8.CAPÍTULO: A Voz Através do Espelho
Vejo um espelho imenso erguido diretamente diante de mim. Sua superfície está coberta por uma camada espessa de poeira cinzenta, manchada por marcas antigas de mãos espalhadas pelo vidro, como se alguém estivesse tentando encontrar uma saída dali de dentro. A moldura não parece antiga, mas o objeto em si transmite uma sensação profunda de cansaço. É como se ele carregasse um peso invisível há muito tempo, testemunhando segredos que jamais deveriam ser revelados.
Rachaduras profundas percorrem sua extensão. Elas começam pequenas, quase imperceptíveis nos cantos, mas logo avançam e se espalham por toda parte. Parecem veias escuras pulsando na superfície espelhada, como feridas abertas que nunca cicatrizaram de verdade. O vidro inteiro estala, sob a pressão de algo que não consigo enxergar, prestes a quebrar. Então, percebo algo estranho. Há um movimento sutil e distorcido acontecendo atrás do reflexo. Algo bizarro querendo sair.
Toc. Toc. Toc.
Batidas secas e ritmadas ecoam do outro lado da barreira de vidro. A cada impacto, as rachaduras aumentam drasticamente, ramificando-se como raízes escuras e malditas que destroem a imagem à minha frente. Os primeiros pedaços começam a ceder.
Clinc. Clinc. Clinc.
Os cacos pesados caem e se acumulam no chão. São afiados, brilhantes e perigosos, refletindo fragmentos completamente distorcidos e fragmentados da minha própria imagem. O espelho finalmente se despedaça por inteiro em um estalo ensurdecedor. No lugar do vidro, uma fumaça escura e densa surge entre as frestas da moldura vazia. É uma névoa viva, pesada, que se arrasta pelo chão e se espalha lentamente pelo ambiente, resfriando o ar ao redor. Meu coração acelera violentamente contra as costelas.
O que é isso? Uma ilusão da minha mente exausta? Uma alucinação causada pelo estresse? Um fantasma do passado?
Não. É algo que vai além disso. Algo tangível, mas que claramente não deveria existir no mundo real.
Aos poucos, a fumaça negra começa a tomar uma forma definida. Uma silhueta humana surge por entre os cacos caídos no chão. Ela não tem um rosto reconhecível, não possui expressões ou qualquer traço de identidade aparente. Mas está inegavelmente viva. Parada ali, observando meus movimentos, esperando pacientemente por uma reação minha.
De repente—
Abro os olhos num sobressalto. Ainda é noite.
Meu coração dispara tanto que sinto a pulsação na ponta dos dedos. Fico completamente imóvel na cama, encarando o teto escuro do quarto, tentando organizar meus pensamentos e entender o que acabou de acontecer. Faço um esforço monumental para acalmar a respiração.
Foi apenas um sonho, repito mentalmente. Apenas mais um pesadelo para a coleção. Certo?
Então, no meio do silêncio absoluto do quarto, eu escuto. Sussurros. Vozes extremamente baixas, rápidas e incompreensíveis. Elas parecem próximas demais, sibilando no ar, como se alguém estivesse inclinado exatamente ao lado do meu ouvido, compartilhando um segredo proibido.
Levanto rapidamente da cama, sentindo o chão gelado contra os pés descalços. Olho fixamente para todos os cantos escuros do cômodo, mas não há ninguém ali. Mesmo assim, os sussurros persistem, vindo de algum lugar fora das minhas quatro paredes. Movida por uma curiosidade involuntária e pelo medo, decido seguir o som trêmulo pelo corredor escuro da casa. O ambiente está mergulhado em uma penumbra hostil. Passo pela sala de estar, onde os móveis parecem formas monstruosas na escuridão, até chegar à porta entreaberta do quarto dos meus pais.
E é ali que eu vejo. Preso à parede, há um espelho que eu nunca havia notado antes. E, parada exatamente diante dele… está ela.
O choque me paralisa. É o meu outro eu. Meu reflexo exato, mas revestido por uma aura completamente diferente. Aquela criatura, que carrega as minhas feições, exibe um sorriso ladino e sombrio nos lábios. Eu, por outro lado, sinto o ar sumir dos meus pulmões.
Um calafrio violento atravessa toda a minha espinha, congelando minhas reações. Eu sei que todas as pessoas possuem uma parte obscura guardada bem no fundo de si mesmas; todos escondem medos paralisantes, raivas acumuladas e desejos que jamais teriam coragem de verbalizar. Mas aquilo diante de mim parecia grotescamente diferente. Era algo vivo. Consciente. Uma entidade que me encarava de volta com total clareza.
Esfreguei os olhos com força, rezando para que a imagem desaparecesse e a realidade voltasse ao normal. No entanto, quando olhei novamente, ela ainda estava lá. Imóvel. Observando cada detalhe do meu pânico. Esperando. Então, os lábios do meu reflexo se moveram de forma lenta e deliberada. E, pela primeira vez, a voz dela preencheu o silêncio da casa, soando idêntica à minha, mas carregada de uma segurança quase cruel:
— Você quer ser livre, Lythsu?
Meu corpo congelou por completo. A menção ao meu próprio nome me atingiu como um golpe físico. Aquelas palavras ecoaram profundamente dentro do meu peito, ricocheteando na minha mente como se tivessem sido proferidas por alguém que me conhecia muito melhor do que eu mesma jamais seria capaz de me conhecer.
No mesmo instante, uma enxurrada de imagens dolorosas invadiu meus pensamentos em frações de segundo: a imensidão sufocante do mar, o barco quebrado afundando na escuridão, os rostos distorcidos rindo de mim na sala de aula, o olhar gélido e crítico dos meus pais na mesa de jantar… E, misturado a tudo isso, um anseio absurdamente profundo por algo que eu sequer sabia como nomear. Uma sede desesperada por libertação.
Então—
Acordei novamente. Desta vez, a luz forte e dourada do sol atravessava as frestas da janela, iluminando o lençol bagunçado. Era manhã de verdade.
Sentei-me na cama bruscamente, com a mente mergulhada em uma confusão mental terrível. Meu coração ainda batia de forma acelerada e descompassada, como se meu corpo físico estivesse tentando acompanhar o ritmo dos dois sobressaltos seguidos. Olhei atentamente ao redor, inspecionando cada móvel familiar do meu quarto. Tudo parecia perfeitamente normal, calmo e seguro. Mas a pergunta continuava lá, cravada na minha consciência como uma farpa impossível de remover:
“Você quer ser livre, Lythsu?”
A voz parecia ter deixado um eco permanente nas paredes do cômodo. E, por mais que eu tentasse focar na rotina que me esperava, por mais que tentasse descartar tudo como apenas mais um delírio noturno, eu simplesmente não conseguia parar de pensar no real significado daquele sonho. Nem na verdade terrível e sedutora que aquela versão no espelho parecia carregar em seu sorriso.

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