Capítulo 60 - A dor que reconstrói, parte 2
Em algum ponto do fim da terceira semana, em mais uma noite no Salão de Fogo, os desvios e bloqueios de Akemi perante os golpes flamejantes de Miya tornaram-se habilidades deliberadas, mostrando-se totalmente eficazes contra ataques de intensidade moderada. O ritmo aumentou, mas era incomparável às situações reais de combate áurico.
Entretanto, o Salão de Fogo estava mudado: alguns equipamentos estavam ativados.
As cordas espessas serpenteavam continuamente, giradas pelas grandes polias de madeira escondidas sob as duas plataformas laterais, onde as clavas cravejadas balançavam violentamente do mesmo modo em que os anéis em brasa difundiam seu calor destrutivo na outra extremidade.
Destacando nos ataques e nas defesas as formas animais do Estilo dos Três Mestres, Miya avançava enquanto Akemi cedia terreno, efetuando bloqueios, desviando o corpo e procurando aberturas para que contra-atacasse sob o calor das chamas, cercado por faíscas que se avolumavam a cada choque.
Ambos atravessaram os trajetos fatais, colocando à prova reflexos e agilidade enquanto desviavam do raio das massas espinhentas suspensas nas plataformas laterais.
Encurralado até lançar o corpo para trás sobre as cordas em rotação, Akemi foi conduzido a um novo teste de equilíbrio sob as contínuas investidas ígneas que o perseguiam. Fato que o compasso do treino era mantido enquanto o garoto escancarava concentração no suor da testa…
Após a vigésima quinta noite de treinamento de calejamento, condicionamento do corpo e fluência da aura, Akemi acordou antes do alarme militar. Ele ficou deitado olhando para o teto escuro do alojamento por um instante, e percebeu que a dor de sempre ainda estava lá, porém, com o tom alterado.
Antes ela dizia: “você está indo longe demais”, e mudou para: “você precisa de mais”.
Eram duas informações completamente diferentes, e a distinção entre elas foi compreendida durante os últimos vinte dias.
Quando o rapaz se ergueu, recordou que há três semanas atrás jamais cruzaria os quinhentos metros de Yura sem que despejasse bile na linha de chegada.
Todavia, naquela manhã, seu novo corpo que se colocou de pé atravessaria o mesmo trajeto e questionaria qual o próximo obstáculo.
Envolto pela eletricidade calejante, as séries dos exercícios convencionais se estendiam além do esperado; nas corridas, acompanhar ou até ultrapassar os desprovidos de velocidade áurica tornou-se recorrente; e nas provas de força, as cargas outrora ameaçadoras já não impunham o mesmo impacto psicológico. Como reflexo, as dicas de Nikko após os brados de Yura tornaram-se esporádicas, indicando que Akemi avançava com autonomia crescente, menos dependente daqueles estímulos travestidos de provocação.
Pois então, qual era o obstáculo que mais o desafiava?
De fato, a resposta já tinha rumo: ao término de cada dia de treino, no interior do Salão de Fogo, ela sempre aguardava…
Após incansáveis sessões voltadas à defesa pessoal e contra-ataque, os bonecos de madeira do salão assumiram o papel de oponentes diretos.
Aplicando os golpes e erguendo guardas contra os braços articulados que respondiam em sequência, Akemi transferia o aprendizado para a madeira viva diante de si, evidenciando a Miya que o avanço era concreto tal qual ela ensinara: primeiro, aprovação da técnica diante de um corpo real, depois, a lapidação dos movimentos no boneco.
A aura elétrica que envolvia os antebraços funcionava como camada de resguardo contra os espinhos, já os chutes superavam a rapidez e potência dos socos, apresentando um trabalho sólido nas pernas.
Aquelas sessões com bonecos de treino se repetiram por várias jornadas, e a cada retorno, o rapaz reagia melhor e contra-atacava mais forte.
Tais exercícios refinavam coordenação, estrutura de guarda e memória corporal sob estímulo constante; entretanto, o confronto vivo preservava um valor próprio que nenhuma estrutura de madeira reproduziria…
Sobre a borda do casco de tartaruga de jade, Akemi mantinha a guarda e os contra-ataques enquanto a superfície côncava bamboleava. Miya alternava as formas animais em ataques flamejantes, mirando algum ponto de instabilidade que vencesse a concentração do aprendiz elétrico.
Entre socos altos, espalmadas no centro, chutes laterais e outros golpes em ritmo de treino, os dois jovens circulavam pelo casco, balançando a estrutura com seus pesos combinados. O material de jade refletia as chamas alaranjadas e os raios amarelos em padrões que cruzavam e se separavam conforme os golpes eram trocados…
Em um instante, Akemi pendeu o corpo involuntariamente junto a inclinação do casco, e seu equilíbrio se foi pela metade: a perna direita saiu da borda, fazendo com que os braços fossem abertos para que compensasse o centro que escapou.
Daquele modo, o garoto prendeu-se na oscilação entre a recuperação ou a queda.
Diante da abertura gritante na guarda do oponente, Miya abriu aquele específico sorriso de lado quando reensinava lições. “O adversário que perde a postura não recebe consideração”, e ela demonstrou a afirmação inclinando o corpo e subindo um soco reto e ascendente no maxilar do pupilo.
O que ela não esperava, era a velocidade da resposta.
Akemi agarrou o braço que o atingiria, grudando-o ao peito, e com a perna que ainda estava no ar, executou um chute arqueado que, deixando rastros de faíscas, quase acertou o rosto da garota com uma brutalidade acidental.
Vendo o próprio pé faiscante suspenso a milímetros de uma bochecha, Akemi, usando o braço preso como único suporte, percebeu a expressão genuína de surpresa em Miya, que por outro lado, contemplava o equilíbrio mantido sob instabilidade real, leitura de tempo correta, e a rápida resposta.
O sorriso abriu ainda mais. Todavia, não deixou barato:
Da mão presa, Miya explodiu chamas densas diretamente no campo de visão do garoto, cegando-o com o alaranjado intenso. No mesmo instante, ela retraiu o braço agarrado sem esforço e desferiu três golpes velozes antes que os olhos de Akemi enxergassem novamente: dois no peito, um na barriga.
O casco bambeou, e Akemi foi ao chão…
Deitado de costas sobre o jade verde e tonteado pela luminosidade flamejante, o rapaz olhou para cima, bem onde estavam as vigas abertas, a lua, e o rosto de Miya que apareceu no enquadramento com as mãos na cintura em um semblante de orgulho contido da forma mais econômica possível.
A garota permaneceu imóvel, fazendo daquele silêncio o único elogio concedido.
Para quem almejava a sobrevivência contra feras áuricas, as competências indispensáveis ganhavam consistência; contudo, ainda aguardavam uma prova real que as confirmasse…

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