Índice de Capítulo

    Nas quatro semanas que se passaram desde a limpeza do Salão de Fogo, Akemi aprendeu a diferença entre possuir aura e saber usá-la. As faíscas que antes surgiam em explosões descontroladas, tornaram-se guias do corpo, revestindo antebraços quando bloqueava, condensando nas canelas quando chutava, e distribuindo-se pelos músculos quando precisava de velocidade ou força.

    O controle corporal que Miya forjara nele através de katas, posturas mantidas até a exaustão e treinos sob o calor das chamas, transformara aquele garoto franzino em alguém com entendimento básico do próprio fluxo áurico e resposta a medida do necessário.

    Embora ainda estivesse longe da maestria corporal, e mais distante ainda do domínio das formas animais com a mesma fluidez da mestra, o fundamento estava lá, construído tijolo por tijolo sob a supervisão rigorosa e a dedicação acirrada.

    Todavia, no fim daquela manhã, Miya aparecera com naturalidade na fila do refeitório antes do início dos treinos formais e entregara uma informação que deixou Akemi inquieto. — Estarei ausente dos treinos desta tarde.

    Akemi devolveu um olhar confuso no momento em que pegou a bandeja. — Mas você disse que apareceria, o que aconteceu?

    — Motivos pessoais. Daqui a uns dias você entenderá… é surpresa — foi tudo que ela ofereceu, e o tom deixava claro que elaborações a mais estragariam a graça.

    “O que essa garota tá tramando?”

    Quando ambos seguiram o caminho para uma mesa, a conversa continuou. — Você já aprendeu o suficiente para se defender sozinho, contudo, mantenha atenção dobrada no treino de hoje. Há indícios de um evento importante, e você precisa estar presente de corpo e mente. Entendeu?

    O rapaz analisou a situação com dúvida, mas assentiu animado. — Entendi!

    — Ótimo! — Tapinha no ombro. — Te desejo boa sorte, você vai precisar, hihi…

    — Bem, alunos! Creio que estavam ansiosos pela minha volta! — No centro do Campo de Treinamento 1 ao início da tarde, a Tenente-coronel Hisako projetava a voz com entusiasmo. A Turma 1F, disposta em formação U e seguindo a devida ordem numérica, trocava olhares breves, sabendo que aquela animação sempre antecedia o inesperado.

    Girando as rodas da cadeira, a instrutora percorria a fileira com admiração. — Já se passou praticamente um mês desde a última vez em que nos vimos. E o que encontro aqui é progresso. Alguns aprimoraram o físico, outros refinaram a manifestação de suas energias… Realmente, um trabalho louvável está sendo feito.

    Os Irmãos Yamamoto chamaram-lhe os olhos primeiro. Ambos permaneciam acima do peso, porém distintos do que eram semanas atrás. Sho já não apresentava apenas volume: havia uma força sendo construída abaixo do uniforme. Já Aruni ao lado, exibia mudanças mais visíveis: quilos consideráveis foram perdidos, a cintura reduzida continha menos dobras. O sobrepeso ainda existia, porém recuou diante de evidente disciplina.

    Na outra extremidade, Akemi mantinha a silhueta esguia, mas o tecido do uniforme agora revelava fibras discretas nos antebraços e no contorno do tronco. Nada exuberante, porém inegável para quem sabia observar. Havia rigidez onde antes residia a fragilidade.

    Teruo e Rin, por outro lado, aparentavam uma transformação discreta: apenas a postura e a estabilidade indicavam um silencioso progresso. Se dedicavam à própria evolução ou atribuíam importância a ela, não demonstravam.

    Os demais alunos preservavam as qualidades que já lhes eram conhecidas, mas era evidente que nenhum havia tocado o próprio limite. 

    Naquele dia, todos seriam submetidos a um novo desafio, convocados a expor mais uma vez a extensão real de suas capacidades.

    Com as análises em mente, Hisako comunicava enquanto retornava ao ponto central da fileira: — Esse período de aprimoramento foi essencial para o próximo procedimento, e até aqui, estou orgulhosa dos resultados prévios. Porém agora, alguns de vocês precisarão de muito mais do que condicionamento físico para o desafio de hoje. Atenção.

    A fileira atendeu ao alerta da instrutora com um firme passo à frente.

    — Excelente, farei uma breve convocação agora.

    A turma inteira entendeu o momento crucial em que estavam naquele exato momento. A sensação era de que, se o seu número fosse chamado, já seria motivo prévio de vitória.

    Como esperado por eles, o pedido soou forte, como o chamado a um campeão:

    — Zero Oito! Venha ao meu lado!

    — … Eu sabia — reclamou Kyoko, fazendo corpo mole enquanto se aproximava.

    — Foi escolhida só por ser parente? — questionou Akemi?

    — Ih, eu num sei — respondeu Nikko, pronta para que extravasar sua empolgação. O que importa é que torcerei muito por ela! Vai lá, Kyozinha!

    De frente para a garota que caminhava sem o mínimo esforço, Hisako expressou seu orgulho. — Kyo! Minha linda princesa. 

    Se pudesse, a baixinha sumiria ali mesmo. — Princesa?! Ah, é cada coisa que eu tenho que me submeter. Diga logo o que você quer de mim, anda.

    Quando sua convocada chegou, Hisako puxou-a para mais perto. — Oh, Kyo, não seja assim com a sua velhinha… — ela a envolveu com uma das mãos, massageando seus ombros. — Você era tão doce quando bebê, foi só crescer um pouquinho que já pegou toda a braveza de um adolescente problemático. Mas você sempre será a minha princesa.

    — Desde quando você achou uma boa me chamar de… princesa?

    Hisako soltou a tataraneta e girou as rodas para frente a uma distância mínima, as nuvens no céu traziam memórias. — Você já se esqueceu? Quando era criança, você adorava brincar de reinado. Você era a princesa, e eu, a sua rainha. Era tão divertido…

    — Para de pensar besteira, isso faz mais de década.

    Hisako continuava de costas à jovem. — Exato. Desde então, você nunca mais quis brincar comigo, nem cogitou me visitar. Isso machuca, sabia?

    — Eu não tenho culpa, você foi pra guerra e eu tive que crescer. Não teríamos tempo de forma alguma-

    — Kyoko, quando você realmente sente apego ou o mínimo amor que seja por um membro da mesma família, você pelo menos envia cartas, procura saber como ele está. Você não sabe o quão isso pode melhorar o dia de uma pessoa nos estágios finais da vida.

    — Haaah… Certo, quer que eu me desculpe? — Pof! Em um movimento brusco, a baixinha curvou-se por completo e colou a testa no chão de terra molhada, surpreendendo a militar que a olhou de relance. — Altíssima Digníssima Tenente-Coronel Hisako Shimizu! Veterana de Guerra deste tão prestigiado Exército Asahiano! Peço perdão pela minha falta de companhia! Como sua herdeira, deveria prestar o mais alto reconhecimento! Novamente, peço mil perdões!

    Apesar da longa descrição, o tom não foi de brincadeira, deixando a tataravó atônita.

    — Oh… He ho ho! Você é uma figura, Kyoko! Definitivamente é uma integrante do clã Mizu — Hisako levou a cadeira na direção da jovem em reverência. — Entretanto, infelizmente não posso aceitar esse simples tipo de pedido de desculpas.

    Diante da negação, Kyoko tirou a testa do chão e deparou-se com o rosto rejuvenescido da tataravó. — Então… o que você quer que eu faça? — Embora naturalmente franca na seriedade, a garota ficou receosa. 

    Acariciando as mãos nas bochechas da jovem, Hisako solicitou. — Você, como a boa menina que era, irá brincar de reinado comigo… mais uma vez. Você será a princesa, e eu, a rainha.

    Olhando as mãos tortuosas que a apertava carinhosamente, Kyoko não entendeu direito o pedido. — Bom… A gente pode fazer isso depois. Eu ainda devo ter aquele castelo de brinque-

    Crsssh!

    Uma camada de gelo moldou-se sobre a boca de Kyoko, selando-a de qualquer som. Contra a instintiva reação, o frio solidificado uniu as mãos e os pés, imobilizando a jovem e derrubando-a no chão.

    Perante a aluna se debatendo, Hisako retomou aquele sorriso dado como macabro. — Ooh, shh shh shh shh shh… Apenas… fique tranquila… Eu tenho o meu próprio castelo!

    Ffuuuuuuuuuuussssshhhhh… 

    Uma corrente de neve tempestuosa tomou o campo com o olho de um furacão, trazendo pedaços do gelo cristalino que embelezava a vista, ou talvez, preocupava.

    Um pequeno terremoto açoitou o solo. O tremor fez com os alunos buscarem equilíbrio onde não existia; uns estavam atentos, outros, extremamente preocupados.

    — Que besteira elas estão fazendo!? — indagou Kentaro, com a voz irritada mais arranhada que nunca.

    — Intrigante, certamente isto é fruto da instrutora — informou Teruo, segurando os óculos para que não voassem.

    Firmando-se com o corpo faiscante, Akemi suava frio enquanto os protegia os olhos com os antebraços, atento ao solo que adquirira um tom azul vítreo e escorregadio abaixo dos pés. “De novo essa instrutora maníaca nos colocando em problemas, o que ela quer dessa vez?”

    Do outro lado do campo, Nihara esforçava-se para que continuasse de pé sob a tempestade anil. Akemi, percebendo aquilo, preocupou-se com o próprio corpo cedendo deslizes para trás. “Preciso me concentrar mais, se eu cair aqui, posso ser levado pra longe!”

    — Ei, fica calmo! — Nikko aproximou-se, criando uma redoma de ar que tornava as ventanias ao redor difusas. — Entre na minha barreira, não é perfeita, mas talvez ela não te deixe cair! Só tome cuidado com os pé-ÉÉÉÉÉÉÉZ!!!

    Uma imensa plataforma de gelo irrompeu do chão, alçando todos às alturas.

    O escudo instável de Nikko despedaçou-se, forçando-a a intensificar a concentração junto de Akemi para que não sucumbissem diante do tremor ascendente. — Se segura, garoto bisonho!

    A ascensão parecia infinita, os rostos dos alunos se desfiguravam em caretas de desespero e outras de concentração.

    Rum! Quando o solo bruscamente firmou, a visão de Akemi turvou, cambaleando-o para trás.

    — Opa, força — Nikko segurou-o pelo braço.

    — Ahm, caramba, que dor de cabeça — reclamou o garoto, para si.

    — Ah, vamos, para de ser mole, ô! — exigiu Nikko, risonha.

    — Sei, sei. Não é a primeira vez que me pedem isso, hehe — quando Akemi reencontrou o equilíbrio da mente, deparou-se com uma visão que o deixou sem palavras. Ele queria comentar, mas nada saiu de sua boca à princípio.

    O cenário adiante não seria imaginável nem nos mais profundos sonhos, ou quiçá pesadelos. — … Nikko… onde diabos estamos?

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