Capítulo 62 - O "reino" de gelo
Sobre o gelo polido detalhado como piso de madeira, os pés de Akemi falharam por um instante.
O frio que deveria irritar narinas trazia um frescor puro.
Naquele espaço amplo e vazio, a primeira coisa que chamou atenção foram as colunas de gelo, altíssimas e perfeitamente esculpidas, insinuando o interior de um castelo que carregava a essência da antiga Asahi, com paredes profundamente azuis decoradas por desenhos infinitos de montanhas glaciais que deixavam claro que absolutamente nada as atravessaria.
“Que lugar é esse?” Estranhamente, Akemi sentiu um peso sobre as costas, como se o castelo o vigiasse por dentro. — Nikko… isso aqui é real? — Fora de sua percepção, Nikko não respondia. Ele não sabia o que a garota pensava, mas entendia que talvez ela estivesse maravilhada pelo teto abobadado, onde cristais pendiam como candelabros, refletindo luzes em todas as direções.

— Mmm! Mmmmm!
Akemi escutou um alto murmúrio vindo de trás. Seus pelos se eriçaram, e seus olhos castanhos imediatamente foram capturados por uma figura destacada a certa altura:
À frente de um altar imponente, ladeado por degraus largos de gelo esculpidos para o lazer de uma divindade, estava Hisako em sua cadeira de rodas. Sua satisfação, ao contrário da frieza ao redor, era radiante. Todavia, alguém ao lado dela gerava preocupações: Kyoko.
Todos viam a baixinha sentada em um trono gélido majestoso à primeira vista, mas ameaçador à segunda: aquilo era uma prisão. Grossas correntes de gelo prendiam os braços e pernas da jovem enquanto a boca seguia tampada por uma mordaça azul. Os olhares, normalmente bravos, foram substituídos pela indignação e um traço de desespero.
O altar era cercado por pilares menores com entalhes de ideogramas reluzentes. Atrás do trono, uma imensa janela revelava um céu azul carregado de nuvens, iluminando o interior do recinto.
— Mmmmm! — Kyoko tentava gritar e se debater, mas não havia meios, estava completamente imobilizada.
— Acalme-se Kyo — ao lado do trono, Hisako falava com a aprisionada. — Você e eu estamos apenas brincando, como era antes… Só que dessa vez, quem dita as regras sou eu! — Ela aproximou o rosto no da tataraneta com aquele sorriso maternal que não enganava ninguém.
Akemi teve um aperto no peito perante a situação. — O que fizeram com ela!? E-ela não pode ficar ali! — Involuntariamente, suas pernas tentaram avançar embora o tremor vexatório — temos que fazer alguma coisa.
— Tá doido, menino!? — Com uma mão, Nikko segurou o peito do garoto, afastando-o. Seu olhar não brincava. — Fica paradinho aí. Agora só podemos esperar e ver o que a instrutora fará.
Hisako voltou-se para a turma abaixo de seu campo de visão com um olhar subjugante, e quando abriu os braços, ecoou como uma verdadeira monarca. — Queridos alunos! Sejam muito bem-vindos ao meu grandioso castelo áurico! Aqui, suas maiores limitações serão enfrentadas ao máximo, e a nossa pequena princesa aqui será o centro de tudo. Vocês terão que salvá-la!
Akemi não segurou a exaltação. — … Essa mulher é maluca!
Entre o bolo de jovens, Kentaro coçou a cabeça pelo atordoar da ascensão repentina. — E isso é pra ser algum tipo de brincadeira entre nós!?
Hisako riu da questão. — Ah, meu querido, você entenderá em breve, tudo isso faz parte do nosso desafio. Agora, fiquem atentos. Irei separá-los em grupos.
Minoru compartilhou seu desânimo. — Grupos? Não me diga que vamos lutar contra aquela senhora de novo.
— Só espero não ficar em uma equipe que me atrase — comentou Nihara, rude.
Ignorando os comentários, a instrutora seguiu com as instruções: — Inicialmente, teremos os três primeiros grupos: Os Heróicos!
— Tsc, que nome ridículo… — resmungou Rin.
— Os integrantes de cada grupo heróico serão exclusivamente separados aos meus critérios, a começar por agora! — O anúncio tomou o foco de todos, ansiosos por saber com quem estariam. — Os que chamarei neste momento participarão do grupo 1 de heróis, então, por favor, dirijam-se para cá os seguintes alunos… — A mulher apontou para um espaço isolado à sua esquerda, no piso onde os jovens selecionados iriam.
Nihara fechou os olhos e fez figas com as mãos. — Por favor, um grupo fraco não, grupo fraco não…
— Zero Um!
Para a surpresa de alguns, Akemi foi chamado, e logo caminhou para o local apontado.
“Legal! Fui o primeiro a ser escolhido…! Isso deveria ter algum mérito?”
— Zero Dois!
— Positivo, senhora! — Nikko prestou continência e partiu até onde Akemi estava, trazendo-lhe um pequeno alívio.
“Ufa, que sorte. Pelo menos haverá alguém com quem eu tenha mais entrosamento.”
A preocupação inquietava Aruni. — Será que ela fará os grupos de acordo com a nossa ordem numérica?
Sho ouviu a pergunta pensando em outra coisa. — Com a ausência de Kyoko, somos treze alunos selecionáveis, e se serão três grupos de heróis…
Teruo olhou para a instrutora no alto — Separação de grupos em um número ímpar de alunos. Estou ansioso para entender os critérios que serão estabelecidos…
— Zero Sete!
— Olha só, um fora na ordem — comentou o dos óculos coloridos, ajeitando-os para que visse melhor.
Sem mais, Mayumi caminhou em silêncio, encantando o grupo com seu grupo.
“Não conversei muito com a Sanada diretamente, mas acredito que ela possa agregar positivamente para a nossa equipe. Ela parece ser forte.”
— Dez!
Minoru partiu até os integrantes do grupo 1.
“Caramba, é um do grupo do Nihara! Não sei se isso é uma boa, tomara que ele não cause problemas…”
Com o quarteto selecionado lado a lado, Hisako os olhou diretamente. — Enfim, vocês quatro formam o primeiro grupo de heróis. O Grupo Fênix!
— Fênix? — repetiu Akemi, confuso.
— Positivo. Escolhi este nome pois o desempenho de vocês nos primeiros dois desafios não foi abaixo do esperado. Alguns eu esperava mais, e outros me surpreenderam na falta de várias características de um futuro shihai — a revelação pegou o grupo de surpresa, eles não imaginariam tamanha descontentação.
Mas Hisako não deixou ninguém totalmente desinformado. — Dez, você parece ser um bom guerreiro. Não fique somente a serviços de seus companheiros. Neste desafio você deve mostrar a que veio.
Minoru ficou surpreendido e motivado pelas palavras.
— Zero Sete, você não optou pelo primeiro desafio, e sua energia áurica é baixa. Espero mais de um membro do Clã Sanada.
Mayumi curvou-se. — Farei o meu máximo para o vosso contento, senhora.
— Zero Dois, tua vontade é louvável, mas precisa de mais foco, aparentemente você se segura demais. Terá de revelar sua verdadeira força daqui pra frente, com seriedade.
— Entendido! — Nikko prestou uma nova continência, mas não conteve a raiva interna sob o sorriso. — Grr, se eu tivesse a minha arma você ia ver, sua velha enxerida!
— Zero Um… — Hisako escolheu uma entonação enfurecida para Akemi. O olhar de cima a baixo tornou-se medonho. — Você simplesmente usufruiu da covardia para que tirasse vantagem do desafio. Como uma mulher de princípios honrosos no campo de batalha, estou desapontada. Está devendo horrores, não só pra mim, mas principalmente para a ASA.
Akemi sentia-se o centro de atenções negativas, o que realmente era. O modo como seu desempenho foi analisado não seria ignorado por ninguém, restando nada além da devoção ao comprometimento. — Prometo não decepcioná-la! — O rapaz curvou-se diante da pressão.
— Certo… Então, neste desafio, assim como uma fênix, mostrem do que são capazes, representem suas verdadeiras forças! Renasçam das cinzas…! Claro, vindo lááá de baixo…
O destaque no último detalhe intrigou os alunos selecionados.
— Vindo… lá de baixo? — questionou Minoru.
— Exatamente.
Mayumi deu um passo à frente. Entre sua seriedade, havia resquícios de preocupação. — Perdão, senhora, o que diz com “lá de baixo”?
— Estão com dúvidas sobre a minha colocação?
Iconicamente, todos do grupo Fênix assentiram com a cabeça.
— He ho ho…!
Impaciente, Minoru coçou a cabeça e reclamou aos aliados. — Arg, o que será que é tão engraçado, hein?
A voz meiga de Hisako acolhia os olhares dos perdidos. — Fiquem tranquilos, suas dúvidas serão sanadas em três… dois… um… — A instrutora fechou os olhos, concentrando-se em algo.
— O que ela tá fazendo agora? — indagou Minoru.
— Eu falei que essa mulher é maluca… — repontuou Akemi.
— É como se ela estivesse… calculando — analisou Mayumi.
Nikko apoiou as mãos na cintura, buscando um repasse de confiança ao grupo. — Relaxa, pessoal! Estamos no topo de um castelo, devem existir andares inferiores. A instrutora deve estar apenas decidindo a melhor rota para nos guiar até em ba-
Crsssshhh! Uma área quadricular sob os pés dos quatro alunos se partiu como vidraça, despedaçando-se completamente. Sem aviso, os jovens caíram, sentindo o ar sendo arrancado de seus pulmões enquanto despencavam rumo ao desconhecido.
E é claro, juntamente de qualquer queda inesperada, surgiam os bons gritos.
— AAAAAAAAAAAAAAAHH!!!
A queda acelerava a cada milésimo. Um outro piso foi percebido, consequência? Mais uma área quadrada abaixo foi quebrada.
Crsssshhh!
A queda livre continuava no mesmo ciclo repetitivo, independente de quantos pisos aparecessem.
Crsssshhh!
— AI, CARAMBA!!! ISSO NÃO PARA, ISSO NÃO PARA!!! O QUE A GENTE FAZ!!!??? — Desgovernado, Akemi tentou se segurar no ar, mas suas mãos não alcançavam absolutamente nada. Definitivamente, ele não foi treinado para aquilo.
— PARA DE GRITAR!!! ISSO NÃO VAI AJUDAR EM NADA!!! — orientou Minoru, tão desesperado quanto o outro, mas controlando melhor a queda do corpo assim como Nikko.
Curiosamente, Mayumi era a com menos reações gritantes; contudo, seu corpo inclinado para baixo, braços juntos nas laterais do tronco e um característico olhar vazio para o chão insinuavam que ela aceitou o pior dos destinos.
Crsssshhh!
— AAAAAAAHH!!! — Os três mais conscientes do grupo continuavam gritando, temendo um impacto, ninguém sabia ao certo o que aconteceria.
— AÍ, ICHIKAWA!!! FAZ ALGUMA COISA!!! — exclamou Minoru.
— E-EU NÃO SEI SE VAI DAR CERTO!!!
— A GENTE LÁ SE IMPORTA COM ISSO!!!??? VOCÊ QUE É A ÁURICA DE VENTO AQUI, ANDA LOGO!!!
— TÁ BEM!!! — De olhos arregalados e dentes pressionados, Nikko endireitou-se verticalmente no ar, cruzou as pernas na posição de lótus, e com uma técnica englobada ao improviso, iniciou movimentos circulares opostos com os braços, um no sentido horário, o outro no anti-horário. A dessincronização proposital nos movimentos criou uma imensa redoma de vento ao redor do grupo, reduzindo a velocidade da queda aos poucos.
Crsssshhh!
Mais um piso se desfez em uma explosão de estilhaços gelados, e para o alívio de todos, o próximo finalmente se manteve firme.
Na aterrissagem, o fluxo de ar turbilhonante pela queda prolongada dissipou-se em uma brisa de falsa segurança.
Akemi caiu de bruços, mole como uma gelatina e descabelado, sua mente girava como um carrossel descontrolado. — Ugh… — Ele tentou se levantar, mas o corpo não obedeceu. Seus pensamentos fervilhavam. “Eu vou vomitar! Eu vou vomitar! Ou eu vou desmaiar…? Ugh, maldita instrutora. Espero nunca mais passar por isso de novo.”
Minoru sustentou a queda com os joelhos flexionados, e Nikko foi a última a alcançar o solo com um toque de leveza na ponta dos pés.
— He hii! Vocês viram gente!? Eu consegui, eu consegui…! Ai, podem falar, isso não foi divertido?
Estirado no chão, Akemi encarou aqueles saltitos alegres com desdém. — Divertido? A-ai… — ele se levantou e arrumou o cabelo. — Olha, não entendo como você consegue agir com tanta felicidade depois de corrermos risco de vida… Hum, talvez eu tenha que aprender com você.
— Que lugar bizarro — disse Minoru, de rosto erguido.
O ambiente revelava-se como uma caverna de gelo escuro, refletindo a breve luz de estalactites que ameaçavam cair.
À frente, dois buracos: aparentemente passagens de dupla escolha para o seguimento do desafio.
Nikko levou as mãos à cintura, animada. — Bom, acho que temos bastante trabalho pela frente!
A ilustração abaixo serve como um lembrete visual do Grupo Fênix, que estará em ação a partir daqui!


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