02 Pequeno Gigante | Bilhete
Passos rápidos e pesados agitavam a entrada da cobertura.
O Inspetor Vincent cruzou o batente de madeira destruído com a arma de serviço em punho. Dois guardas lunares saíram do elevador atrás e o acompanharam com fuzis de assalto erguidos.
Vincent vestia o sobretudo escuro padrão da polícia investigativa que o diferenciava claramente dos dois agentes com coletes. Seu rosto, mesmo jovem, exibia linhas duras por trás de óculos com lentes grossas e avermelhadas.
“Será que eu estou certo?” Esperava que sim.
Quando chegou ao quarto que deveria estar isolado, estacou bruscamente ao visualizar as duas figuras no interior enquanto os guardas travavam a mira no gigante monstruoso que ocupava o centro da sala.
O choque do encontro súbito paralisou o ambiente por uma fração de segundo. Os olhos do inspetor viajaram pelo quarto, captaram as fitas rasgadas no chão e o cenário claramente violado pelos invasores.
“Que cara enorme…”
Ergueu a pistola na direção do anão.
— Mãos na cabeça e afastem-se das evidências. Vocês estão presos por invasão e contaminação de uma cena de crime ativa.

Goliah ergueu a mão com o tubo plástico apenas para coçar a própria cabeça com a sua base e então a deixou cair de novo ao lado do corpo.
— Levantem as mãos! — Vincent franziu o cenho. — Vocês possuem direito a advo-
— Como a guarda chegou até nós em tão pouco tempo? Eu pensei que meu amigo tivesse deixado vocês bem ocupados no outro distrito.
O policial apertou os olhos e a armação vermelha escorregou um milímetro pelo nariz. O maxilar do policial contraiu de irritação.
— Então foram vocês mesmo.
O baixinho deu de ombros.
— Quando olhei a distribuição de rondas da guarda, percebi que este bairro em específico estava completamente vazio. Algo estranho para um bairro tão nobre. Então decidi fazer uma aposta.
Os guardas que o acompanhavam fitaram-no de repente com olhos cerrados, como se para eles essa informação também fosse novidade.
— Deduzi que teria algo a ver com este lugar, já que a morte da filha do prefeito me parecia a única coisa que justificaria um interesse capaz de uma ação tão meticulosa quanto a adulteração de rondas da guarda.
O anão abriu um sorriso sutil de canto de boca que curvou o bigode.
— Bravo.
David olhava as armas apontadas para si com pouco interesse. O gigante cibernético inclinou o pescoço e analisou o rosto do inspetor.
Seus olhos foram do equipamento vermelho sobre o nariz do policial e depois para os olhos mecânicos azulados do próprio colega.
— Esse negócio de lentes coloridas virou moda? — perguntou David com a sua voz fina e inexpressiva. — Por que alguém usaria um óculos de lente vermelha em uma lua?
Vincent soprou um ar pelo nariz, surpreso com a pergunta. Apertou os dedos no cabo da arma outra vez, seus olhos se estreitaram.
“Se eu atirar aqui, posso danificar algo na cena do crime.”
— Vocês se acham muito espertos — disse Goliah. — Conseguiram descobrir toda a nossa brincadeira, mas não se atentaram minimamente para um elemento óbvio do crime que investigavam.
— Como? — O inspetor curvou as sobrancelhas em confusão.
— Eu vi pelos arquivos do caso que vocês classificaram as manchas no chão como marcas de sangue decorrentes do processo de sangria.
David tombou a cabeça para o lado.
— Mas as manchas são de sangue, não chefe?
— Idiotas. Isso é óleo!
Goliah guardou o cilindro no bolso do sobretudo e apontou para as manchas escuras no tapete.
— Não resta dúvida que o Açougueiro é mais que um maníaco qualquer. A ausência de sangue espalhado pela cena e a presença de óleo indicam o uso de maquinário e técnicas avançadas. O assassino extraiu o líquido de forma limpa, mas o equipamento pesado vazou lubrificante pelas válvulas durante a operação.
Os guardas, silenciosos, olhavam de pouco em pouco para seu superior, atentos a novas ordens.
Vincent abaixou a arma. Olhou para as manchas no tapete branco felpudo e processou as informações em silêncio.
Nesse instante, Goliah notou de relance um pedaço de papel sob a estrutura do sofá revirado. Imediatamente, dobrou os joelhos e puxou a folha para fora do móvel.
Sobressaltado pelo movimento repentino, Vincent ergueu a arma novamente e travou a mira novamente no invasor.
— Deixe a evidência onde você a encontrou.
O anão suspirou.
— Você ainda não entendeu? Tem um profissional tentando solucionar um caso aqui.
O olhar do inspetor se estreitou atrás das lentes vermelhas.
— Deixe. A evidência. No chão.
O pequenino encarou-o em silêncio por um instante. Visto que o adversário não voltaria atrás, suspirou e começou a erguer os braços.
Então, o policial viu-o arregalar os olhos, focado em algo nas suas costas, e gritar:
— Ei! Você, parado aí!
Vincent e os dois soldados viraram os corpos para trás em um sobressalto. Seus olhos varreram o corredor iluminado e vazio.
Quando olharam de volta para o centro da sala, Goliah e David já cruzavam a janela e estraçalhavam o vidro blindado inteiro com o peso do gigante.
O inspetor correu com os guardas até o buraco na parede e olhou para baixo.
Os fugitivos aterrissaram sobre o teto de um prédio lateral cerca de vinte metros abaixo da cobertura. O impacto entortou as telhas de metal da estrutura.
Os guardas ergueram os fuzis e atiraram contra o telhado inferior. Vincent empurrou os canos das armas para cima e interrompeu os disparos de forma ríspida.
— O que diabos vocês estão fazendo? Atirar contra telhados numa área residencial?
Os soldados recuaram e abaixaram os fuzis. Vincent olhou de novo para baixo sob a chuva artificial. Já não havia nada lá.

O comunicador vibrou nas mãos trêmulas de Linus.
Encarava a tela rachada do aparelho com respiração ofegante. A voz de Silvia ecoou em sua mente mais uma vez. Como se fosse a primeira.
Ela avisou sobre a morte forjada. Disse que haviam conseguido alcançá-la e que ela teve que fugir para não ser pega. Disse que precisava de ajuda e que só podia contar com ele.
O medo inicial de uma piada de mau gosto ou de algum estelionatário perverso desapareceu no instante em que ela sussurrou a palavra de segurança: Poços.
Ele levou a mão ao marca-passo cibernético que brilhava em amarelo no seu peito.
A campainha eletrônica do apartamento o fez despertar dos sonhos. Caminhou em silêncio, mas se viu travar perto da porta de metal.
Engoliu a saliva seca e recuou um passo.
“E-eu estou mesmo aceitando essa maluquice?”
O comunicador tocou de novo em suas mãos. Num sobressalto, ele o levou ao ouvido.
— Abra logo a porta. Faz frio aqui fora. — A voz de Silvia soou cristalina no alto-falante.
Linus encarou a porta por um longo segundo, antes de ativar o painel de segurança da entrada. O visor acendeu e revelou.
Ela vestia um agasalho pesado e encolhia os ombros sob a chuva artificial do corredor. Os cabelos loiros caíam sobre o peito, trançados. Como ele se lembrava.
Lágrimas brotaram nos olhos do ex-soldado. Ele manteve o aparelho colado à orelha e sorriu sem perceber.
— É um milagre.
Destrancou a porta bruscamente e puxou a maçaneta.
Uma sombra o engoliu imediatamente. Se viu encarando uma parede.
Um gigante de sobretudo preto preencheu o batente. David segurava um emissor holográfico em uma das mãos e um gravador na outra. Linhas de código verde refletiam nas íris mecânicas do ciborgue.
— Pensei que fosse me deixar do lado de fora — a voz de Silvia escapou mais uma vez de seus lábios maquiavelicamente sorridentes.

Linus recuou um passo curto com olhos esbugalhados. O punho de metal do gigante atingiu o rosto dele e apagou sua consciência de forma imediata.
Goliah surgiu de trás da perna do parceiro com os braços cruzados nas costas e um olhar frio para o corpo estirado no tapete.
Despertou com o gosto de sangue na boca. Tentou mover os braços e sentiu as cordas sintéticas ao redor dos pulsos e tornozelos. Ele estava deitado de bruços no centro da sala. Um peso comprimia a sua coluna vertebral.
Goliah ajeitou o assento sobre as costas do prisioneiro.
— Nós temos um papel com seu nome, endereço e uma senha. Encontramos essa anotação dentro do apartamento revirado da moça assassinada. Qual a sua relação com Silvia?
Linus manteve o rosto colado ao assoalho e ficou em silêncio.
— Você trabalha no frigorífico industrial do setor seis — continuou o interrogador. — O assassino de Silvia responde pela alcunha de Açougueiro. Essa coincidência me irrita. Responda.
O suspeito travou o maxilar.
Goliah aplicou pressão sobre as costelas do homem.
— A necessidade de uma senha para os dois indica paranoia. Vocês previam uma aproximação hostil. Sabiam da perseguição e precisavam de cautela máxima.
— Não tirará nada de mim. Levarei tudo comigo pro túmulo.
— Pois nisso eu o ajudo com muito prazer.
Um zumbido elétrico cortou o ar da sala. O som de dentes de metal em alta rotação vibrou contra o assoalho. O homem rendido rangeu os dentes.
— Você já sofreu uma laceração retal antes? — perguntou Goliah.
Linus contraiu os músculos e arregalou os olhos.
— Retal? Espere! Espera aí!
O anão coçou o próprio queixo com o cabo da pequena furadeira dentada.
— Oras, mas você desistiu tão fácil. A serra mal tocou o tecido das roupas.
— Não é isso — engoliu em seco. — Eu desejo saber qual o verdadeiro interesse de vocês na morte de Silvia.
Goliah estalou a língua e manteve o zumbido da lâmina ativo.
— Nós não devemos satisfação nenhuma a um cara amarrado no chão prestes a ter as pregas trituradas.
— Parem! Vocês foram contratados pelo prefeito, né? Eu ouvi que o prefeito chamou um tal de pequenino para caçar o Açougueiro.
O motor da serra desligou com um estalo seco. Por um instante, no apartamento pareceu ecoar um ranger de dentes.
— Esse boato está errado — o anão grunhiu. — Pequenino é o estrago que eu vou fazer em você agora!
O homem se agitou no chão.
— Calma! Calma! Desculpe! Eu falo tudo. Silvia e eu tínhamos medo de perseguição por termos nos envolvido com o grupo Revolucionário Lunar, o Revolu.
O detetive virou o rosto para o canto da sala. David estava sentado no sofá e usava fones de ouvido grandes enquanto balançava a cabeça ao ritmo de uma música inaudível.

Goliah torceu o nariz e endureceu o olhar. Como se o sentisse queimar sobre si, o gigante ergueu o rosto e retirou os fones, então voltou a atenção para a cena de interrogatório.
— Interessante — continuou o anão para o homem no chão. — Então vocês dois estavam sem louça para lavar e resolveram brincar de trincheira?
— Não é nada disso. Eu sou um ex-fuzileiro aposentado. Conheci a Silvia em um projeto social de apoio psiquiátrico para pessoas com estresse pós-traumático.
— Explique essa história direito.
Linus respirou fundo.
— Nós nos aproximamos ao longo dos encontros e nos envolvemos…
Seu olhar se perdeu em lembranças na parede.
— Eu fiz o possível para não queimar a imagem dela. Nunca disse a ninguém sobre nós… Se… Se apenas eu soubesse que meus relatos levariam a isso…
— Como é?
O anão se debruçou sobre as costas do homem, interessado no último pedaço da confissão.
Linus fechou os olhos.
— A revolta cresceu dentro dela através dos meus relatos do front. Há cerca de dois meses, ela decidiu integrar a ação revolucionária do grupo Revolu.
Goliah arregalou os olhos.
— Tentei convencê-la a desistir. Eu conhecia o campo de batalha, sabia que não podia confiar em nenhum dos lados, e não queria o mesmo inferno para a vida dela. Ela não me ouviu e fez contato com eles…
— Continue. Como isso nos traz até aqui?
— Eu… Eu acredito que eles possam ter pensado que ela estava tentando se infiltrar… Podem ter se aproveitado para mandar alguém matá-la.
— O açougueiro? — O detetive ergueu uma sobrancelha.
— Não… Eu acho que tentaram culpá-lo para despistar a polícia…
Goliah olhou mais uma vez para David que encarava o rosto do rendido de forma fixa. Uma voz feminina e artificial soou em sua cabeça.
“Tom de voz inalterado e batimentos instáveis por sentimentalização. Chance de veracidade: 88%.”
David ergueu o polegar direito para o parceiro anão. Então, recolocou os fones.
Goliah suspirou, guardou a serra portátil no sobretudo e se levantou das costas de Linus.
“Bem, isso explicaria o fato de ela não ter nada a ver com o perfil de vítimas anteriores…”
Começou a caminhar de um lado para o outro na sala e mergulhou em reflexão.
Linus desabou em um choro contido no chão.
— Eu tentei fazer ela desistir. Tentei dissuadir a ideia dela o máximo que pude. Eu sou o verdadeiro culpado por contar tudo o que passei.
Ele soluçou e encolheu as pernas contra o peito.
— Eu enfrentaria toda a dor do exército de novo por ela. Lutaria por ela outra vez. Eu estava pronto para fugir junto se fosse preciso…
Goliah parou a caminhada.
“Se esses fatos que o maluco aqui relatou tiverem algo a relacionar com a morte da moça, pode ter sido queima de arquivos. Eles queriam os recursos, mas não queriam lidar com a dor de cabeça de ter o prefeito no cangote correndo atrás da filhinha dele.”
Levou a mão ao queixo.
“O fato de o Açougueiro ser alguém com conhecimento técnico e maquinário específico corrobora para esse nível de organização.”
Balançou a cabeça de forma negativa.
— Mas matá-la assim? Algo está errado nessa história. Mais alguém sabia desses planos de vocês dois?
— Não — respondeu Linus entre soluços. — Todas as vezes que ela tocou no assunto foram em um lugar seguro. Mesmo as ligações para eles foram feitas de números descartáveis e irrastreáveis. Não havia como ninguém descobrir sobre isso.
Goliah suspirou e estalou os dedos. David se levantou do sofá de forma imediata. O gigante cortou as amarras das pernas e dos braços de Linus com um estilete tático enquanto seu colega anotava algo em um pedaço de papel.
— O que vocês farão? — perguntou Linus.
O anão jogou o bilhete na direção dele.
— Ligue se souber de mais alguma coisa.
Eles cruzaram o batente e abandonaram o ex-soldado sozinho na sala.

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