Antes de continuarmos a jornada principal, vale um aviso: este capítulo faz um pequeno “desvio” no caminho.
Os “Interlúdios” são pausas breves na narrativa de Shihais. Neles, a história respira por um momento e abre espaço para acontecimentos paralelos, pontos de vista de outros personagens, fragmentos do mundo ou… situações a-b-sur-da-mente cômicas para a diversão dos meus queridos leitores.
Embora não avancem diretamente o enredo central, esses capítulos ajudam a enriquecer o universo da história e aprofundar as relações entre os personagens.
Resumindo: são praticamente fillers… 😂
Pense neles como um olhar pelos bastidores de Shihais, então, pra quem gosta do mundo que estamos construído aqui, vale muito a pena acompanhar! 😊
Aproveite a leitura!
Interlúdio I - Um verdadeiro presságio
A vista acima era um quadro tranquilo, pintado em tons de azul claro e pincelado por nuvens preguiçosas que deslizavam lentamente nos céus.
Iluminando aquela arte, um sol brilhava ameno, onde a luz era filtrada por folhas de outono no alto de pinheiros.
“Uma floresta?”
Cantos distantes de pássaros chegavam aos ouvidos de Akemi, enquanto sapos coaxando complementavam a melodia daquele ambiente vivo e… um tanto surreal.
“Onde estou?”
O rapaz recebeu uma brisa leve no rosto, e numa piscada, percebeu-se andando sobre folhas secas, como se já estivesse no meio de uma jornada há muito tempo iniciada.
Estranhamente, ele não se lembrava de quando iniciou a caminhada, e quando olhou para frente, uma cena o intrigou:
Uma figura jovial e graciosa, iluminada pela luz solar, passeava pelo caminho de folhas caídas entre pinheiros e arbustos. Tratava-se de uma garota de cabelos escuros com imperceptíveis toques vermelhos e kimono laranja.
Por um momento, Akemi pensou em não incomodá-la, mas uma incerteza o atingiu. “Uma… menina? Quem é? E por que ela parece tão familiar?”
A garota virou o rosto, e num lampejo, foi reconhecida. O brilho nos olhos, o sorriso meigo, vinha de Hiromi Miyazaki.
— Miya?
Ainda em silêncio, Miya voltou os olhos para o caminho adiante, onde o fenômeno de momiji1 embelezava a travessia.
— Miya, por que estamos aqui?
A garota apenas gesticulou para que fosse seguida.
Akemi acenou positivamente, mas, rapidamente, perdeu o foco nos arredores, admirando a beleza da floresta. “Estranho, parece que há algo mágico aqui.” Seu corpo ficou mais leve, o simples ato de andar lhe trouxe uma calmaria indescritível.
Seu coração estava em paz.
“Por que estou com essa sensação? É como se tivesse alguma presença divina por perto… me observando.”
A natureza acolhia o jovem, tornando-o um com a floresta outonal. Uma mente estava dominada.
Entretanto…
“Espera… o-onde ela foi!?”
Miya sumiu.
Naquele momento, Akemi deu-se conta de que estava sozinho, encontrando apenas troncos de árvores e arbustos nos arredores.
Tudo parecia igual, tudo parecia… solitário.
— Miya! Onde você foi!?
Pensamentos aceleraram junto de passos.
“Caramba! Não achei que ela fosse desaparecer do nada! Onde ela está!? Por que ela sumiu sem me avisar…? Ela me deixou?”
— Miya!
Complementando a falta de respostas, a floresta mergulhou em uma quietude assombrosa.
O suor frio chegou no garoto. “Calma, Akemi! Ela só deve ter se escondido! Mas por que? Por que!? Pra… pra me… assustar…? Eh-é! Ela tá querendo me assustar! Só pode ser isso, hehe”, um sorriso trêmulo apareceu naquele rosto desesperado, onde os olhos observavam os arredores enquanto o desconhecido era percorrido…
Sorrateiramente, um farfalhar2 quebrou o silêncio próximo a um arbusto avermelhado.
Alertado, Akemi parou bruscamente. “O-o que foi isso…?! Tem alguém ali?”
O brilho de um par de olhos verdes entre as folhas trouxe um grande alívio.
“Ufa, ela está ali.”
— Miya! — chamou Akemi, de braços abertos — por que você tá se escondendo aí? Não adianta mais tentar me assustar, eu estou te vendo — tomado pela curiosidade, ele se aproximava com cautela. “Por que ela não diz nada?” Com a proximidade, o sumiço das respostas aumentou a suspeita. — Miya, por favor, não faça esse tipo de suspense comigo. Anda, sai daí.
A pressão crescente escancarou o medo.
Algo estava errado. Muito errado.
Os olhos verdes seguiam fixos, imutáveis.
De repente, o arbusto se agitou.
“… Mas o que é isso?”
Algo grande se mexeu nas folhas, e a atmosfera reagiu à presença. Uma onda invisível vibrou o ar ao redor do arbusto.
A floresta inteira pressentiu a vinda de algo inevitável e poderoso: pássaros dispararam voos dos galhos, soltando gritos agudos; outros animais escondidos entre as folhagens se agitavam, emitindo mais sons aterrorizantes.
Daquele modo, a ameaça emergiu do mato: uma figura colossal, um tigre feroz com olhos peridotos3 e músculos ondulantes sob a pele alva de listras negras.
Afetando o ar distorcido, uma aura obscura, opaca e pulsante, envolvia a fera, tornando-a um ser imponente capaz de engolir a luz do sol.
O pânico derrubou Akemi de cóccix no chão coberto de folhas. O que estava adiante não era humano, nem sequer um tigre comum; e não, definitivamente não era uma besta qualquer.
“Um Byakko!”
Segundo a lenda, aquele espírito guardião aparecia somente quando o mundo estava em paz e não havia guerras, um símbolo de força, poder e proteção. Mas o que deveria ser a representação da nobreza, daquela vez, mostrava-se tudo menos puro.
O Byakko estava corrompido.
Dentes afiados e imensos se revelaram, o rosnado da arcada felina precedia o fim da vida para um jovem, e a cada passo que o ser feroz dava tornava a floresta ainda mais escura.
“Achei que espíritos não existiam! E se existem, eles não deveriam ser bons!? Isso é a morte em pessoa!” Akemi percebeu que o Byakko não o olhava nos olhos, mas sim, na alma. Era um olhar profundo e além da simples ferocidade; era um olhar que compreendia, que reconhecia o temor da presa. — … A-ag… — ele tentou um grito, mas a voz não saiu direito, confundindo-o.
Durante a aproximação, o espírito crescia mais e mais.
“Eu tenho que fazer alguma coisa!” Akemi queria correr, queria gritar, mas o corpo não respondia, sentindo-se um mero brinquedo das garras que lentamente avançavam de forma implacável. O terror o mantinha preso no chão como uma âncora invisível, e naquele instante, o Byakko estava tão perto que o jovem sentia a respiração quente em seu rosto.
Entretanto, quebrando as leis do intrínseco, o ataque da fera nunca vinha.
— Ngh! — Akemi aceitou o trágico destino trágico e fechou os olhos, porém, quando os abriu novamente, percebeu que seria melhor se tudo aquilo fosse realmente um sonho…

[ 28 de abril de 1922, Sala 1F, às 6h da manhã. ]
Enquanto Akemi permanecia entre o mundo dos sonhos e a realidade, sua mente pensava pensando no pesadelo que tivera…
Aos poucos, uma luz entrou em seus olhos fechados, mas foi outra sensação estranha que o incomodou. “O que é isso? Tem algo em cima de mim?” Ele questionou a própria sanidade e abriu os olhos para a realidade.
Em cima dele, Nikko o encarava como uma fera prestes ao bote. Nos olhos verdes, pupilas dilatadas de um predador eram iluminadas pelo instinto selvagem.
Na garota, a ira era representada por uma densa aura escura emanando a sombra da fúria. Mas na realidade, os detalhes exagerados não passavam de uma miragem criada pelo rapaz amedrontado.

“Ai, caramba! Pelo visto tudo aquilo não era falso!”
— Ah! Olá, Nikko! É… Bom dia?
Mesmo com o cumprimento do garoto, a intenção assassina e a luz vingativa nos olhos não cediam.
Vagarosamente, Nikko se aproximou do rosto do alvo. — Você é um garoto muito corajoso — ameaçou ela, fria.
Akemi continuava afetado pelo medo e, obviamente, pelo constrangimento, afinal, não era todo dia que uma pessoa estava literalmente em cima dele. — E-então, posso saber o que aconteceu?
Voltando ao “normal” na visão do garoto, Nikko afastou o rosto, estufou o peito e colocou as mãos na cintura. — Você ainda tem a audácia de me perguntar!? Tá ficando maluco!?
Akemi procurou em sua mente o que diabos causou tanta intriga. “Mas… o que eu fiz? O que será que eu… Pera aí…”
A resposta se formou.
“Droga.”
Lembranças do que fizera antes do sono trouxeram um profundo sentimento de culpa.
— Ah! Hehe, olha… eu não fiz por maldade. É que-
Nikko agarrou Akemi pelo colarinho do gakuran e puxou-o para perto. — Quer escapar dessa, é? Achou mesmo que eu não iria descobrir!?
Akemi uniu as mãos em desespero. — POR FAVOR, ME PERDOA! TAVA MUITO BOM E EU JÁ NÃO ME AGUENTAVA MAIS! EU PRECISAVA MUITO DAQUILO!
— EU VOU É TE DEIXAR CARECA! — gritou Nikko, agarrando o couro cabeludo de Akemi e dando fortes puxões, sacudindo-o para frente e para trás impiedosamente, bagunçando os fios castanhos com a ajuda das leves rajadas de vento; aparentemente, uma aura saía de controle.
— A-AI AI! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?! PARA! — Em vão, o garoto lutava para que afastasse as mãos que o prendiam. A cada tentativa, a esperança pela liberdade deixava claro que ele não seria solto tão cedo. “Essa menina é o demônio!”
Mas em meio ao caos, a porta do dormitório foi aberta, revelando alguém na entrada.
— Que barulheira é essa? — Vestida em seu seifuku da ASA e presilhas de chamas, Miya entrou no local com uma leve preocupação, e quando olhou à direita… — Gente! O que deu em vocês!?
Nikko não tirava os olhos e as mãos de Akemi. — ESSE DESGRAÇADO COMEU TODOS OS MEUS TAIYAKIS! EU VOU MATAR ELE!
Histérico entre um puxão e outro, Akemi se defendia falhamente. — EU TAVA COM FOME! ME DISSERAM QUE EU PODIA COMER! EU JÁ PEDI DESCULPAS!
Miya cruzou os braços em uma pose crítica. — Akemi! Eu disse que você podia comer só os que te entreguei!
No entanto, talvez aquela não fosse a melhor das respostas…
Subitamente, Nikko cessou seus ataques, e com as pupilas de caça, encarou Miya. — Então foi você quem explanou o esconderijo dos meus bolinhos.
— Você literalmente deixou na gaveta de cima do seu criado-mudo, chama isso de esconderijo?
— COMO ÉÉÉ!!!??? — Nikko saltou da cama e disparou em direção à recém-chegada, assustando-a. — EU VOU TE PEGAR, SUA BISCAAATE!!!
Num segundo, Miya saiu do dormitório e fechou a porta numa batida.
Bam!
Nikko puxou a maçaneta, mas a força do outro lado se sobressaiu, irritando-a. Bam, bam, bam! — Ei, larga essa porta!
— Ni, para com isso! — alertou Miya — já são quase seis da manhã e vocês ainda não se arrumaram! Não temos tempo pra brincadeiras, se apressem logo!
Após momentos de hesitação, Nikko finalmente soltou a maçaneta, alongando o silêncio em uma pausa dramática.
Ela respirou fundo, inflou as bochechas e cruzou os braços, batendo o pé no chão de forma impaciente. — Hmpf! — Olhos fechados esquivaram-se para o lado, evitando qualquer contato visual com Akemi, que por sua vez, reagia instintivamente, tremendo e encolhendo-se debaixo do cobertor, deixando de fora apenas os seus olhos assustados refletindo o pavor de um pequeno animal encurralado.
No fim, entendeu-se que a comida de Nikko era intocável…
- Momiji: uma palavra asahiana que significa “folha vermelha” ou “folha de bordo”, e se refere principalmente às folhas de outono.[↩]
- Som de folhas ou ramos se mexendo.[↩]
- geralmente verde-esmeralda ou verde-claro, podendo contudo, apresentar variantes de coloração amarelo-esverdeado, verde-acastanhado ou castanho.[↩]

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