Dica para leitura: aspas simples são para pensamentos internos, que é esse símbolo: ’
Aspas duplas para conversa mental: “
Travessão para falas em voz alta: —
Capítulo 95 — Solidão Cinza II
A academia parecia diferente, como se a luz do dia tivesse se tornado mais fraca. Os corredores que Elijah conhecia como a palma da sua mão pareciam agora um labirinto, as vozes dos colegas soando como um zumbido distante. A sua primeira aula era sobre teoria Mágica.
O professor, um homem velho e gentil, falava sobre os princípios da mana, a sua natureza calma e o seu fluxo harmonioso através da alma. A voz dele era uma melodia suave, mas para Elijah, soava como um som abafado e distante. A sua mente estava em outro lugar, em um jardim que parecia muito mais real do que a sala de aula. Ele olhou para os outros alunos, concentrados, com as penas de suas canetas correndo pelo papel. Eles viviam em um mundo de regras e fórmulas, de mana que era cuidadosamente controlada.
O professor continuava a falar, mas as suas palavras eram uma neblina que Elijah não conseguia penetrar. A sua mente estava fixada na imagem do poder de Nytheris, a magia violenta e descontrolada, e na força brutal de Flügel, que parecia desafiar todas as leis da natureza.
A aula terminou com a mesma serenidade com que começou. Ele nem percebeu a hora passar. Os colegas saíram da sala, rindo e conversando, mas ele ficou para trás, com os olhos fixos na mesa. A sua mão estava vazia, mas ele sentia a ausência de algo. Sua magia, que antes ele sentia como uma fonte de controle e orgulho, agora parecia uma pequena chama trêmula e insegura, um engano que só existia em sua mente.
Sua magia estava tão forte como sempre, e sua esgrima, impecável. O que estava inseguro era ele mesmo, com medo de não ser o suficiente, de não chegar perto do poder que Flügel e Nytheris possuíam. O que ele sentia não era fraqueza, mas a percepção de uma distância intransponível entre o seu mundo e o deles.
A sua próxima aula era de esgrima. Ele trocou de roupa e foi para o pátio de treinamento, onde o som de espadas de madeira chocando-se preenchia o ar. Dezenas de estudantes se moviam em duplas, com seus instrutores circulando pelo pátio, corrigindo posturas e dando conselhos.
O instrutor, um homem grande e musculoso, se aproximou. Elijah estava se alinhando com um parceiro de treino, um garoto de cabelo ruivo chamado Aric, que parecia visivelmente desconfortável. Elijah era conhecido por sua excelência em magia e esgrima, e o cabelo cinza incomum tornava sua presença ainda mais intimidante.
Elijah iniciou o duelo. Ele não seguiu as regras de postura que o instrutor havia ensinado. Em vez disso, seu corpo se moveu por instinto, com uma fúria silenciosa. Ele usou a espada de madeira com a intensidade de uma arma real, uma extensão mortal de seu próprio braço.
Aric se defendeu, mas a força inesperada do golpe o fez recuar, seus olhos castanhos arregalados de surpresa. O instrutor observou cada movimento, com um sorriso que foi desaparecendo. O contraste entre a madeira oca e a memória que invadiu a mente de Elijah era doloroso.
Ele fechou os olhos por um segundo, e o pátio de treinamento desapareceu, substituído pelo jardim da sua casa. Ele se lembrou da lança de Nytheris, uma tempestade de mana, perfurando o ar. Viu o corpo de Flügel se mover com uma precisão brutal, esquivando-se da ponta afiada e contra-atacando com a sua espada com um golpe pesado.
Não havia sorrisos, apenas a respiração ofegante, a tensão nos músculos e o som terrível de metal rasgando o ar e se chocando. Essa era a verdadeira dança da morte. Aquilo não era um treino, era uma guerra, e eles eram guerreiros.
A imagem se desfez. Elijah abriu os olhos. Sua espada de madeira estava a centímetros do pescoço de Aric, que estava paralisado pelo medo. A sua técnica era impecável, sem hesitação. Mas o instrutor, com a expressão séria, disse:
— Elijah —, o instrutor disse, com uma carranca. — Você está em forma. Sua técnica é impecável. Mas os seus olhos… eles estão em outro lugar. Concentre-se em Aric, é desrespeitoso não prestar atenção em seu companheiro de treino.
Elijah acenou com a cabeça, com o rosto sem emoção. O elogio do instrutor não parecia mais ser o suficiente. Ele sabia que precisava de mais do que a academia podia lhe dar. Ele precisava de algo que só a dor e a brutalidade poderiam lhe ensinar.
Elijah não esperou pela próxima instrução. Com a espada de madeira ainda em sua mão, ele se virou e caminhou em direção à saída do pátio, ignorando os olhares confusos dos outros alunos. O chamado de seu instrutor, que se perdeu no som dos choques de espadas, foi a última coisa que ouviu. Ele não estava mais interessado em um treino que não o preparava para a realidade que ele havia testemunhado. Ele sentia que tinha perdido muito tempo.
Ele deixou a academia, o portão de pedra que antes parecia um portal para um futuro promissor, agora se sentia como uma prisão que ele precisava escapar. Ele caminhou pelas ruas da cidade de Tournand, o peso de sua mochila parecia mais leve do que a urgência em seu peito. Ele precisava sentir o real perigo, assim ele conseguiria ficar mais forte rapidamente.
A cada passo, a cidade ficava para trás, e a familiaridade das ruas era substituída por um vazio desconhecido. Ele chegou ao portão menor de Tournand, usado normalmente pelos lenhadores, aventureiros e alguns mercadores. Dois guardas estavam de guarda, suas armaduras polidas e lanças afiadas. Eles o olharam, e ele sentiu um calafrio na espinha. Ele era apenas uma criança, mas os olhos dos guardas pareciam ver através de sua fachada, para a sua alma inquieta.
— Aonde vai, garoto? —, um dos guardas perguntou, com uma voz profunda. — É perigoso ir para a floresta sozinho. O que pretende fazer com essa espada de madeira?
Elijah engoliu em seco. Ele não tinha uma resposta pronta, e o silêncio parecia uma confissão. Ele não estava pronto para enfrentar a realidade do mundo, mas sabia que não podia mais voltar atrás. Ele não sabia o que o esperava na floresta, mas sabia que era o começo de algo. Ele sabia que precisava de algo que só a dor e a brutalidade poderiam lhe ensinar.

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