Interlúdio III - O verdadeiro significado de liderança
[ 5 de maio de 1922, Campo de Treinamento 1, 16h ]
— TREINO EM QUARTEEETOOOS!!! COMO BURROS DE CARGA, VOSSAS SENHORIAS DEVEM ERGUER UM DESSES MODESTOS BLOCOS DE TERRA DE 2 METROS E CARREGÁ-LO DE PONTA A PONTA NO CAMPO! MAS ANTES, OS SEPARAREI EM GRUPOS!
Quatro equipes foram formadas em poucos minutos, e Yura apontou para a última delas com a convicção de quem já havia decidido o destino dos escolhidos.
— QUARTEEEETO DOS FRAAACOS!!! ZERO UM, ZERO CINCO, CATORZE E QUINZE!
Akemi, Teruo, Aruni e Sho se reuniram, o simples fato de ouvir seus números em sequência já era uma sentença.
O enorme bloco de pedra os esperava, mostrando-se um retângulo maciço de terra compactada e pedra bruta, alto como dois homens deitados, largo o suficiente para que quatro braços mal o abraçassem.
Ao redor, os outros grupos demonstravam o que significava facilidade:
Nikko, Kentaro, Kinyoku e Nihara ergueram o bloco deles sem esforço;
Mais adiante, Minoru segurava o bloco de seu grupo com o dedo mindinho, enquanto Kyoko, sentada de pernas cruzadas sobre a pedra, agia como uma rainha em seu trono portátil.
Mayumi via aquilo com incerteza, mas sigilosamente aceitava a cortesia mediante ao seu cansaço, diferente de outras pessoas.
— Vocês poderiam ser menos exibidos — reclamou Rin, caminhando ao lado com a expressão de quem havia nascido entediada.
— Não enche — respondeu Minoru — foi a colega aqui de cima que resolveu sentar no bloco. Devia me agradecer, nem todo mundo transforma esse peso em papelão… não é, Hattori?
Aya os seguia, e como sempre, o silêncio da máscara preta e os olhos fixos à frente desconcertavam a todos…
Ao longe, Akemi observava aquilo como uma afronta. — Isso não tá muito injus-?
— SE ESTÁ PENSANDO QUE HÁ TRAPAÇAS EM MEU DESAFIO, ZERO UM, SAIBA QUE EU NÃO DISSE NADA SOBRE USAR AURA! ENTÃO VÊ SE PARA DE CORPO MOLE E AJUDE SEU GRUUUPO!!!
O rapaz fechou a boca e encarou aquela pedra com receio. Mas um suspiro o fez vê-la como um inimigo pessoal.
Embargada por um desânimo que ela tentava esconder. Aruni choramingava: — M-m-mas… isso vai ser impossíííveeel.
— Impossível jamais foi — respondeu Teruo entre uma respiração e outra — apenas estatisticamente desfavorável considerando a discrepância entre a nossa força natural conjunta e a massa desse bloco. E francamente, depois do treino de hoje, vejo que não restou nada das nossas energias áuricas. Forçar demais nos trará sérios problemas.
Sho esfregou o ombro, envergonhado. — Pelo meu tamanho eu deveria servir pra algo além de segurar livro… Troquei músculos por páginas e agora estou pagando o preço.
A tristeza de Aruni, a frustração de Sho e a racionalidade defensiva de Teruo trouxeram de volta o mesmo sentimento que a tempos atrás floresceu em Akemi — aquela parte teimosa que havia subido em uma arena sem saber lutar apenas para dizer o que precisava ser dito — não aceitou.
— Olhem pra mim — A firmeza do Zero Um surpreendeu até ele mesmo. — Sei que parece inútil, sei que os outros ficam na frente e nós sempre em último. Mas agora estamos juntos, e esse bloco não vai se mover se ficarmos lamentando.
A motivação interessou Sho. — O que planeja fazer?
Akemi posicionou as mãos na base do bloco, lembrando-se dos ensinamentos de Nikko. — Sabemos que é possível canalizar a energia do corpo para pontos específicos. Minha aura ainda é fraca, mas quando foco nos braços e nas pernas ao mesmo tempo, consigo ampliar o esforço por um breve período. Sei que estão esgotados, mas se sincronizarmos a respiração, mesmo que não sejamos fortes, o esforço combinado deve ajudar.
Teruo analisou a proposta. — Olha, não é a pior lógica que já ouvi. Porém, só pelo tremor de seus braços, é perceptível que está no limite, assim como nós. Provavelmente desmaiará de novo se tentar levar este bloco ao outro lado do campo.
— Mas essa é a única lógica que temos — Akemi reposicionou os pés e parou o tremor nos braços. — Então vamos tentar. Você, venha perto de mim, Aruni e Sho, fiquem com o outro lado. Assim conseguiremos erguer isso aqui.
— Hm, você é quem sabe — assentiu Teruo, colocando as mãos sob o bloco juntamente dos irmãos Yamamoto.
Os quatro colocaram os dedos na base do bloco, e no três, forçaram para cima.
Akemi sentiu a eletricidade despertando nas vértebras, descendo para as pernas e subindo pelos braços. Era quente, instável, e drenava mais rápido do que recarregava. Mas era o que tinha.
— Agora! Levantem!
Entre grunhidos e tremores, pouca elegância e muito sofrimento, o bloco saiu do chão.
— Não parem!
Akemi trazia o peso de ré, sentindo a força distribuída de forma desigual — pois estava desigual. Ele sabia disso, e parte de si mesmo sentia que estava compensando demais, que os outros três sustentavam o que conseguiam e ele empurrava o resto com a eletricidade que envolvia seus antebraços numa camada invisível e quente.
— Sigam devagar! Sempre juntos! Não percam o ritmo!
Os passos eram vagarosos, tremulantes, e cada metro custava mais do que o anterior. Aruni murmurava algo como uma oração; Teruo contava os passos em voz baixa, como se a matemática o ajudasse a não pensar na dor; Sho mantinha os dentes cerrados e os olhos fixos no chão.
E Akemi guiava, não porque talvez fosse o mais forte, mas porque sabia que alguém precisava mostrar o caminho.
A eletricidade em seus braços começou a dissipar-se perto da metade do percurso, e ele sentiu o peso aumentando de forma brutal assim que a aura cedeu. Os músculos queimaram, os joelhos quiseram dobrar, mas o rapaz não parou.
Quando finalmente depositaram o bloco do outro lado do campo, os quatro desabaram no chão em graus diferentes de colapso físico.
— E-eu não acredito… Conseguimos — Descansando o rosto sobre o bloco assim como o irmão, Aruni ria de nervoso entre respirações.
— Sim… conseguimos — afirmou Sho.
Deitado de costas no chão de terra, Teruo ajustou os óculos enquanto olhava para o céu sem nuvens. — Estatisticamente improvável, mas milagrosamente possível. O que a aura não proporciona?
Já Akemi estava de joelhos, apoiando as mãos na terra, sentindo o vazio que a eletricidade havia deixado para trás. O cansaço que invadiu seus membros não só era físico, como era espiritual, trazendo a sensação de que seu núcleo áurico retornou ao estado de uma fornalha apagada.
Foi quando uma sombra cobriu suas costas.
— Zero Um.
Akemi olhou para traz, na direção da voz cômica, e dali, não poderia estar outra pessoa além de Major Yura, que de certa forma, ainda se mostrava impaciente apesar do tom sem igual.
— Eu o observei durante toooda a travessia… Usastes sua aura para compensar o que seus companheiros não conseguiam carregar? Achou que eu não veria?
O rapaz não respondeu.
— Isso — Yura apontou para o bloco — não foi trabalho em equipe. Foi você carregando três fardos além do seu. Liderança não é carregar o peso pelos outros, garoto. Liderança é ajudar os outros a descobrirem como carregá-lo igualmente. Você não os ensinou nada hoje. Apenas fez por eles o que eles mesmos precisavam aprender a fazer em união. Entendes o que eu quis dizer?
Yura tinha razão, entretanto, havia uma pulga atrás da orelha de Akemi: Minoru praticamente carregou o peso sozinho para outras três garotas, porém Yura claramente não demonstrou incômodo algum diante do caso. O que causaria aquilo? Alunos preferidos? Medidas distintas? Foco nos mais fracos? Talvez uma mistura de tudo.
Akemi entreabriu a boca, mas a resposta morreu no mesmo instante. Na sua cabeça, aqueles ensinamentos, independentes da sensação de injustiça que acompanhava, serviriam para outros momentos. — Entendido, senhor.
Todavia, restava um pequeno detalhe para que aquilo carregasse, de fato, a assinatura de Major Yura.
— POIS NA PRÓXIMA VEZ EM QUE EU O VER COMPENSANDO PELA FRAQUEZA DA SUA EQUIPE, OS COLOCAREI PARA NADAR NUMA JAULA DE LAMA FECHADA COM TUBARÕES DE TEEERRAAA!!!
O instrutor foi embora sem mais palavras, e Akemi ficou olhando para o chão por um longo momento. No fim, um sorriso satisfeito lhe deu o sentimento de que ele estava significativamente melhorando…

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