Capítulo 20 - Novos Problemas
O silêncio no quarto de Kai Ryoshi é quase absoluto, quebrado apenas pelo som ritmado da bola de futebol batendo de leve contra a parede e voltando para as suas mãos. O ambiente é isolado, frio, iluminado apenas pela luz azulada do monitor preso à parede, que repete em looping os minutos finais da partida entre o Time Z e o Time U.
Kai segura a bola com uma das mãos, os olhos fixos na tela. O monitor exibe o exato momento em que o rastro de chamas azuis se expande pelo campo e Akira executa o Double Berettas Kick. Por um único segundo, os cantos dos lábios de Kai se elevam. Um sorriso genuíno de canto de boca escapa de suas feições geralmente apáticas. O despertar daquele Ideal o agrada.
Mas o vislumbre de empolgação desaparece tão rápido quanto surgiu. Kai joga a bola para cima, pegando-a com a nuca, e volta a adotar sua expressão entediada.
— Que saco… — murmura Kai para as paredes vazias, estalando o pescoço. — Esse jogo já deveria ter acabado há muito tempo. Quanta perda de tempo.
Enquanto o isolamento consome o quarto de Kai, a atmosfera em outro setor do complexo é completamente oposta. No alojamento compartilhado por Kin Ryoshi, Ritsu Neyuma e Yūgo Hayashi, a energia é pura eletricidade.
Kin e Ritsu estão praticamente colados na tela do monitor do quarto, gesticulando freneticamente enquanto revisam a cronologia dos onze gols da partida.
— Cara, você viu a velocidade de reação do Time Z?! — Ritsu comenta, os olhos arregalados de entusiasmo, passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Um 6 a 5 de virada no último minuto contra a melhor defesa do bloco! Isso é ridículo!
— Eu disse que aquele herdeiro maldito não ia cair fácil! — Kin exclama, com um sorriso maníaco e os punhos cerrados de pura adrenalina. — O cara simplesmente incendiou o gramado! É esse tipo de caos que eu quero esmagar quando a gente entrar em campo!
No canto mais escuro do quarto, sentado na beira da cama com os cotovelos apoiados nos joelhos, Yūgo Hayashi permanece em silêncio. Ele não olha para os gols. Ele não olha para o placar. Seus olhos estão fixos na imagem estática de Akira Hayato, envolto em sua aura de chamas azuis.
A mente de Yūgo trabalha em uma rota completamente diferente.
— Ele despertou o Ideal… — a voz de Yūgo sai baixa, cortando o barulho de Kin e Ritsu instantaneamente.
Os dois param de falar e se viram para o companheiro. O tom de Yūgo não tem entusiasmo; tem uma precisão cirúrgica e analítica que incomoda.
— Mas esse não é o jeito certo de usá-lo — Yūgo continua, endireitando a postura e encarando o vazio. — Ele está forçando as peças ao redor para criar espaço para o próprio chute. Ele está se moldando para finalizar.
Kin estreita os olhos, sentindo um arrepio incômodo com a frieza das palavras. Uma ponta de apreensão surge no peito do Ryoshi mais novo.
— O que você quer dizer com isso, Yūgo? O cara acabou de meter o gol da vitória.
Yūgo vira o rosto lentamente, olhando diretamente nos olhos de Kin, com uma seriedade que faz o peso do quarto mudar por completo.
— Sabe o que eu acho, Kin? — Yūgo solta o ar devagar, os olhos brilhando com uma certeza assustadora. — O Akira Hayato nem deveria ser um atacante.
O ambiente no refeitório do Time Z é de pura catarse. A energia de uma vitória por 6 a 5 ainda corre pelas veias de todo mundo. Renji, completamente sem filtro, está em cima de uma das cadeiras de plástico, gesticulando dramaticamente com os braços e encenando o voleio brutal de Genjiro.
— Ele veio lá de trás, parecia um meteoro! — grita Renji, quase se desequilibrando. — A zaga do Time U nem viu a cor da bola!
Genjiro, sentado logo abaixo, solta uma risada estrondosa que ecoa pelo teto alto, enquanto devora um prato monstruoso de comida para repor as energias de um jogo que exigiu cada gota de seu físico. Perto dali, Hiori opera o tablet do complexo, com os olhos brilhando ao analisar a atualização dos novos privilégios, acomodações e refeições de elite que o time conquistou ao subir no ranking.
No canto mais afastado da mesa, Akira permanece sentado em sua postura fria e comedida de sempre. Ele não entra na gritaria, mas há um brilho nítido de satisfação em suas pupilas. A sensação amarga da bola passando entre suas pernas no gol de Kira havia sumido. Ele havia virado o jogo. Ele havia ditado o ritmo. Ele venceu a aposta e provou seu ponto para Baraki.
BIP.
Um aviso sonoro agudo e digital corta os alto-falantes do teto, interrompendo a encenação de Renji no mesmo instante. A voz eletrônica e impessoal do sistema do Project Zenkoku ecoa:
“Atenção, todos os blocos. Fim da segunda rodada. Atualizando dados de classificação e tabelas.”
Koa, que estava encostado calmamente no balcão de bebidas com os braços cruzados, levanta a cabeça devagar e fixa os olhos no monitor principal que domina a parede do refeitório.
— Ei… — a voz de Koa sai séria, mudando o tom do ambiente. — Saiu o resultado do Time X contra o Time T.
A menção ao Time T faz o refeitório silenciar aos poucos, como se uma cortina de gelo caísse sobre eles. O Time T não era apenas um time qualquer; foi o primeiro adversário do Time Z no torneio. Uma equipe com uma defesa física, pesada e massacrante, que fez o Time Z sangrar, quebrar os próprios limites e passar um sufoco desgraçado 1 para arrancar uma vitória magra de um gol de diferença. O Time Z sabia o quão difícil era arranhar aquela parede de concreto.
O telão gigante pisca duas vezes antes de exibir as letras vermelhas e imponentes:
FINAL: TIME X 5 x 1 TIME T
O garfo na mão de Renji escorrega por seus dedos, batendo contra o prato com um estalo metálico que parece alto demais no silêncio que engoliu o refeitório. Ninguém diz uma única palavra.
Um 5 a 1 contra o time mais físico do bloco não era apenas uma vitória estratégica comum. Era uma humilhação completa. Era a prova de que o Time X não apenas venceu a parede de concreto do Time T — eles a transformaram em poeira.
— Solta os melhores momentos, Hiori — a voz de Akira sai baixa, mas o tom de deboche sumiu por completo.
Hiori rapidamente toca na tela de seu dispositivo, transmitindo o vídeo para o monitor principal do refeitório. No primeiro segundo em que a imagem ganha vida, os olhos de Akira se estreitam imediatamente, toda a satisfação da vitória recente evaporando de suas feições.
A câmera do VT foca direto no ponta esquerda do Time X. Ele exibe um cabelo perfeitamente bagunçado e uma postura extremamente relaxada, quase desatenta. Ele avança em direção ao lateral do Time T e, com uma velocidade de pés absurda, executa um drible de corte seco. O defensor vai ao chão por puro desequilíbrio físico, sem entender o que aconteceu.
— Não pode ser… — Akira sussurra, os punhos se contraindo sob a mesa. — Raneki Uro.
Antes que o resto do Time Z consiga processar o impacto daquele nome, a bola viaja rapidamente em uma inversão precisa para a ponta direita. O jogador dali corre em direção à linha de fundo encarando a zaga. Ele inclina o corpo para a esquerda de forma tão violenta que o zagueiro morde a finta por completo; porém, em uma fração de milissegundo, o corpo real do ponta já passou pela direita, deixando uma ilusão de ótica para trás, exatamente como uma miragem de passos no gramado.
— Sakato Kouno… — a mandíbula de Akira trava.
Os dois ex-companheiros de equipe dele, os rostos com quem ele costumava dominar os campeonatos juvenis antes de entrar no projeto, estavam ali. Destruindo a zaga do Time T com extrema facilidade em situações puras de 1 v 1. Eles haviam evoluído drasticamente.
Mas o pior não era o reencontro com o passado de Akira. O verdadeiro terror tático residia no centro do ataque do Time X.
A bola limpa por Sakato após a finta fantasma é cruzada com precisão na área. Um monstro de 1,93m de altura, com um corpo de pivô massivo que faz os corpulentos zagueiros do Time T parecerem crianças, domina de costas para a baliza. É o verdadeiro trunfo do time: Riku Arashima, o considerado melhor atacante sub-20 do Japão.
Riku recebe o impacto violento do zagueiro central, absorve toda a força física sem sequer sair do lugar e, em um movimento absurdamente ágil para alguém daquele tamanho, executa um drible com giro rápido. A técnica demonstrada é tão refinada quanto o seu físico assustador. Ele gira limpando o marcador em um piscar de olhos, mantendo a bola colada na sua perna canhota.
BANG.
O chute de Arashima de perna esquerda rasga a rede lateral. Sem esforço evidente. Sem drama ou comemorações exageradas. O VT mostra o camisa 9 caminhando calmamente de volta para o meio-campo com uma expressão de puro tédio, como se todo o campeonato e o campo fossem apenas o palco particular dele, onde os outros eram meros coadjuvantes.
No refeitório do Time Z, o silêncio é tão denso que se pode ouvir a respiração pesada dos jogadores. Ninguém ousa dizer nada. Akira continua encarando a tela fixamente e, sutilmente, uma faísca solitária de chama azul pisca no fundo de sua pupila escura. Os “Novos Problemas” agora tinham rostos, nomes, um passado em comum e um novo rei canhoto de 1,93m no caminho.

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