Capítulo 21 - Ensaio
As imagens do massacre de 5 a 1 do Time X continuavam congeladas no monitor do refeitório. O silêncio que havia engolido o Time Z finalmente foi quebrado quando Akira se levantou da cadeira, caminhando até a tela. A expressão de deboche que ele ostentava após derrotar o Time U havia sumido por completo, dando lugar a uma seriedade fria.
— Aqueles dois ali… — Akira apontou para os hologramas de Raneki Uro e Sakato Kouno. — Eu conheço bem. Joguei com eles no juvenil antes de vir para o Zenkoku. E eu garanto para vocês: eles são bons pra caralho.
Renji, que ainda segurava o garfo no ar, estreitou os olhos. — O que faz o drible deles ser tão diferente do meu, Akira? — Você dribla por instinto, Renji. O Raneki estuda o centro de gravidade do defensor e quebra o cara no milissegundo em que o peso do corpo muda. E o Sakato… o jogo de corpo dele é tão rápido que ele cria uma ilusão de ótica. Se você tentar adivinhar para onde eles vão, você está morto.
Hiori, que operava o tablet tático, franziu a testa ao notar algo nas estatísticas gerais da partida do Time X. — Akira… o trio que você mencionou é assustador, mas olhe os números da distribuição de jogadas. O Arashima fez o gol de pivô, o Raneki e o Sakato destruíram as pontas, mas as jogadas não nasceram deles. Tem um quarto componente.
A tela do monitor se atualizou, destacando o camisa 10 do Time X. Um jogador de postura elegante, olhar focado e cabelos pretos alinhados. No rodapé, o nome brilhava: Kageyata Omura, Meio-Campo Ofensivo.
— Ele terminou o jogo com 1 gol e 3 assistências — anunciou Hiori, o tom de voz pesado. — Ele é o verdadeiro motor daquele time.
— Põe o gol dele na tela, Hiori — ordenou Genjiro, cruzando os braços massivos.
O VT cortou para o momento do gol de Kageyata. Era uma falta a 27 metros de distância da baliza do Time T. A barreira estava perfeitamente montada, e o goleiro, bem posicionado. Kageyata correu para a bola de forma reta. Com uma técnica assustadoramente cirúrgica, ele bateu na bola de trivela.
A bola viajou em uma curva externa violenta, contornando a barreira por fora de um jeito que parecia desafiar a física, e rasgou exatamente o ângulo oposto. O goleiro do Time T sequer se mexeu. Foi um lance plástico, perfeito e letal.
O silêncio voltou a tomar conta do refeitório, mas desta vez, não era por medo — era a concentração de quem sabia que o nível do torneio tinha subido para a estratosfera.
— Um pivô de 1,93m, dois pontas imbatíveis no 1 v 1 e um armador que mete uma trivela no ângulo a quase 30 metros… — Tsubasa Ryoma soltou uma risada nervosa, ajustando a postura. — Que belo palco arrumaram para a gente.
Akira se virou para o grupo. Suas pupilas brilhavam com uma determinação afiada. — O Time U tentou nos vencer com a tática e a Visão Astral do Nikoji. O Time X vai tentar nos triturar na base do talento individual puro. Se nós jogarmos recuados, o Kageyata vai achar um passe ou chutar de longe. Se nós dermos espaço, os pontas destroem a nossa zaga.
— Então qual é o plano, capitão? — perguntou Nakki, esticando os braços, o habitual ar de preguiça sendo substituído por um brilho focado nos olhos.
— Nós temos exatamente 5 dias até o jogo — Akira bateu com a palma da mão na mesa. — Não temos tempo para treinar jogadas ensaiadas longas. Precisamos treinar a nossa capacidade de reação sob pressão extrema em espaço curto. Vamos pro campo agora.
Minutos depois, sob os holofotes do campo de treinamento interno, o Time Z estava dividido. O treino montado por Akira era brutal: um minijogo de 5 contra 5 em metade do campo, com apenas 1 gol e 1 goleiro fixo. Sem espaço para correr, sem tempo para pensar. O objetivo era simular o sufoco que os pontas do Time X aplicariam na zaga, e a rapidez que o ataque precisaria para quebrar uma marcação fechada.
Gen Kekuru posicionou-se embaixo das traves, os olhos fixos na bola.
De um lado, o time de colete azul: Akira, Renji, Nakki, Tsubasa e Hiori. Do outro, a linha de contenção: Genjiro, Keo, Daichi, Hiroto e Sora.
— Quem perder paga 100 flexões por rodada! — gritou Genjiro, avançando como um tanque para cima de Akira assim que a bola rolou.
O treino começou em uma intensidade caótica. Em um espaço tão reduzido, a velocidade de Tsubasa era limitada pelas paredes imaginárias, forçando-o a usar passes curtos e rápidos. Renji tentava seus dribles inconscientes, mas Daichi e Hiroto fechavam o cerco imediatamente, aplicando o mesmo vigor físico que o Time X usaria.
Akira recebeu a bola de costas para a marcação de Keo. Naquele microespaço, ele tentou acionar o Sniper Dash Triplo para quebrar o eixo do volante, mas o impacto no chão molhado fez seu pé direito derrapar levemente, e Genjiro interceptou a bola com um carrinho limpo.
— Falta de sincronia! De novo! — Akira rugiu, levantando-se rapidamente da grama, o suor já escorrendo pela testa. — Se não conseguirmos jogar rápido aqui dentro, o Time X vai nos engolir em cinco dias!
O som das chuteiras batendo no chão e da bola estalando na rede ecoou pela noite do complexo. O Time Z estava sangrando no treino, mas cada erro ali era uma resposta para o que enfrentariam no “palco” do Time X.
A intensidade no gramado reduzido não diminuía. O time de colete azul trocava passes rápidos, mas a linha de contenção de Genjiro e Daichi parecia uma parede intransponível no espaço curto. A bola sobrou na intermediária para Hiori Cho.
Imediatamente, Keo e Hiroto avançaram para fechar o cerco, diminuindo o espaço para menos de dois metros. Foi nesse instante que a atmosfera ao redor de Hiori mudou.
Uma energia azul-clara, densa e gélida, começou a emanar de suas chuteiras, espalhando-se pelo chão como uma fina camada de geada que congelava o ar. Quando Keo e Hiroto entraram no raio de um metro da bola, seus movimentos travaram. A percepção física dos defensores foi bruscamente afetada, como se o corpo deles pesasse toneladas ou estivesse submerso em água congelante. A velocidade de reação deles despencou.
— O que é isso… meu corpo não responde rápido! — exclamou Keo, congelado no lugar.
Com os marcadores completamente neutralizados por sua nova relíquia, a Aura Congelante, Hiori teve o milissegundo necessário de pura calmaria. Ele armou o corpo com extrema elegância e bateu na bola.
A redonda viajou desenhando um arco perfeito, plástica e limpa, morrendo exatamente na gaveta do ângulo esquerdo de Gen Kekuru, que saltou, mas não conseguiu alcançar. Um golaço.
Akira, que acompanhava a jogada de perto, caminhou até Hiori enquanto a aura de gelo se dissipava do gramado.
— Que curva impressionante, Hiori. O efeito que você colocou na bola foi cirúrgico — elogiou Akira, com um aceno firme de cabeça.
Hiori soltou o ar, regulando a respiração, e olhou para o camisa 10 com um sorriso humilde.
— Obrigado, Akira. Mas para ser sincero, não chega nem perto daquela curva absurda que você conseguiu no último gol contra o Time U. Aquele chute desafiou a física.
Akira desviou o olhar para as próprias chuteiras, a expressão séria voltando ao rosto.
— Aquilo foi pura sorte, Hiori. Sendo realista, em condições normais, eu não conseguiria repetir uma curva tão acentuada e perfeita quanto aquela. Foi um lampejo do momento.
Ele então olhou de volta para o campo, suas pupilas brilhando com uma nova ambição.
— Mas ver o gol de trivela daquele Kageyata e o que você acabou de fazer me deu uma ideia. Eu já estou desenvolvendo uma nova relíquia, algo capaz de produzir trajetórias e curvas totalmente insanas por conta própria. Só que o meu corpo ainda não automatizou o movimento. Eu preciso de muito mais treino se quiser dominá-la a tempo.
O Time Z percebeu ali que, enquanto o Time X se apresentava como uma força monstruosa, o arsenal deles também estava evoluindo no calor do caos.

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