Capítulo 70 - Encontro de espadas
Mayumi firmou suas sandálias de madeira no arenoso solo azul; a estaca de gelo eterno assumia a postura de uma katana real.
Kenshi, a estátua-viva de presença esmagadora, apontava sua nodachi1 canhota diretamente à rival; no punho direito, uma katana normal estava pronta, e entre uma das bainhas, outra espada aguardava seu saque.
Mayumi sentia o olhar do ronin ocultado pelo chapéu de palha gélida. “Uma nodachi nas mãos de um homem alto e robusto… Há a possibilidade dos ataques saírem lentos, e se ele errar o tempo, posso encontrar aberturas.”
Kenshi lançou-se em um salto impulsionado; o primeiro golpe: um corte ascendente com a nodachi. O espaço entre a aluna e a lâmina de gelo foi varrido por um rastro cerúleo: Mayumi esquivou-se para a esquerda, e a longa espada parou no ar.
“Ele já esperava esse movimento.”
Kenshi deslizou o pé direito para trás e converteu o ímpeto do golpe anterior no corte horizontal da katana.
Um som metálico ressoou.
— Nada mal — elogiou Mayumi, ajeitando a pegada na espada improvisada que bloqueava a arma do adversário.
A resistência parecia ilógica, uma jovem enfrentava a contra força de uma figura quase três vezes maior, sem que cedesse um único passo. Qualquer um que assistisse se perderia em questionamentos: como ela mantinha aquela postura firme com uma espada improvisada? Não seria arremessada no primeiro impacto de figura tão imponente em comparação ao seu corpo?
A cena, sem dúvida, contrariava todas as expectativas. Apenas Mayumi sabia o segredo.
Entretanto, nada daquilo regressaria a estátua:
Retraindo a katana contra a lâmina da garota, o ronin desceu a nodachi suspensa para um ataque alternado.
O frio da lâmina passou rente a olhos verdes durante a esquiva.
“Como imaginei, ele usa esta para atrapalhar a minha guarda, e depois…”
Quando a grande espada foi cravada no solo, a segunda arma buscou uma estocada direta.
Um bloqueio em dois tempos abriu espaço para um rápido recuo.
“Se ele ditar o ritmo, terei problemas com esta katana menor entrando. Tenho que encontrar uma janela de ataque.”
Kenshi agachou-se e posicionou as espadas ofensivamente.
Mayumi focou-se na postura defensiva.
Em mais um impulso rápido, surtiu-se um ataque iniciado da nodachi.
“Devo encontrar um ponto cego.”
Durante a esquiva para a direita do corte reto, Mayumi colocou ambas as mãos na empunhadura da estaca e levantou-a; o grande músculo do braço esculpido pelo gelo seria cortado.
“Agora.”
Crsshhhhhh
“… O-o que?” Vendo sua arma improvisada partindo-se em mil estilhaços, a espadachim arregalou os olhos.
O pior cenário virou realidade.
Abaixo do chapéu de palha, olhos azuis brilharam diretamente para a jovem. Em um corte para fora, a nodachi rasgou o ar onde Mayumi estava. Na esquiva do corpo inclinado para trás, uma abertura possibilitou o ataque de cima a baixo da katana.
Desequilibrada, a garota aceitou a queda do corpo, e rolou para o lado, escapando do pior.
O perigo tornou-se evidente. Enfrentar aquela estátua viva diretamente não se mostrou uma ideia plausível.
Dito e feito:
Mayumi levantou-se e iniciou uma fuga. Curiosamente, seu olhar era uma mistura de preocupação e concentração. O receio que sempre pairava sobre sua ex-espada virou realidade. “Era de se esperar, aquela arma era inútil! Talvez eu tenha que recorrer aos outros, mas… depender de aliados para algo que deveria ser somente minha responsabilidade… essa é uma ideia que destrói a honra de um Sanada. Mesmo assim, enfrentá-lo sozinha agora pode ser um erro fatal, e eu não posso me dar ao luxo de errar!”
Repentinamente, um acontecimento inesperado interrompeu a corrida:
Após um voo vertiginoso, a ponta da lâmina de uma katana desconhecida cravou-se no solo plano, bem na frente do caminho da que fugia.
Sustentada por uma empunhadura enfaixada, a lâmina reta, marcada pelo desgaste implacável do tempo, chamava.
Kenshi reposicionou as espadas: a katana parou sobre o ombro, e a nodachi novamente foi apontada à ruiva. A expressão permaneceu oculta sob o chapéu de palha, mas a mensagem era clara: o embate ainda estava de pé, e era somente aquela garota quem ele queria.
O erro de pensar em correr foi cometido, mas a segunda chance foi dada com um momento de redimição.
— Correto, não tenho outra escolha — Dado curtos passos, Mayumi sacou a espada fincada, reconhecendo-a. “A katana com a experiência de mil batalhas, onde cada golpe ao longo das eras fora marcado em seu fio. Fascinante…” Ela brandiu a sua nova escudeira segurada por ambas as mãos, e raspando a ponta da lâmina pelo chão de gelo, avançou para uma ofensiva.
Passos ligeiros guiavam um corte arqueado mirando o centro do samurai.
Kenshi cruzou suas espadas em um bloqueio sem falhas e absorveu o impacto.
O som do choque denunciou que as armas do ronin tremeram brevemente.
Embora o clima fosse frio, a batalha esquentou.
Poucos instantes após o contato, a garota recompôs-se e tentou uma estocada rápida com a espada na mão canhota. Obrigado a reações rápidas, o ronin cruzou a katana rente ao corpo para a defesa, esquecendo um fator crucial para a vitória: a distância.
A proximidade com o adversário florescia uma vantagem mínima para Mayumi: a lâmina maior de difícil manejo a curtas distâncias estava anulada.
A partir dali, Kenshi só usaria a katana para a defesa dos ataques velozes de uma espadachim canhota que avançava e forçava seus recuos.
Uma dança de espadas ocorria diante do templo congelado. A representação glacial do aço contra aço reverberava.
“Não posso deixá-lo que se afaste de mim, não posso parar nem por um milésimo. Foco…”
No entanto, à medida que os ataques sucediam, Kenshi se acostumava cada vez mais à frequência da luta. Defesas tornavam-se mais naturais, investidas perdiam intensidade.
Na batalha sobre quem quebrava a postura do outro primeiro, o ronin estava ganhando.
Mayumi captou a mudança de ritmo, o teste de habilidades transformou-se no presságio do seu próprio fim. “Eu deveria usar as duas mãos para aumentar a força, mas se eu optar por isso, perderei velocidade.”
Lâminas se encontravam de novo e de novo, dispersando faíscas azuis. Os ataques eram velozes, os bloqueios eram reflexos afiados pelo instinto.
Mas o final estava próximo.
Diferente da estátua sem emoções, a humana sentia a pressão da queda drástica de ritmo. “Vamos, preciso de um único golpe certeiro!”
Kenshi encontrou uma janela.
A katana menor mirou o alto do torso coberto por fios carmesins, forçando um desvio da oponente. Em sequência, as duas espadas do ronin caíram em um golpe vertical.
O reflexo veio no último instante: ambas as mãos humanas uniram forças para um bloqueio horizontal. O ar comprimiu-se entre as lâminas acima de uma cabeça, o solo arenoso rachou-se pelo impacto.
Os olhos esmeraldas finalmente encaravam diretamente os brilhos azuis no rosto escuro abaixo do chapéu de palha.
Naquele instante de equilíbrio, forças se testavam.
Mayumi absorvia o peso avassalador sobre seu corpo, cedendo os joelhos vagarosamente. Até sua mente pensava com uma voz esforçada. “Se ele quisesse, já teria me esmagado,” a sensação de incapacidade afetava sua moral. A visão sob aquele colosso esbanjando toda sua superioridade em uma luta de corpos desproporcionais extraia um sentimento irritadiço que contradizia a natureza serena e heroica de um Sanada.
Por mais que quisesse, a garota jamais suportaria toda aquela pressão por mais tempo, então, por que a estátua não terminava a luta?
A resposta só estaria na busca pelo máximo da aluna…
Cansado daquele bloqueio, Kenshi retraiu as armas, e usando a ombreira de sua armadura despedaçada, lançou a adversária para longe.
Quando a espadachim caiu, o ronin não atacou de imediato, mas avaliava, como se calculasse o verdadeiro alcance das habilidades daquela que enfrentava.
Mayumi levantou-se. “Arg, deplorável”, um fio de suor desceu pela testa. “Ele praticamente dominou a luta inteira desde o primeiro movimento. Somente ele consegue forçar esquivas no limite… Não posso continuar assim.”
A mudança de abordagem era crucial para que o ritmo de Kenshi fosse quebrado; para tal, a jovem observou a própria arma repousada em mãos. “Esta katana reta, mesmo desgastada, é fácil de manejar. Impressionante. Quem dera não fosse de outro dono…”, o agarre da empunhadura enfaixada teve a força ampliada. “Mas, não sou eu quem devo confiar totalmente nela… é ela quem precisa confiar tudo em mim.”
A katana de aspecto desgastado foi erguida pela mão canhota recuada e ajeitada horizontalmente acima dos cabelos ruivos. A mão destra seguiu a direção da ponta da lâmina e estendeu-se para frente com a palma virada ao céu.
Olhos se fecharam.
“Devo me unir de forma definitiva a esta espada. Compreendi suas fraquezas, agora, preciso forjar suas capacidades.”
Calmamente, a ponta da espada desceu; o paradeiro: a mão livre suspensa.
“Assim como a folha se entrega à corrente do lago, permito que esta lâmina conheça minha carne.”
A lâmina avançou cuidadosamente pela palma, sem cortes. Quando o guarda-mão encontrou uma barreira, restava analisar se o plano a ser feito era o correto.
“Faz muito tempo desde a última vez… mas se o fio não corta, eu devo fazê-lo cortar.”
As íris esmeralda revelaram o foco, e em um movimento transversal para trás, o fio desgastado rasgou a carne entre o indicador e o dedão da mão direita. O sangue escorreu do corte profundo e encharcou todo o fio da lâmina.
Novamente, percebeu-se o incomum brilho intenso do fluido carmesim. Havia algo hipnótico na cor: padrões latentes que despertavam a verdadeira essência de uma aura sanguínea…

Na defensiva, a garota respirava forte, segurando a espada recuada com a mão dominante e suspendendo outra palma ensanguentada. A dor do corte foi superada.
Kenshi notou que a aluna mostrou-se preparada, e como se o mundo dissolvesse em velocidade, investiu uma estocada certeira com a nodachi.
Era aquilo que Mayumi precisava.
“O único caminho… é adiante.”
Ela não recuou perante o golpe: avançou; e os primeiros indícios de que a situação havia mudado apareceram.
A lâmina de gelo eterno banhada em sangue áurico deslizou pelo gume da grande espada, rasgando-o como se descascasse um fruto.
O som de corte ecoou quando os combatentes se atravessaram…
O silêncio manteve o suspense entre os espadachins paralisados, antecedendo o resultado da troca.
Então, como vidro estalando, um leve brilho rubro irradiou do peito de Kenshi rachado por um corte diagonal, bem onde a armadura não protegia. O ronin virou o rosto, e olhando acima dos ombros, analisou Mayumi, a garota que superou sua força.
Seguidamente, as fissuras avermelhadas percorreram todo o corpo da estátua, abrindo-a como se o gelo rachasse sob as ramificações infernais.
Os sons dos estalos se intensificaram, e num instante, toda a estrutura de Kenshi foi despedaçada.
Daquele guerreiro de gelo, restou apenas cacos brilhantes espalhados pelo chão…
Mayumi passava o dedo pela lateral da lâmina.
O gume impregnado por sangue provou a capacidade da áurica de olhos concentrados.
A batalha havia terminado.
Todavia, a guerra estava longe do fim.
— RUIVINHA!!!
- espada asahiana longa, uma arma de campo de batalha maior que a katana.[↩]

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