Índice de Capítulo

    De volta ao prédio de Clara, todos já estavam devidamente agasalhados.

    Mical e Irina eram as menorzinhas, e envoltas em tantas camadas de tecido como estavam, com cachecol e touca, pareciam bolotas de lã. Renato achou engraçado a visão das duas lado a lado. “Macias e altamente apertáveis, com certeza!” pensou ele, com um rubor nas bochechas.

    — Hum… aposto que tá pensando safadezas! — disse Clara, analisando a expressão do garoto. Ela usava um lindo sobretudo preto acolchoado, com alguns detalhes vermelhos pintados na pelagem. Como o próprio casaco formava uma proteção soberba no pescoço, ela não usava cachecol.

    — Não… eu tava pensando que… sabe…

    — O Renato não pensa em safadezas! — interrompeu Tâmara, ainda agarrada nele feito uma jibóia num ratinho. Ela era a única usando roupas normais de verão. — Só comigo. Aí ele pensa sim!

    — Tâmara, você deveria colocar algum casaco! Lá vai fazer bastante frio, sabe…? — disse Renato.

    — Não precisa! Se eu sentir frio, eu entro dentro do seu casaco! Cabe nós dois.

    — Ou você desgruda dele, ou eu te arranco a força daí! — rosnou Lírica. Sua touca marcava perfeitamente o formato das orelhinhas de gato na cabeça.

    — Se afasta logo do meu irmão, sua zumbi psicótica! — ordenou Irina, com frios olhos semicerrados.

    — Não. — Tâmara nem se dignou a olhar para elas, o que as irritou ainda mais.

    — Tâmara — disse Renato —, desse jeito eu não vou conseguir me mover direito! Vá colocar um casaco!

    — Hum… certo! — respondeu ela, meio a contragosto, e foi se trocar. — Mas só porque o Renato mandou, e não por causa dessas peruas invejosas.

    — Que vontade de matar ela! — murmurou Irina. Tinha uma sombra pairando sobre seu rosto.

    — Concordo plenamente — respondeu Lírica. Os olhos brilhando como olhos de felino.

    Jéssica assentiu.

    — A gente podia… sei lá… só talvez… dar um belo chá de sumiço nessa garota.

    — Vamos tentar não cometer assassinatos sem motivo, por gentileza? — disse Renato. — E nem dar chá de sumiço em ninguém! Que tal?

    Clara riu e fez um cafuné na cabeça dele.

    — Ah, Renato, a diversão tá só começando!

    Lua gargalhou gostosamente.

    — Ah, eu tinha me esquecido o quanto vocês são idiotas! Sinto pena de você, Renato! Lidar com tanta mina doida assim não deve ser fácil!

    O garoto coçou a cabeça e deu de ombros. Não tinha como refutar a lógica dela.

    Na hora de ir, Lua pegou um copo de água e o jogou na parede. Depois, tocou a palma da mão na parede úmida, e a umidade se tornou gelo, e o gelo estalou e trincou, e se partiu em vários pedaços, e um portal foi aberto.

    Uma onda de ar muito frio tomou o ambiente. Do outro lado havia o puro branco.

    Quando pisaram nesse novo mundo, os pés afundaram na neve fofa. O vento forte e a neve que caiam em tempestade tornava difícil se manter de pé. O ar gelado esfriava o peito ao respirar.

    Lua tomou a frente e, com um movimento de seus braços, a nevasca se acalmou.

    — Vamos! Precisamos caminhar! — disse ela.

    Quando Renato deu o primeiro passo para segui-la, o gelo debaixo de seus pés se estalou como galho seco e se encheu de trincas.

    Lua ficou confusa. Aquilo não deveria acontecer.

    O garoto tentou saltar para o lado, mas não deu tempo. O chão cedeu debaixo dele e Renato afundou na água subterrânea.

    A sensação insuportável de frio lhe rasgou a pele. A luz desaparecia conforme ele afundava. Mas não sentiu medo.

    Havia uma presença que lhe confortava, e uma canção suave e agradável acariciava os ouvidos.

    As garotas saltaram na água atrás dele, mas a água se agitou e, num tipo de geiser, as expulsou com violência.

    A única que conseguiu permanecer na água foi Lua, que nadava rapidamente até ele, enquanto cristais de gelo flutuante se formavam em volta dela.

    E então tudo ficou seco.

    A água se reorganizou em volta de Renato, formando um tipo de domo ou casulo. E não havia mais frio.

    Surgiu uma das garotas mais lindas que Renato já tinha visto: seus olhos e cabelos eram translúcidos e azulados. O rosto, delicado, estava levemente ruborizado, apesar do frio.

    Ela sorriu ao vê-lo.

    Lua, enquanto mergulhava em direção a eles feito um torpedo na água, criou flechas de gelo e as disparou em direção à ninfa da água, mas com um simples gesto de mão da ninfa, a água se retorceu e dilacerou as flechas.

    E com outro gesto de mão, toda a água se agitou com num redemoinho e fez Lua girar loucamente sem qualquer controle.

    — Você… — Renato tentou dizer alguma coisa, mas lhe faltou palavras.

    — Shh… — A garota levou a mão ao lábio, pedindo silêncio.

    Ela se aproximou.

    Seus olhos eram como lagos azuis e profundos. Gelados.

    E, sem dizer nenhuma palavra, ela tocou seus lábios nos lábios de Renato, beijando-o. A melodia doce ficou ainda mais evidente, e Renato percebeu que era um canto, quase mágico, que vinha dela.

    — Venha me visitar. — A voz dela era suave como o farfalhar de água.

    E então, novamente o lago se fechou em volta de Renato, e o gêiser o jogou para o alto, expulsando-o do lago.

    O garoto caiu sobre a neve.

    Clara, que estava inclinada sobre o buraco no chão tentando ver alguma coisa, foi atingida por ele e também derrubada.

    Assim que se levantou, ela abriu as asas e voou até ele.

    — Renato! O que aconteceu? O que houve lá embaixo?

    — Nada. Não aconteceu nada demais.

    Lua saiu da água com a expressão mais azeda que criança emburrada.

    — Eu vou pegar essa garota e encher ela de porrada! Ela vai ver!

    — Garota? — Tâmara ergueu uma sobrancelha.

    — Daphni. Uma náiade safada!

    — Tinha uma garota na água? Por que disse que não aconteceu nada, Renato?

    — Porque eu não queria que vocês agissem feito um bando de esquisitas!

    Lírica se aproximou dele e farejou sua boca.

    — Tem o cheiro de saliva de outra pessoa nos seus lábios. Você beijou a náiade safada, não beijou?

    — Eu não. Bom, tecnicamente, ela me beijou.

    — Renato mulherengo! — disse Mical.

    — Sim, completamente mulherengo! — concordou Irina.

    Um estampido de tiros cortou o som do vento violentamente.

    Tâmara estava descarregando o pente de uma pistola, atirando na água do buraco no chão.

    — Morre, náiade safada! — disse Tâmara, com a voz quase robótica.

    — Ah, droga! Pela primeira vez eu concordo com a sociopata! — Jéssica fez surgir seu fuzil e também o descarregou na água.

    Renato deu de ombros.

    — Viu, agindo feito esquisitas…

    — A culpa é todinha sua, Renato — disse Clara.

    — E que magia vocês fizeram para ficarem secas mesmo depois de entrar na água? Eu tô morrendo de frio aqui, sabia? Poderia…

    — Não. Essa vai ser sua punição. E nem adianta usar a autoridade do pacto. Eu prefiro morrer em agonia aqui mesmo! E aí seria mais uma morte pra sua conta. — Clara abriu um sorriso maldoso.

    — Súcubo maldita…

    Mas, algo aconteceu: Renato ficou seco. E um sorrisinho travesso pôde ser ouvido.

    Quando olharam na direção do buraco, lá estava Tâmara e Jéssica, cegadas por bolas de água opaca nos olhos.

    — O que… onde… o que aconteceu? — dizia Jéssica, tateando em volta.

    — Fomos cegadas! Uma maldição de cegueira! — complementava Tâmara, tão perdida quanto a outra.

    E, sentada na beirada do buraco, estava Daphni, se divertindo com a situação.

     — Tchauzinho!

    Ela mandou um beijinho para Renato e saltou, mergulhando nas águas geladas do subsolo. Nessa hora, sua cauda de peixe pôde ser vislumbrada.

    E as bolas de água opaca caíram dos olhos das duas meninas, devolvendo-lhes a visão.

    — Lua. — A expressão de Clara era contraditória. Tinha um sorriso curvando os lábios, mas os olhos transmitiam outro tipo de emoção. — Você, por acaso, teria uma rede de pesca aí?

    — Não. Mas a gente pode conseguir uma!

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