Capítulo 65 - Sob o domo de gelo
— Uma área extensa e circular, com um domo fechado e decorações minimalistas nas estruturas. Não há dúvidas de que estamos em uma arena — concluiu Mayumi.
— Isso deveria ser mesmo o subterrâneo de um castelo? — questionou Minoru.
A luz azul e o silêncio davam sensações subaquáticas, criando a ilusão de que toda a arena estava sob as profundezas de um vasto oceano.
A origem dessas estruturas glaciais se tornava um mistério fascinante. Como um áurico, um humano, construiria tudo aquilo em tão pouco tempo? E quantas coisas a mais teriam sido criadas?
— Esse lugar é incrííível! — exclamou Nikko, acelerando a voz aos poucos — vocês estão vendo aqueles cristais lá em cima?! São anilíceas! Eu já as vi em uma caverna bem perto da minha casa!
— Onde é que tu mora, hein, garota? — perguntou Minoru, ainda fascinado pelas estalactites que brilhavam como cristais no teto.
— Anilíceas de gelo são somente encontradas em cavernas de alpes. É delas que podemos extrair criogemas, uma das joias áuricas mais cobiçadas do mundo inteiro!
— Entendi, sua família é rica, né? Não é estranho você ter informações como essa.
Brrrummm…
O som de algo emergindo alertava a todos, e em seguida, uma estátua surgia no centro da arena, distante. O gelo rangia e moldava algo maciço e ameaçador, até que uma forma grotesca por fim era revelada: um troll.
Com o dobro do tamanho dos jovens, grandes músculos, pelos densos e braços poderosos erguendo uma clava prestes ao golpe colossal, a criatura esculpida pelo gelo exalava misticismo na peça que escondia seu rosto: uma máscara oni de nariz longo, bochechas ressaltadas, e caninos afiados que despontavam de uma boca escancarada e faminta à beira de um rugido parado no tempo.
O detalhe especial ia para a ausência de orifícios oculares, entretanto, no centro da testa do acessório, um relevo hexagonal destacado causava estranheza na simetria da máscara, um emblema de poder, ou talvez, a chave para algum segredo.
C-crek!
A estátua se moveu repentinamente, um movimento curto de cabeça, mas não o suficiente para que fugisse da percepção do grupo.
Todos assumiram posições de combate, o momento requeria olhos fixos na figura possivelmente despertada que travadamente progredia o primeiro baque da clava no chão.
Minoru, embora concentrado, mostrava-se levemente incomodado. — E aí? O que a gente faz com aquilo?
— Deixem comigo — Mayumi tomou a dianteira do grupo, seus passos calmos e decididos ecoavam pelo domo.
— O que tá fazendo, ruivinha? — indagou Nikko.
— Eu cuido daquele monstro — A espadachim ajustou sua postura com calma, segurando a estaca improvisada com ambas as mãos e a alinhando-a horizontalmente ao lado esquerdo do corpo, rente aos olhos. Suas pernas suavemente dobradas se firmaram com segurança no solo liso. Definitivamente, uma pose autêntica dos samurais.

Em uma explosão de ação que completou a proposta imaginária da estátua, o troll se libertou da paralisia ao impacto da clava no chão e partiu ferozmente na direção da jovem. Bufando e grunhindo, a fera golpeava o solo com o tacape a cada passo ensurdecedor, correndo em saltos como um ser primitivo.
Do outro ponto, a frieza de Mayumi impressionava o grupo.
“Ela vai ficar ali esperando? Não nem vai se mexer?” duvidou Akemi, preocupado.
Próximo do alvo, a clava desceu rumo à cabeça da espadachim imóvel.
— Saia daí, garota! — gritou Minoru, aflito.
Apesar do receio dos companheiros, Mayumi girou fluidamente e saiu da trajetória do ataque, raspando sua espada contra as superfícies gélidas do tacape em um som agudo.
O troll atingiu o chão com uma força absurda, contudo, não foi o bastante para que abalasse o equilíbrio impecável da oponente.
No fim da esquiva, Mayumi rapidamente firmou os pés e direcionou a espada, repetindo a postura inicial e apertando o cabo da espada com mais força.
A ponta da lâmina, brilhando sob a luz azulada, foi fincada no centro do hexágono da máscara oni em uma investida direta e precisa, ato que espalhou rachaduras por todo o corpo do troll tomado pela paralisia.
Crsssssshh…
Diante dos olhos do grupo, o monstro colapsou em um belo processo: cada pedaço da criatura se desfez instantaneamente em pequenas partículas de gelo, cobrindo o chão com uma camada translúcida de cristais cintilantes, que vagarosamente, desapareceram.
Akemi admirou-se. — Ela… conseguiu?
Nikko comemorou com um punho erguido de alegria. — Ela conseguiu mesmo! Você foi esplêndida, ruivinha!
— Caaaraca… — Impressionado, Minoru piscou algumas vezes e modulou a voz. — Ahem! Muito bem, garota. Acho que essa tal espada de gelo realmente serviu bem em você — elogiou, sem sarcasmo.
Vendo as costas da espadachim, Akemi pensava consigo mesmo. “Ela agiu tão calmamente. Incrível! Foi tudo muito rápido!”
Com a respiração leve condensada pelo ar frio da arena, Mayumi observava o vazio onde o troll estivera segundos antes. Então, finalmente virou-se ao grupo, tranquilizando-os com seu sorriso confiante. — Está tudo bem agora.
A calmaria na arena parecia inabalável, nada mais perturbava… se não fosse por Nikko percebendo adversidades. — Ruivinha! Sua mão direita!
Mayumi levou a mão mencionada até a meia altura do corpo, e notou cortes profundos que percorriam seus quatro dedos, poupando apenas o dedão. O sangue pingava e escorria em rastros finos.
Todavia, aquele líquido carmesim curiosamente fugia de tudo o que a humanidade conhecia por padrão; ele brilhava intensamente, e era claro e vívido como uma cara tinta vermelha.
Talvez, a explicação estaria na essência singular de uma aura sanguínea.
— Isso deve estar doendo pra caramba, né? — perguntou Akemi, sentindo pela companheira.
Indiferente, a garota ferida passava o dedão pelos cortes. — Minha mão provavelmente escorregou durante o golpe e passou pelo fio de corte, que mesmo ruim, aparentemente consegue cortar a carne humana. Mas sobre a dor, eu não sinto nada, até porque os cortes já fecharam — ela mostrou a palma da mão aberta para o grupo, onde o sangue seco não impedia a percepção de que o membro estava em bom estado.
— Oooh! Você se cura tão rápido assim?! — Nikko estava abismada.
— Sou uma áurica do sangue, e possuo uma capacidade de cicatrização refinada herdada do meu clã. Ainda assim, a dor de ferimentos mais profundos não me é estranha. Preciso ser mais cautelosa daqui em diante.
— Mas, Sanada, como você sabia derrotar aquele monstro? — perguntou Akemi.
— Como dito pela Ichikawa, criogemas são jóias áuricas de valor inestimável, não só pela beleza, mas pela raridade. Tudo isso é por conta dela ter a capacidade de animar estruturas de gelo, uma descoberta recente no nosso entendimento das forças áuricas. Contudo, o que realmente as torna preciosas não é apenas seu preço, mas a dificuldade em fazê-las operar.
— E-eu nunca soube da existência de coisas assim!
— Também não.
— He hiii! Vocês dois não viram nada sobre o que aquelas pedrinhas podem fazer! Mas fiquem tranquilos, elas ainda não são usadas pra combate.
— Quando olhei o relevo de seis pontas na máscara daquele troll, imaginei que pudesse estar diante de algo similar a uma criogema. Também não posso esconder de vocês que foi uma questão de sorte, até então, eu não tinha certeza se esta espada seria capaz de ferir um gelo sustentado por uma aura eterna.
— Aura eterna contra aura eterna tem os mesmos efeitos de duas auras normais se enfrentando. É bom lembrarmos disso já que mal podemos usar nossos poderes nesse lugar — considerou Minoru.
Nikko forçou a visão e apontou para frente. — Olha, acho que tem um grande portão duplo do outro lado da arena. Mas… nossa, tá bem longe!
— Um portão fechado, aparentemente a única forma que temos de sair daqui. Parece trancado, será que precisaremos de alguma forma de chave? — comentou Mayumi, olhando a passagem ao longe.
— Haaa — suspirou Akemi e tomou à frente — eu não sei, espero que não. Não vejo a hora de cair fora desse inferno congelado. Temos que aproveitar o momento e ir o mais rápido possível. Tomara que não encontremos mais nenhum contratempo.
Mrrruummmmmm…
Mais um som suspeito reverberou pela arena, especificamente vindo de cima.
A irritação de Akemi contrapôs a atenção. — Aaaargh, boca maldita! Tava bom demais pra ser verdade.
Os cristais pendurados brilhavam com mais intensidade, suas luzes azuis pulsavam como um coração…
Nikko recuou. — Isso não é bom sinal… Ruivinha! O que a gente faz!?
— Todo mundo, se prepare! — ordenou Mayumi, endireitando a espada em guarda; seu foco deixava claro que o descanso acabara.
As luzes se estabilizaram por um momento, e um alívio momentâneo purificou o ar.
Ninguém ousou relaxar… a não ser por Nikko. — N-nossa! He hiii! Isso foi… esquisito. Acho que já passou! Vamos continuar, pessoal! — Ela deu um confiante passo à frente, mas aquela coragem foi em vão.
Tchummm…
De repente, tudo se apagou.
— Isso realmente soou como um corte de energia? — brincou Akemi, coberto pelo tipo de breu que não se acostumava com o tempo.
Não havia sombras e nem contornos, como se o mundo inteiro tivesse sido mergulhado na escuridão.
— Ruivinhaaa, você ainda tá aí? — Procurou Nikko.
— Isso é um problema — disse Mayumi.
Tremendo os dentes, Minoru expressou suas sensações: — U-u-uff, esse lugar tá ficando cada vez mais gelado.
O som de respirações ofegantes e passos lentos era a única coisa que tirava o silêncio.
Akemi esticava os braços para que alcançasse alguém, mas apenas encontrava o vazio. — Isso aqui tá muito errado. Não consigo nem sentir que estou aqui. É como se até o meu corpo tivesse desaparecido.
Mayumi expressava a urgência. — Mantenha a proximidade, nos distanciar só trará desvantagem agora. Não sabemos o que está acontecendo, mas precisamos manter a calma.
— Falar é fácil — rebateu Minoru — se a instrutora projetou isso, com certeza ela sabe exatamente como nos ferrar.
mrrmmmm…
— Espera! — Akemi manteve todos em completo silêncio. O chão de gelo vibrou sutilmente, como se uma força oculta estivesse se movendo abaixo da superfície.
mrrmmmm…
“Que barulho é esse? Está… abaixo de nós…? E… tá… TÁ VINDO!!!”
— Nikko! Pula pra direita!
— Pular pra direita?
— Qualquer lado! AGORA!
Nikko pressentiu um perigo ascendente abaixo de seus pés, e com a agilidade de um gato, saltou para o lado e se salvou por milímetros de um final trágico.
CRRUUUUUUUUUMMMMM!!!

Estilhaçando o gelo abaixo como um espelho se quebrando, um monstro de biologia aquática colossal rompeu toda a escuridão com um ataque. A forma era um paradoxo, já que sua grande parte se camuflava entre o preto predominante enquanto uma bioluminescência gélida alinhava suas silhuetas, denunciando o corpo de uma enguia gigante repleta de dentes.
Todos do grupo respiravam em finos véus de vapor que se dissolviam na luz fria, vidrados na criatura que passava acima de suas cabeças. Ela subiu, subiu, e por fim, despencou, como um mamífero assassino retornando ao oceano congelado após um salto de caça, mergulhando de volta ao chão com uma força estremecedora.
Quando os fragmentos de gelo racharam e voaram, a escuridão suprema retornou.
A criatura desapareceu por completo, mas sua presença era indiscutível.
Mais um desafio recaiu sobre o grupo Fênix: encontrar a melhor maneira de lidar com um monstro imprevisível que se escondia no escuro, bem abaixo de seus pés…

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