Dica para leitura: aspas simples são para pensamentos internos, que é esse símbolo: ’
Aspas duplas para conversa mental: “
Travessão para falas em voz alta: —
Capítulo 101 — Calmaria da manhã
Flügel assistiu Elijah dormir pacificamente por um tempo, segurando a vontade de tocar em seu rosto para se certificar de que não era um sonho. A respiração serena do irmão era a melodia mais tranquilizadora que já ouvira, e ele não queria quebrar aquele momento de paz. Recuou lentamente, sem fazer movimentos bruscos, e fechou a porta com um “clank” suave que ecoou pelo corredor vazio, uma finalização silenciosa para a tempestade que havia sido sua noite.
Ao se virar, o vazio do corredor parecia apenas ecoar a solidão que sentiu na floresta. A paz em seu coração ainda era frágil, e ele precisava de mais do que o rosto sereno de seu irmão para acreditar que tudo estava bem. Lentamente, ele começou a descer as escadas, as botas batendo suavemente na madeira, um som que antes era de urgência e agora era de um propósito renovado.
O cheiro de café e pão fresco se intensificava a cada degrau. Quando chegou ao pé da escada, ele os viu. Sophia e Aragi estavam parados na porta da cozinha, seus semblantes uma mistura de alívio e cansaço. Os olhos deles, ainda inchados de tanto chorar, eram um espelho da dor que ele sentira. Não havia palavras, apenas um entendimento silencioso que unia os três.
Sophia deu um passo à frente e o abraçou com força, a cabeça dele pressionada contra seu peito, o cheiro de café e pão se misturando ao perfume familiar dela. O abraço era uma âncora, um lembrete físico de que ele não estava sozinho. Aragi se juntou a eles, e o abraço de grupo se tornou um refúgio. O medo foi se dissipando, dando lugar a uma sensação de calor, o tipo de calor que só a família pode oferecer.
Flügel se afastou do abraço, ainda com o cheiro familiar de sua família em sua roupa. — Quando…? — Ele começou, a voz rouca.
— Ele voltou de madrugada, disse que estava bem e que apenas precisava ficar um tempo sozinho. E então foi para seu quarto e dormiu… Ele não parecia machucado. — Aragi disse, se afastando do abraço.
— Eu preciso ir agora.
Aquelas palavras saíram como um balde de água fria. A voz de Flügel, embora rouca, tinha um tom que Sophia e Aragi reconheceram: o tom de dever. Ele estava atrasado, cansado e sujo. Seu cabelo estava uma bagunça, a roupa suja de terra e folhas, e o cheiro do suor e do medo ainda estava impregnado em sua pele. Mas o tempo para tomar um banho, ou mesmo para descansar, não existia.
Sophia o encarou, a decepção marcada em seu rosto. — Você vai mesmo? — Ela gesticulou para a mesa da cozinha. — O café está pronto. Tome pelo menos um gole. Você não comeu nada a noite inteira.
Flügel, já se movendo em direção ao seu quarto, mal parou para responder. — Tomo depois de colocar a armadura, e quero um pão para ir comer enquanto vou. — Ele não esperou por uma resposta. Com passos rápidos, chegou até seu quarto.
Nytheris, saindo do peitoral de Flügel, expandiu-se para sua forma humanoide. Ele já usava uma roupa preta justa e, sem dizer uma palavra, começou a vestir a armadura prateada. O som do metal se chocando preencheu o silêncio da casa. Cada peça, polida e precisa, era colocada no lugar com a agilidade de quem já tinha feito aquilo inúmeras vezes.
Enquanto Nytheris se transformava em um guerreiro prateado, Flügel terminava de vestir sua nova armadura negra. O peso dela ainda era estranho em seus ombros, mas, mesmo assim, ele se sentia mais forte e confiante ao usá-la.
Em poucos minutos, ambos estavam prontos. Flügel olhou para Nytheris, que estava preparado, e juntos caminharam com pressa para fora do quarto. Na cozinha, Sophia terminava de preparar o pão, e Aragi havia colocado a caneca de café dele sobre a mesa.
Flügel deu um longo sorriso para Aragi e pegou a caneca, tomando todo o líquido em um único gole. O calor e o sabor amargo do café invadiram sua garganta, um choque bem-vindo de realidade. Em seguida, ele pegou o pão da mão de Sophia, mal esperando para que ela o entregasse. Ele deu uma mordida rápida, o sabor reconfortante de casa contrastando com a urgência de sua saída.
Sophia o segurou pelo braço, os olhos implorando. — Por favor, tenha cuidado.
Flügel olhou para Sophia, a expressão séria. — Eu terei, e obrigado pelo pão… mãe. — A palavra saiu como um sussurro, e Sophia paralisou, a surpresa e a emoção tomando conta de seu rosto. Ele se virou para Aragi. — Pai, mãe, eu amo vocês. — Ele raramente os chamava assim, mas naquele momento, a formalidade não existia. As palavras vieram do fundo de sua alma, um último e poderoso conforto.
Aquelas palavras foram a âncora que Sophia e Aragi precisavam. O sorriso que ele deu foi breve, mas sincero. Sophia soltou seu braço, a dor do adeus ainda presente, e se virou, deixando para trás a promessa de segurança. Um rápido aceno de cabeça para Aragi, um último olhar para o calor da casa, e ele saiu pela porta, deixando para trás a promessa de segurança. O coração de Flügel estava agora dividido entre o alívio que o acalmava e o frio em sua barriga.
Assistindo às costas de seu filho desaparecerem por trás da porta, o peito de Aragi se apertou. Uma confusão de sentimentos se instalou em seus ossos, mas um calor familiar e gentil logo se espalhou por seu lado, vindo de Sophia. Ela o abraçou mais forte.
— Você está tremendo. Sempre tentando se manter forte, não é? — Sophia disse em um sussurro.
Aragi assentiu, a garganta fechada de emoção. Ele olhou para a porta, sua voz saindo em um murmúrio quase inaudível.
— Não posso deixar que ele me veja fraco. Quero que ele me veja como um pai forte e confiável… Mas é tão difícil me comunicar com ele. Ele não age como uma criança. Nunca agiu. É tão maduro, mesmo em tenra idade… — Ele sentiu o peso de uma culpa que vinha guardando há muito tempo, desde o dia em que Flügel desapareceu durante a noite. Ele nunca havia compartilhado aquele sentimento nem mesmo com sua esposa, mas não aguentava mais.
— Será que roubamos a infância de nosso filho? — A pergunta saiu com a voz embargada, e ele finalmente desviou o olhar da porta para o rosto de Sophia.
O peito de Aragi se apertou ainda mais. Os olhos dela estavam lacrimosos, as bochechas rosadas, típicas de quando ela estava prestes a chorar, e o olhar dela era de pura e silenciosa concordância. Naquele instante, ele soube que eles compartilhavam a mesma dor, a mesma culpa, o mesmo medo de que seu filho, o mais novo talento de Tournand, nunca tenha desfrutado da paz de ser apenas uma criança.
Descendo suavemente em direção ao portão menor de Tournand, Flügel soltou Nytheris próximo ao chão. Ele o havia carregado sobre o reino, pois o metal físico da armadura impedia Nytheris de se desmaterializar e fluir como mana. Quando finalmente tocou o solo, o tilintar da armadura prateada ressoou na calmaria da manhã, um som nítido que parecia quebrar o silêncio.
Do lado de fora, a paisagem era irreconhecível. O que deveria ser a tranquilidade da manhã era um caos organizado. O tilintar de metal e o relinchar dos cavalos se misturavam aos murmúrios de vozes, formando uma sinfonia de guerra. O portão, que costumava ser um ponto de passagem para trabalhadores e aventureiros, agora estava completamente dominado por carruagens carregadas com cavaleiros, magos e arqueiros.
Flügel avistou o Capitão Eadric, uma figura imponente e de respeito em meio à multidão. Ele não era apenas um mago, mas o eixo de todo aquele movimento. Sua voz, calma e firme, se sobressaía ao caos enquanto ele dividia as tropas entre as carruagens e supervisionava os últimos preparativos. A operação era clara: transportar os combatentes para o acampamento escondido na floresta, deixando apenas as forças essenciais dentro dos muros do reino.
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