Capítulo 85 - A Nova Arte
Em uma noite no palácio imperial, naquela mesma cama de dossel vermelho-escuro, o velho dançarino respirava em compassos longos, puxando o ar com o esforço de quem nem abria os olhos.
A porta, que estava fechada, rangeu devagar.
O senhor reconheceu o horário. Uma mesma pessoa sempre chegava naquele momento. No entanto, os antigos sons de pequenos saltos haviam sumido. O que alcançava seus ouvidos cansados era o som de botas militares.
A dúvida aumentou quando pressentiu alguém ajoelhado-se ao lado da cama.
— Me contaram… que o senhor está partindo — a voz familiar mantinha os traços da juventude, mas estava diferente.
— É… você? — O tom sábio saiu em sopros fracos.
— Sim, Senhor Dançarino.
— Seus treinos… acabaram?
— Positivo, senhor. Hoje, não vim por histórias. Quero apenas dar-te companhia.
— Sua mãe permitiu sua vinda?
— Fique tranquilo. Estamos a sós em um raio de cem metros. Posso pressentir quem ousar atrapalhar a nossa paz.
— Pois bem… — O dançarino tentou sorrir, mas a boca mal lembrava como. — Posso sentir sua energia. Você cresceu bastante desde o último mês em que a vi. Sua dança deve estar magnífica… Como eu queria vê-la…
— Dancei durante os treinos, no mesmo jardim de sempre, entre lanternas e colunas. Minhas chamas… consigo enxergar por elas agora e revelar coisas que sempre estiveram ocultas de mim… coisas que enfim estou prestes a conhecer. Fui escalada para a minha primeira missão, senhor, como sempre desejei.
Um riso falho escapou dos lábios vencidos. — Huh… Fará aquilo que planeja?
— Com exatidão.
— Huhu… É assim que começa. Quando a vontade excede o ilógico, cof! Cof!… Ai… Você se tornou mais corajosa do que eu pensava.
A voz da princesa soou baixa e vulnerável: — Quero agradecer sinceramente ao senhor por me ensinar aquilo que nunca tive a oportunidade de vivenciar. Graças às suas histórias, hoje me sinto mais capaz de encarar a verdade que me espera. O senhor transformou a minha vida. Serei eternamente grata.
O velho virou a cabeça com calma, seus olhos entreabertos buscavam o rosto feminino na penumbra.
Ajoelhada ao lado da cama, a moça usava um uniforme militar vermelho profundo, detalhado com bordados dourados nas bordas. A mão enluvada repousava sobre as coxas, ajudando na postura elegante e militar. Os cabelos negros, invadidos por mechas escarlates da metade para baixo, desciam até o chão, cobrindo suas botas.
— Como você está linda… De todos que cruzaram este palácio, você foi a única que me devolveu à luz. Seus olhos… nunca mentiram.
A jovem tocou delicadamente o braço frágil do idoso. — Creio que é por causa da conexão que sinto com o senhor. Mesmo que tenhamos nos conhecido há quatro anos atrás, você sempre me tratou como se me acompanhasse desde o nascimento.
A chama da lamparina vacilou.
O velho respirou fundo, reunindo as últimas forças. — Huo’ying.
A princesa congelou perante seu nome que não escutara há anos dito pelo dançarino.
— Você sempre soube, não é? — perguntou ele, num sussurro esperançoso.
Então, ela assentiu com convicção. — Sim. Sempre soube… Desde a primeira vez que o senhor acendeu suas chamas diante de mim, senti que minha aura reconheceu a sua. Meu sangue reconheceu o seu, e meus olhos… são iguais aos seus.
O velho fechou os olhos, lágrimas escorreram pelas bochechas enrugadas. — Você até mesmo tem parte dos mesmos cabelos em que um dia tive… Eu queria ter te criado de verdade, te protegido. Mas “ela” nunca permitiria — o pronome foi proferido com ódio mal expressado pela fraqueza.
— Eu sei. Ela o manteve vivo apenas para que eu aprendesse a dominar a chama eterna. E o senhor, mesmo sendo usado, aceitou ficar, porque era a única forma em que poderia estar perto de mim.
— Então você também sabe o perigo que corre.
Huo’ying concordou. — Sei que ela me vê como ferramenta e sonha em me transformar numa arma de guerra. Mas é inevitável, tudo que ela faz é voltado apenas para o bel prazer. Se eu a desrespeitasse, seria descartada na primeira ordem.
— E mesmo assim… vai continuar? — perguntou, preocupado.
— Irei… mas não pelos motivos dela. Irei porque existem pessoas que precisam de proteção. Pessoas que sofrem sob o império que ela ergueu. Se eu tiver força suficiente, poderei mudar isso… Apenas o palácio sabe do meu título, enquanto permanecer assim, posso sair do vulcão. Além disso, a Imperatriz sempre desejou que eu me provasse em campo de batalha. Se eu retornar, talvez eu ganhe o respeito dela. Mas, se eu não voltar, ficará decidido que nunca fui digna da força que herdei. Esse foi o veredito daquela presunçosa.
O dançarino apertou a mão dela com a força que ainda restava. — Tenha cuidado. Ci’xi não conhece limites. Todos que ficaram em seu caminho foram destruídos, inclusive aqueles que ela amava.
Huo’ying sentiu o peso daquelas palavras.
— Prometa-me — insistiu o velho, falhando a voz — prometa-me que não deixará te transformarem nela, que manterá seu coração… limpo.
— Prometo — firmou Huo’ying.
— Certo. Como um último pedido, poderia me mostrar sua dança?
— … Como o senhor deseja.
A princesa ergueu-se devagar. A mão direita cerrada recuou até o centro do peito. A outra avançou, estendida como um escudo. Uma guarda foi formada.
Os véus vermelhos do uniforme ondularam com a brisa morna que entrava pela janela.
Dali, o primeiro passo surgiu.
A mão estendida desenhou um círculo no ar com fogo.
— Criei essa arte para contestar os limites impostos a mim. O corpo é apenas metade do que se move. A outra metade é a intenção que guia e o espírito que sustenta.
Deformando a circunferência ígnea, uma ave foi formada. As chamas ganharam asas, bico, cauda, tudo esculpido no ar como se fosse sólido.
— Certa vez, ouvi a história de uma mulher que, ao ser cercada por uma garça-branca inquieta durante seu treino, foi testada pela própria limitação e instruída pela natureza.
As mãos da jovem flutuaram diante do rosto como folhas levadas pela brisa. Então os braços se abriram como asas.
— Ela tentou repelir a garça usando um bastão, mas a ave reagiu com desvios, sem abusar da brutalidade ou sequer revidar.
A princesa deslizou a ponta do pé sobre o tapete. Num giro completo, executou um chute circular. O fogo acompanhou o trajeto que mirava a ave de fogo recém-formada, que esquivou assim como contado.
De repente, uma luta graciosa contra a própria criação ígnea foi iniciada. Golpes de palma aberta, socos de punhos cerrados, chutes giratórios e outros incisivos buscavam o grande pássaro flamejante, mas propositalmente, nunca acertavam.
— O corpo se adapta e aprende a se compor novamente. O mesmo braço que hoje afasta, amanhã saberá acolher. Tal qual a garça, que ao invés de fugir por contra própria, permite que o vento a guie, técnica essa que todos os animais do mundo utilizam com suas respectivas formas.
A ave de fogo pousou ao lado da criadora e repetiu seus últimos movimentos como um reflexo ardente. Por fim, dissolveu-se. As chamas se retraíram, e no mesmo instante, explodiram de maneira intensa, emergindo um tigre moldado em fogo pulsante.
Os movimentos da princesa mudaram junto a ele, tornaram-se mais ferozes, diretos e brutais. Os passos contra o chão pesavam entre os socos, e cada palma em forma de garra avançava com violência. O tigre respondia com rugidos, rasgando o ar em investidas curtas e explosivas.
Mas a fera também se desfez, dando lugar à sua irmã ágil e inquieta, a pantera.
As garras diminuídas aumentavam a velocidade dos golpes, contudo, faltava precisão.
O fogo se estreitou como um fio vivo, recriando uma serpente ondulante. Os golpes tornaram-se econômicos e certeiros, buscando pontos vitais imaginários que derrubariam até os maiores adversários. Ainda assim, faltava algo.
A serpente carecia de poder.
Para tal, o fogo se expandiu.
As chamas cresceram, ergueram-se, e rodopiaram como um redemoinho incandescente. De dentro dele, o dragão emergiu. Longo, poderoso, e monumental. Seu corpo flamejante serpenteava no ar, carregando a força do tigre, a precisão da serpente, a agilidade da pantera, a fluidez da garça, e consigo, a própria sabedoria.
A jovem moveu-se com ele.
Seus passos se ampliaram; seus golpes, lentos no início e explosivos no final, deixavam rastros poderosos.
Naquela forma, o fogo enfim encontrava sua verdadeira representação.
Ofegante, o velho contemplava com olhos úmidos. Sob as pálpebras estremecidas, o sorriso absorvia a luz das chamas; e em sua visão, no lugar do quarto, havia uma floresta.
Folhas sob os pés descalços, pássaros exóticos cruzando o céu, vapor de águas escaldantes subindo pelas pedras negras, e sob a neblina tropical dos dotes meilianos, ele se via de novo: jovem, forte, com os longos cabelos rubros soltos ao vento acompanhando o movimento da sua túnica artística.
A princesa dançava ao lado, manifestando a vida por meio das chamas — ele, com a graça da arte; ela, com os requintes da guerra, ambos com a coreografia de mesma base.
A natureza que se ocultava dentro da boca do vulcão era invocada nas chamas de uma jovem que deixara a solidão e de um idoso que reencontrava sentimentos roubados pelo tempo.
— Você criou… sua arte — murmurou o dançarino, emocionado e profundamente orgulhoso — esplêndido.
O último golpe ígneo explodiu no sopro quente do ar, as chamas se desfizeram em fagulhas. Huo’ying retornou à postura inicial, isenta do fogo.
A quietude decretou o fim da dança marcial.
Notando o descanso alheio, a princesa caminhou até a cama e tomou a mão do pai com cuidado, temendo quebrar o que já parecia distante.
A pele estava mais fria do que antes.
— Não se preocupe com sua dança. O mundo ainda a verá através de mim…
Os dedos do velho não responderam. Huo’ying os apertou com mais força, inclinando-se um pouco, esperando por um sinal que nunca vinha.
Então, ela percebeu.
— … Descanse em paz… pai.
O sorriso ainda permanecia no rosto dele, sereno e iluminado por uma alegria eternamente fixada.
A princesa manteve a mão do pai que partira, pois sentia que se soltasse-a, daria aquela despedida como definitiva.
Aos poucos, porém, seus dedos afrouxaram.
O mundo não havia parado. Nunca pararia.
Além daquele quarto, o tempo continuava seu curso indiferente, e com ele, o futuro a aguardava.
Para que o legado daquele velho dançarino fosse honrado, a nova arte atravessaria uma verdadeira prova de fogo, uma que não apenas testaria seu poder, mas também cravaria, de forma irrevogável, o rumo doloroso de sua curta vida…

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