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    [ 6 de maio de 1922, Campo de Treinamento 3, 20h ]

    Diante do Salão de Fogo, onde a madeira escura que há menos de uma semana estava coberta por anos de descaso e sujeira, Akemi empurrou as grandes portas duplas.

    De cara, viu-se Miya de mãos escondidas atrás da cintura e balançando o corpo pra frente e pra trás, esboçando uma alegria ansiosa e orgulhosa perante o garoto. O kimono de cores quentes e os pés descalços sobre o assoalho limpo estavam mantidos, mas eram os arredores que verdadeiramente prendiam a atenção.

    O mesmo lugar que fedia a mofo, espalhava poeira, enferrujava correntes e fossilizava equipamentos tombados, estava de pé:

    A limpeza era o menor detalhe, o ambiente parecia vivo. As paredes de madeira escura com faixas vermelhas e douradas no rodapé tinham vigor; as seis cordas grossas estavam prontas para o uso como se sempre estivessem; o casco de tartaruga reluzia seu verde jade sob a luz da lua minguante que entrava pelas vigas abertas; as clavas e correntes organizadas sobre as plataformas laterais brilhavam o prateado do metal; e os bonecos articulados, formados em suas fileiras, aguardavam o momento em que teriam suas capacidades testadas.

    O cheiro de poeira havia sumido, no lugar, estava o aroma de madeira tratada e o frescor do céu aberto.

    O cansaço do trabalho foi tanto que Akemi mal teve tempo para que apreciasse o resultado. — Parece outro lugar — salientou, desacreditando do que ele mesmo tinha feito.

    Aparentemente escondendo de Akemi algo em mãos, Miya sorriu sutilmente e olhou para o salão com os seus próprios olhos, vendo-o pela primeira vez da forma que merecia. — Um trabalho excepcional, de fato. Desde que cheguei aqui, sonhei em ver este lugar assim… — A luz da lua entre os vãos das vigas tomou seu foco. — Quando eu era pequena, minha mãe me levava para salões como este. Fazia tempo que eu não sentia uma nostalgia tão forte…

    Akemi pensou com cautela sobre como responderia aquele comentário, prosseguindo com o que achou mais honesto: o aprendizado oferecido pelo trabalho. — No começo, teve momentos em que eu tive medo de falhar. Mas graças a você, entendi que preciso ser forte e resiliente pra superar os desafios. Obrigado por me dar essa oportunidade pra que eu pudesse provar parte do meu valor.

    Miya encontrou graça no agradecimento. — Hm… Valor, né? Vi que alguns bonecos ainda estão um pouco empoeirados nos braços. Também ficou com medo de se machucar?

    Akemi viu aquela pergunta como uma afronta ao seu esforço. — E-ei! Eu me arrisquei pra caramba pra limpar aquelas coisas! Eu poderia ter me lesionado sério se eu não me concentrasse tanto!

    — Hihihi! Tudo bem, tudo bem. Não quero desmerecer o seu feito. Você inclusive superou as minhas expectativas. Como eu disse, o trabalho foi excepcional. Parabéns, amigo!

    Aquela doce gentileza não enganava ninguém. Uma certa promessa serviu de motivação para o trabalho, e chegou a hora em que ela deveria ser cumprida:

    Utilizando de seu senso de justiça, Akemi botou as mãos na cintura e solicitou pelo que lhe era de direito. — Você disse que teria um presente se eu concluísse o serviço no prazo. Cadê?

    A mudança de assunto soou arrogante para a garota.

    — Humpf, impaciente. Você deveria estar pensando no desafio em si e nos aprendizados que ele te traria, não em regalias misteriosas.

    — Pois eu estava pensando nas duas coisas.

    À frente de um sorriso vitorioso, Miya amoleceu-se em um semblante cansado, mas compreendendo que seu discípulo realmente merecia um brinde, deixou com que uma risada curta porém genuína escapasse e trouxe as mãos para a frente, oferecendo aquilo que escondia:

    Tratava-se de um tecido perfeitamente dobrado, volumoso, com texturas de alto valor monetário e sentimental. Quando Miya estendeu o pano, descendo-o como um pergaminho, Akemi ficou paralisado.

    Era um kimono de tom verde-ouro, onde nas mangas, gola e base, chamas verde-escuras confirmavam que, apesar das cores diferentes, o design era o mesmo usado por Miya.

    — Meu pai costumava usar este aqui. Ele nunca gostou dos treinos árduos, então o guardou mais do que usou. Quando contei a ele sobre você, sobre os dias que passou aqui e o que estava aprendendo, ele disse que era uma pena deixar um uniforme desses parado numa gaveta enquanto alguém suava para que merecesse usá-lo.

    Akemi recebeu o kimono e ficou contemplando o tecido por alguns segundos. — Caraaamba! Olhando de perto, isso fica bem mais bonito e detalhado…! De novo, obrigado.

    — Pode vesti-lo por cima deste uniforme de treino da ASA. Lembre-se de tirar os sapatos.

    Quando o garoto vestiu a peça — ou melhor, tentou, pois o kimono exigia um modo específico de amarração, forçando o garoto a passar por três tentativas antes que Miya rapidamente o ajudasse a alcançar um resultado aceitável — evidenciou-se que o presente coube perfeitamente, trazendo confiança para o novo dono. — E aí? Como fiquei?

    Miya avaliou. — Hmmm… Nessa pose, você tá parecendo uma folha de hortelã tentando soar heroica.

    — Ah, valeu pela moral! — ironizou Akemi.

    — Hihihi, olha, a boa notícia é que caiu bem em você. Meu pai tem um pouco mais de largura de ombro, então temi que ficasse folgado demais… — Ela inclinou a cabeça para o lado. — Mas pelo visto, você tem uma proporção razoável pro estilo.

    — “Razoável”?

    — Ah, vê se aceita o elogio onde tem, garoto! — Percebendo que o sermão amedrontou o rapaz, Miya, virando-se para que acessasse a área rebaixada no centro do salão, suspirou e anunciou. — Hoje mudaremos a dinâmica. Até agora você aprendeu postura, equilíbrio, respiração, resumindo: a maneira como o corpo precisa estar antes que qualquer coisa aconteça — ela parou sobre a corda grossa mais próxima à escadinha e voltou-se para o pupilo. — Mas todos esses aprendizados, sem movimento, são estátuas, e estátuas não aprendem.

    Ainda perto das portas duplas abertas, Akemi compreendeu que novas etapas viriam. — O que mais aprenderei?

    Miya levantou um dedo para correção. — Você não aprenderá: sentirá. Sentirá como agir em defesa pessoal. E antes que pergunte: não, isso não é simples. Defender bem exige que você leia o ataque antes que ele surja — Miya abriu a mão erguida e criou uma chama baixa e controlada. — Lembra do nosso treinamento de ontem em que o fogo te guiava? Quando eu atacar, você vai sentir esse calor antes do movimento.

    — … P-p-pe-pera aí! Você? Me atacar!?

    — Isso, mantenha os olhos bastante abertos. Não pretendo pegar leve se você começar a se sair bem.

    — Como assim me sair bem!? Eu nem-

    A primeira investida partiu sem aviso:

    Como um feixe de fogo, Miya avançou, direcionando um golpe de palma aberta no abdômen de Akemi. Uma onda calorosa, pequena e inofensiva, bateu na região do umbigo instantes antes do impacto principal.

    Mas como esperado pela atacante, o mundo desacelerado do oponente permitiu uma esquiva de lado guiada pelas sensações de calor.

    A garota ficou intrigada e animada pela reação rápida do aprendiz. — Uhum, então você tem capacidade de acompanhar?

    — Eu… tô confuso. Não achei que eu poderia me mexer nessas situações.

    — Em certas outras, você ainda não pode. Você só conseguiu desviar desta vez porque treinou o bastante com as minhas chamas. Creio que já está se adaptando bem a elas e conseguindo melhorar o ritmo dos treinos a partir do fortalecimento que te proporcionam. Aliás, claramente estou começando beeeem devagar pra testar as suas reações.

    A esquiva de uma ofensiva vertiginosa deixava o garoto descrente de suas novas habilidades. — Hum, mal vejo a hora de treinar no seu nível!

    — Aha! Tá confiante, é? Não se empolgue. Iremos lapidar seu reflexo, força, resistência e velocidade até que possa acompanhar ao menos o ritmo ofensivo de uma fera áurica guiada somente pelo instinto. Você ainda precisa melhorar muito para que sobreviva 30 minutos na Floresta Estelar… — Vagarosamente, Miya iniciou um curto kata que remetia a fluidez da água manipulada pelo bico de uma ave, e ao final da forma, desferiu um golpe de palma canhota com a rigidez de um tigre.

    Na trajetória do golpe, Akemi novamente notou a direcionalidade do calor concentrada no centro. Um desvio do corpo não seria o suficiente, era preciso um redirecionamento direto, e a aura ígnea, agindo como auxiliar da eletricidade, sabia de tal detalhe.

    Quando sentiu o calor tomando o antebraço, o rapaz projetou o membro em faíscas e deslocou o golpe, livrando-se por um fio do impacto que, mesmo contido, mostrou-se destrutivo devido a potência das chamas dispersas.

    Surpresa com a reação do aprendiz, Miya olhava o próprio punho desviado. — … Bom. Muito bom! Continuemos! — Ela retomou os ataques com o braço oposto, em três tempos que tiveram suas devidas respostas: um soco direto ao rosto foi esquivado; em seguida, o dorso da mão buscou a têmpora1 e encontrou o antebraço em guarda; por fim, uma cotovelada partiu reta ao centro do tórax.

    Unidades de ondas calorosas foram expelidas no instante de cada ataque. A primeira foi lida, a segunda foi seguida, já a terceira, foi incompreendida.

    A cotovelada acertou o peito com uma força controlada. Doeu, mas não machucou.

    — Ugh! — grunhiu Akemi, cambaleando para trás enquanto protegia o local atingido.

    — A chama não mente — assegurou Miya, com a guarda marcial pronta para as próximas sequências. — Se você aguardar o início do golpe, o tempo se perderá. Lembre-se, Akemi, quem larga antes constrói vantagem; se o calor sugerir uma ação antecipada, siga-o sem questionar.

    O treinamento continuou. A cada troca, os praticantes se deslocavam naturalmente pelo salão:

    Miya avançava incessantemente, espalhando chamas nos socos direcionados e chutes arqueados; Akemi recuava concentradamente, emanando faíscas nos bloqueios reforçados e desvios aprimorados.

    O caminho dos jovens preenchia cada espaço disponível: percorrendo entre as cordas espessas, ascendendo às plataformas superiores, serpenteando por entre as clavas adormecidas e cruzando os bonecos articulados.

    O salão, além de cenário, virou elemento de treino. A cada metro, um obstáculo exigia que Akemi lesse não só os ataques, mas o terreno.

    O fogo revelava seus desígnios2 em uma arte ancestral de golpes coreografados e encadeados às labaredas que dominavam os entornos; a eletricidade respondia com traços da mesma linhagem, que mesmo imaturos, eram fiéis ao propósito das chamas.

    As cores seguiam quentes e os timbres soavam semelhantes. Dentro do salão, duas naturezas distintas na essência e parentes na origem praticavam a mesma arte…

    1. região lateral da cabeça, localizada acima das orelhas, entre o olho, a fronte e a face.[]
    2. planos, intenções, propósitos ou vontades[]
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