Capítulo 73 - O topo
Em tempos de desafios onde cada passo acumulava dificuldades, havia o que mantinha a esperança e a vontade, transformando toda dor em força: o grupo.
Juntos, todo obstáculo vencido era celebrado, e cada aprendizado, compartilhado. Ninguém foi deixado para trás. O que antes parecia intransponível, tornou-se memórias de superação.
O horizonte se abriu, e o que restou? A certeza de que, unidos, seriam imbatíveis perante qualquer desafio que viesse pela frente.
Ou talvez não…
Subindo as largas escadas glaciais da passagem fechada em 3 paredes, Akemi vigiava Nikko e Minoru superando degrau por degrau atrás de Mayumi. A postura dos três trazia os resquícios da batalha, e por mais que a vitória estivesse momentaneamente do lado deles, marcas refrescavam que o último desafio não fora tão fácil como esperado.
Nikko espiou o ferimento oculto sob a bandagem improvisada por suas meias, imaginando a dor que o companheiro suportava, impressionada pela falta de expressões dolorosas. Foi entendido que aquele foco era louvável para um jovem daquela idade.
“Mesmo ferido, Minoru segue firme e forte… Mas, e se ele estiver forçando demais? E se ele cair de uma vez? Eu deveria tentar convencê-lo a descansar… Humpf, ah tá que esse cabeça oca aceitaria.”
Magoada pela própria conclusão, Nikko olhou para trás, onde Mayumi a seguia com a katana ensanguentada empunhada.
“E depois… tem ela. É sério que essa garota literalmente faz bênçãos com o próprio sangue!? Parece até um poder divino!”
O simples pensamento sobre a aura sanguínea a estremecia…
Assim que atravessaram o último degrau, acessaram o salão vasto e silencioso onde os grupos foram selecionados.
A princípio, nada parecia diferente. Kyoko continuava presa ao trono de gelo, com sua expressão já exausta e resignada. Ao lado, a instrutora Hisako mantinha-se na cadeira de rodas como se fosse a própria monarca daquela fortaleza congelada.
— Vejamos se não é o Grupo Fênix! — saudou a instrutora — não esperava que chegassem tão rápido! E pelo que vejo, em bom estado, não? — ironizou ela, contendo na voz uma intuição velada. O olhar astuto achou Minoru, cujo qual cerrou os dentes de raiva. — Ora, sem ressentimentos, vocês conseguiram um feito honorário! Fiquem à vontade para darem seguimento ao desafio.
O grupo trocou olhares entre si.
Akemi hesitou. “Dar seguimento ao desafio? Mas não vejo mais ninguém. O que será que ela tem em mente? Quer que a enfrentemos de novo?”
— Se eu fosse vocês, não continuava daqui — avisou alguém.
Quando a atenção se voltou para o lado, lá estava Kinyoku Shinkai, encostado na parede com a tranquilidade de quem não se abalava por nada: costas e pé apoiados na parede, braços cruzados e cabeça baixa; certamente, foi ele quem alertou.
Do lado, Hikaru Sasaki meditava em posição de lótus, sua respiração profunda e lenta o recuperava, ou talvez, preparava para algo ainda maior; embora um espadachim, nenhuma lâmina o acompanhava, diferente de Mayumi, que por outro lado, não entendia bem a dica de Kinyoku.
“Estranho, não senti a presença deles…”, suspeitou a ruiva. — Por que não quer continuar?
— Não sei se você sabe, mas outros alunos também foram jogados para andares inferiores, provavelmente em setores totalmente diferentes. Por mais que tenhamos sido os primeiros a chegar no topo, não foi uma tarefa fácil — ele olhou para Minoru suportado em Nikko — e pelo o que vejo, a trajetória de vocês não foi tão simples.
— Seu grupo é apenas você e este garoto?
— Na verdade, somos um quarteto assim como vocês. Mas digamos que a nossa “outra dupla” está passando por certos problemas nesse último desafio.
— Eles sequer chegaram neste andar? — questionou Akemi.
— Chegaram, várias vezes.
— … E-eu ainda não captei o que você quer dizer com i-
— MAAALDIIIITAAAAAAAAA!!! — O rugido de ódio de um garoto enfurecido ecoou pela escada. Mais alunos chegavam.
— Ai, que barulheira… — reclamou Nikko — quem tá vindo?
O som da voz rouca aumentava, alguém estava fora de si. — NUNCA VI TAMANHA TRAIRAGEM NA MINHA VIDA! COMO É QUE UMA PESSOA CONSEGUE SER TÃO FRIA E COVARDE!?
Minoru levantou um dedo. — Eu conheço essa voz, é o-
Antes da informação, uma figura surgiu da escada com passos firmes e olhar raivoso, mantendo o ritmo irritado rumo ao trono de gelo. — AÍ, PRESTA BEM ATENÇÃO! EU, KENTARO OZAKI, MEMBRO OFICIAL DO GRUPO TIGRE ONDE SÓ OS QUE TÊM PEITO DE VERDADE REPRESENTAM, NÃO DEIXAREI UMA QUALQUER ME TIRAR PRA IDIOTA DESSE JEITO!
Logo atrás, vinha Aya Hattori. O rosto oculto pela máscara estava tão exausto quanto o de Kentaro.
— O que aconteceu com esses dois? — investigou Akemi.
— Estão tentando encerrar o desafio — pontuou Kinyoku.
Na metade do caminho, Kentaro parou e apontou com o dedo. — ÔE! NÃO SE ESCONDA! EU TÔ AQUI DE NOVO! APAREÇA E ME ENFRENTE, SUA PATIFE!
Sorrateiramente, passos vieram de trás do trono, alguém se escondia lá.
Segundos se passaram até que enfim a figura tão aguardada deu as caras. Mesmo que a voz feminina fosse normalmente baixa, o eco gerado pelo ambiente a tornava audível para todos. — Argh… Você é insuportável, hein, garoto — Rin Kurosawa posou ao lado do grande trono e deu uma soprada na franja que seguia cobrindo seu olho esquerdo. O ar superioridade não vinha de arrogância, mas da indiferença, nada ali era digno de seu esforço.
— O que ela tá fazendo alí em cima? — indagou Minoru.
— É ela o último estágio do castelo — afirmou Kinyoku.
— Uma aluna sozinha é o último desafio? Rá, tá de brincadeira.
— Eu queria estar brincando se ela não fosse brincadeira.
— Hm, e o que será que essa garota tem de tão especial?
— Espere e verá.
— EU NÃO CAIREI MAIS NESSES SEUS TRUQUES SUJOS, ENTENDEU!? — gritou Kentaro.
Rin continuava tediosa. — Eu só preciso aguentá-los até as 18 horas… Então, vou garantir que você tenha mais dificuldade em voltar aqui novamente. Isso me poupará de mais trabalho.
Insultado e reduzido a nada mais que uma mera distração, o careca não gostou nem um pouco daquilo. — TÁ ACHANDO QUE EU SOU OTÁRIO, É!? VOU TE MOSTRAR O QUE É BOM PRA TOOOSSE!!! — Ele partiu em disparada, agressivo e desafiador, aproveitando a força da corrida para um ataque furioso.
A aborrecida estendeu os dedos entreabertos adiante, desejando mais do que tudo que aquele barulho sumisse, e que o mundo inteiro se dissolvesse num silêncio vazio onde ninguém mais cobraria nada dela.
Repentinamente, uma anomalia: um tom arroxeado substituía a pele daquela mão suspensa, era uma cor errante, que se mexia como algo de outra galáxia. Não era uma simples mão, era um aviso de estrago iminente.
— O que é aquilo? — indagou-se Akemi, percebendo o fenômeno. Seus olhos não saíam das cores púrpuras nas mãos de Rin. — Eu já havia visto que as mãos dela tinham uma cor diferente, mas não sabia que podiam pulsar!
Minoru também sentiu a situação, a confusão o tomou. — O-o-o que tá acontecendo!?
Como se tivesse escutado a pergunta, Rin baixou os dedos púrpuros, e no instante seguinte, o piso congelado abaixo de Kentaro se distorceu em um portal escuro oval de bordas roxas e tortuosas, engolindo a luz próxima.
Entretanto, a técnica ficou manjada.
O garoto saltou com uma cambalhota para frente e escapou do destino inimaginável. “Dessa vez não!” Seguindo a corrida, a mão para cima concentrou a aura de aço e criou um bastão extremamente longo da palma até a posse. Um salto com vara foi armado, e a confiança se prometeu que o ataque traria uma aproximação.
O solo estava distante, e o tempo entre o impulso e a proximidade da oponente foi suficiente para análise de todos os cenários possíveis.
“Tenho que ficar atento aos outros portais ou qualquer estratégia suja.”
Como imaginado.
Rin bocejou com a mão modificada estendida. — Haaiai, você não desiste nunca? — Um estalo abafado denunciou a ativação de poder: diante da trajetória de Kentaro, outra distorção negra se abriu.
Trepando-se à ponta da haste, o rapaz saltou dali e passou por cima do portal obscuro. Dali, viu-se acima da adversária. “Agora eu te peguei”, o triunfo alegrou seu rosto, a vitória estava próxima. Duas lâminas de aço foram criadas, grandes como facões e encadeadas como a representação do caos, querendo o fim do serviço com chave de ouro.
Mas o desinteresse não mudava:
Rin ergueu ambos os braços com moleza. O espaço ao seu redor ondulou, e um pulso de energia roxa e translúcida expandiu-se.
Kentaro sequer compreendeu. A barreira sônica explodiu contra ele, e o impacto foi potente. Seus ossos vibraram, seu consciente foi arrancado de si como se tivesse levado um golpe direto na alma, arremessando-o para trás como um boneco de trapo.
Por um instante, tudo ficou quieto.
Então, o chão se abriu: um novo portal se materializou no solo bem abaixo de Kentaro, que inerte, despencou direto na escuridão do vórtice.
Nikko não acreditou. — E-ele… Ele foi jogado num limbo!?
Minoru sorriu de canto. — Tsc, de todas as maneiras que eu imaginei ele perdendo, essa foi a mais deprimente.
O destino de Kentaro era irreconhecível, mas sua derrota era a prova de que, apesar do Grupo Tigre ter sido o primeiro que alcançou o topo do castelo, o verdadeiro desafio apenas começava.
Hikaru, que até então permanecia meditando, procurava uma energia que fugia a todo instante. Aya continuava imóvel e de olhar indecifrável, quantas vezes havia tentado? Quantas mais tentaria? Tais perguntas dificilmente seriam respondidas por uma garota aparentemente muda, e que por ora, tivesse aceitado a pausa como única opção.
Já Kinyoku era uma incógnita. A postura na parede não demonstrava intenções contra Rin. Covardia ou sensatez?
Lá do alto, Rin cruzou os braços e suspirou. — Como eu queria que isso acabasse logo… — Ela olhou para Aya. — A próxima é você?
…
A tediosa deu de ombros e aceitou a resposta muda sem resistência.
Indignada, Mayumi questionou Kinyoku. — Os seus estão caindo e você ainda não faz nada?
— Eu tentei avisar, mas são péssimos em escutar.
— Isso não releva! Como companheiro, você deveria arrumar um modo de ajudá-los de verdade!
— Não vale a pena. A posição daquela garota é excelente para anulação de investidas, e além disso, meu time está debilitado. Minhas sombras seriam úteis para estratégias furtivas, mas não possuo nada que liberte a prisioneira, e o pior de tudo, não tivemos a mesma sorte que a tua de achar uma arma, o que dificultou nossa jornada nesses andares de cenários congelados. Nos resta esperar a melhor oportunidade.
— Desculpas e mais desculpas, não vejo nada que te impossibilite de tentar algo.
— Se você acha que é possível, vá você mesma. Mas lembre-se, você já tem um ferido que precisa da supervisão de outra. Inclusive, o adversário que já mostrou ser capaz de nos jogar para os andares abaixo caso não sejamos ágeis o suficiente. Como pretende proceder?
Mayumi sentiu as palavras entrarem na mente. A análise de Kinyoku foi clara e precisa. O cenário dificilmente seria pior.
Lá no topo, Rin recostou-se contra a lateral do trono de gelo. — Desistiram de vir? Sinceramente prefiro que seja assim…
Mayumi fechou os olhos por um segundo e estudou as circunstâncias de cada detalhe e variável. O tempo estava contra “Os Heroicos”, e a única certeza era que a demora custaria caro.
A ruiva abriu os olhos. Decidida. — Então, veremos o que acontece… — E em seguida, ajoelhou-se, repousando a kanata de gelo sob as coxas.
— O que você tá fazendo, ruivinha?
— Esperando.
— Esperando o quê!?
— … Reforços.
Estalos ígneos se aproximando devoravam as escadas. As sombras pelas paredes da entrada oscilavam com a intensa luz dourada.
Nihara Miyazaki parou na frente do topo da escadaria com os pés e boca soltando labaredas furiosas. Curiosamente, seu rosto carregava cortes e hematomas de uma batalha cruel. No entanto, mesmo logicamente recentes, os ferimentos estavam cicatrizados. Tudo parecia curado há muito tempo, contradizendo a teoria de que aquelas marcas dolorosas surgiram durante o gélido e infernal desafio.
— O que aconteceu com ele? — sussurrou Nikko para Minoru, mas não foi ele quem sanou a dúvida.
Teruo Kenzo e os irmãos Yamamoto surgiram da escadaria.
Apesar do físico minimamente aprimorado dos três,
O de expressão calculista ajeitou os óculos enquanto observava os arredores. Sho, embora igualmente atento, não disfarçava o receio pela irmã, que quieta, se mostrava preocupada com a integridade de Nihara.
— Parece que a maioria das peças estão finalmente se encontrando — comentou Hisako, enigmática — Senhorita Kurosawa — o chamado arrastado foi escutado do outro lado do trono — você podia aproveitar o momento e fazer novamente como te ensinei.
Rin olhou de soslaio à militar. — Fazer… o quê?
— Ora, ora. Não é óbvio? — ironizou — novos heróis chegaram, e como uma boa vilã, você sabe o que deve fazer.
A vontade de Rin perdeu a energia que sequer existia. — Ai ai, por que você, uma instrutora de um quartel que forma… “heróis”, está ensinando vilanias para os alunos?
A mulher riu delicadamente. — He ho ho ho! Veja bem, minha querida, uma boa imersão é essencial para manter a animação no desafio! Além disso, é de seu conhecimento que uma apresentação adequada da sua parte também vale pontos consideráveis e uma chance de eu te ajudar naquilo que tanto deseja.
Rin fechou os olhos por um momento e respirou de maneira prolongada. — Não acredito que estou fazendo isso… — sussurrou ela, posteriormente gesticulando vagamente enquanto adotava uma dramaticidade mal ensaiada. — Pois bem, meu nome é Rin Kurosawa, portadora da aura do vazio, um poder singular, misterioso e, claro, assustador. Posso manipular a representação de eventos espaciais ao meu bel-prazer, e a partir de agora, sou eu o estágio final do desafio, o que isso significa? Vocês terão que passar por mim pra poderem salvar essa… “princesa” ao meu lado. Por favor, me digam que entenderam pra eu não ter que desenhar.
Contemplando a cara de tacho de todos os “heróis” presentes, Hisako satisfez-se. — Excelente, excelente! Agora sim, estamos todos devidamente apresentados. Podem prosseguir!
Os salvadores concentraram-se na nova vilã de colorações púrpuras.
O verdadeiro embate estava apenas começando…

Ilustração só pra reforçar a aparência dos personagens, já que eles serão muito mencionados daqui pra frente! 😀


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