Vincent esfregou as têmporas por trás das lentes avermelhadas. A tela holográfica projetava linhas do tempo confusas sobre o caso do Açougueiro.

    Arquivos físicos se acumulavam sobre a mesa de metal chumbada ao chão, uma raridade burocrática mantida apenas para registros de alta segurança na colônia lunar.

    O inspetor digitou um comando e o sistema emitiu um bipe de erro.

    Um tapa estalado atingiu a nuca de Vincent. Ele girou a cadeira, irritado e com o xingamento já na ponta da língua. O ímpeto travou ao ver a figura parada à sua frente.

    Jonatan vestia uma touca de lã escura, uma jaqueta impermeável manchada de salitre e exibia uma barba grossa e por fazer. Apoiada no ombro, uma bolsa de lona com varas de pesca.

    Vincent ajustou os óculos no nariz.

    — O que você faz aqui, Jon?

    Jonatan encostou-se no arquivo de metal ao lado da mesa. O móvel rangeu sob o peso do ex-militar.

    — Depois de aposentado, eu preciso me reapresentar de dois em dois meses. Eu provo que ainda estou vivo. Se não, a pensão não cai na conta.

    Jonatan olhou para a bagunça de papéis e hologramas sobre a mesa.

    — Caraca. Quem tá te dando esse trabalho todo? — sorriu de canto.

    Vincent soltou uma lufada de ar pesada.

    — Eu não consigo dar um passo sequer à frente neste caso. A lógica não bate. Os perfis das vítimas casam perfeitamente, trabalhadores comuns, homens, média de quarenta anos, sem inimigos declarados. E de repente, a filha do prefeito vira alvo. Eu sinceramente não te…

    Jonatan ergueu uma mão aberta e interrompeu a explicação técnica do irmão.

    — Tá, tá. Você pode encher os meus ouvidos de merda depois que me pagar uma bebida.

    O inspetor coçou a própria cabeça.

    — A cada passo forçado para frente, eu pareço voltar três. Nada faz sentido nessa merda.

    O comunicador no pulso do policial vibrou e emitiu um sinal sonoro de emergência. Uma voz feminina robotizada soou.

    — Alerta. Setor nove. Novo corpo avistado nos túneis de manutenção. Assinaturas de trauma compatíveis com o Serial Killer designado ‘Açougueiro’.

    O inspetor levantou-se da cadeira de imediato, pegou o cinto de utilidades pendurado no encosto e o prendeu na cintura. Olhou para o irmão. 

    Jonatan fixava o olhar no chão de grade metálica. A expressão dele era pesada e os ombros pareciam carregar um peso extra. O ex-fuzileiro parecia abatido.

    Vincent parou perto da porta.

    — Foi mal, Jon. Eu prometo que arranjo um tempo pra gente sair depois que eu…

    Jonatan interrompeu o pedido de desculpas com um aceno de mão. Ele forçou um sorriso rápido que não alcançou os olhos cansados.

    — Está tudo bem. Vá fazer o seu trabalho.

    — Jonatan! — Uma voz estrondosa ecoou da área central da delegacia. Comandante Zion, chefe da guarnição de polícia lunar, estava parado perto da recepção e gesticulava com autoridade para o ex-fuzileiro. Zion já observava a interação entre os irmãos há alguns instantes.

    Jonatan olhou para Zion e suspirou. Ele empurrou o irmão em direção à saída com a mão livre.

    — Siga em frente. Vou lá desenhar um bucado de tracinhos com o comandante.

    Vincent observou as costas de seu irmão se afastarem com um olhar apertado por trás das lentes.

    — Tome cuidado, seu idiota.


    — As lacerações no peito apresentam ângulos irregulares. — Parvo indicou com a ponta da caneta para as feridas no cadáver. — A lâmina penetrou a musculatura de forma caótica.

    A luz branca do refletor cirúrgico iluminava o corpo nu e ensanguentado sobre a mesa de aço.

    — Um imitador, então? — perguntou Goliah.

    O legista penteou os fios de cabelo desgrenhados sobre a testa que escapavam da touca frouxa.

    — Um crime imitativo. Alguém inspirado pelo Açougueiro emulou o procedimento com falhas óbvias. A deficiência técnica inutilizou a operação. A vítima morreu em decorrência dos golpes de faca muito antes do início do processo de sangria.

    Guiou a caneta sobre os diversos cortes no torso da vítima.

    — Além disso, a disposição caótica destes cortes denuncia um forte fator emocional na execução.

    Goliah bufou pelo nariz. O som curto ecoou nos azulejos frios do necrotério.

    — Eu acumulo uma lista extensa de execuções impecáveis pela galáxia. Ninguém nunca tentou reproduzir o meu trabalho.

    Parvo coçou o topo da cabeça com a base da caneta. Alternou o olhar entre a figura do anão de sobretudo e a estrutura colossal de David perto da porta. Voltou a se sentar na cadeira de escritório.

    — Vocês precisam de mais alguma coisa? A presença de terceiros atrasa o meu cronograma.

    Goliah tossiu de forma seca.

    — Eu preciso inspecionar os corpos autênticos do Açougueiro. As vítimas ainda retidas no necrotério.

    Parvo suspirou ruidosamente e revirou os olhos. Largou a caneta sobre a mesa cirúrgica. O legista deslizou com as rodinhas pelo piso de azulejos frios até a parede de gavetas oposta.

    Destravou uma das portas de aço e puxou a alça. Uma nuvem de vapor gelado escapou da câmara escura. O corpo da penúltima vítima do Açougueiro repousava sobre a maca metálica deslizante.

    Goliah analisava criticamente. David, tinha o nariz torcido e os olhos apertados em gastura.

    O legista inclinou o tronco para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. Um brilho de fascinação tomou seus olhos.

    — Eu ainda fico impressionado com a técnica dele. — Apontou para a pele do cadáver, esticada ao limite sobre os ossos. O corpo exibia um estado severo de mumificação pela desidratação extrema. — Tirar todo o sangue do corpo. Em cada tecido, sem sobrar absolutamente nada. Sequer vestígio. Nunca houveram peças tão únicas quanto as dele.

    “Peças?” O gigante refletiu com um olhar incomodado para o médico.

    Goliah limpou a garganta.

    — Você mencionou a falta de identificação desse sujeito.

    O brilho no olhar do legista sumiu de forma instantânea. Ele recostou na cadeira e suspirou com tédio.

    — Isso não deveria ser uma preocupação tão grande. A densidade muscular e as lesões balísticas antigas entregam o histórico dele com clareza. É mais um militar aposentado e sem família.

    O anão arqueou uma sobrancelha.

    — Como é? Como assim mais um?

    Parvo franziu o cenho. A surpresa na voz do baixinho soou estranha para ele.

    — Esse é o perfil padrão. Todas as vítimas anteriores à filha do prefeito carregavam o mesmo histórico.

    O silêncio pesou no necrotério por vários segundos. Os arquivos da polícia entregues pelo prefeito descreviam os alvos apenas como trabalhadores idosos e comuns dos níveis inferiores. A guarda lunar ocultou o vínculo militar de forma deliberada.

    Os olhos de Parvo caminhavam do anão para o gigante, mais apertados a cada segundo.

    — Podem me mostrar as credenciais de vocês de novo, oficiais?

    Goliah bufou e levou as mãos aos bolsos da calça, o brilho azul de sua óptica cravado no legista. David deu um passo pesado e parou ao lado do chefe. A estrutura colossal do ciborgue bloqueou a luz do teto e lançou uma sombra direta sobre a cadeira do médico.

    Parvo engoliu em seco. Empurrou o chão com as pontas dos sapatos e rolou a cadeira um pouco mais para trás.

    Um zumbido eletrônico se infiltrou na tensão do necrotério. O comunicador vibrou no bolso do sobretudo de Goliah. O anão deu as costas para o legista e atendeu a chamada de imediato.

    O feixe de luz azul projetou o rosto de Linus sobre a palma da luva do mafioso. Estava encharcado de suor. As pálpebras pareciam pesadas sobre os olhos semicerrados, e a respiração soava ofegante e irregular.

    — M-me ajude. Por favor, meu corpo tá fervendo…

    — Toma uma febriocina então, cacete. Tá achando que eu sou seu pai pra me ligar dizendo que tá passando mal?

    — N… não é isso… E-eu tô no frigorí…

    A ligação chiou de repente. Linus olhou para os lados, atônito.

    Goliah teve um estalo de repente.

    — Espera. Você não disse que era ex-fuzileiro?

    — Pelo amor de… eu acho… eu acho que ele tá aqui…

    O holograma piscou e desapareceu com um estalo estático. A ligação caiu.

    O anão travou o maxilar, as linhas de seu rosto enrijeceram de repente e os olhos desapareceram sob a sombra do chapéu. Guardou o aparelho de volta no bolso.

    — David. Vamos.

    O gigante deu um último olhar para o legista, antes de girar e acompanhar o colega. Cruzaram a porta dupla do necrotério em passos apressados e sumiram no corredor externo.

    Parvo permaneceu parado por alguns instantes. Respirou fundo no silêncio da sala fria e empurrou o chão com a ponta dos sapatos, deslizou até a mesa cirúrgica e pegou o comunicador oficial da guarda lunar. Digitou um código de emergência no teclado numérico.

    O rosto do inspetor Vincent surgiu na projeção luminosa.

    — O que os mortos disseram de tão importante para você me perturbar a essa hora, Parvo?

    — Eu acho que o senhor precisa saber disso.


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