Índice de Capítulo

    Passadas intrigas, desafios e batalhas tanto físicas quanto psicológicas, o Grupo Fênix finalmente acessou o próximo andar.

    Em volta, não se via nada além de uma estrada de terra azul entre bambuzais translúcidos de horizonte sem fim. Acima, uma luz transcendia a ideia de um sol próximo, oferecendo uma travessia espiritual.

    Liderando a dianteira do grupo pela estrada, Minoru escondia seus receios através do relaxo das mãos atrás da cabeça. — Não sei vocês, mas esse lugar me dá um mal pressentimento.

    — Há tempos que não ando por um bosque de bambus. Usava essas áreas para treinar o corte de uma espada, porém, sem que tudo estivesse congelado. Este chão também é bastante estranho, mesmo que seja gelo, está mais para uma areia entrando pela minha sandália.

    — Pois é, mas vista é maravilhosa! É um passeio tranquilo, não é, Akemi? — perguntou Nikko para o garoto ao lado.

    — Pessoal, estão vendo aquilo?

    Quando os olhares voltaram ao horizonte que seguiam, um amplo espaço circular em meio ao denso bambuzal foi avistado.

    No coração daquela terra congelada e esquecida, bambus afastados deixavam à mostra um templo cerúleo ao fundo, onde o céu cinzento como ferro gasto era entrecortado pela luz cegante do “sol”. Os lampejos destacavam a beleza azulada de uma paisagem desolada, iluminando a área adiante que previa um confronto épico.

    Nikko ficou fascinada pela paisagem. — Wooh, que legaaal! Um ambiente de lenda samurai! Talvez aqui seja o seu ponto de conforto, né, ruivinha?

    Mayumi admirava de forma contida. — Reconheço aquele templo, provém de uma lenda asahiana, mas era apenas uma história conhecida por espadachins. Talvez vocês nunca tenham escutado antes.

    — Realmente — concordou Minoru — vivi uma vida com monges e diversos tipos de sábios, porém nunca vi ou escutei algo que me lembrasse dessa construção. Você sabe quem morava ali?

    — Um ronin? Um espírito? Não importa a resposta que derem, a única certamente correta é que este templo era o lar de uma força implacável: a força de um homem que nasceu para viver dos sentimentos mais sujos que traziam prazer. Dizem que seus olhos brilhavam como estrelas distantes, que sua armadura de ferro com panos negros o escondia nas sombras, e que suas habilidades eram representadas pelo uso simultâneo de três espadas com valores distintos.

    — Ele possuía habilidades áuricas? — perguntou Akemi.

    — Não, e esse foi o seu confinamento. Por ser trivial, fora tratado como impuro pelo seu clã de auras variadas, e perto dos dez anos de idade, baniram-no de sua vila em Ousaka. Sua única companhia foi uma katana desgastada dada pelo pai, o homem que o missionou na busca pelo significado da paz.

    — Um trivial de dez anos aprendendo sobre paz e sobrevivendo em uma floresta de bambus? Tudo isso sozinho? ! Conta outra, garota! — menosprezou Minoru.

    — De fato é uma história extraordinária. Compreendo sua descrença. Assim como você, ninguém esperava que aquela criança fosse tão dotada de instinto de sobrevivência.

    — E qual era o nome dele!? Diz, diz! — implorou Nikko, extremamente empolgada com a futura revelação.

    — Ele não chegou a ser nomeado quando nasceu, mas contadores de histórias o chamam de Kenshi, o Caçador.

    — O Caçador? — repetiu Akemi, imerso nos relatos.

    — Este título é a representação de sua lenda. Tudo o que Kenshi conheceu além do bambu foram armaduras, chalés, e dias de caça do clã, então, ele aproveitou seus aprendizados e se auto forneceu de roupas, moradias e alimentos providos da caça e colheita.

    Minoru não segurava o riso. — Ai ai, agora fala pra gente, o que esse cara entendeu sobre paz?

    — Uma boa pergunta. Para o Caçador, paz era o sentimento de estar literalmente sozinho, então, qualquer ser vivo que cruzasse o seu caminho era eliminado, um erro fatal que custou inúmeras vidas daquele bambuzal áurico. Porém, aos vinte e cinco anos, ele entreteu-se tanto com a adrenalina de causar mortes, que ceifar vidas denominadas poderosas o transformou numa besta mutiladora, que desde criança, não esquecia de todo aquele ódio perante seu banimento.

    — Por quanto tempo ele continuou assim? — perguntou Nikko, interessada.

    — O bastante para ser reconhecido. Com o passar do tempo, camponeses nas proximidades descobriram que a fauna áurica estava diminuindo drasticamente e tentaram investigar, mas quando chegaram na floresta de bambus e descobriram a existência de um ronin transtornado, já era tarde demais. Todos foram decapitados e tiveram as suas cabeças empaladas em bambus finos, um fato que repercutiu rapidamente até chegar nos ouvidos de shihais e áuricos da elite, e inclusive, o ex-clã de Kenshi.

    — Um homem forte, isolado e com sede de vingança? Com certeza vivia sozinho — afirmou Akemi.

    — Todos sabem que há até deuses que preferem se banhar de luxúria. Aquele guerreiro não só era temido, era amado… por muitas.

    Diante do relato, Minoru perdeu seu clima brincalhão. — Pera! Tá dizendo que ele tinha um harém?

    — Exato, um harém de kunoichis, guerreiras letais e espiãs impecáveis, mulheres tão fortes que duvidar do poder delas o deixaria sem a língua… ou sem a cabeça, assim como Kenshi provavelmente gostava. 

    — Mas qual o sentido dele ter um harém se queria ficar isolado? — questionou-se Akemi.

    Minoru aproveitou o embalo da questão e extravasou sua indignação. — É-é! Ele num até matava quem ousasse se aproximar!?

    A informação era absurda, e realmente, como um homem isolado, afetado pelo desejo de ódio e vingança, conseguiria a companhia ou talvez até o amor verdadeiro de várias mulheres ao mesmo tempo?

    — Esta é uma questão com várias respostas. Eu particularmente gosto de uma, mas se vocês quiserem obter a legítima, perguntem para aquela alí — Mayumi apontou na direção da luz solar azulada.

    Algo vinha dali de cima.

    De costas para o sol simulado, uma silhueta feminina baixa e esguia descia dos ares na pose dinâmica de um ninja.

    O alvo era Akemi, o movimento final contava com o manuseio de duas kamas em ambas as mãos.

    O jovem preparou o corpo para que se defendesse, contudo, outro integrante agiu mais rápido:

    Em um salto, Minoru girou lateralmente e desferiu um chute forte no torso da silhueta no ar. Sua aterrissagem foi estilosa, já a figura assassina voou longe, rolando na queda até que parasse de bruços na terra de gelo diante do templo.

    — Que que foi isso!? — Nikko assustou-se com o ataque inesperado.

    — Talvez uma das kunoichis de Kenshi — respondeu Mayumi.

    A estátua derrubada deixava só os olhos à mostra, o comum das clássicas vestes ninja armadas com inúmeros tipos de armas brancas. Acreditava-se que aquele ataque viria de um ser consciente, com a furtividade treinada a níveis louváveis, porém, a figura não passava de mais uma criação do gelo.

    O fatídico incômodo de estar sendo observado causou uma pontada na nuca de Akemi; mas a vigia não vinha pelas costas, e sim, por todos os lados, como se as sombras espreitassem. “Pera, que sensação é essa?” Quando o rapaz verificou o que havia atrás de si, a situação revelada o alertou. — G-gente, acho que nossa paz se foi. Devemos ficar atentos àquelas coisas!

    Todos avistaram inúmeros pontos azuis cintilando como olhos acentuados nos vãos escuros entre os bambus. A multidão oculta não desviava seu foco nos jovens nem por um segundo.

    Mayumi entrou em guarda com a espada improvisada, preparada para o próximo desafio. — Pelo visto a história terá que ficar pela metade…

    – CURIOSIDADES DO MUNDO ÁURICO –

    Há muito tempo, o nascimento de triviais excede o de áuricos. Então, o banimento de pessoas sem poderes de clãs formados por guerreiros com aura era bastante comum.

    Os exilados normalmente aderiam-se à função de trabalhadores convencionais: camponeses, jardineiros, fazendeiros, até vendedores. Contudo, a ira marcou histórias de pessoas e até grupos que fixaram o seu propósito de vida como objetivo de vingança àqueles que lhes causaram dor e sofrimento.

    Mas era óbvio, casos em que a negação de pessoas auto intituladas “superiores” não causasse rancor nos “inferiores” poderia ser rotineira; porém, após séculos e milênios sendo pisoteados, esses rancorosos treinaram e aperfeiçoaram a sobrevivência contra os mais fortes, criando armas e ferramentas que poderiam tirar a vida de qualquer mortal.

    Chegou um ponto em que não seria mais possível subjugar triviais sem que o caos absoluto fosse instalado. 

    A dominação dos áuricos chegou ao fim no final do século XVII, quando governos, unidos, criaram o TEM (Tratado de Evolução Mútua). Esse tratado uniu áuricos e triviais na busca pelo desenvolvimento e construção das nações, utilizando suas capacidades mentais.

    O TEM foi adotado por vários países ao longo do tempo, entretanto, algumas facções opressoras nunca deram trégua… 

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