Índice de Capítulo

    — Vinte e nooooove…! Uff!

    A ÚLTIMAAA!!!

    — … Uuuuuuuugh! Trinta!

    Poff!

    Exausto, Akemi espatifou-se no chão.

    — FINALMENTE TERMINAMOS COM ISSO, ZERO UM! ALIÁS, NUNCA CONSIDERE ISSO UMA CONQUISTA! TIVE QUE RELEVAR ESSAS SUAS EXECUÇÕES RIDÍCULAS! SE NÃO, NUNCA SAIRÍAMOS DAQUI!

    “Consegui… Achei que fosse morrer!”

    — FICARÁ DEIXADO AÍ ATÉ QUANDO, COMBATENTE!? DE PÉ, 1, 2!

    Akemi levantou-se lentamente e voltou à posição de descansar. “Meus braços estão bambos e meu peito parecia que estava partido ao meio, mas nunca pensei que conseguiria fazer isso de primeira. Eu… me sinto diferente… e muito quente. O que está acontecendo?”

    O Major Yura respirou fundo e varreu os olhares em cada um dos alunos como um falcão prestes ao ataque. — SENHORES! — Ele começou a andar. — GOSTARIA DE CONTAR UMA BREVE HISTÓRIA!

    Ah, claro que ele vai enrolar mais — Rin não via a hora em que saísse daquela maldita formação. 

    — ESSA É A HISTÓRIA DE UM GAROTO SOLITÁRIO, SEM FAMÍLIA, SEM RUMO! ELE PRECISAVA ENCONTRAR UM PROPÓSITO NA VIDA. PRIMEIRO, UM LUGAR PARA CHAMAR DE LAR NO MEIO DE UMA FLORESTA ENORME E CHEIA DE FERAS MORTAIS… CERTO DIA, ESSE GAROTO FAMINTO E SOZINHO, QUE SOBREVIVIA CAÇANDO ANIMAIS PEQUENOS E BEBENDO ÁGUA SUJA, ACABOU DANDO DE CARA COM UMA TOCA DE ONÇAS-SABRE GIGANTES! E CLARO! ELE NÃO FOI MUITO BEM RECEBIDO DE PRIMEIRA VISTA!

    “Onças gigantes!? Que floresta é essa!?”

    — MAS AQUELE GAROTO NÃO DESISTIU! ELE LUTOU PELA PRÓPRIA VIDA COM TUDO O QUE APRENDEU SOZINHO! QUEBROU OSSOS, RASGOU MÚSCULOS, FUROU OLHOS, TUDO INCESSANTEMENTE…! NO FINAL! DO EXÉRCITO INFINITO DE ONÇAS, SÓ UM SER SOBERANO FICOU DE PÉ… UM HUMANO! QUE NAQUELE MOMENTO GLORIOSO, MAL SABIA QUE ESTAVA SENDO OBSERVADO POR OUTRO DA MESMA ESPÉCIE! MESMO EXAUSTO, FERIDO E SUJO DE SANGUE, ELE RECEBEU UMA PROPOSTA QUE MUDARIA SUA VIDA! AQUELE JOVEM GUERREIRO QUE DERROTOU FERAS SE TORNOU UM MILITAR, MAS NÃO QUALQUER MILITAR! ELE SE TORNOU O MELHOR SHIHAI DA REGIÃO! E ASSIM QUE GANHOU ESSE TÍTULO HONROSO, FOI ENVIADO PARA O EXTERIOR, ASSIM CONHECENDO A MAIOR INSTITUIÇÃO ÁURICA DO MUUUNDO!!! ALGUÉM QUER SABER ONDE ESTÁ ESSE SHIHAI AGORA!?

    — Eu, senhor! — Akemi ergueu a mão com entusiasmo.

    — ESTÁ BEM NA SUA FRENTE, ZERO UM! EU SOU ESSE SHIHAI! E QUERO QUE VOCÊS ENTENDAM UMA COISA COM ESSA HISTÓRIA: NÃO FUI CRIADO SEGUNDO OS PADRÕES QUE VOCÊS CONHECEM AQUI… MAS ADIVINHEM SÓ!? VIM AQUI PRA MUDAR ISSO! E SIM! PEDI AUTORIZAÇÃO AOS SUPERIORES PARA IMPLEMENTAR MINHAS PRÓPRIAS METODOLOGIAS…! Nunca fiquei tão feliz por escutar um “positivo”.

    “Ainda não entendi de onde ele vem. Me parece um lugar familiar.”

    — NOS PRÓXIMOS DIAS, VOCÊS PASSARÃO POR UMA SÉRIE DE TESTES DE APTIDÃO FÍSICA E ÁURICA! ESSES EXAMES SERÃO CRUCIAIS PARA O INÍCIO DE SUAS ATIVIDADES! DEPENDENDO DO DESEMPENHO, PODERÃO RECEBER HONRARIAS ESPECIAIS! E MAIS UMA COOOISA!!! — a voz do Major Yura ficava ainda mais alta e enfática, segurando a atenção de todos. — OS RESULTADOS DE CADA UM DE VOCÊS SERÃO EXIBIDOS NAS LOUSAS DO PRÉDIO PRINCIPAL! ISSO MESMO, SENHORES! GENERAIS E MARECHAIS TERÃO ACESSO DIRETO AOS DESEMPENHOS! E VOCÊS CERTAMENTE NÃO VÃO QUERER FAZER PAPEL DE INCOMPETENTES, NÃO É MESMO!?

    “Legal, mais um motivo de chacota.”

    — ENTÃO SEM MAIS ENROLAÇÕES! VOCÊS CONTINUARÃO SOB O MEU COMANDO ATÉ ÀS QUATRO HORAS DA TARDE! Temos muuuito o que fazer, héhéhééé…! VAMOS AOS EXAMES! TODOS PARA A PISTA DE OBSTÁCULOS!

    Desentendendo a ordem do major, alguns alunos olharam um para o outro.

    — Senhor — Mayumi ergueu o punho.

    — DIGA, ZERO SETE!

    — Creio que não há nenhuma pista de obstáculos por aqui, só há terra.

    — Ah, muito bem observado, espertinha! SÓ HÁ TEEERRAAA!!! 

    Juntamente do berro, Yura levantou ambas as mãos, assim, equipamentos de treino como barras, halteres, tatames etc. — todos feitos com a melhor qualidade obtida da terra — foram erguidos por todo o campo.

    “Ele é um áurico de terra? Caramba, ele tinha que usá-la apenas pro nosso sofrimento?”

    Naquele momento, o instrutor contava com a vinda do suor árduo de seus alunos… ou lágrimas.



    – Primeiro exercício: Afundos –

    — PRIMEIRO AQUECIMENTO: AFUUUNDOOOS!!! 5 SÉRIES DE 10 POR PERNA!

    Afundos, também conhecido como lunges: um exercício de força para as pernas e glúteos, basicamente dar um passo à frente com uma perna, dobrando ambos os joelhos até que a perna de trás quase toque o chão e a da frente forme um ângulo de 90 graus.

    Depois, o aluno retornou à posição inicial e repetiu o movimento com a outra perna.

    Os afundos exigiam equilíbrio e força, e Akemi já não tinha mais nenhum dos dois. Mais um agachamento, e as pernas magras caíram de joelhos no chão. A terra fria acolheu mais uma vez.

    — LEVANTE-SE, ZERO UM! VOCÊ AINDA NEM COMEÇOU!

    Akemi levantou-se com todas as forças. Em poucos minutos de exercícios, seus braços, suas pernas, tudo, parecia à beira da morte. Para ele, não havia tempo para descanso, e mesmo quando seu corpo recusava cooperações, sua mente se agarrava à única coisa que tinha: vontade.


    – Segundo exercício: Levantamento de Peso –

    Os alunos avançaram para a área de supinos, onde barras de terra com pesos de vinte quilos no total os aguardavam no solo.

    Os mais fibrados1 pegavam barras com uma facilidade assustadora, seus músculos eram contraídos, veias saltavam em braços que levantavam peso com movimentos treinados.

    Aquele material parecia leve, subindo e descendo em bom ritmo.

    Os praticantes pareciam máquinas perfeitamente ajustadas para aquela tarefa.

    Outros de menor estatura2 esforçavam-se para que mantivessem o mesmo controle, seus corpos tremiam sob o peso, o suor escorria pela testa, e a terra não parecia tão leve. No entanto, as repetições forçadas eram executadas.

    A diferença de experiência era clara, mas a determinação era a mesma — todos estavam ali para testar seus limites. Exceto Rin e Teruo, que encaravam os pesos como objetos estranhos. 

    O Major Yura pretendia a avaliação da força bruta e resistência mental de cada aluno, contudo, seus olhos estavam focados em um indivíduo específico…

    A simples ideia de levantar aquele objeto tão pesado diante de si parecia absurda para Akemi. “Minhas pernas mal aguentam meu próprio peso… como vou conseguir erguer isso?” E para seu azar, quem ministrava os treinos não olhava Rin e Teruo com os mesmos olhos que analisavam seu receio.

    — ZERO UM! PARE DE ENCARAR O PESO COMO SE ELE FOSSE UM MONSTRO E ERGA-O AGORA!

    “Tsc, como se fosse fácil”, Akemi agarrou a barra de terra e puxou com toda a força que tinha, sentindo seus músculos contraindo.

    O peso permaneceu imóvel, como se estivesse cimentado ao chão.

    — Caramba, isso é muito mais pesado que aquela maldita escotilha…! Vamos! Levante isso! Uuuuff!

    Nenhuma tentativa adiantou: o peso não se moveu um milímetro sequer.


    – Terceiro exercício: Corrida de Baixa Intensidade –

    Uma pista de atletismo desenhada por relevos de terra no solo percorria toda a parede interna do campo de treinamento, uma longa trilha, interminável aos olhos de Akemi, que já estava exausto só de olhar.

    Os outros dez alunos, lado a lado, alongavam os músculos como se fosse apenas mais uma etapa, contrapondo Akemi, que na largada em primeiro lugar na raia colada na parede, estava no limite de sua resistência. “Quanto tempo a gente ainda tem que ficar aqui? Aliás, sinto que essa ordem de exercícios não tem o menor fundamento prévio! Como eu tô de pé ainda!?” Ele respirou fundo, e posicionado junto aos outros em cada raia da linha de partida, ignorou o olhar impaciente do Major.

    — AOS SEUS LUGARES! COOORRENDOOO!!!

    Akemi partiu junto dos outros, mas rapidamente viu-se ficando para trás. Suas pés pesavam em dobro, movendo-se como se estivessem amarrados a bolas de ferro, e seus braços? Tão moles quanto macarrão cozido. Ele parecia mais um zumbi embriagado do que um garoto cansado. “Eu não vou conseguir… de novo?”

    À medida que os outros sumiam de vista, o mundo parecia Akemi desacelerado e desfocado entre o som de risadas imaginárias ao longe se sobressaindo ao barulho de seus passos pesados.

    “Hahahaaa! Você não irá conseguir seguir aqui!”

    “Hihiii! Esse garoto não consegue fazer um mísero exercício sequer!”

    “Que situação deplorável… Eu estou adorando!”

    “Um trivial de meia idade iria mais longe!”

    “E pensar que alguém assim sonha com um lugar alto no mundo áurico…”

    — Garoto bisonho! Cê tá bem!? — perguntou uma garota preocupada.

    — Ãhn? Quê…? Agh! — Quando virou a cabeça rápido demais para a direita, Akemi tropeçou e quase foi ao chão, mas com um reflexo desesperado, balançou os braços e se equilibrou, mantendo a corrida.

    — Ei! Desse jeito, vai acabar se esborrachando. Toma cuidado!

    Arfando como um cachorro cansado, o garoto finalmente percebeu Nikko Ichikawa trotando ao seu lado. — N-Nikko?! Por favor, não se preocupe comigo… Uff… Você vai acabar ficando pra trás…

    De postura impecavelmente ereta, Nikko mantinha o ritmo sem dificuldade. Seus passos curtos acompanhavam a lentidão do garoto, como em um passeio tão leve que era quase impossível não achar aquilo injusto. — Relaxa! É apenas uma corrida de performance, um aquecimento! O que importa é terminá-la!

    “Ela falou ‘aquecimento’? Eu já nem sinto minhas pernas!” Akemi disfarçava a respiração pesada para que não soasse cansado. — É, hehe… Vocês parecem bem acostumados com isso.

    Nikko sorriu, sabendo de algo que ele não sabia. — Miya me contou mais sobre você naquela hora no refeitório.

    — M-Miya? O-o que ela falou!?

    — Nada demais, só me pediu pra cuidar de você, já que nossas numerações são próximas. Ela disse que tava preocupada contigo.

    “Tomar conta de mim? É sério isso!?”

    — Olha… Uff… Fico lisonjeado pela disposição, mas estamos em testes individuais! E nesse meu estado, só vou te atrapalhar. Não quero isso!

    — Primeiro, respire pelo abdômen. Desse jeito você vai desmaiar antes de completar metade da volta.

    Akemi desconfiou da própria barriga. — Tem como respirar por aqui?

    — Deixe o ar preencher a parte baixa dos pulmões — Nikko colocou a mão no próprio abdômen, demonstrando. — Inspire pelo nariz, bem devagar, e sinta o ar encher seu abdômen antes de subir para a caixa torácica. Depois, solte o ar lentamente pela boca. Isso vai te dar mais controle e te ajudar a correr mais sem se cansar tão rápido.

    Seguindo o conselho, Akemi fechou os olhos, inspirou profundamente e desceu o ar até o abdômen. “Caramba, isso é muito estranho!” Para sua surpresa, a sensação mudou, como se o oxigênio se tornasse mais puro a cada puxada de ar, diminuindo a respiração eufórica, “é como se eu sempre estivesse respirando errado, e agora parece impossível mudar!” 

    Nikko abriu um sorriso quando percebeu a melhora do companheiro. — Tá melhor?

    — Um pouco… Mas meu corpo tá esquentando, e muito! Por quê!?

    — Quando a gente respira certo, o fluxo da aura melhora. Isso é normal com todos os áuricos. Com prática, essa técnica ativa a “energia áurica”, energia essa que nos dá uma capacidade física muito além dos triviais. Isso é parte do que nos torna especiais.

    “Realmente, quando uso minha aura, me sinto com o fôlego mais prolongado, mas nunca entendi o que é essa sensação.”

    — Então, se eu respirar melhor…

    — Conseguirá ir bem mais longe! O que você estava fazendo era desperdiçar energia à toa, e como seu corpo não é dos maaais fortes, precisa aprender a maximizar o que tem — Nikko deu de ombros, caçoando.

    — Precisava falar assim?

    — He hii! Relaxe! Pois euzinha te ajudarei nisso por enquanto!

    — Eh… Obrigado, eu acho.

    — Vai ser difícil no começo, mas a energia áurica flui conforme o controle respiratório: quanto mais você treinar, mais forte ela fica. Só que, primeiro! Você precisa lidar com suas limitações.

    Akemi gravou as palavras na mente e refletiu sobre a ideia de canalização da “energia áurica”. Ele nunca tinha pensado nisso como uma técnica famosa, apenas como algo abstrato ligado aos seus poderes elétricos. Os mistérios do mundo áurico pareciam infinitos em sua mente, e a chave para o entendimento de boa parte daqueles segredos, estavam não só nos instrutores, mas nos companheiros a sua volta; então, enquanto tal chave estivesse nas proximidades, haveria esperança. — Talvez eu consiga acompanhar os outros.

    — Siiim! Agora é só manter o ritmo! — Nikko acelerou um pouco o passo — não pense em velocidade. Só se concentre na respiração.

    Akemi fazia o possível para que acompanhasse, cada pisada no chão era um desafio. A respiração profunda trazia uma estranha sensação de alívio físico, mesmo que seu corpo estivesse pesado.

    Mas uma coisa era certa: pela primeira vez, ele não se sentia completamente derrotado pelo próprio corpo, o que já era um começo.

    1. 02: Nikko, 03: Kentaro, 09: Kinyoku e 10: Minoru[]
    2. 06: Hikaru, 07: Mayumi, 08: Kyoko e 11: Aya[]
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