Índice de Capítulo

    Finalmente liberta, Rin aliviou-se. — Arg, ainda bem, o gelo já tava me queimando… Mas nada que doa menos que o dia a dia.

    Teruo estalou a coluna e ajeitou os óculos multicolores. — É inegável que aquela mulher possui uma força impressionante, mas até o momento, não percebo qualquer progresso em suas abordagens. Não consigo vislumbrar o que de fato ela tem a nos oferecer em termos de aprendizado.

    — Aprendizados não vêm somente de instruções diretamente compartilhadas — afirmou Kinyoku, massageando o pulso — às vezes, experiências em batalha podem ser a virtude com mais capacidade de aprimorar nossas habilidades. Gosto disso — concluiu ele, convencido.

    Todavia, embora o grande alívio por parte dos alunos, havia quem ainda passasse por dificuldades. 

    — Ahn… Ah… Meus óculos… onde estão? — Engatinhando pelo chão gelado, Aruni tateava desesperadamente a superfície escorregadia. A falta de visão a deixava vulnerável, e o medo de tropeçar ou cometer algum erro aumentava sua aflição. Cada segundo sem achá-los fazia seu coração bater mais rápido. — Sem meus óculos, meu mundo não passa de manchas embaçadas, preciso encontrá-los logo! — Ela passava as mãos trêmulas de um lado para o outro, esforçada…

    Até que enfim, seus dedos encontram algo.

    — Oh! — Um alívio surgiu por um breve instante, contudo, como era rotineiro na vida de quem passava por situações azaradas, a boa sensação foi logo substituída pelo constrangimento. “A-ah, não! Esses não são meus óculos!”

    A superfície não era frágil como o vidro, nem fria como o chão, tratava-se de um pé, mais precisamente, um pé calçado em um chinelo de madeira.

    Desconcertada, Aruni tentava se desculpar: — Ai, perdão! É-é que eu não enxergo sem os meus… — a nítida visão reapareceu em seus olhos — óculos.

    Tudo voltou a se formar, e a primeira coisa que a garota encontrou foi Mayumi agachada, com os braços estendidos à frente, supostamente segurando as hastes dos óculos com cuidado.

    A ruiva estava tranquila, seus olhos brilhavam na visão de Aruni, encantada com um corar.

    — A-ah! O-obrigada! — O agradecimento embaraçou-se quando a tímida levantou-se de supetão e levou as mãos na altura coração.

    — Você está bem? — perguntou Mayumi, sem julgamento quando também se ergueu e uniu delicadamente as mãos no nível da cintura.

    — Estou. É que sem meus óculos, eu fico completamente perdida… — Aruni coçou a cabeça, mal conseguindo sustentar o olhar da outra garota.

    “E-eu não esperava tanta gentileza em um lugar como esse…” As bochechas de Aruni ficavam mais vermelhas ao passo que se deparava com olhos verdes, sérios, e de alguma forma, confortantes. Seu coração batia mais forte, suas mãos não conseguiam mais contê-lo. “Mesmo que a gente divida o mesmo beliche, isso é demais pra mim! O-o que eu faço…?!”

    Era uma sensação nunca antes sentida por ela, mas que já fora lida e relida pela mesma em vários livros de seu gosto, e contando que seu gênero narrativo favorito fosse romance, o sentimento não podia ser outro.

    O clima silencioso tornava-se complicado para quem experimentava uma nova perspectiva na vida…

    Tap tap tap…

    Mas antes que a situação continuasse, passos apressados se aproximaram.

    Sho apareceu, e atento, parou ao lado da irmã, levemente ofegante. — Irmãzinha! Está tudo ok?! Conseguiu achar seus óculos?! — perguntou ele, abaixando-se para vê-la de perto.

    — Está sim, é… como posso explicar…? Acharam pra mim — Aruni apontou para frente com a cabeça; a alegria no sorriso não foi ofuscada pela timidez.

    Ao perceber Mayumi, Sho curvava-se subsequentemente, enaltecido. — Oh! Senhorita Sanada! Muito obrigado por ajudá-la! Como é bom ter representantes de uma família de tão alto nível de etiqueta por perto! Obrigado por nos acompanhar!

    — Não precisa agradecer. Apenas zele por sua irmã com mais atenção. Nunca a deixe sozinha — embora o tom calmo, um breve sorriso tomou a jovem reverenciada, como se lembranças do passado tivessem lhe trago sentimentos preciosos — presença é o alicerce mais sólido que sustenta os laços entre aqueles que compartilham o mesmo sangue. Aproveite os momentos com ela, tá?

    Os olhos de Sho reluziam admiração. — Quanta sabedoria…! — Ele curvou-se totalmente, com a testa colada no chão — levarei seus ensinamentos pro resto da minha vida!

    — Oh! — Aruni também seguiu o gesto, a euforia do irmão a contagiou.

    E Mayumi? Não podia fazer nada além de aceitar o louvor dos dois com seu simpático sorriso…

    Ainda no local onde fora pego, Nihara massageava os tornozelos; marcas avermelhadas mostravam que o gelo não teve tanta complacência sobre as tentativas de libertação do jovem ígneo perante o clima congelado.

    — Eae, Nihara, tá legal aí? — perguntou Minoru, caminhando até o colega. 

    — Eu tô bem, só o meu pé que tá um pouco dormente. Onde tá o Kentaro?

    — Caaara, tomamos um cacete! — Kentaro aproximou-se com as mãos atrás da cabeça, relaxado.

    Mas Nihara não aceitou bem o que foi dito pelo folgado. — O que aconteceu não tem nada a ver com ser um cacete ou não, estamos lidando com uma shihai de nível alto — ele levantou o corpo — era óbvio que seríamos derrotados como insetos insignificantes.

    Minoru pensava na batalha, relembrando-a. — Até achei que aquele garoto luminoso iria conseguir, ele era literalmente um flash. Onde ele está agora?

    — Tá parado ali com aquele garoto estranho — Kentaro apontou displicentemente para trás.

    Lá, afastado de olhares curiosos, Hikaru estava de costas, ajoelhado e parcialmente curvado, buscando alguma estabilidade respiratória com suas mãos na barriga, mas seu peito subia e descia de forma irregular, denunciando o estado de extremo cansaço que tentava ocultar. Seu rosto não lembrava em nada o de uma pessoa tranquila com a situação, e sua respiração pesada ecoava apenas em seus próprios ouvidos, resultado do esforço silencioso que fazia para se recompor.

    Logo atrás e também de joelhos, Akemi não tirava os olhos das próprias mãos. O que acabara de acontecer confundia seus pensamentos. A sensação de estar paralisado, escutar as palavras da instrutora mesmo sem ter total ciência do que estava acontecendo em volta, essas eram apenas umas das míseras lembranças que o incomodavam.

    O problema de verdade viera antes de todos esses acontecimentos.

    “Não sou bom em biologia, mas lembro de aprender que as moscas enxergam o mundo em uma espécie de câmera lenta, seus olhos captam estímulos em uma frequência muito maior que nós, humanos. Mas o nosso corpo… ele não é feito para isso… Será que por um instante eu fui como uma mosca olhando para o mundo que se movia rápido demais? Não, isso não faz sentido.” Akemi ergueu a cabeça, deparando-se com as costas de Hikaru a certa distância. “Esse garoto é capaz de atingir a velocidade da luz, mas eu o vi nitidamente por breves dez segundos ou menos. Mesmo que eu não pudesse me mover, falar ou reagir de qualquer maneira, consegui acompanhar parte de sua trajetória de forma clara. O que isso quer dizer?”

    Mais uma vez, a incerteza fez uma nova vítima.

    A falta de compreensão sobre os fenômenos que o mundo áurico poderia desencadear gerava dúvidas — ou até consequências severas — naqueles que não o compreendiam. Para muitos triviais, a busca por alcançar aquele mundo desconhecido era com certeza um sonho persistente, porém, sanar aquele anseio era praticamente impossível; afinal, nada daquele universo extraordinário lhes pertencia.

    Entretanto, Akemi não era mais um trivial.

    “Preciso perguntar a ele.” O curioso levantou-se, decidido a conversar com Hikaru.

    A vontade de obter esclarecimentos sobre visões inimagináveis era o que mais importava. 

    “Não sei o que ele pode me responder, talvez nem responda. Tenho medo dele, mas não posso deixar essa pulga atrás da orelha!” Ele estava convicto de interrogá-lo, supostamente uma estratégia não tão precavida, tendo a noção de que Hikaru, tentando se esconder da percepção dos outros, continuava lutando contra uma reação suspeita.

    Dependendo de como fosse, poderia não ser uma boa ideia.

    Akemi aproximava-se lentamente, o entendimento sobre o estado de Hikaru tornava-se cada vez mais visível. “Ele está… ofegante? O que aconteceu com ele?” Próximo o bastante, ele estendeu a mão para chamá-lo. O perigo que pudesse vir à tona não passava por sua cabeça, a curiosidade pelo o que passara estava agindo muito mais forte do que qualquer alerta do medo.

    Todavia, o toque inesperado não alcançou Hikaru, e sim, Akemi.

    Uma mão no ombro dispersou o foco do curioso.

    — Oi, onde você tá indo? Temos que ouvir a instrutora — a impaciência veio de Nikko.

    Akemi parou e olhou para trás. — Oh, não é nada, eu só queria falar com o-

    — Anda logo! — Nikko o puxou fortemente pelo braço, levando-o até perto de Hisako.

    “Caramba, ela tinha que aparecer logo agora? Eu precisava perguntar!”

    No fim, os questionamentos continuavam sem resposta…


    Passando pelo trio de garotos ainda distante da turma, Nikko e Akemi chamaram a atenção.

    O primeiro a soltar a voz foi Kentaro, gritando com empolgação na voz meio rouca: — Aí, riquinha! Mandou bem! Não importa o que rolou, a coragem que você teve foi demais! Inspirou legal!

    No entanto, a tentativa de se fazer descolado não surtiu o menor efeito. As palavras ficaram no ar, sem nem mesmo desviar a atenção de quem queria almejar.

    Nikko simplesmente seguiu em frente, sem dar a mínima.

    — Falei que era melhor não falar nada — reforçou Nihara.

    — E aquele garoto continua perto dela — notou Minoru.

    — Qual é? Tá com ciúmes? — zombou Kentaro, de mãos na cintura e um sorriso maroto.

    — Nem vem com essa! É você quem tentou falar com ela! — A resposta foi brava, até um dedo indicador parou no peito do outro.

    Ao ser encostado, o careca deu de ombros. — Eu só queria parabenizá-la pela garra, poucos tentaram partir pra cima daquela militar. Poderia entender a minha gentileza? — De repente, a presença de mais uma pessoa caminhando em direção à instrutora chegou aos seus olhos. — Olha lá! Não é a garota que partiu primeiro no ataque? — Ele levantou a mão. — Ôe! Você aí-

    Subitamente, Nihara agarrou o falastrão pelo colarinho, trazendo-o para perto, afrontando-o entre dentes. — Cala a boca, imprestável! Vê se não arruma encrenca pra gente!

    Kentaro olhou de cima a baixo. — Qual foi, baixinho? Algum problema?

    Nihara observou Aya caminhando com um olhar frio destacado pela máscara tampando a boca. — Aquela ali é do clã Hattori, com certeza não bate bem da cabeça. Se você irritá-la, não sabemos o que pode acontecer com a gente.

    — Ih, tá com medo dela?

    Nihara o soltou, gesticulando e esbravejando: — Não é medo, animal! É precaução! Não viu o que a aura dela pode fazer? É mais veloz que o vento e densamente escura como a noite. Não quero aquilo aparecendo no meu quarto enquanto tô dormindo.

    — Ah, então é sobre o seu medo do escuro?

    MEDO DO ESCURO!!!??? — A pergunta o enraiveceu.

    — Exatamente — concordou Minoru — a gente dorme com a luz ligada por sua causa. Nem a luz da lua é o bastante pra você. Isso não faz nem um pouco bem pra minha insônia, sabia?

    — E isso lá é problema meu? Eu solicito que fiquemos na claridade por conta do perigo à espreita. Esqueceram que estamos na boca de uma floresta áurica? Deveriam me agradecer!

    — Não é como se um bicho qualquer fosse invadir justamente o nosso quarto só pra te pegar.

    — Aaaargh, que seja! Vamos logo escutar o que a instrutora tem a nos dizer…

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