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    Não havia norte, não havia sul; nem leste, nem oeste. Estar suspenso na ausência de tudo era experimentar a inexistência. O corpo parecia imóvel, mas até isso soava como uma ilusão.

    Mãos erguidas à frente não revelavam nada; balançar os braços? Também não adiantava. Não havia diferença entre olhos abertos ou fechados; a visão, como conceito, estava apagada.

    O frio era uma agonia persistente, um aviso de que a camada de gelo abaixo era a única barreira que te protegia de um abismo insondável. Talvez fosse uma estrutura sólida, ou quem sabe, um oceano congelado escondendo segredos nas profundezas.

    Mas independente da verdade, cada passo se tornava uma aposta arriscada, pois um caráter predatório habitava o solo abaixo, pressionando consciências com sua presença ameaçadora enquanto prolongava o suspense antes do ataque.

    Essas eram as sensações de Akemi Aburaya. — QUE MERDA FOI ESSA!!!???

    Minoru demonstrou sua impaciência, e posteriormente assumiu um ar analítico. — Vejo que já não posso esperar menos daquela mulher. Uma tenente-coronel pode ter poderes inimagináveis, mas criar toda uma masmorra com monstros de gelo? Ah, isso já é demais pra mim.

    Sorrateiro… — murmurou Mayumi consigo mesma, avaliando o chão obscurecido de onde a criatura surgira. — Eu não escutei nada… Nenhum som, nenhuma pista… Aburaya, você ouviu algo?

    — Achei que todos tivessem ouvido.

    — Ouvido, o quê? — indagou Nikko.

    — Era pra gente ter escutado alguma coisa? — questionou Minoru.

    — Vocês realmente não ouviram nada!?

    Nikko irritou-se. — Ei! Pode parecer que não, mas eu estava bastante concentrada! Mesmo assim, não escutei nada de anormal, só senti quando você falou.

    “Então por que só eu ouvi?” perguntou-se Akemi. “Será que isso é fruto daquela adaptação áurica que Miya mencionou?” Novas conclusões foram chegando à sua mente. “Bom, se eu sou capaz de escutar aquele monstro, devo aproveitar.”

    — Como você o escutou, Aburaya? — o chamado de Mayumi cortou os pensamentos do rapaz.

    — Bom, foram meio que vibrações. Elas estavam vindo de baixo para cima, bem sob os pés da Nikko… Mais um pouco e eu não conseguiria avisá-la a tempo.

    — Certo… Precisamos pensar em um plano. Podemos ser novamente atacados por aquele monstro, e se quisermos sair daqui vivos, não devemos nos dar ao luxo de esperar.

    — Mas como faremos isso no escuro? Nem consigo enxergar o meu próprio nariz! — apontou Nikko.

    — Devemos nos render aos nossos outros sentidos.

    — Tato, olfato, paladar, visão… — refletiu Minoru, logo concluindo — tá tudo ferrado. Só sinto o chão, meu nariz só pega ar gelado, minha boca tá seca como um deserto… haah, não vou nem falar dos olhos. Nos resta a audição, só que mais alguém além do nosso querido amigo aí consegue escutar algo além das nossas vozes?

    mrrrmmmm… mrrrmmmm…

    Tá vindo… Suzumura! Desvia!

    CRRUUUUMMMMM!!!

    O chão explodiu, e a luz azul novamente atravessou a escuridão. Em um desvio ágil e deslizante, Minoru se safou do ataque.

    — Aí! Pode me chamar de Minoru! É mais rápido de pronunciar, “Akemi” — brincou o rapaz agachado, atento à criatura acima.

    — Parem de cerimônias e corram! — gritou Mayumi, iniciando a corrida junto do grupo rumo ao portão que supostamente estava no caminho reto à frente.

    A enguia mergulhou no interior do solo, seu próximo ataque tornou-se um novo mistério.

    Por entre a escuridão, os jovens corriam lado a lado.

    — Teremos que derrotar aquela coisa? — perguntou Minoru.

    — Talvez ele tenha um ponto fraco assim como o troll! — apontou Akemi.

    — Exato! Tudo tem um ponto fraco! Inclusive eu! Não posso ver um gatinho ronronar que eu fico molinha, molinha.

    — … E isso é hora de dizer uma coisa dessas, garota!? — criticou Minoru.

    — Foco, os dois! Aburaya precisa escutar a próxima investida!

    mrrrmmmm.

    — Sanada, sua esquerda!

    O monstro surgiu em um salto voraz, abrindo a boca em um ataque frontal à Mayumi, que antecipada, deslizou de joelhos e inclinou o tronco para trás no limite para que a mandíbula passasse a centímetros de seu rosto.

    O impacto da volta ao gelo gerou outra explosão de estilhaços brilhantes que brevemente mantiveram os últimos resquícios de luz azulada, trazendo suspense para o próximo ataque.

    mrrrmmmm…

    “Certo, agora sou eu”, reunindo a eletricidade do corpo, Akemi inclinou-se em uma pose dinâmica e saltou rolando para frente. O bote da enguia falhou mais uma vez, mas houve outra chance:

    O tronco escamoso dobrou-se e a cabeça grotesca mirou o rapaz no chão.

    Deslizando ajoelhado, Akemi pressentiu o monstro mergulhando em sua direção. — Ah, não hoje — ele desviou o corpo para o lado com uma meia estrela acrobática, livrando-se da morte à espreita que passou verticalmente como um trem fantasma.

    Parado, o rapaz surpreendeu-se com a própria destreza colocada em prova, encontrando boa parte da confiança que precisava. — Hahahaaa! Totalmente planejado! — exaltou para si mesmo, embora ninguém estivesse ouvindo.

    — Anda logo, Akemi! — chamou Nikko, distante.

    — E-ei! Não me deixem pra trás!

    mrrrmmmm…

    “Hm, de novo?”

    CRRUUUUMMMMM!!!

    Como uma orca caçando uma foca no iceberg, a criatura iniciou ataques subsequentes na busca do mesmo alvo.

    — Qual é? Cismou comigo, agora? — Auxiliado pela eletricidade, Akemi esquivava acrobaticamente dos botes incessantes. — Sigam em frente e abram o portão! Eu distraio essa coisa!

    Um tanto distantes, os outros três do grupo analisavam o momento.

    — Acho que a gente devia ajudá-lo — propôs Nikko.

    — Nah, aquele cara consegue antecipar os ataques daquele monstro. Confio que ele consegue se virar.

    — Chegamos — anunciou Mayumi.

    Enquanto Akemi “se virava”, o grupo finalmente alcançou a extremidade oposta da arena, onde o grande portão de gelo emanava uma energia áurica por linhas sinuosas que refletia uma luz azulada no rosto dos jovens.

    — Então essa é a saída? — suspeitou Minoru.

    — Só há uma maneira de saber! — Nikko passou na frente e tentou empurrões na porta com ambas as mãos, mas foi inútil. Sua segunda opção foi a lateral do ombro com toda a força do corpo. — Grrrr! Nossa! Como isso não se mexe!?

    — É, com certeza deve ter uma chave.

    Mayumi passa a mão pela divisa dos portões duplos, percebendo relevos brilhantes. — Há ideogramas neste portão… — Seguidamente, ela tateou de cima para baixo. — “O Guardião do Silêncio… Hyokai.”

    — Hyokai? Então o nosso companheiro de gelo tem um nome — comentou Minoru.

    — Não só um nome como um título! Mas, e aí, ruivinha? Algo a mais?

    — Há um buraco bem no meio do portão em formato hexagonal.

    — Uuuh~, então seria a chave!?

    — Quando fui atacada pela enguia, percebi que os olhos dela tinham um formato parecido com este.

    Nikko e Minoru voltaram os olhos para a batalha de Akemi desviando das investidas subterrâneas, ainda distante do portão. Dali, notaram que os reluzentes olhos de gelo atenderam ao formato da chave.

    — Talvez seja a resposta — comentou Minoru.

    — Legal! E como pegaremos aqueles olhos?

    — Algum de nós deve subir naquilo, mas aceitar um de seus ataques pode não ser uma boa ideia. Temos que alcançá-la no ar.

    — Gostei da ideia, Sanada. Talvez usando a aura da Ichikawa, conseguiremos ser impulsionados até lá.

    Nikko gostou da ideia apesar do próprio porém. — O-olha, eu até posso tentar ajudar, mas… tenho que admitir que sem a minha arma, só consigo impulsionar coisas com um peso limite. Sou pesada demais para me jogar ao ar com as próprias mãos, e esse garoto é muito alto… agora, você, ruivinha…

    — Não é necessário dizer. Fico feliz que compreenda.

    — Interessante, e quem mais poderíamos usar?

    O grupo se olhou por instantes, até que suas retinas foram atraídas pelo brilho anil, onde lá, Akemi continuava concentrado nas esquivas…

    Um riso aludiu a ideia de Minoru. — Acho que encontramos nossa alternativa…

    CRRUUUUMMMMM…!!! CRRSSSSHH!!! 

    A situação estava complexa para Akemi. “Esses ataques não têm fim? Por que essa coisa não sai do meu pé?!” Ele desviava em saltos, deslizes, roladas, tudo o que tinha à disposição, valia tudo contra o Hyokai bioluminescente que o perseguia sem piedade.

    E lá vinha outro ataque por baixo.  

    CRRUUUUMMMMM!!!  

    — Agh, ei! Será que algum de vocês já num pode me dar uma mãozinha?  

    — Garoto bisonho! — Finalmente, uma ajuda apareceu.  

    — Ah, até que enfim, Nikko! Achei que vocês me deixariam — CRRSSSSHH!!! Mais um mergulho errou o alvo.

    — Esse monstro tem um ponto fraco! Bom, a gente acha que tem… Pode ver no olho dele! Há o formato de seis pontas, acreditamos que seja uma criogema, como tinha no troll! Se removermos ela, talvez o derrotemos!

    CRRUUUUMMMMM!!! 

    Akemi aproveitou e observou a criatura. “Uma criogema no olho? Aah, posso ver!”  

    — Legal, e agora?  

    — Você vai ter que tirá-la!

    Eu?!  

    CRRSSSSHH!!!

    — Exato!  

    — E como quer que eu faça isso!? Esse bicho tá cada vez mais rápido!  

    CRRUUUUMMMMM!!!

    — Consigo te impulsionar com minha aura, você é o mais leve! 

    CRRSSSSHH!!!

    — Ts, certo, certo. Mas não pense que serei adepto a suas loucuras pra sempre.

    — Anda, temos que aproveitar enquanto aquilo tá no subsolo. Sei que não consegue ver, mas estou agachada com as mãos em concha. Coloque o pé e apoie-se em mim!

    — Entendido.

    “Caramba, as mãos dela são tão grandes e macias assim?”

    — E-ei! Tá pisando no lugar errado, seu louco!

    — A-ah! Desculpa! Eh… Agora tá certo?

    — Tá. Agora, feche os olhos e respire fundo. O resto deixa comigo. Concentre-se na vinda do monstro e no que você deve fazer.

    “Concentrar… Concentrar…”

    mrrrmmmm… mrrrmmmm…

    — Tá vindo? — perguntou Nikko.

    — Sim, bem abaixo da gente. Temos que desviar.

    — Ok, só preciso que você me dê o alerta na hora certa! — A frase terminou com um riso.

    — Bem, então… a hora certa é agora!  

    CRRUUUUMMMMM!!!  

    Efetuando a esquiva em um mortal bailarinístico, Nikko aproveitou o embalo da própria aura e impulsionou Akemi ao mais alto dos ares, ou pelo menos o mais alto que podia.

    Mantendo os movimentos das mãos após a aterrissagem, Nikko sustentava uma nuvem transparente de fluxo vertiginoso que envolvia o rapaz acima do monstro em ascenção. — He hiii! Ele é mais leve do que eu pensei! Vai ser moleza!

    O bafo gélido do Hyokai já esfriava os pés da presa, mas não sendo páreo à altura em que a aura de vento protegia o aluno, curvou a cabeça para que retornasse ao gelo.  

    “É agora, tenho que alcançá-lo.”  

    — Se prepara, Akemi! — gritou Nikko.

    Repentinamente, o vento se dissipou e largou o garoto rumo ao perigo.  

    — A-ah, qual é, Nikko!? Assim a crista dele vai me perfurar!

    — Isso não é uma crista! É uma barbatana dorsal!  

    — Que seja, só me desvia disso!  

    O vento bruscamente levou Akemi para o lado direito da cabeça do Hyokai, separada pela longa e pontiaguda barbatana bioluminescente. Lá, o rapaz se segurou com os pés e as mãos nas escamas de gelo.

    — Agora é só retirar a gema! — instruiu Nikko.  

    O chão parecia mais distante do que nunca, mais um evento estranho na visão de quem vivia uma experiência única sem espaços para falhas.  

    Praticamente de cabeça para baixo, Akemi via o brilho azul nos olhos do Hyokai. O objetivo estava próximo. — Nnngh! Quase láá… — Como se estivesse escalando uma montanha invertida, sua coragem brigava contra a gravidade enquanto alcançava a gema.

    A distância diminuía a cada segundo, e num último esforço rodeado de eletricidade, o garoto esticou os braços e agarrou firmemente o formato hexagonal; o frio espalhou-se por sua pele, uma dor urticante, mas não o suficiente para que retirasse o foco e a inspiração. — VAAAAI!!! — gritou ele, puxando com tudo.  

    Tcsh!  

    A criogema foi arrancada.

    Todo o resplendor anil de uma joia rara era vislumbrada, uma peça grande que mal cabia em mãos humanas. Entretanto, toda aquela contemplação à beleza foi interrompida quando o Hyokai conheceu o solo de uma nova forma.

    BRUMMMM!!!

    Aquém de todas as previsões, o impacto brusco não rompeu a planície gélida, deixando a enguia em espasmos enquanto oscilava sua luz. Akemi foi lançado longe, e com a gema segurada apertada sobre o peito, caiu de barriga para cima bem ao lado do fascínio de Nikko perante o comportamento do monstro.

    — Nooossa! Ele tá se debatendo como um peixe fora d’água!

    De olho na criatura, Minoru aproximou-se da garota. — Parece um gigante batendo os pés, que desagradável. Enfim, deixaremos aquilo lá? 

    Crsssssshh…

    A criatura despedaçou-se em partículas de gelo, e toda a luz provinda dos estalactites no topo retornou instantaneamente.

    A que apareceu por entre a chuva de brilho azul surpreendeu o grupo.  

    — Ruivinha?!  

    Mayumi passava o dedo na ponta da sua espada improvisada. — O Hyokai era um ser de dois olhos, precisávamos destruir a outra criogema para que fosse enfim derrotado… Pegaram a outra peça?

    — Tá na mão! — Akemi ergueu-se exibindo o objeto hexagonal como troféu…

    Com os quatro diante do portão em forma de arco abatido1, o procedimento era simples.

    — A criogema, por favor.

    Com a “chave” recebida em mãos, Mayumi inseriu-a com cuidado no buraco de seis ângulos. No instante em que encaixou, o portão brilhou intensamente: as linhas curvas, antes inertes, cintilavam uma luz azulada que fluía como água sob a superfície do gelo.

    As duas portas de gelo se abriam com um deslize suave, o tempo se curvava para que permitisse a passagem. Cada centímetro que afastava as portas revelava mais da escadaria que se estendia além, iluminada de uma fonte misteriosa.

    Quando o portão terminou totalmente escancarado, ficou clara a passagem que convidava ao próximo andar, provavelmente, o próximo desafio.

    — Sigamos — disse Mayumi, liderando o grupo.  

    Akemi olhou para trás, onde o Hyokai era apenas uma poça de gelo estilhaçado, ponderando se aquele feito orgulharia sua treinadora, e principalmente, seu criador.

    — Vem logo, garoto! — chamou Nikko, na passagem.

    Aburaya assentiu e correu para que alcançasse o grupo; novos sentimentos brotavam dentro dele, e talvez, apenas talvez, ele estivesse experimentando o que significava a posse de força.

    1. uma curva elegante no topo que lembrava um semicírculo achatado[]
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