Capítulo 76 - Enfrentando o cosmos
O altar de gelo era um sepulcro da beleza do combate.
Rin Kurosawa mantinha a mão adiante, pulsando escudos translucidamente roxos que inibiam socos flamejantes.
Nikko e Minoru também buscavam brechas pelas barreiras; porém, as rajadas de vento eram inúteis, e os socos diretos, mais ainda.
Nihara desprezava a companhia que sequer abalava a defesa. A cada golpe, sua paciência acabava em chamas. — VÃO EMBORA, ESSA LUTA É MINHA!
Focada nos ataques, Nikko rechaçou o egoismo alheio. — Ô, seu idiota pretensioso! Você já foi lançado três vezes por essas barreiras. Se você se ajudasse primeiro, talvez facilitaria o nosso trabalho!
— Arr, nobres são tão irritantes — desabafava Rin — famílias inteiras de pessoas incapazes de enxergar o que está diante delas. Vocês são patéticos.
— Continue falando e eu soldo sua boca como se fosse uma liga metálica! — desafiou o ígneo.
A vilã de olhar vazio irrelevou a ameaça…
De tantos socos contra os escudos transparentes que bloquevam a passagem, Minoru sentiu os dedos doloridos, e quando descansou momentaneamente, chamou aquele que desferia golpes flamejantes. — Deixa disso, cara! Precisamos agir juntos!
As chamas perduraram os ataques por um tempo, alimentadas pela vontade da raiva. Quando percebeu que as tentativas eram inefetivas, Nihara resmungou e deu um soco furioso no chão, inconformado.
— Isso tá ficando tããão chato — declarou Rin — pensei que pelo menos um de vocês fosse me surpreender.
Nikko apertou os punhos, avaliando suas capacidades. “É difícil agir com velocidade estando desarmada, mas essas barreiras frontais parecem impenetráveis de qualquer forma. Precisariamos ser rápidos o bastante pra fugir da percepção dela, mas como…?” Algo do lado errado da batalha chamou sua atenção. “Pera aí, o que é aquilo?”
A imensa abertura horizontal atravessava a parede dos fundos do altar quase em toda a sua extensão, e o sol do fim de tarde entrava por ela com a autoridade inclinada de quem já estava de saída; a partir daquela janela vazia, um feixe largo e dourado descia em diagonal e iluminava uma parte das costas do trono à frente, deixando uma grande sombra atrás:
Tudo adiante do trono recebia a luz de chapa; e o que ficava atrás, mergulhava numa sombra cravada no chão como uma demarcação.
Daquela escuridão, a poucos metros das costas do trono, uma cortina preta de fumaça surgiu, compacta e deliberada, emanando um ruído de ar que sinalizava a astúcia de um plano bolado. Ela não se expandiu ao acaso, e sim, ergueu-se com a disciplina silenciosa de quem fizera aquilo várias vezes antes.
A fumaça ficou contida e parou onde precisava: no contraste entre o escuro da sombra e o ouro oblíquo do sol que a margeava sem que tocasse.
A vibração chegou a Rin antes da visão.
O espaço que ela administrava como extensão do próprio corpo tremeu em algum ponto específico atrás, exatamente onde seus sentidos menos esperavam em um raio de poucos metros.
O olho roxo destampado olhou para a fumaça.
Tarde demais.
Daquela névoa preta, irrompeu uma silhueta de luz:
Hikaru Sasaki translocou-se pelo primeiro terço de distância entre a fumaça e o trono num feixe luminoso, reluzindo o fio de corte rubro da katana gélida na mão canhota.
A inexpressividade ocasionada pela fatalidade tranquila de quem não considerava o fracasso como possibilidade já calculava a próxima investida.
Rin desacompanhava a cena. Seu mundo estava lento demais.
A segunda translocação veio antes da reação alheia: Hikaru se rematerializou ao alcance do trono num clarão branco e vermelho. A katana moveu-se em arcos múltiplos, três, cinco, seis, cada corte num ângulo diferente marcou o trono com linhas rubras e curvas. O trono de gelo eterno despedaçou-se em placas espalhadas por todas as direções.
Kyoko Shimizu despencava da onde sentara com a mesma expressão sem expectativas; nem o espetáculo extravagante dos cortes ou a neve de estilhaços que choveu sobre ela arrancou um mero sentimento de surpresa.
Empunhando a katana, Hikaru recolheu-a no colo com segurança e virou o corpo para fuga. Seus pés já construíam a trajetória da translocação seguinte. O plano era bem executado.
Até que uma falha recorrente reapareceu de dentro do prodígio:
O coração bateu forte, não de forma saudável pelo esforço: de forma assustadora. A visão pulsou nas bordas, como se cada veia do rosto fosse visível por dentro. As mangas do uniforme coladas ao corpo revelaram o relevo brusco das veias sob a pele, endurecidas e proeminentes como cordas tensionadas além da resistência natural.
Hikaru prendeu o ar no peito, sentindo a agonia rasgando seus órgãos e o peso de Kyoko enfraquecendo seus braços.
“Não agora.”
Apesar do suor, o foco de um samurai trouxe o sentimento e a decisão de que aquela dificuldade seria superada.
A terceira translocação aconteceu… e com ela, uma reação inusitada:
Quando o espadachim reapareceu na metade do caminho em direção à fumaça, uma mão o segurou pelo ombro.
Curiosamente, não parecia uma mão de carne: era uma contradição física que o cérebro desentendia, um contato verdadeiro e falso ao mesmo tempo, existindo em uma camada do mundo que supostamente antecedia a matéria.
Hikaru observou o próprio ombro, e flagrou:
Uma mão colossal e ao contrário de qualquer matéria comum, o agarrava. Aquela forma lembrava o próprio espaço sideral comprimido em uma palma humanoide. Tons de roxo profundo percorriam sua extensão, enquanto pontos de luz minúsculos cintilavam pela superfície, remetendo astros pulsantes.
Há certa distância, Rin encarava o espadachim de forma nunca antes vista: os cabelos flutuavam como se a gravidade estivesse invertida, enquanto a tonalidade púrpura dominava do pescoço às mãos — uma delas tampando o olho escondido pela franja, a outra, imitando o toque que impedia o resgate. Das costas, saía o longo braço curvo da mão cósmica, fino na origem, e cada vez mais espesso à medida que chegava ao punho colossal.
O instante da cena parecia pausado entre os dois.
Nenhum deles era lento, apenas rápidos demais para todo o resto.
A mão áurica trouxe o prodígio da luz para cima de Rin, que criou outro braço áurico pelas costas e tirou Kyoko do colo num só agarrão dos pés à boca; rapidamente, o espadachim foi arremessado em direção aos alunos distantes com a frieza de quem removeu um obstáculo de cima da mesa.
Quando a prisioneira foi mantida ao lado, a vilã explodiu uma onda de choque súbita e violenta que varreu o altar e jogou os três heróis degraus abaixo.
Ao lado de outros alunos1, Akemi viu tudo de longe: Hikaru saiu em queda livre da trajetória do arremesso. Nikko e Minoru foram de costas ao solo diante da escadaria, e Nihara, conteve o impacto com as chamas e aterrissou forçadamente na metade do caminho dos degraus.
No segundo seguinte, Kinyoku e Aya brotaram da sombra atrás de Akemi como em uma queda invertida: quedaram de baixo para cima, caíram, e após instantes atordoados, se levantaram lentamente.
Akemi se assustou. — V-vocês estão bem!?
— A-as fumaças, cof, cof — resmungou Kinyoku, dolorido mas despido de emoção — a onda atravessou as fumaças da Hattori antes que saíssemos. Pelo menos consegui evitar algo pior nos teleportando até aqui pela sombra da parede antes do impacto…
— Peço perdão — Hikaru aproximou-se com uma mão comprimindo o ombro ferido e a outra sustentando a katana de gelo e sangue. Sua conversa era com Mayumi. — Julguei ser suficiente para concluir o resgate, porém meu corpo encontra-se mais desgastado do que imaginava. As habilidades áuricas da oponente também excederam as minhas previsões… é muito imprevisível, então tentar surpreendê-la seria desafiar o limite desta lâmina — ele ajoelhou-se e ofereceu a espada descansada na horizontal em ambas as mãos. — Conforme solicitou… sua katana retorna intacta.
Com desgosto pelo fracasso, a ruiva sacou a arma. — Reitero que te informei sobre esta lâmina ter a capacidade de cortar tudo o que existe. Mas se não foi rápido o bastante, não culpo. Eu também seria arremessada da mesma forma.
Com as mãos brilhando colorações rosadas, Aruni correu aos feridos próximos e pediu licença para a cura. Teruo e Sho chegaram juntos do flanco oposto e olharam o topo do altar; surpresos disseram respectivamente.
— Desde quando ela poderia criar braços a partir de uma projeção corporal?
— É como se o espaço fizesse parte dela — o Yamamoto contemplava as silhueta lá no alto, onde um dos braços cósmicos partidos das costas de Rin segurava Kyoko enquanto o outro aguardava aberto. — Aqueles braços são mais do que a aura projetada que conhecemos… são distorções com autonomia! Além dela controlar o espaço ao redor, ela é o espaço! — Aparentemente, o interesse do garoto estava além da aura espacial; de forma cômica e misteriosa, a melancolia violenta de Rin o encantava.
Curando o ombro de Hikaru, Aruni temeu a situação dos outros caídos à distância. — Precisamos ajudar aqueles ali também! — apontou.
Ninguém concordou, pois Nihara de pé tomou o foco de todos.
O ígneo sentia as articulações recusando movimentos, a memória dos impactos sônicos que absorveu em poucos minutos o perturbava… e orgulhava.
Ele estufou o peito, crescendo labareda sobre labareda e aquecendo o ar gelado do castelo como um aviso de incêndio. A manifestação áurica no formado de uma grande chama avermelhada surgiu.
Os pés em chamas subiram pelos degraus com passos fortes e deliberados, a decisão tomada não incluía reconsideração. Quando pararam com um pé no topo e o de trás no penúltimo degrau, os punhos ao lado do corpo prepararam um ângulo de ataque, mirando a garota que amenizava o descontrole de sua aura. Os cabelos lilases voltaram ao normal e as marcas roxas na pele recuaram brevemente. Já os braços extravagantes seguiam ativos e atentos.
Afetado pelo acúmulo de raiva e pela dor que tratava como combustível, Nihara usou da força da adversária para que a diminuísse. — Parece que uma inconveniente ficou tão esnobe com a própria aura que esqueceu que tinha um objetivo aqui. Devia ter acabado com essa prova há muito tempo. Em vez disso, fica se exibindo, se certificando de que todo mundo te viu, que todo mundo entendeu que você é poderosa — ele riu sem humor. — Parece que alguém precisa muito de uma atenção que nunca teve.
Os braços cósmicos não se mexeram.
Por um instante, o castelo inteiro ficou quieto.
— Eu te chamaria de hipócrita… mas em vez disso, farei uma pergunta. Já parou para pensar que a existência não faz sentido? — Rin foi tomada por uma sensação que piorava seu nojo: a convicção. — Nascemos, crescemos, e procuramos afazeres ou pessoas que possam deixar o processo mais divertido. Mas sabe o que eu só consigo encontrar? Gente que não quer saber de nada além do prazer próprio e dar ordens que te acorrentam, tudo por causa de uma simples habilidade que nos ilude com a sensação de poder absoluto — pausa… — Há um grupo de pessoas que me deve explicações, e por mais que não ache… você está incluído. Jamais esquecerei seu rosto peçonhento me olhando por trás das vidraças daquela sala sombria e diabólica.
A cobrança pousou sobre o ambiente com o peso da verdade.
Nihara abaixou a cabeça, porém, jamais recuaria. O sorriso que apareceu no canto da boca foi maldoso, ciente de que uma ferida se abriu. — Não te devo nada… Na verdade, deveria largar essa misantropia2 ridícula e tornar-se grata por fazer parte de um projeto tão revolucionário — risos dominaram — até porque, se continuar assim… — uma encarada cruel enfrentou — no fim das contas! Tu não terá ninguém pra se importar sobre como a sua história termina!
O clima ficou espesso.
O entendimento e a aceitação de um fato, embora vindo de uma boca menosprezada, tiraram o brilho que já não existia na única íris violeta destampada.
Os braços galácticos flutuavam aos lados, esperando.
Rin respirou profundamente…
— Ok, você venceu.
Nihara mal provou o sabor falso da vitória quando os pelos da nuca se eriçaram pelo próprio instinto que sabia mais do que ele.
Rin ergueu e abriu a mão cósmica livre, e bruscamente, os arredores da grande palma sofreu distorções, retirando a coesão do mundo:
Linhas escuras e velozes cortavam toda a área do salão de gelo, seguindo o incessante trajeto espiral antes que se convergessem acima da palma púrpura, crescendo ali uma pequena esfera rodopiante, preta no núcleo e roxa nas bordas.
Os outros alunos ergueram o rosto para o evento. Ninguém conseguia explicações para o que viam.
Lá embaixo, Akemi suspeitou. — O que é aquilo!?
Kinyoku tratou a cena com uma atenção diferente da habitual. — Uma energia forte demais. O que aquela garota tá pensando?
Teruo ajustou os óculos com a calma de costume. — É, talvez estejamos diante de um-
— É-É UM BURACO NEGRO! — Sho se meteu entre os outros com o desespero estampado.
Caída, Nikko ouviu o grito distante, e como se acordasse de um sono, franziu a testa. — Buraco negro? Para, essas coisas nem podem ser representadas por uma aur-
De repente, tudo “foi para o espaço”:
A gravidade mudou de opinião sobre qual direção importava e derrubou todos ao mesmo tempo com uma força avassaladora. Um barulho iniciou-se, agudo, vibrante, estridente e macabramente crescente; como se o vento ao redor daquele vórtice gritasse de agonia.
A atmosfera tornou-se densa e seguiu viagem para o impensável.
A esfera aumentava, alimentando-se de literalmente tudo o que era tratado como existente.
Com o chão transformado em inimigo, corpos eram arrastados enquanto mãos inutilmente buscavam apoio onde só tinha gelo plano; exceto por Mayumi, que inteligentemente cravou a katana de gelo no chão e usou-a de suporte. Os pés da ruiva se levantaram na direção da espiral devastante, e todos os outros alunos que foram içados se seguraram pelos pés como uma corrente humana partida da espadachim, respectivamente: Mayumi, Sho, Aruni, Hikaru, Teruo, Aya, Kinyoku e Akemi.
O caos havia começado…

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