Índice de Capítulo

    Ao fundo dos corredores do palácio ZhuRong, uma única porta permanecia aberta. Tratava-se de um quarto onde, numa cama luxuosa de dossel vermelho-escuro cercada por almofadas de seda, repousava um homem com os longos cabelos grisalhos e a pele pálida dos setenta anos. Ao lado, sobre um criado-mudo envernizado, folhas de ervas medicinais numa pequena xícara de porcelana exalavam vapor do líquido fervente ao lado de um copo de água com cubos de gelo.

    Do lado de fora, postados um em cada lado da porta, dois guardas calados vigiavam o corredor…

    Repentinamente, passos delicados e rápidos alcançaram os ouvidos de todos, e já se sabia quem vinha.

    Pelos tapetes grossos do corredor, saltos dourados sob um vestido amarelo apressavam-se. O brilho dos calçados entregava o entusiasmo da jovem que os usava. Era a filha da Imperatriz Ci’xi, ainda com seus doze anos, contemplando as tapeçarias nas paredes enquanto andava rapidamente pelos tapetes vermelhos enquanto ajeitava seus coques.

    Ela sentia algo a chamando, um refúgio além da rotina opressora do palácio…

    Quando chegou perto de um dos guardas, a garotinha parou a poucos passos da soleira, inclinou o corpo e esticou o pescoço para uma espiada dentro do quarto. Quando viu o senhor deitado encarando o teto em silêncio, voltou-se para os soldados com o rosto inocente, deixando que a expressão muda falasse por si só.

    Os dois homens se entreolharam por um segundo, e como de costume, deram meio passo ao lado. Permissão concedida.

    A menina atravessou a porta com o cuidado de quem visitava um lugar sagrado, e à beira da cama, abriu aquele sorrisinho exclusivo das crianças. — Boa tarde, Senhor Dançarino!

    O velho se reclinou nas almofadas. Seus olhos emoldurados por pálpebras cansadas reluziam um brilho tão verde quanto os da nova companhia. — Já terminou os deveres, Princesa? — A voz era uma brasa abafada: sem força, mas quente.

    — Não todos — admitiu ela, envergonhada — é que hoje eu queria continuar ouvindo sobre a floresta das lanternas flutuantes, aquela história que o senhor não terminou.

    Um sorriso surgiu no rosto enrugado do ancião. — Ah, sim. Mas antes disso… — ele apontou com um dedo fraco para a mesa ao lado da cama — traga aquela xícara pra cá, por favor.

    A menina obedeceu e pegou a xícara de porcelana com cuidado; o líquido dentro estava quente demais para o toque, mas entregue ao velho, foi suportado sem dificuldade.

    — O senhor não sente o calor do chá por causa da aura eterna? — perguntou, curiosa.

    O idoso levou a xícara aos lábios e bebeu um longo gole. — Te ensinaram bem sobre isso?

    — Um pouco. Me mostraram como controlar chamas normais, mas somente minha mãe conseguiria me dar aulas avançadas. Ela disse que um dia, quando eu estiver pronta, vou dominar a chama eterna também.

    O dançarino depositou a xícara de volta na mesa e respirou fundo. — Sente-se, Princesa. Vou te contar algo importante.

    Ela se sentou na beira da cama e ficou balançando os pés no ar.

    — Aqueles que despertam aura costumam manipular elementos clássicos e seus derivados, mas quase todos carregam limites claros. Um áurico comum é enfraquecido em ambientes desfavoráveis, esgota o próprio estoque de aura ou  até sucumbe ao cansaço do corpo. Já nos eternos, a aura deixa de obedecer às limitações do mundo. Observe a chama eterna: a água não a apaga, o vento não a dispersa. Ela consome apenas o que o portador deseja queimar e poupa tudo aquilo que ele decide proteger.

    — O senhor pode me mostrar?

    O velho sorriu e abriu uma das mãos. Chamas dançantes e alaranjadas surgiram na palma. — Vê essas chamas? São normais. Se eu jogar água nelas, vão se apagar — ele fechou a mão, apagando o fogo, e então abriu de novo. As chamas seguintes que surgiram eram diferentes: mais intensas, mais vivas, com um brilho rubro que pulsava como um coração. — Essas, são eternas.

    A menina observava com fascinação.

    — Olhe bem — o dançarino pegou o copo de água com a mão livre, e com os dedos de chamas, pescou um dos cubos de gelos e o segurou acima da palma flamejante.

    O derretimento imediato do gelo foi o esperado. Mas nada aconteceu. O cubo suspenso sobre as chamas permaneceu intacto, sem uma única gota escorrendo.

    Como…? — sussurrou a pequena impressionada.

    — Controle absoluto. Eu decido o que minhas chamas queimam. Neste momento, ordenei que não toquem o gelo. Mas se eu quiser… — o cubo derreteu e evaporou instantaneamente —, posso fazer com que ele desapareça num piscar de olhos.

    Uaaau… Isso é incrível!

    — É poderoso, e perigoso — corrigiu o velho, apagando as chamas o fechar da mão. — Se você não souber controlar, pode queimar tudo ao seu redor sem querer. Inclusive você mesma.

    O alerta foi sentido, trazendo o medo sobre o futuro.

    — A-a mãe disse que eu vou aprender isso.

    — Com certeza vai. Você carrega o sangue imperial, onde a chama eterna passa de geração em geração na família, mas saber usar e saber controlar são coisas muito diferentes.

    — E o senhor controla direitinho!

    O velho riu baixo. — Hehehe, levei décadas pra isso… e mesmo assim, ainda cometo erros — ele olhou para as próprias mãos marcadas por cicatrizes antigas. — Porém aprendi coisas importantes ao longo dos anos: a chama eterna, além de poderosa, é altamente expressiva.

    O rostinho curioso esperava por mais.

    — Melhor dizendo, você não força a chama a obedecer, você a convida… dança com ela… e quando finalmente entendem uma à outra… — um sorriso nostálgico apareceu — vocês se tornam um só.

    — Como assim uma coisa só?

    O dançarino respirou fundo, pronto para a revelação de um velho segredo.

    — Quando eu tinha sua idade, talvez um pouco mais adolescente, o destino me jogou diante de fatalidades que revelaram algo que eu nunca imaginaria: eu podia ser mais do que um simples controlador de chamas, eu podia me fundir com elas — ele ergueu uma mão ao alto. Chamas surgiram na palma, e vagarosamente, desceram pelo braço e envolveram a pele sem que queimasse-a, transformando a carne enrugada em uma figura viril e humanoide de fogo vivo que ecoava a voz de forma estranha. — Nesse estado, sou mais que um áurico de fogo. Eu sou a chama.

    A garotinha ficou hipnotizada. Apesar dos estudos e registros sobre o domínio da aura ígena, nunca em sua vida algo tão intrigante passou pelos seus olhos.

    — Quando me torno um com ela, posso me mover como tal. Posso sentir o que ela sente. Posso alcançar lugares que nenhum corpo humano conseguiria. Porém, cof, cof! Cof, cof, cof! — As tosses secas retraíram as chamas pela pele enrugada e retornaram o velho ao estado natural.

    — Senhor!

    — Tudo bem… eu estou bem — respondeu entre respirações curtas, apoiando a mão no peito. — É só essa doença velha como eu. Já me acostumei com ela… mas, pelo visto, minha chama não.

    — Eu queria que o senhor estivesse melhor… — expressou a preocupada.

    — Foi pra isso que me trouxeram ontem à este palácio. Aliás, eu já havia esquecido o quão confortável era esse lugar. Lembro-me de muitos anos atrás, quando eu ainda era jovem e forte, quando meus cabelos eram tão vibrantes quanto o pôr do sol. Naquela época, fui convidado pela primeira vez para dançar diante dos nobres imperiais. Eles queriam ver o famoso Dançarino das Chamas, aquele que supostamente dominava o fogo como ninguém.

    Ele fechou os olhos, lembrando.

    — Eu entrei no salão, e todos me olharam com desprezo. Que cômico: um simples artista de rua se apresentando à realeza. Achavam que eu era apenas um truque barato. Então, mostrei a eles o que realmente significava a aura ígnea… Quando me transformei, meu corpo inteiro virou chamas. Ah… como eu dancei. Minhas formas de fogo que replicavam formas no ar: paisagens, animais, eventos… era tão libertador que meu corpo parecia inexistente. Quando finalizei a apresentação… não ouvi mais nada além do bater do meu coração.

    O velho olhou para a princesa absorta.

    — Então, o imperador da época, seu avô, levantou-se do trono e caminhou até mim. Achei que seria executado por tamanha ousadia. Mas ele apenas sorriu, e me nomeou membro honorário da família imperial. Desde então, vivi nas proximidades até que os problemas da idade avançada me trouxessem aos aposentos daqui.

    — Acho que posso sentir a saudade que sente, senhor… mas… mas… — a princesa mordeu o lábio inferior, uma dúvida a deixava ansiosa, mas não sabia se seria respeitosa. — Senhor Dançarino, com muita prática e vontade, posso aprender a dançar com o fogo assim como o senhor fazia?

    O velho direcionou os olhos à luz noturna que entrava da janela. — Já faz um tempo que não consigo levantar. Gostaria que um dia a minha arte fosse replicada ao longo dos anos e… ficasse eternizada nas raízes da existência. Porém, eu não quero uma réplica. Quero algo novo, original, mas com resquícios do que um dia foi minha paixão… Posso te contar tudo, Princesa. Absolutamente tudo. Desde que você não copie, crie.

    A criação de algo do zero já exigia coragem, contudo, a invenção a partir do que se nunca viu, e apenas ouviu, definitivamente seria loucura.

    Como transformar em gestos algo que só vivia na memória de outro? Como desenvolver uma técnica nunca presenciada? Não importava, a princesa já tinha uma escolha:

    — Aceito o acordo! Apenas quero um dia sentir o que o senhor sentia.

    Orgulhoso da motivação da jovem, o idoso sorriu.

    Durante os seis anos seguintes, aquele encontro se repetiu quase todos os dias.

    A princesa era instruída no controle da aura ígnea e nas técnicas de combate pelos mestres do palácio durante as manhãs e tardes, mas era nos finais de tarde, quando o sol sumia por trás da boca do vulcão, que as verdadeiras lições aconteciam.

    O dançarino falava de suas apresentações iniciais em templos e feiras até o momento em que se tornou parte da realeza.

    Todos os movimentos eram descritos sem sentido literal. A leveza do vento, a calmaria das águas, a ferocidade de um dragão e até mesmo a precisão de um louva-deus eram detalhados na linguagem das chamas.

    — Dançar é transformar o olhar do espectador, fazê-lo sentir com o coração aquilo que os olhos apenas veem. Assistir uma dança é o mesmo que encarar a mudez de um céu noturno. O céu é o reflexo mais antigo daquilo que ninguém entende, e toda forma de arte, minha pequena, é o reflexo mais recente, uma tentativa humana de traduzir o mistério do passado em algo mais sensível aos ignorantes.

    A menina absorvia as palavras, sempre ouvindo e praticando.

    Nos jardins internos do palácio, quando todos dormiam, ela dançava sozinha entre as lanternas vermelhas e as colunas de pedra. No início, eram apenas movimentos desajeitados, tentativas falhas baseadas no que o dançarino descrevia.

    Mas com o tempo, mudanças vieram.

    As chamas que invocava durante a dança não eram mais apenas ferramentas de ataque, eram extensões do próprio corpo. Elas respondiam ao ritmo dos seus passos, à emoção dos seus gestos e às intenções do seu coração.

    Aos quatorze anos, seus cabelos cresceram à metade das costas. As mechas vermelhas atrás da orelha, herança do pai que sua mãe tanto desprezava, se espalharam pela nuca e tingiram o preto da região interna em escarlate.

    Mais um ano depois, os cabelos já lhe alcançavam a cintura, tingidos de vermelho do meio para baixo. O fogo amadurecera dentro dela; os kimonos infantis cederam lugar a vestes elegantes de seda bordada; e os passos pelo palácio já não pertenciam à antiga garotinha curiosa, mas a alguém que caminhava em busca de verdades e significados.

    Com o crescimento da jovem, as histórias do dançarino pediam mais atenção, abordando pontos que exigiam investigação, confronto e libertação dos véus do tempo.

    Para que a verdade fosse compreendida, era preciso perguntas… muitas perguntas; sempre diante da mesma cama, onde o velho definhava lentamente mas mantinha a mente ativa e afiada contra aquilo que acreditava como o mal da Terra, crenças que a herdeira do império também compartilhava desde criança…

    Aos dezesseis, a princesa era outra: seus movimentos incendiavam a noite dentro do palácio, silenciosos, poderosos e inimitáveis, ganhando nomes e significados.

    Onde antes era um segredo entre uma garota e um velho, criou-se uma nova arte…

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