Passos rápidos e pesados agitavam a entrada da cobertura.

    O Inspetor Vincent cruzou o batente de madeira destruído com a arma de serviço em punho. Dois guardas lunares saíram do elevador atrás e o acompanharam com fuzis de assalto erguidos.

    Vincent vestia o sobretudo escuro padrão da polícia investigativa que o diferenciava claramente dos dois agentes com coletes. Seu rosto, mesmo jovem, exibia linhas duras por trás de óculos com lentes grossas e avermelhadas.

    “Será que eu estou certo?” Esperava que sim.

    Quando chegou ao quarto que deveria estar isolado, estacou bruscamente ao visualizar as duas figuras no interior enquanto os guardas travavam a mira no gigante monstruoso que ocupava o centro da sala.

    O choque do encontro súbito paralisou o ambiente por uma fração de segundo. Os olhos do inspetor viajaram pelo quarto, captaram as fitas rasgadas no chão e o cenário claramente violado pelos invasores.

    “Que cara enorme…”

    Ergueu a pistola na direção do anão.

    — Mãos na cabeça e afastem-se das evidências. Vocês estão presos por invasão e contaminação de uma cena de crime ativa.

    Goliah ergueu a mão com o tubo plástico apenas para coçar a própria cabeça com a sua base e então a deixou cair de novo ao lado do corpo.

    — Levantem as mãos! — Vincent franziu o cenho. — Vocês possuem direito a advo-

    — Como a guarda chegou até nós em tão pouco tempo? Eu pensei que meu amigo tivesse deixado vocês bem ocupados no outro distrito.

    O policial apertou os olhos e a armação vermelha escorregou um milímetro pelo nariz. O maxilar do policial contraiu de irritação.

    — Então foram vocês mesmo.

    O baixinho deu de ombros.

    — Quando olhei a distribuição de rondas da guarda, percebi que este bairro em específico estava completamente vazio. Algo estranho para um bairro tão nobre. Então decidi fazer uma aposta.

    Os guardas que o acompanhavam fitaram-no de repente com olhos cerrados, como se para eles essa informação também fosse novidade.

    — Deduzi que teria algo a ver com este lugar, já que a morte da filha do prefeito me parecia a única coisa que justificaria um interesse capaz de uma ação tão meticulosa quanto a adulteração de rondas da guarda.

    O anão abriu um sorriso sutil de canto de boca que curvou o bigode.

    — Bravo.

    David olhava as armas apontadas para si com pouco interesse. O gigante cibernético inclinou o pescoço e analisou o rosto do inspetor. 

    Seus olhos foram do equipamento vermelho sobre o nariz do policial e depois para os olhos mecânicos azulados do próprio colega.

    — Esse negócio de lentes coloridas virou moda? — perguntou David com a sua voz fina e inexpressiva. — Por que alguém usaria um óculos de lente vermelha em uma lua?

    Vincent soprou um ar pelo nariz, surpreso com a pergunta. Apertou os dedos no cabo da arma outra vez, seus olhos se estreitaram.

    “Se eu atirar aqui, posso danificar algo na cena do crime.”

    — Vocês se acham muito espertos — disse Goliah. — Conseguiram descobrir toda a nossa brincadeira, mas não se atentaram minimamente para um elemento óbvio do crime que investigavam.

    — Como? — O inspetor curvou as sobrancelhas em confusão.

    — Eu vi pelos arquivos do caso que vocês classificaram as manchas no chão como marcas de sangue decorrentes do processo de sangria.

    David tombou a cabeça para o lado.

    — Mas as manchas são de sangue, não chefe?

    — Idiotas. Isso é óleo!

    Goliah guardou o cilindro no bolso do sobretudo e apontou para as manchas escuras no tapete.

    — Não resta dúvida que o Açougueiro é mais que um maníaco qualquer. A ausência de sangue espalhado pela cena e a presença de óleo indicam o uso de maquinário e técnicas avançadas. O assassino extraiu o líquido de forma limpa, mas o equipamento pesado vazou lubrificante pelas válvulas durante a operação.

    Os guardas, silenciosos, olhavam de pouco em pouco para seu superior, atentos a novas ordens.

    Vincent abaixou a arma. Olhou para as manchas no tapete branco felpudo e processou as informações em silêncio.

    Nesse instante, Goliah notou de relance um pedaço de papel sob a estrutura do sofá revirado. Imediatamente, dobrou os joelhos e puxou a folha para fora do móvel.

    Sobressaltado pelo movimento repentino, Vincent ergueu a arma novamente e travou a mira novamente no invasor.

    — Deixe a evidência onde você a encontrou.

    O anão suspirou.

    — Você ainda não entendeu? Tem um profissional tentando solucionar um caso aqui.

    O olhar do inspetor se estreitou atrás das lentes vermelhas.

    — Deixe. A evidência. No chão.

    O pequenino encarou-o em silêncio por um instante. Visto que o adversário não voltaria atrás, suspirou e começou a erguer os braços. 

    Então, o policial viu-o arregalar os olhos, focado em algo nas suas costas, e gritar:

    — Ei! Você, parado aí!

    Vincent e os dois soldados viraram os corpos para trás em um sobressalto. Seus olhos varreram o corredor iluminado e vazio.

    Quando olharam de volta para o centro da sala, Goliah e David já cruzavam a janela e estraçalhavam o vidro blindado inteiro com o peso do gigante.

    O inspetor correu com os guardas até o buraco na parede e olhou para baixo.

    Os fugitivos aterrissaram sobre o teto de um prédio lateral cerca de vinte metros abaixo da cobertura. O impacto entortou as telhas de metal da estrutura.

    Os guardas ergueram os fuzis e atiraram contra o telhado inferior. Vincent empurrou os canos das armas para cima e interrompeu os disparos de forma ríspida.

    — O que diabos vocês estão fazendo? Atirar contra telhados numa área residencial?

    Os soldados recuaram e abaixaram os fuzis. Vincent olhou de novo para baixo sob a chuva artificial. Já não havia nada lá.


    O comunicador vibrou nas mãos trêmulas de Linus. 

    Encarava a tela rachada do aparelho com respiração ofegante. A voz de Silvia ecoou em sua mente mais uma vez. Como se fosse a primeira.

    Ela avisou sobre a morte forjada. Disse que haviam conseguido alcançá-la e que ela teve que fugir para não ser pega. Disse que precisava de ajuda e que só podia contar com ele. 

    O medo inicial de uma piada de mau gosto ou de algum estelionatário perverso desapareceu no instante em que ela sussurrou a palavra de segurança: Poços.

    Ele levou a mão ao marca-passo cibernético que brilhava em amarelo no seu peito.

    A campainha eletrônica do apartamento o fez despertar dos sonhos. Caminhou em silêncio, mas se viu travar perto da porta de metal. 

    Engoliu a saliva seca e recuou um passo.

    “E-eu estou mesmo aceitando essa maluquice?”

    O comunicador tocou de novo em suas mãos. Num sobressalto, ele o levou ao ouvido.

    — Abra logo a porta. Faz frio aqui fora. — A voz de Silvia soou cristalina no alto-falante.

    Linus encarou a porta por um longo segundo, antes de ativar o painel de segurança da entrada. O visor acendeu e revelou. 

    Ela vestia um agasalho pesado e encolhia os ombros sob a chuva artificial do corredor. Os cabelos loiros caíam sobre o peito, trançados. Como ele se lembrava.

    Lágrimas brotaram nos olhos do ex-soldado. Ele manteve o aparelho colado à orelha e sorriu sem perceber.

    — É um milagre.

    Destrancou a porta bruscamente e puxou a maçaneta.

    Uma sombra o engoliu imediatamente. Se viu encarando uma parede.

    Um gigante de sobretudo preto preencheu o batente. David segurava um emissor holográfico em uma das mãos e um gravador na outra. Linhas de código verde refletiam nas íris mecânicas do ciborgue.

    — Pensei que fosse me deixar do lado de fora — a voz de Silvia escapou mais uma vez de seus lábios maquiavelicamente sorridentes.

    Linus recuou um passo curto com olhos esbugalhados. O punho de metal do gigante atingiu o rosto dele e apagou sua consciência de forma imediata. 

    Goliah surgiu de trás da perna do parceiro com os braços cruzados nas costas e um olhar frio para o corpo estirado no tapete.


    Despertou com o gosto de sangue na boca. Tentou mover os braços e sentiu as cordas sintéticas ao redor dos pulsos e tornozelos. Ele estava deitado de bruços no centro da sala. Um peso comprimia a sua coluna vertebral.

    Goliah ajeitou o assento sobre as costas do prisioneiro.

    — Nós temos um papel com seu nome, endereço e uma senha. Encontramos essa anotação dentro do apartamento revirado da moça assassinada. Qual a sua relação com Silvia?

    Linus manteve o rosto colado ao assoalho e ficou em silêncio.

    — Você trabalha no frigorífico industrial do setor seis — continuou o interrogador. — O assassino de Silvia responde pela alcunha de Açougueiro. Essa coincidência me irrita. Responda.

    O suspeito travou o maxilar.

    Goliah aplicou pressão sobre as costelas do homem.

    — A necessidade de uma senha para os dois indica paranoia. Vocês previam uma aproximação hostil. Sabiam da perseguição e precisavam de cautela máxima.

    — Não tirará nada de mim. Levarei tudo comigo pro túmulo.

    — Pois nisso eu o ajudo com muito prazer.

    Um zumbido elétrico cortou o ar da sala. O som de dentes de metal em alta rotação vibrou contra o assoalho. O homem rendido rangeu os dentes.

    — Você já sofreu uma laceração retal antes? — perguntou Goliah.

    Linus contraiu os músculos e arregalou os olhos.

    — Retal? Espere! Espera aí!

    O anão coçou o próprio queixo com o cabo da pequena furadeira dentada.

    — Oras, mas você desistiu tão fácil. A serra mal tocou o tecido das roupas.

    — Não é isso — engoliu em seco. — Eu desejo saber qual o verdadeiro interesse de vocês na morte de Silvia.

    Goliah estalou a língua e manteve o zumbido da lâmina ativo.

    — Nós não devemos satisfação nenhuma a um cara amarrado no chão prestes a ter as pregas trituradas.

    — Parem! Vocês foram contratados pelo prefeito, né? Eu ouvi que o prefeito chamou um tal de pequenino para caçar o Açougueiro.

    O motor da serra desligou com um estalo seco. Por um instante, no apartamento pareceu ecoar um ranger de dentes.

    — Esse boato está errado — o anão grunhiu. — Pequenino é o estrago que eu vou fazer em você agora!

    O homem se agitou no chão.

    — Calma! Calma! Desculpe! Eu falo tudo. Silvia e eu tínhamos medo de perseguição por termos nos envolvido com o grupo Revolucionário Lunar, o Revolu.

    O detetive virou o rosto para o canto da sala. David estava sentado no sofá e usava fones de ouvido grandes enquanto balançava a cabeça ao ritmo de uma música inaudível.

    Goliah torceu o nariz e endureceu o olhar. Como se o sentisse queimar sobre si, o gigante ergueu o rosto e retirou os fones, então voltou a atenção para a cena de interrogatório.

    — Interessante — continuou o anão para o homem no chão. — Então vocês dois estavam sem louça para lavar e resolveram brincar de trincheira?

    — Não é nada disso. Eu sou um ex-fuzileiro aposentado. Conheci a Silvia em um projeto social de apoio psiquiátrico para pessoas com estresse pós-traumático.

    — Explique essa história direito.

    Linus respirou fundo.

    — Nós nos aproximamos ao longo dos encontros e nos envolvemos…

    Seu olhar se perdeu em lembranças na parede.

    — Eu fiz o possível para não queimar a imagem dela. Nunca disse a ninguém sobre nós… Se… Se apenas eu soubesse que meus relatos levariam a isso…

    — Como é?

    O anão se debruçou sobre as costas do homem, interessado no último pedaço da confissão.

    Linus fechou os olhos.

    — A revolta cresceu dentro dela através dos meus relatos do front. Há cerca de dois meses, ela decidiu integrar a ação revolucionária do grupo Revolu.

    Goliah arregalou os olhos.

    — Tentei convencê-la a desistir. Eu conhecia o campo de batalha, sabia que não podia confiar em nenhum dos lados, e não queria o mesmo inferno para a vida dela. Ela não me ouviu e fez contato com eles…

    — Continue. Como isso nos traz até aqui?

    — Eu… Eu acredito que eles possam ter pensado que ela estava tentando se infiltrar… Podem ter se aproveitado para mandar alguém matá-la.

    — O açougueiro? — O detetive ergueu uma sobrancelha.

    — Não… Eu acho que tentaram culpá-lo para despistar a polícia…

    Goliah olhou mais uma vez para David que encarava o rosto do rendido de forma fixa. Uma voz feminina e artificial soou em sua cabeça.

    “Tom de voz inalterado e batimentos instáveis por sentimentalização. Chance de veracidade: 88%.”

    David ergueu o polegar direito para o parceiro anão. Então, recolocou os fones.

    Goliah suspirou, guardou a serra portátil no sobretudo e se levantou das costas de Linus.

    “Bem, isso explicaria o fato de ela não ter nada a ver com o perfil de vítimas anteriores…”

    Começou a caminhar de um lado para o outro na sala e mergulhou em reflexão.

    Linus desabou em um choro contido no chão.

    — Eu tentei fazer ela desistir. Tentei dissuadir a ideia dela o máximo que pude. Eu sou o verdadeiro culpado por contar tudo o que passei.

    Ele soluçou e encolheu as pernas contra o peito.

    — Eu enfrentaria toda a dor do exército de novo por ela. Lutaria por ela outra vez. Eu estava pronto para fugir junto se fosse preciso…

    Goliah parou a caminhada.

    “Se esses fatos que o maluco aqui relatou tiverem algo a relacionar com a morte da moça, pode ter sido queima de arquivos. Eles queriam os recursos, mas não queriam lidar com a dor de cabeça de ter o prefeito no cangote correndo atrás da filhinha dele.”

    Levou a mão ao queixo.

    “O fato de o Açougueiro ser alguém com conhecimento técnico e maquinário específico corrobora para esse nível de organização.”

    Balançou a cabeça de forma negativa.

    — Mas matá-la assim? Algo está errado nessa história. Mais alguém sabia desses planos de vocês dois?

    — Não — respondeu Linus entre soluços. — Todas as vezes que ela tocou no assunto foram em um lugar seguro. Mesmo as ligações para eles foram feitas de números descartáveis e irrastreáveis. Não havia como ninguém descobrir sobre isso.

    Goliah suspirou e estalou os dedos. David se levantou do sofá de forma imediata. O gigante cortou as amarras das pernas e dos braços de Linus com um estilete tático enquanto seu colega anotava algo em um pedaço de papel. 

    — O que vocês farão? — perguntou Linus.

    O anão jogou o bilhete na direção dele.

    — Ligue se souber de mais alguma coisa.

    Eles cruzaram o batente e abandonaram o ex-soldado sozinho na sala.


    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota