05 Pequeno Gigante | Comodoro
No interior da nave, Goliah encarava o telecomunicador com impaciência. David polia seu punho metálico ao fundo.
O aparelho tocou e ele atendeu de imediato. O feixe de luz azul projetou o busto de Comodoro. Olheiras profundas e uma expressão de tédio. Três linhas finas de implantes de dados cruzavam cada uma de suas bochechas, brilhando em um tom tênue de verde.
O anão imediatamente retorceu o nariz, irritado com a impecabilidade daquele cabelo social com uma mecha sobre a testa, óculos arredondados e escuros e bigode farto. Para o baixinho, o rosto dele parecia uma máscara de festa infantil.
— Comodoro, meu maldito irmão — saudou com hostilidade. — Tem alguma novidade sobre as análises da substância ou será mais uma sessão de desperdício do meu precioso tempo?

— Você já desperdiçou o meu demais com essas falas pomposas e tarefas desinteressantes. Se eu fosse você, agradeceria por eu sequer atender suas ligações.
— Corta o papo furado e me traga resultados para que eu tenha algo pelo que te agradecer.
O analista suspirou e digitou um comando em um teclado invisível na projeção. Um gráfico holográfico complexo surgiu ao lado do rosto de Comodoro, exibindo cadeias moleculares em rotação.
— Eu finalizei os testes cruzados entre o resíduo do cilindro que você encontrou no quarto da Silvia e a amostra do sangue do tal Linus
Comodoro apontou para uma seção amarela do gráfico.
— À primeira vista, o material coletado no quarto se assemelha a um carboneto oleoso comum, um lubrificante industrial. No entanto, a análise aprofundada do sangue de Linus revelou a verdade.
Goliah franziu o cenho. David parou de polir o braço e virou o rosto para a projeção.
— Continue.
— Ambas as amostras possuem a mesma origem. É sangue.
Comodoro manipulou o holograma, fazendo as duas cadeias moleculares se sobreporem perfeitamente.
— O material do quarto da Silvia é sangue em estágio avançado de transformação. O sangue de Linus estava em um estágio intermediário, no meio de um processo mutagênico.
O anão arregalou os olhos.
— Eu nunca vi nada parecido na minha vida. Mutação sanguínea é algo em que eu sequer havia pensado antes daquela forma.
Goliah recostou-se na cadeira de comando e tamborilou os dedos na bochecha, pensativo. A última ligação de Linus e o pânico em sua voz retornaram à mente.
— O sangue, ao passar por essa transformação, se tornaria como um veneno correndo nas veias de seu dono — Comodoro tinha um brilho no olhar de admiração técnica. — O hospedeiro morreria de falência múltipla dos órgãos muito antes da transformação se completar, se o Açougueiro não realizasse a sangria.
— Febre — murmurou Goliah. — Ele me ligou dizendo que o corpo estava fervendo.
— Exatamente. É a reação imunológica extrema do organismo tentando combater a mutação. — o analista fechou o gráfico. — Eu não consegui descobrir a causa exata ou o gatilho dessa transformação. Mas eu gostaria que você me comunicasse assim que tivesse novas descobertas sobre a natureza dessa substância.
— Fique atento ao telefone.
Comodoro franziu a testa, irritado com a frieza do irmão.
— Você não vai nem me agradecer?
— Não.
O baixinho esticou o braço e encerrou a transmissão. O holograma desapareceu com um estalo estático e o silêncio voltou a reinar na ponte de comando da nave.
Digitou uma nova sequência numérica no teclado. O emissor de luz piscou e projetou o holograma do prefeito Lesbo. O político exibia olhos inchados, gravata frouxa e segurava um copo com líquido âmbar.

— Prefeito. — Goliah apoiou os cotovelos na mesa metálica. — Eu preciso do histórico médico recente de Silvia. Relate qualquer doença, acidente, uso de medicamentos contínuos ou substâncias químicas desconhecidas.
Lesbos piscou de forma lenta e bebeu um gole do líquido.
— Silvia possuía uma saúde perfeita. Ela não usava drogas e não sofreu acidentes.
— Pense com cuidado. Qualquer intervenção no corpo da garota importa agora.
O prefeito baixou o copo e apoiou a mão na testa.
— Ela passou por uma cirurgia há algumas semanas. A colocação de um implante novo.
— Qual a função da peça e quem forneceu o material?
— Eu não procurei saber os detalhes. Silvia cuidava das próprias escolhas estéticas. Mas eu lembro o nome da clínica e da fabricante. Ela fechou o contrato com a Silco Co.
Goliah cruzou os braços. A memória das informações do noticiário no bar convergiu com a resposta do cliente.
— Tenho que dar um jeito de entrar lá…
— Tenho um contato na câmara legislativa. Posso conseguir que emitam credenciais de inspeção municipal para vocês dois.
O investigador pensou por um instante longo e silencioso.
— Não. Não se envolva. Ter um vínculo claro com o governo fecharia muitas portas para essa investigação.
Lesbos concordou com um aceno de cabeça.
Goliah cortou a transmissão, e o holograma desapareceu. Virou a cadeira na direção de David que já guardava o pano de microfibra no bolso do terno.
— Nós temos um destino.
— O acesso comum é liberado apenas à recepção e aos níveis comerciais, chefe.
— Não se preocupe. Nós não somos nada comuns.
— Eu ainda não acredito que você perdeu a briga para um bagre.
Vincent girou o copo de vidro entre os dedos e sorriu de forma jocosa por trás das lentes vermelhas.
Jonatan apoiou as costas na cadeira e cruzou os braços largos sob a jaqueta de couro. Um deles estava coberto no antebraço por uma contenção metálica.
— Se você soubesse como esses bichos reagem com violência nos canais externos, você não zombaria. Aquela aberração pesava muito mais que você.
O inspetor tomou um gole da bebida e suspirou de forma cansada.
— Eu devo estar perdendo peso mesmo. As dificuldades deste caso e a pressão da delegacia sugam a minha energia.
Jonatan descruzou os braços e apoiou a mão pesada na mesa.
— Por que você tenta tanto?
Vincent sorriu e encarou o fundo do copo vazio em silêncio por um instante.
— Eu também não sei.

Seu irmão inclinou o tronco para a frente e reduziu o tom de voz.
— Eu falo sério, Vincent. A guarda paga um salário miserável e o canalha do Zion mal reconhece o seu mérito nos corredores.
— Não fale assim do meu comandante.
Jonatan balançou a cabeça negativamente e olhou para o lado.
— Se você o conhecesse como eu.
O inspetor suspirou.
— Você deveria pensar com seriedade na ideia de deixar a Lua e estabelecer residência em uma colônia próxima à capital. Os grandes figurões da Confederação fariam um ótimo uso dos seus talentos.
Vincent ergueu o rosto e sustentou o olhar do irmão mais velho.
— Eu prefiro ser útil aos miseráveis da Confederação.
Um sorriso curto e carregado de melancolia surgiu no rosto de Jonatan. Ele balançou a cabeça em um movimento lento.
— Você deveria pensar bem sobre as suas escolhas. Esta colônia é um cemitério de mentes brilhantes.
O pescador levou o copo à boca e engoliu o resto da bebida alcoólica de uma só vez. Em seguida, levantou da cadeira de forma brusca, puxou uma nota do bolso e jogou o papel sobre a mesa.
— Você já vai? — perguntou Vincent.
— Eu preciso pegar o coletivo para a colônia de pesca logo. Se eu perder o transporte de agora, eu terei que esperar na cidade durante todo o final de semana.
O inspetor apertou os olhos por trás da armação avermelhada.
— Você não quer mesmo ficar no meu apartamento nestes dias? Permanecer sozinho na fronteira representa um risco alto. Nós não sabemos as motivações do Açougueiro e você é uma potencial vítima.
Jonatan sorriu e ajeitou a touca de lã na cabeça.
— Manda ele tentar a sorte. Talvez com um braço quebrado eu demore um pouco mais pra arrebentá-lo.
Então, deu um soco no ombro do irmão e caminhou em direção à saída do bar.
— Tome cuidado, Jon.
Jonatan abriu a porta de metal e olhou por cima do ombro.
— E você tome juízo.
A porta bateu e o pescador desapareceu sob o véu da noite.

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