Índice de Capítulo

    Dica para leitura: aspas simples são para pensamentos internos, que é esse símbolo: ’
    Aspas duplas para conversa mental: “
    Travessão para falas em voz alta: —


    Sua mente estava fervilhando de pensamentos ruins, o medo em seus ossos quase lhe enlouquecia, um frio amargo que se infiltrava até a medula. Sua cabeça latejava com o peso do estresse, uma dor pulsante que parecia apertar seu crânio.

    Ele já não sabia mais o que fazer, nem onde mais procurar. O sol estava quase nascendo, pintando o céu com tons de rosa e laranja, e ele não tinha encontrado nada de Elijah. Nenhuma pegada na terra, nenhum vestígio de fogueira, apenas um punhado de monstros que nunca tinha visto antes, cobras e insetos que espreitavam nas sombras.

    Com o nascer do sol, também começava um dia que prometia ser cheio de desafios e dificuldades. No dia anterior, ele conversou com Garrick, Aleksander e outros sobre o ataque planejado nas montanhas, onde, aparentemente, Gundal tinha descoberto o local da base do Lich. Hoje seria o começo do desfecho de tudo isso.

    Eles precisavam dele nessa luta, ele era forte. Já tinha lutado contra o Lich e seus monstros, tinha certa experiência, mas Elijah também precisava dele. Talvez ele estivesse em perigo, talvez tenha sido sequestrado. Mas não havia nada que ele pudesse fazer, não sozinho do jeito que estava.

    “O que aconteceu com Elijah? Ele pode ter sido sequestrado?” Flügel não sabia qual cenário era menos pior: Elijah sequestrado ou perdido na floresta. A preocupação de Flügel era tão intensa que seu coração acelerava, um tambor de ansiedade batendo contra as costelas.

    “Não sei… mas vamos manter a esperança, Flügel,” Nytheris disse, tentando acalmar a si mesmo e ao seu amigo. “Vamos voltar para o reino, falar com Aragi e Sophia e depois procurar Garrick. Quem sabe Elijah já não voltou? Talvez ele só precisasse de um tempo sozinho, a mente de uma criança é imprevisível.” Nytheris forçava a positividade para acalmar a mente pessimista de Flügel, como se pudesse afastar as nuvens de escuridão com palavras.

    Acatando a sugestão de Nytheris, Flügel tirou o peso da gravidade agindo sobre seu corpo e subiu em direção às copas das árvores, esquivando dos galhos com uma agilidade treinada. Olhando ao redor, percebeu que estava longe do caminho normalmente seguido pelas pessoas ao adentrar na floresta de Tournand.

    Ele conseguia sentir o cheiro do mar, uma brisa salgada que ele nunca tinha sentido antes. E também o rio que o salvara em seu primeiro encontro com o Lich, mas agora ele via o final dele, onde desaguava no mar, um encontro de águas doces e salgadas. Seus olhos tentaram encontrar de onde vinha o começo do rio, mas mesmo não sendo capaz de ver, ele sabia que era rumo às montanhas.

    Respirou fundo e rastreou a floresta, tentando enxergar sob a densa folhagem, mas Elijah não estava em lugar algum.

    Sem ter alguém para culpar, sua frustração e raiva se voltaram para si mesmo. Sua auto-sabotagem começou a funcionar, sua mente culpando-se por não estar mais presente, por não prestar mais atenção em sua família. Se Elijah realmente saiu sozinho porque precisava de um tempo e acabou se perdendo, ele poderia ter previsto isso se prestasse mais atenção.

    A frustração o consumia, um fogo frio queimando em suas veias. A mente de Flügel era um redemoinho de caos, um labirinto de cenários sombrios sem saída. Nytheris, impotente, sabia que em um cenário como aquele, as palavras pareciam vazias, nenhuma delas poderia curar a ferida aberta no coração do seu criador.

    Não demorou para que os imponentes muros de pedra de Tournand surgissem por trás das densas árvores. Sem hesitar, Flügel desconsiderou qualquer economia de mana, liberando a energia mágica de seu corpo em jatos poderosos que o impulsionaram a uma velocidade vertiginosa.

    Ele era um borrão no céu, um cometa de desespero cruzando os telhados e torres do reino. Em menos de um minuto, ele pairava sobre o lar que antes era seu refúgio e agora era um lembrete doloroso de sua falha.

    Ele desceu em uma queda livre, controlada por um instinto primitivo. O vento uivava em seus ouvidos enquanto ele se aproximava do telhado de telhas vermelhas. A gravidade o puxava, e ele, em resposta, liberava mais mana, deslizando para o chão com uma suavidade inesperada, o corpo tenso e pronto para qualquer coisa.

    Seus pés tocaram a grama úmida, e o silêncio da noite, agora que o sol estava nascendo, parecia um grito. A porta de madeira da frente estava ligeiramente entreaberta, um convite mudo para o vazio que ele temia encontrar, para a decepção nos olhos de Aragi e Sophia.

    Ele se aproximou com cautela, cada músculo de seu corpo em alerta. O som do rangido da dobradiça quando ele empurrou a porta ecoou pela casa quieta, um som que antes significava boas-vindas e agora era apenas o som da ausência. Mas um cheiro de pão quente permeava o ar, e o aroma reconfortante de café recém-feito lhe trouxe boas lembranças, um raio de esperança.

    Com passos apressados, ele chegou à cozinha, onde viu Sophia, com um semblante aliviado, arrumando a mesa para o café da manhã, mesmo que fosse muito cedo. Assim que ela percebeu a presença de Flügel, seus lábios se curvaram em um leve sorriso, prontos para compartilhar uma boa notícia.

    Flügel não lhe deu tempo. Aquela não era a feição que esperava ver, ele tinha que ter voltado. Com o coração na boca e passos mais rápidos que o esperado, ele seguiu para a escada, quase correndo. Pisando sempre em um degrau acima do certo, suas botas batiam no assoalho de madeira com força.

    Parado em frente à porta do quarto de Elijah, sua pressão caiu e ele sentiu seus lábios ficarem gelados. O suor frio escorria pelas costas, umedecendo sua camisa. Com um gesto hesitante, mas urgente, ele abriu a porta do quarto.

    A luz fraca do sol nascente, filtrada pela janela, iluminava o interior. O quarto estava bagunçado, os lençóis de linho amassados na cama, e um livro de contos de heróis aberto na escrivaninha.

    O coração de Flügel quase parou de bater, e o ar que ele segurava nos pulmões finalmente escapou em um suspiro longo e trêmulo. E um calor de alívio irradiou de seu familiar em seu coração, esquentando seu peito.

    Lá, aninhado entre as cobertas, Elijah estava deitado, dormindo profundamente. Seus cabelos cinzas estavam bagunçados, um de seus braços abraçava o travesseiro e uma expressão serena emoldurava seu rosto belo. Ele parecia exausto, mas seguro. A visão de seu irmão ali, intacto, era um balde de água fria para seu corpo quente de preocupação.

    Flügel se aproximou da cama em passos leves, como se temesse que qualquer barulho pudesse quebrar a frágil realidade à sua frente.

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