Capítulo 34 - O dormitório de mistérios
Uma cama de solteiro pela esquerda do dormitório amparava Nikko.
— Rrrrnnnn… Zzzzz… He hiii… Rrrrnnnn… Zzzzz…
A expressão relaxada e alegre denunciava que a garota navegava no estágio mais profundo do sono, provavelmente aproveitando um dos melhores sonhos que sua mente criaria.

— Não precisa se preocupar com o tom de voz, com certeza Nikko não irá acordar tão cedo.
“Que cheiro peculiar, é algum sabonete de garotas?” Entre a entrada, Akemi sentia um aroma levemente adocicado no ar.
Embora as paredes brancas curvadas suavemente marcassem a arquitetura arredondada do edifício, o dormitório possuía um formato retangular.
Uma ampla janela percorria toda a parede à frente de ponta a ponta, mostrando a vastidão de uma noite escura e silenciosa sem uma mísera estrela no céu.
À esquerda, Nikko dormia largada em uma cama solitária, e à direita, um beliche simples e sem proteções dominava o canto.
Entre a parede à frente e o beliche, uma cortina branca e fechada pendurava-se de uma haste curva, improvisando um espaço para trocador.
No chão, um tapete preto refletia a única fonte de luz que vinha da lua, solitária em sua vigilância celestial. O brilho pálido se espalhava pelo quarto, proporcionando um clima de tranquilidade…
Akemi estava paralisado, a escuridão estrelada exibida na janela parecia puxá-lo para algum lugar distante.
A ausência de estrelas e o silêncio absoluto exerciam um fascínio irresistível…
— Ei, tá fazendo o quê parado aí? — Miya apareceu no campo de visão do rapaz. Seu braço esquerdo sustentava roupas vermelhas e dobradas, enquanto sua mão esquerda estendida oferecia um pequeno saco de papel kraft1. — Toma.
— Oh — Akemi despertou-se da hipnose. — O que é isso?
— Taiyakis2, são da Nikko, mas não tem problema você comer esses. Tem um monte nas gavetas dela.
— Gavetas? — indagou Akemi, pegando o saco de bolinhos.
Miya apontou para móveis de madeira sob a janela, levemente curvos como a parede em que encostavam. — Cada dormitório tem três criados para cada aluno. Nossas maletas, roupas e outras coisas, estão ali. A da Nikko está à esquerda, a minha à direita, e a sua no meio. Fique tranquilo quanto a sua maleta, eu a peguei na nossa sala de aula e depositei no seu criado enquanto você estava desacordado. Pode dar uma olhada quando quiser. Enquanto isso, vou colocar as minhas roupas de dormir — com o kit de roupas dobradas, ela foi em direção ao trocador à direita.
“Puts! Esqueci que poderia usar um pijama aqui. Dormir com esse gakuran não deve ser nada confortável, pelo menos não estou fedendo… Mas isso não vem ao caso agora, o que está acontecendo não parece nada certo”, a hesitação cresceu no jovem. — O-olha… isso tudo não é meio… perigoso?
— O que é perigoso? — Miya fechou a cortina do trocador, e a transparência fina da cortina deixou sua silhueta difusa. Sombras de movimentos representavam a troca de vestes.
— A gente já conversou sobre isso. O Marechal Ichikawa… ele não me quer perto de você, imagina perto da própria família dele.
— Bom, foi a Nikko que me reservou este dormitório para nós três antes mesmo de perguntar se queriamos, se ocorrer algum problema, a culpa é dela.
— Você acha mesmo que jogar a culpa nela daria certo? Aquele diretor é sinistro! Ai, caramba, e se ele estiver nos escutando agora?
— Eu sei, toda a academia está ao alcance dele. Nada escapa daqueles olhos. Afinal, sabemos bem que ele é o próprio vento. Confesso que para ele estar entre nós neste exato momento não custaria nada, contudo, fique tranquilo, pois ele não está aqui.
— Eu tô mesmo entre malucas… — sussurrou Akemi, de mão na testa — não podemos nos dar o luxo de causar problemas maiores, se continuar assim, jogaremos tudo isso fora. Temos que tentar arrumar algum jeito de convencer a Nikko de cortar essa ideia. Além do mais, Miya, eu e você mal nos conhecemos pra nos arriscarmos desse jeito um pelo outro…
— Então — a cortina foi aberta, e um olhar neutro à janela foi revelado juntamente das novas vestes: um pijama vermelho intenso e ornamentado por flores douradas. Cabelos, livres das presilhas de chamas, caíam lisos sobre a testa — precisamos nos conhecer melhor.

“Essas roupas… são tão diferentes… MAS O QUE ELA QUER!?”
— Ahm… Nos conhecer melhor?
— Sim, será melhor para a nossa confiança — Miya depositou o seifuku usado sobre o móvel próximo.
— E como você quer fazer isso? — desconfiou Akemi.
Com um giro simples e gracioso, a garota foi à escada do beliche. — Vá nesta cama de baixo. Ficarei na de cima — quando colocou o primeiro pé descalço no degrau de madeira, seus olhos voltaram-se como os de uma predadora marcando território. — Nem tente me contestar… — E seguiu subindo.
— Ah, ok… — Com o saco de taiyakis entre os dedos, o garoto tirou os tênis pretos, e perto do beliche inferior, puxou o cobertor para o lado e sentou-se, inclinando os ombros um pouco para trás em busca de uma posição confortável com os pés no chão. “Todas as camas daqui são tão boas assim?”
— Tá calado por quê? Conta aí sobre você — solicitou Miya, escondida no beliche de cima.
— Sobre mim? — indagou Akemi, abrindo o saco de bolinhos.
— Até agora só conheço seu lado tímido e desajeitado. Quero saber quem é você de verdade, de onde vem.
Palavras eram procuradas enquanto um taiyaki recebia a primeira mordida. — Bom, como posso começar? Eu nasci em outra cidade, que por sinal, é bem perto de Toryu.
— Sério? Onde?
O momento trouxe um peso indesejável ao rapaz. — Mushi.
A revelação surpreendeu.
— Fala da cidade de descarte!?
— Sim…
O silêncio imperou por um instante; um detalhe que gerou surpresa e empatia.
— … Como você vivia lá?
— Era uma cidade humilde, todos os moradores meio que se conheciam, mas… eu era muito tímido. Nunca me aproximei de ninguém.
— Nem dos seus pais?
— Eu nunca vi o meu pai, e a minha mãe… ela… faleceu no meu parto.
— Ah, Akemi… Eu… Desculpa por perguntar. Eu sinto muito.
— Tá tudo bem, de qualquer jeito era impossível eu conhecê-la… diferente do meu pai.
— E quem cuidou de você?
— Meu avô por parte de mãe. Ele… bem, a gente já discutiu inúmeras vezes, mas é a pessoa mais importante da minha vida. Me criou como filho. Foi ele quem me deu o nome… Se bem que ele poderia me dar um melhor, não?
— Ow! Aposto que ele escolheu com muito zelo! Não desmereça a criatividade do seu avô. Tenho certeza que ele só quis o melhor pra você.
— Também penso assim. Por mais que ele fosse contra os meus maiores desejos, ele fazia de tudo pra me proteger e dar a melhor educação. Só que de onde eu vim, era difícil ter um futuro extraordinário, parecia que tudo era limitado, não dava pra sonhar alto. Mas agora eu estou aqui… — O jovem abaixou a cabeça, refletindo suas lembranças.
— … Akemi… — A escuridão do dormitório deu solenidade à voz da garota.
— Sim?
“O que será que ela quer agora? Esse tom me dá um mal pressentimento…”
— Você sempre foi trivial, não é?
Não deu outra, Akemi teve a mente revirada. “O QUÊÊÊÊ!!!??? M-M-MA-MAS EU NEM CHEGUEI A FALAR NADA! COMO ELA CHEGOU NISSO!?” Um riso fraco acompanhou o engasgo com a própria ansiedade. — E-ei… Miya, do que você tá falando? He-hehe… — A descontração se perdeu no instante em que o suor frio escorreu, flagrando o nervosismo estampado.
— Não adianta disfarçar. Me diga logo, sim ou claro?
Akemi deixou o saco de bolinhos de canto, deitou de lado na cama, cobriu-se e ficou encarando a parede, tomado por um nó de emoções confusas como: tristeza, vergonha, até mesmo um toque de revolta.
— Akemi?
— Então… a cidade de Mushi poderia ter sido uma grande metrópole, sabe? Igual a Toryu. Mas séculos atrás, Mushi acabou perdendo toda a sua comunidade áurica para Toryu, a sede do império até hoje. Agora, mesmo que o governo tenha mudado e boa parte dos não áuricos consigam ter uma vida melhor, nada disso foi o suficiente para mudar drasticamente o rumo das coisas. Enquanto Toryu abria portas para os melhores trabalhadores, Mushi ficou tão abandonada que hoje não há um único áurico que viva lá — deitado, Akemi sorriu sem graça. — Acho que me entreguei só de falar que vim de lá, né?
— Para ser honesta, entrar num combate de auras sem ter nenhuma confiança em suas habilidades é impensável, o fato de você ter nascido em Mushi só me fez perguntar se você era áurico há muito tempo.
— Eu não sei explicar o que passou na minha cabeça naquele dia.
— Suas expressões confusas diziam uma coisa, mas seu corpo tinha outras vontades. Mesmo quando você se rendeu, algo dentro de você ainda queria lutar, seus instintos gritavam por aquilo, enquanto sua mente… bom, ela não estava nem um pouco preparada, certo?
“Ela fala com tanta convicção sobre mim, mas não parece minimamente errada. É óbvio que ela sabe de algo a mais do que eu”, procurando o significado por trás do comentário da garota, Akemi se revirou para que olhasse as tábuas de madeira que suportavam o beliche acima. — Realmente, alguma coisa agia por conta própria, não sei se é certo dizer que eram instintos, mas algo além disso, minha aura parecia querer me proteger.
— Às vezes, em momentos cruciais da nossa vida, a aura age por conta própria, isso se chama cataclisma áurico. Emoções como medo, alegria, tristeza e ódio podem fazer com que percamos o controle de nossas energias áuricas, e a chance de um desastre acontecer se torna bastante alta, principalmente quando nossas habilidades estão aprimoradas. Para sorte de Nihara, você claramente era um iniciante.
“Cataclisma áurico? Já ouvi o significado disso antes.” Akemi estava certo, pois quando esteve eufórico com a descoberta de sua aura, o Major Hasegawa, pouco antes da proposta de ingresso na ASA, já o havia alertado. — Você quer dizer que, se eu tivesse experiência, eu poderia ter vencido?
— Não exatamente. Só quero que entenda uma coisa: a aura é uma extensão de você, e ela pode te proteger, mas o verdadeiro crescimento vem de ti. Quem tem o maior potencial de evoluir e aprender novas habilidades é você, a aura por si só não tem tanta capacidade comparada ao seu usuário.
O garoto de cerne trivial ergueu o tronco da cama e ficou sentado novamente com os pés no chão. Eram tantas informações que a realidade do mundo áurico parecia indecifrável. — Eu não consigo entender, você fala como se a aura tivesse vida, mas… — Vup! — Oh!?
Miya surgiu de cabeça para baixo, pendurada na borda do beliche de cima, com o rosto a centímetros de Akemi, que arregalou os olhos diante da expressão risonha e um tanto provocativa da garota de mechas pretas e rubras pendidas como uma cascata vulcânica. — Você realmente não sabe de nada, né? — perguntou ela, com um sorriso astuto e olhos apertados.
Sem reação, Akemi pensava que a vida em uma comunidade áurica sem conhecimentos básicos seria tão perigosa quanto uma convivência entre leões; mas, no fim, a situação lhe pareceu cômica. — Hehe, é. Acho que ser formado em uma escola para não áuricos não vai me ajudar num lugar como este.
— Fique tranquilo, dará tudo certo! Vamos te ajudar.
— E teremos tempo pra isso?
— Claro! Mas agora não é hora, tá muito tarde. Amanhã a gente começa.
— Amanhã? O que vai ter amanhã!?
— Hihihi, isso só o amanhã dirá. Contudo, tenho uma dica: fale com o seu conselheiro.
— O seu pai!?
— Positivo! Ele tem a obrigação de esclarecer as suas dúvidas tanto sobre o mundo áurico quanto militar, porém, acredito que o seu maior problema agora seja compreender a sua própria aura.
— Até parece que ele teria tempo para mim.
— A sala dele é a porta de número 0909. Você pode ir lá pela noite. E não se preocupe, ele não vai te morder, hihi… Eeenfim, irei dormir! Boa noite! — Vup! Miya desapareceu no beliche de cima, deixando o rapaz sozinho na imensidão de seus pensamentos.
— Eh? Espera! Você nem me falou sobre você! Eu tenho muitas perguntas!
— Rrrrnnnn… Zzzzz…
“É sério isso!?”
- Saco de papel kraft: um invólucro simples e robusto, feito de papel marrom natural de textura ligeiramente áspera; normalmente usado para guardar alimentos.[↩]
- Taiyaki: um doce asahiano em formato de peixinhos, um bolinho feito com massa semelhante a waffle, tradicionalmente recheado com anko (pasta de feijão doce).[↩]

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