia agora há pouco. Hoje, mais tarde, vai ser a cerimônia de despedida.

    — Ah… pesou o clima…

    — Por isso eu não posso ir agora — respondeu Renato.

    — O casamento é daqui a três dias. Temos tempo! Se você não me ajudar, Renato, aquele monstro vai… ele vai… — A garota engoliu em seco. —  Por favor! — retrucou Lua. — Eu ajudei vocês naquele lance da Ayahuasca, lembra? Me ajuda, vai! Te garanto sorvete pelo resto da vida!

    Renato pensou por um instante. Essa poderia ser uma boa oportunidade para conseguir aliados, fazer conexões e aprender mais sobre o mundo maluco em que vivia. E, claro, sorvete pelo resto da vida não era uma proposta tão ruim assim!

    Um suspiro resignado escapou de seus lábios.

    Irina finalmente se levantou, brotando do meio das cobertas, se espreguiçando e limpando a remela dos olhos inchados.

    — Uhaaaa! — bocejou. — O que é esse falatório todo? Quem consegue dormir assim?!


    A cerimônia de despedida aconteceu numa capela antiga, de arquitetura colonial.

    Clara observou o luto em volta e deixou um pensamento escapar:

    — Tá virando rotina… — murmurou, com um leve pesar na voz.

    Não que ela se importasse com as pessoas, mas ver tanto sofrimento assim, repetidas vezes, não era uma coisa agradável nem para ela.

    O sol, embora já tenha dado o ar da graça, estava escondido atrás das nuvens. O clima estava frio, úmido e nublado.

    Um leve chuvisco caía sobre a cidade, como se fossem as lágrimas das estrelas.

     Os pais de Hiro estavam abraçados, em pé ao lado do caixão. A mãe chorava copiosamente. Um choro baixinho e dolorido.

    O pai tentava consolá-la, mas ele mesmo parecia a ponto de desabar.

    Renato hesitou. Queria falar com ele, mas não havia nada que pudesse dizer-lhes que aliviasse o sofrimento.

    Palavras seriam inúteis.

    Mesmo assim, Renato fez uma promessa. Uma promessa a Hiro!

    Odiava revirar as feridas de alguém desse jeito!

    — Renato… — Irina tentou acompanhá-lo, mas desistiu. Aquilo era íntimo demais para ela caber!

    O garoto se aproximou dos pais de seu amigo.

    Cumprimentou-os.

    Olhou, por um tempo, o corpo inerte e sem brilho. Nem mesmo os maquiadores mortuários conseguiram esconder todas as feridas.

    — Senhor e Senhora… — Renato se dirigiu aos pais de seu amigo. — Tem algumas coisas que o Hiro me contou antes de… disso acontecer… Ele queria que vocês soubessem…

    Mical, mesmo a distância, não conseguiu segurar as lágrimas ao ver os pais de Hiro abraçados, aos prantos, enquanto escutavam quais eram as últimas palavras de seu filho.

    Assistir a dor deles dessa forma fazia seu coração doer.

    Jéssica também lacrimejou os olhos, mas ela respirou fundo e segurou a vontade de chorar. Chorar não adiantaria. Lágrimas não trazem ninguém de volta.

    Tâmara, que tinha deixado Renato ir sozinho, mesmo contra sua vontade, estava impaciente. Ficar longe dele a deixava ansiosa. Ficou debaixo de uma árvore, escondida na sombra. Mexia seus pés e dedos, obsessivamente, como um alcoólatra em abstinência. Tremia, como se sentisse frio. Olhava para os lados, nervosamente, como uma presa preocupada com um predador nas redondezas. Mesmo assim, permanecia calada.

    Lírica estranhou o comportamento da garota dos olhos âmbares. Se aproximou de Clara e disse:

    — Aquela garota… ela não está agindo de maneira esquisita desde que… você sabe…

    — Desde que voltou dos mortos?

    Lírica aquiesceu.

    A preocupação da menina gato fez a súcubo dar risada.

    — É claro que ela tá esquisita! Estranho seria se não estivesse! Pra falar a verdade, algumas áreas do cérebro dela podem ter sido danificadas.

    — Se ela já era uma maníaca homicida antes, como vai ser daqui pra frente?

    A súcubo deu de ombros, achando a questão de pouca importância.

    — Só os diabos sabem!

    Lua se manteve distante, observando do alto de um pequeno prédio.

    Algumas pessoas pensaram ter visto flocos de neve e gelo caindo junto das gotas melancólicas de sereno.

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