07 Pequeno Gigante | Ruína
O motor da viatura desativou com um estalo elétrico. Vincent desceu do veículo sob a chuva fina e encarou a fachada em ruínas da antiga Latos Construtos no limite do distrito industrial abandonado.
O comunicador em seu pulso vibrou. Atendeu a chamada de imediato. A projeção holográfica exibiu o rosto cansado do legista Parvo.
— Então? — Antecipou o inspetor.
— Eu concluí a análise das amostras de DNA — informou Parvo. — A vítima não identificada de dias atrás possui uma compatibilidade de oitenta por cento com o código genético do primeiro operário desaparecido. O corpo do crime de imitação apresentou setenta e três por cento de compatibilidade com o segundo operário sumido que você listou.
“Eu sabia.”
— Obrigado, Parvo.
Vincent encerrou a chamada e a luz azul do comunicador desapareceu.
O policial levou a mão ao bolso do sobretudo, sacou o gravador de voz portátil e pressionou o botão lateral.
— Dois antigos operários da Latos Construtos. Mortos e encontrados em condições similares. Crimes sem motivações aparentes. Investigação das ruínas em curso.

O inspetor soltou o botão e abaixou o aparelho. As manchetes de cinco anos atrás cruzaram a sua mente em sucessão rápida. Um acidente químico devastou as instalações da empresa. Os jornais relataram diversas mortes de funcionários locais e o governo municipal decretou o fechamento imediato e definitivo da corporação.
Ele teria esquecido desse desastre se há alguns poucos dias atrás um nome nos registros não tivesse cruzado sua visão e reacendido a memória em sua mente: Terry Lombardi.
O trabalhador sumiu no desastre da fábrica e o governo o declarou morto pela exposição química. Agora, ele reaparecia no necrotério como uma das vítimas oficiais do Açougueiro.
Vincent caminhou até a entrada do galpão e empurrou os restos da grade de metal torta.
Vigas de aço rompidas sustentavam pedaços de telhados desabados. O chão de concreto exibia buracos fundos, poças de água estagnada e montanhas de entulho industrial sob a escuridão.
Vagou pelos corredores silenciosos. Ele encontrou uma sala ampla com mesas reviradas e painéis de vidro estilhaçados no assoalho. Um canto da parede ainda exibia os retratos empoeirados dos executivos da corporação.
O quadro principal, pendurado no ponto mais alto, mostrava o rosto imponente e o terno alinhado de Laikos Pevensie. O diretor executivo assumiu a culpa pelo desastre e respondeu criminalmente pela tragédia.
Pevensie morreu em circunstâncias isoladas antes do fim do julgamento e o óbito do empresário encerrou o caso na justiça de forma definitiva.
Vincent encarou a fotografia por longos segundos e guardou as feições do homem em sua mente.
O silêncio do galpão foi quebrado por um ruído. O inspetor parou e olhou para o chão. Uma vibração rítmica e constante subia pelas solas de seus sapatos.
Agachou-se e espalmou a mão livre no chão de concreto rachado. Parecia um tremor mecânico, mas irregular demais para ser um abalo sísmico.
Ele sacou a arma de serviço e seguiu a vibração por entre os escombros.
Seus olhos se estreitaram quando ele fez a descoberta.
Atrás de uma fileira de maquinário enferrujado, o piso cedia espaço para uma escadaria de acesso oculta. Um homem de postura rígida guardava a descida, vestido com um colete tático pesado e armado com um fuzil de assalto automático atravessado no peito.
Vincent respirou fundo, ajustou a empunhadura na arma e deu um passo para fora das sombras.
— Polícia. Identifique-se e largue a arma no chão. Agora.

Sem se mostrar intimidado pela arma, o mercenário girou o tronco e apertou o gatilho. O clarão do cano iluminou a escuridão.
Vincent mergulhou para a esquerda e jogou o corpo atrás de um pilar de sustentação espesso. Uma chuva de balas despedaçou a quina da coluna.
Estilhaços de concreto e poeira voaram pelo ar e arranharam o rosto e as lentes dos óculos do inspetor. O som ensurdecedor dos tiros ecoava de forma caótica pelo galpão vazio.
Encostou as costas na pedra e contou o ritmo das rajadas. O mercenário aliviou o dedo do gatilho por uma fração de segundo para reajustar o recuo da arma.
Vincent girou sobre o próprio eixo, saiu da cobertura e esticou o braço. Ele alinhou a mira e disparou uma única vez. O estampido seco cortou o ar. O tiro atingiu o centro da testa do guarda.
Ele desabou como um peso morto para trás. O fuzil bateu ruidosamente nos degraus de metal.
Sequer houve tempo para suspirar.
O barulho de coturnos pesados ecoou da escuridão da rampa. Mais dois homens subiram correndo, atraídos pelo tiroteio. Eles varriam o ambiente com as lanternas acopladas aos canos de suas armas.
Vincent recuou rapidamente para dentro do labirinto de máquinas enferrujadas. Estava em desvantagem de fogo e precisava fragmentar a linha de visão deles.
— Flanqueia pela direita! — gritou um dos guardas.
Então, atirou às cegas contra as sombras e destruiu os vidros de uma cabine de controle acima de Vincent.
O inspetor correu agachado. De repente, um projétil de fuzil zuniu a milímetros de sua têmpora e estilhaçou a parede de tijolos logo atrás de sua cabeça.
Um calafrio gelado desceu por sua espinha diante da quase morte.
Ignorou o zumbido no ouvido, jogou-se no chão e esgueirou-se por baixo de uma esteira rolante caída.

Ressurgiu no flanco cego do atirador mais avançado. Dois disparos rápidos no peito desprotegido do mercenário o lançaram para trás. O último guarda virou-se no susto e já erguia a arma na direção do inimigo.
Vincent apoiou o braço sobre a carcaça da esteira e efetuou mais um disparo preciso. Abateu o inimigo antes que a rajada dele o alcançasse.
O silêncio retornou ao galpão, agora impregnado com o cheiro acre de pólvora e poeira de concreto.
Vincent encostou a testa no metal frio da máquina e puxou o ar com força. Esperou a adrenalina baixar e os batimentos cardíacos desacelerarem.
Puxou um comunicador do cinto.
— Agente Investigativo Vincent. Requisito reforços no Distrito Transfor. Coordenadas anexas.
Um chiado estático escapou do objeto por alguns segundos antes de um estalo.
— A caminho, Oficial.
Guardou o comunicador.
Recarregou a arma, percebeu agora que as mãos ainda tremiam.
Respirou fundo com os olhos fixos em suas palmas.
“Controle-se.”
Caminhou até a rampa e desceu as escadas passando por cima dos corpos.
No final da descida, o corredor terminava em uma porta de aço maciço.
Vincent aproximou-se e encostou o ouvido na superfície fria. Vozes abafadas e trêmulas ecoavam do outro lado.
— Os tiros pararam? — sussurrou uma voz masculina.
— O que será que aconteceu lá em cima? — perguntou outra, carregada de pânico.
— Voltem pros seus postos! — ordenou um terceiro, em um tom ríspido e desesperado. — Se eles voltarem e nos virem assim, vai ser o fim para todos nós!
Vincent recuou um passo, com os olhos fixos na tranca eletrônica da porta pesada.
Vincent ajustou a empunhadura da pistola de serviço. Um zumbido agudo subiu de tom enquanto a arma acumulava energia térmica no núcleo. Quando o indicador de carga brilhou em azul intenso, ele disparou.
O feixe de calor concentrado atingiu a fechadura de aço e derreteu o mecanismo instantaneamente em uma cascata de metal incandescente.
Com um pontapé, a porta pesada cedeu.
O ar era espesso, saturado com o cheiro de ozono, solda e suor. Vincent entrou com a arma erguida, mas logo a abaixou.
Dezenas de pessoas, com a pele pálida e translúcida de quem não via a luz solar há anos, estavam curvadas sobre bancadas de trabalho improvisadas. Centenas delas se debruçavam sobre peças quebradas.
Com um único olhar, ele entendeu. Era uma fábrica clandestina, onde mãos trémulas realizavam a manutenção minuciosa e o recondicionamento de implantes cibernéticos de segunda mão.
Os operários, vestidos com trapos que um dia foram uniformes, encaravam-no com olhares curvados e cansados. Repletos de desconfiança.
— Vejam! — sussurrou um dos trabalhadores, apontando para a bota de um dos guardas mortos, visível no cimo da escadaria. — Ele abateu os cães de guarda…
Um homem mais velho, com os olhos semicerrados pela luz da lanterna de Vincent, deu um passo à frente, com a voz embargada:
— Foi o Terry? Foi o Terry que te mandou para nos buscar?
Vincent sentiu um aperto no peito ao ouvir o nome. Suspirou.
— Vou tirar vocês daqui. Todos vocês. O pesadelo acabou.
Houve um momento de hesitação, um vácuo de descrença, até que a primeira mulher desabou em prantos, seguida por murmúrios de comemoração e abraços desesperados entre os cativos.
Subitamente, a comoção foi cortada por um som estridente.
Um comunicador, pousado sobre uma mesa de metal à frente de todas as outras, começou a tocar.
O pânico reinstalou-se instantaneamente. Os operários recuaram, amontoando-se contra as paredes.
— Ele já sabe! — murmurou um jovem, aterrorizado. — Ele descobriu tudo! Estamos perdidos…
— Acalmem-se! — ordenou Vincent, com autoridade, enquanto caminhava em direção ao aparelho. — Mantenham a calma. Já tenho uma equipe a caminho para o resgate.
Os trabalhadores se olharam, ainda aflitos.
Aproximou-se da mesa. No visor digital do projetor, o nome do contato brilhava em letras nítidas: PEVENSIE.
Vincent hesitou por um segundo. Pevensie deveria estar morto há anos, sem qualquer descendente vivo. Pressionou o botão para atender e o projetor holográfico acendeu-se com uma luz azulada sobre a mesa.
— Por que toda essa demora para responder ao… — a voz do homem na projeção falhou subitamente.
O holograma ganhou foco. Do outro lado da linha, com olhos arregalados e lábios abertos, estava Luno, o diretor executivo da Silco Co.

Vincent encarou o olho sintético avermelhado do empresário através da projeção. A ligação foi interrompida logo em seguida.
Com um dedo, ajustou o óculos que caía já no meio da ponte do nariz.
— Que interessante…

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