Capítulo 83 - A Imperatriz Viúva
Na boca do mais alto vulcão da Capital Vermelha, suspenso sobre a lava fervente e sustentado por quatro pontes conectadas desde as extremidades da cratera até o coração flamejante, erguia-se o Palácio ZhuRong, uma fortaleza imperial esculpida entre o céu e o magma que seguia o estilo refinado de Meilí.
Os telhados curvos feitos de metal preto e bordas vermelhas que refletiam o dourado do sol poente ostentavam a esculturas qilin1, símbolo da realeza daquele domínio vulcânico. As janelas abertas moldadas em dragões de aço entrelaçados recebiam uma luz âmbar vinda da lava a metros abaixo; que além do calor, complementava outro sentimento ao local:
Sufocamento.
Nos salões revestidos de quartzo e ouro, onde tapeçarias bordadas narravam batalhas de dinastias passadas, o silêncio reinava como lei. Concubinas de diversos nobres baixavam a cabeça quando cruzavam os eunucos 2 pelos corredores, e os guardas imperiais, trajados em uniformes vermelhos encorpados e máscaras douradas que escondiam qualquer traço de humanidade, mantinham-se postados em cada porta ou passagem.
O império vivia sob o “mandato do céu”, autoridade divina concedida ao imperador como filho do céu e líder supremo da Terra do Fogo. Mas naquele ano de 1898, durante a dinastia Qing que governava Meilí há séculos, o representante máximo sequer saía de seus próprios aposentos.
Imperador Guang’xu, o soberano oficial, existia apenas como título.
A verdadeira imperatriz, que de fato ditava ordens e decidia o destino de milhões, era outra.
No coração do palácio, numa sala de audiências privada cercada por biombos3 de seda e iluminada pelas brasas de grandes incensórios, a Imperatriz Viúva Ci’xi acomodava-se em seu trono negro elevado.
Ela era pequena em estatura, mas imensa em poder.
O rosto era oval, marcado por rugas que vinham mais da crueldade do que da meia-idade. As íris pretas brilhavam com uma inteligência afiada, ativamente antecipando mentiras alheias antes mesmo que fossem ditas. Os lábios finos permaneciam numa linha reta a maior parte do tempo, curvando-se apenas quando algo a divertia… e raramente era algo bom.
Seu hanfu de seda preta era bordado com dragões de ouro, com mangas longas caíam que sobre os braços. Nas mãos, unhas longas e pontiagudas pintadas de vermelho batiam levemente no encosto do trono sempre que a soberana estava irritada, o que era o caso.
Ao redor dela, ministros e conselheiros estavam curvados em absoluta reverência, suas testas tocavam chão de mármore polido.
— Levantem-se — ordenou Ci’xi, fria. Os homens obedeceram em sincronia. — O que trazem hoje?
Um dos ministros mais velhos deu um passo à frente. — Santa Mãe Imperatriz, trazemos relatórios sobre as províncias do sul. As colheitas… elas foram-
— Fracas — cortou a autocrata, irreverente — eu sei, sempre são. Continue.
O ministro engoliu seco. — Sim, Santa Mãe. As taxas de impostos foram ajustadas conforme sua ordem, mas os camponeses… há relatos de fome nas vilas mais distantes.
A soberana pensou consigo mesma, considerando a informação. Então, riu e deu um gesto de mão: — Que morram. Se são fracos demais para sobreviver, o império não precisa deles.
Com o clima pesado, os ministros nem respiravam alto.
— Próximo assunto — continuou a Imperatriz, entediada.
Outro conselheiro avançou, nervoso. — Santa Mãe… há uma petição do Imperador Guang’xu. Ele solicita permissão para-
— Negado.
— Santa Mãe, ele ainda não recebeu os alimentos de hoje, assim ele pode-
— Eu disse, negado.
O homem se curvou tão baixo que quase caiu. — Perdão, Santa Mãe. Perdão.
Ci’xi suspirou como se o caso fosse um incômodo menor. — Mesmo sendo adotado carinhosamente por mim, Guang’xu esqueceu seu lugar. Foi condecorado com um grande título, mas precisa governar sob minha orientação. Quando aprender a obedecer sem questionar, talvez eu considere suas petições.
Ela sabia que aquilo era mentira.
Guang’xu jamais governaria.
No ano de 1881, quando a esposa principal do antigo Imperador, Imperatriz Ci’an faleceu de forma misteriosa com apenas um ano de mandato, Ci’xi, antes concubina imperial, colocou no trono o jovem Guang’xu, filho de sua irmã mais nova, transformando-o em um imperador fantoche até que virasse um adulto; porém, com o passar dos anos, quando Guang’xu finalmente cresceu e reivindicou a autoridade que em teoria sempre lhe pertenceu…
Ela o trancou.
Prisão domiciliar, chamavam; um termo que descrevia o que realmente era: uma gaiola dourada em um outro lugar chamado Cidade Proibida, onde o homem mais velho da família imperial de Meilí vivia sob vigilância constante, proibido de sair de seus aposentos sem permissão, proibido de tomar decisões sem aprovação, proibido de ser qualquer coisa além de uma peça decorativa no tabuleiro de xadrez de Ci’xi, que adorava cada segundo daquilo.
— Retirem-se — ordenou ela.
Os ministros reverenciaram e saíram em fila indiana até a porta. Quando o último deixou a sala, Ci’xi recostou-se no trono e fechou os olhos.
O poder absoluto era delicioso… mas incompleto.
Havia algo gravemente incerto:
A continuidade.
Do outro lado do palácio, trancada em seu quarto de luxo onde poucos tinham permissão de entrada, uma criança de doze anos observava pela janela o sol se pondo por trás do topo das paredes interiores do vulcão.
Vestida em um kimono dourado, a menina de cabelos pretos curtos presos em dois coques nas laterais da cabeça tinha as bochechas ruborizadas pelo esforço das aulas particulares daquela manhã. Nos olhos verde-claros, repousava uma lucidez que inquietava os adultos, já que aquelas retinas até suportavam o ardor do sol, sustentando o brilho da estrela diretamente.
Mas seus pensamentos estavam longe daquela claridade.
“A mãe prendeu o primo Guang’xu,” pensou ela, “Disseram que ele tentou sair ontem à noite, mas os guardas pegaram de novo… Eu queria poder ajudar ele.”
A menina deitou a cabeça sobre os braços apoiados na janela, sua tristeza era nítida.
Guang’xu era gentil com ela. Sempre fora.
Mesmo sendo um imperador preso sob opressão, ele enviava cartas para a garotinha, contando histórias sobre como o império fora honesto um dia.
Mas a mãe dela, Ci’xi, abominava aqueles encontros.
“Ela não é justa,” pensou a princesa, sentindo repulso por baixo do medo, “mães devem amar e proteger, mas por que ela é tão má?”
A Imperatriz sequer olhava a filha, e quando a olhava, era com aqueles olhos frios que examinavam se sua lâmina herdeira estava pronta para a afiação; e não obstante, as lições já haviam mudado. Antes, eram apenas estudos normais: caligrafia, história, música. Mas com o tempo, os salões carmesins de treinamento áurico entraram em cena…
— Mostre-me sua chama — ordenou Ci’xi em outro dia, imperativa perante a filha.
A menina ergueu a mão, nervosa, e uma pequena chama alaranjada surgira na palma.
A Imperatriz observou em silêncio por longos segundos, e sem aviso, estendeu a mão: uma chama amarela explodiu dali, tão intensa que a menina, protegendo o rosto, sentiu o calor ardendo a pele e queimando o tecido do kimono dourado. Definitivamente, uma punição.
— Patético — menosprezou a mãe, apagando a chama — você carrega meu sangue, minha eternidade, e é tudo isso que consegue produzir?
O choro era segurado pela princesa assustada. O corpo frágil seguia ileso apesar do estado das roupas.
— Olhe pra mim.
A filha obedecia calada, encontrando nos olhos cruéis da mãe uma ambição que lhe congelava o peito.
— Mesmo mulher, serás governante um dia. Se eu morrer, você assumirá o trono assim como fiz… Para tal, não poderá ser frágil. Não poderá hesitar, e nem demonstrar um reles pingo de piedade — a soberana aproximou o rosto macabro. — O império devora os fracos, e você está vendo isso com os próprios olhos todos os dias. Você não quer sofrer o que aqueles indignos sofrem, quer?
Relutante, a garotinha negou com sentimento amargo. O modo com que a mulher se referia aos outros a feriu mais do que as chamas, alimentando um incômodo silencioso que lhe assombrava.
Ci’xi percebeu a repulsa da filha, e avaliando-a como um objeto defeituoso, agachou-se diante dela. Com sua delicadeza tirânica, segurou o queixo da criança e inclinou o rosto infantil em direção à luz.
— Você não tem meus olhos, nem minha estrutura óssea. Apenas meu sangue. Mal consigo acreditar que quase morri para dar à luz algo que sequer se parece comigo… e ainda sou obrigada a mantê-la em segredo. Caso contrário, aquela maldita corte finalmente encontrará motivos plausíveis para desejar minha morte.
A outra mão adulta passou pela lateral da cabeça da menina e afastou o cabelo para trás.
— Mas diga-me… o que é essa mecha vermelha atrás da sua orelha?
Sob aperto de unhas vermelhas pontudas, a princesa segurava a respiração, ciente de que qualquer movimento irritaria a mãe.
— Hm… de forma infeliz, você também herdou as fraquezas do seu progenitor.
Ci’xi largou o rosto da princesa com desdém, deixando um arranhão leve na bochecha. Em seguida, levantou-se pensativa com a mão no queixo.
— A piedade, a dúvida… esses sentimentos inúteis. Independentemente do poder magnífico que aquele homem possuía, foram eles que o arrastaram à ruína. O mesmo acontecerá com você se não agirmos com rapidez. Não posso perder outra cria.
Ela reencarou a filha, enxergando problemas elimináveis. Naquele lacrimejar, uma indignação a enfrentava. Aparentemente, o pai ainda tinha o respeito da pequena.
— Por acaso você acha que sou cruel? — perguntou a Imperatriz, que sem a resposta, riu. — Claro que acha. Todas as crianças acham suas mães cruéis quando são disciplinadas — ela parou atrás da filha e sussurrou no ouvido dela: — Mas crueldade é poder, criança… e poder é sobrevivência. No dia em que você entender isso, finalmente estará pronta para governar. Estamos entendidas?
Embora o coração negasse, a menina assentiu.
— Bom — elogiou Ci’xu enquanto seguia em direção à saída aberta, mas antes que atravessasse-a, lançou um último olhar por sobre o ombro. — Seus treinamentos serão intensificados a partir de amanhã. Você aprenderá a queimar, a destruir, e a dominar. E lembre-se: da próxima vez que eu for avaliá-la, quero ver se terá ao menos futuro para sobreviver à minha força… Enquanto eu estiver viva, ninguém toca no meu mandato.
De volta ao divã4 luxuoso, a Imperatriz Ci’xi recostou-se nas almofadas. Um sorriso fino lhe apareceu nos lábios.
“Ela tem potencial. Se dominar a chama da mesma forma que aquele velho, será enfim digna do trono. Quando esse dia chegar, ela finalmente compreenderá que cada ferida foi necessária, e me agradecerá por tê-la transformado na nobre mais poderosa da Terra do Fogo.”
Apesar da ameaça ao seu cargo supremo, a soberana estava satisfeita, pois sabia da verdade pouco vista na população geral:
O império estava morrendo, as potências estrangeiras avançavam, as rebeliões internas cresciam, e o “mandato do céu” era apenas uma mentira que os fracos acreditavam para auto consolação.
Porém, o que mantinha Meilí de pé era o poder do fogo, sobretudo a chama eterna que residia exclusivamente na família imperial; para a prosperidade da nobre linhagem, Ci’xi asseguraria que sua filha dominasse aquele poder, custasse o que custasse, mesmo que aquilo destruisse a humanidade da menina no processo, mesmo que o resultado fosse a criação de um monstro: porque monstros sobreviviam, e a Imperatriz Viúva planejava sobreviver para sempre.
Todavia, aquele trabalho nunca se mostraria fácil.
Em contrapartida, um forte senso de justiça se formava antes mesmo da adolescência, aprendendo rapidamente entre medo, dor e esperança.
A questão era: seria possível anular aquela força heroica? Ou o próprio império acabaria criando a força que um dia se voltaria contra ele?
Somente o tempo, acompanhado pelo crescimento da herdeira mais jovem, traria a resposta…
Novamente na janela de seu quarto reservado, a princesa tocava a própria palma onde sua chama inicial surgia.
O receio apertava seu peito.
“A mãe quer me transformar nela.”
Mas no fundo, bem no fundo, havia outra coisa além do medo:
Raiva.
A menina viu tudo. Desde que Guangxu fora trancado dentro da Cidade Proibida, o medo pairou no Palácio ZhuRong: servos se curvavam diante dos passos da imperatriz regente; ministros sumiam após reuniões; decretos destruíam famílias inteiras; e qualquer nome ligado às reformas era apagado com rapidez.
Tudo aquilo esmagava as histórias de gentileza que Guang’xu contava à princesa sobre a Imperatriz Ci’an. Os relatos falavam de bondade, de amabilidade e de uma corte guiada por equilíbrio, revivendo memórias belas e delicadas que pertenciam a outro tempo.
Coincidentemente, desde a morte de Ci’an, Ci’xi trouxe ao trono o sadismo punitivo que sempre machucava alguém, inclusive a própria filha.
“Isso não é certo!” Pequenos punhos bateram contra a base metálica da janela. “Nada disso é certo…”
Entretanto, o que ela faria?
Embora fosse filha da Imperatriz mais temida do império e herdeira de um trono manchado de sangue, não passava de uma criança, presa a corredores que engoliam qualquer tentativa de escolha.
“Tenho que fazer diferente dela, preciso devolver a alegria para as pessoas certas!” exigiu a si mesma, apertando os dedos contra o peito. “Eu vou ser diferente… um dia eu vou dar segurança às pessoas!”
A jovem desconhecia sobre como faria tudo aquilo, mas compreendia que a insistência era o primeiro passo. Certamente, aconteceriam vários erros, e deles, viriam novas tentativas até que o caminho certo fosse encontrado; e talvez, como imaginara, um dia se tornaria a salvação de seu povo…
Ou também, sua destruição…

- criatura quimérica da mitologia e representante de bons presságios, virtude, prosperidade, paz e longevidade.[↩]
- homens castrados que serviam como funcionários de confiança, guardiões de haréns ou conselheiros do imperador.[↩]
- estrutura móvel e amovível, geralmente composta por painéis articulados ligados por dobradiças, utilizada para a divisão de ambientes, proteção de áreas ou privacidade sem a necessidade de paredes fixas.[↩]
- móvel presente nos aposentos da nobreza, semelhante a uma chaise ou leito baixo, usado para descanso, leitura e recepções privadas. Geralmente era feito de madeira nobre entalhada, adornado com dragões, laca dourada, seda e almofadas bordadas, simbolizando status, conforto e autoridade dentro do palácio imperial.[↩]

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