Interlúdio V - Primeiros resultados oficiais
O fim da tarde caía em tons alaranjados e empurrava sombras compridas contra as estruturas da ASA. A muralha do quartel bloqueava o pouco sol que restava, mergulhando o prédio principal num brilho morno enquanto a agitação continuava em seu interior.
Ao lado de uma porta de correr no térreo, Nikko Ichikawa estava prestes a explodir: a ponta de um pé batendo no chão, as mãos na cintura e a paciência pendurada por um fio revelavam a inquietação que balançava o seifuku da ASA. “Por que esse garoto tá demorando tanto? Ele disse que só daria uma olhada no próprio estado, mas já se passaram vinte minutos desde que saímos daquele castelo maldito!”
A garota ergueu a cabeça, lembrando a sensação ruim do buraco negro roxo que quase os engoliu. “Argh, como aquela garota de cabelo lilás foi desagradável! E aquele… aquele evento todo foi aterrorizante!… Bom… pelo menos saímos vivos no final de tudo aquilo.”
BAM!!! A porta se escancarou e bateu com força contra o batente. Nikko saltou um palmo do chão pelo susto.
— Tô novo em folha! — Minoru Suzumura apareceu de peito estufado, vestido em seu gakuran limpo e, de certa forma, irritantemente alegre.
— Ô, garoto! Ninguém te ensinou modos?
O rapaz abanou as mãos em um “chega pra lá”. — Modos são superestimados. Mas olha só — ele apontou no peito com orgulho — nem parece que levei uma espada atravessada aqui, né? A Aruni faz mágica!
Nikko cruzou os braços e desviou o rosto. — É… bom saber que você tá inteiro de novo. Fiquei preocupada, sabe.
— Preocupada? — Minoru abriu um sorriso. Aquele sentimento de preocupação alheia era raro. — Sério mesmo?
— Claro que fiquei, seu idiota! — Nikko o encarou com a raiva controlada nas bochechas levemente coradas. — Você quase morreu! Qualquer pessoa normal ficaria preocupada!
— Hum — Minoru se aproximou um passo e abaixou o tom de voz — mas você ficou mais preocupada do que uma “pessoa normal” ficaria, não é?
— Q-quê!? Do que cê tá falando!?
— Ah, nada — Minoru deu de ombros, mas o sorriso de canto permaneceu. — Só achei interessante você ter ficado o tempo todo do meu lado.
Nikko virou o rosto de volta pra ele, os olhos verdes brilhando com indignação misturada com algo mais. — Fiquei perto porque você tava trôpego1! Não queria ver mais alguém do meu grupo se ferindo atoa. Devia me agradecer por isso!
Minoru cruzou os braços, desafiando. — Agradecer, é? Então por que você tá com a cara toda vermelha agora?
— MINHA CARA NÃO TÁ VERMELHA!
— Tá sim.
— NÃO TÔ! Aaargh! Por que você insiste em me provocar! — Nikko virou as costas bruscamente. — Sabe de uma coisa? Vamos logo ver as notas dessa PAA ridícula antes que eu te bata!
— “He hiii”, é você quem manda! — Minoru seguiu atrás.
Mas a garota parou e o olhou no fundo da alma com aquelas íris predatórias e assassinas que um dia pegaram Akemi de surpresa. — Você imitou minha risada?
Percebendo a fera que se formava adiante, o jovem massageou a nuca e atravessou a garota cautelosamente, suando frio e rindo sem graça. — Haha, pois é, né? Ó, só pra constar, eu também fiquei bem preocupado com você, tá?
— TU É UM HOMEM MORTO! — Nikko disparou uma sequência de socos rápidos e indolores nas costas do garoto, em um ritmo acelerado como tambores furiosos. Os impactos vinham um atrás do outro sem pausa, empurrando o rapaz alguns centímetros pra frente.
— A-ai ai! E-hei, para com isso! Faz cócegas! — Entre risos, Minoru se defendia erguendo os braços e andando para trás. A insistência da garota o empurrava.
Os dois seguiram pelo corredor em direção ao quadro negro do lado da recepcionista, onde já havia um grupo de alunos aglomerados.
Mayumi Sanada mantinha-se atenta a um folheto afixado. Os irmãos Yamamoto liam o mesmo em silêncio. Kyoko Shimizu, de braços cruzados e olhos fechados, parecia desligada do mundo, e Akemi Aburaya estava um passo atrás, lendo o folheto por cima do ombro de Aruni.
— Então… — começou ele, inclinando a cabeça — alguém consegue me explicar o que aconteceu aí?
Mayumi passou o dedo pela lista, estreitando os olhos verdes. — Isso não faz sentido. Todos os grupos completaram pelo menos parte dos desafios.
Sho analisou. — Talvez o critério de avaliação tenha sido diferente do esperado. A Tenente-coronel Shimizu mencionou algo sobre “aptidão áurica em situação crítica”, mas os parâmetros exatos nunca foram especificados.
Passos acelerados se aproximaram pelo corredor.
— Oi, galera! — Nikko chegou animada com Minoru logo atrás, mas quando apontou ao companheiro, retornou ao seu cinismo. — Desculpa a demora, esse aqui ficou se admirando no espelho da enfermaria.
— Olha que mentira! — protestou o acusado — eu só tava checando se a cicatriz tinha sumido! — Ele se espremeu no grupo, empurrando Akemi pro lado com um cotovelo amigável, e encarou o folheto.
Três segundos de silêncio absoluto.
— … Espera.
Nikko apertou os olhos e avançou o rosto direto na folha. — “Primeira Prova de Aptidão Áurica: Situação de Resgate Áurico, Turma 1F, Instrutora responsável: Tenente-coronel Hisako Shimizu…” blá, blá, blá… Ah! Achei as notas!

— … Z-ZERO?! — O grito de Nikko reverberou pelo salão quase vazio, revirando os olhos da recepcionista gótica pela irritação.
— E lá vai mais um aluno decepcionado — caçoou Akemi.
Minoru apontou pro papel, incrédulo. — Qual é, eu também tirei zero!? Isso tá errado… Todo mundo tirou zero!?
— Até a Kyozinha ficou zerada — Nikko disse, boquiaberta — como isso faz sentido se ela era a refém do desafio?
— Avisei muito antes que nem me daria ao trabalho de participar dos desafios ridículos daquela velha maluca. Ela me forçou a entrar, e ainda assim, nenhum ponto — Kyoko cruzou os braços mais forte. — Que seja. Onde já se viu ter que ser uma boa refém?
Minoru passou a mão pelo rosto, exasperado. — E quem tentou de verdade também ganhou nada!? E os desafios que fizemos antes disso!? As kunoichis, as estátuas, aquele Kenshi gigante!? Nada serviu!?
— É exatamente isso que estávamos discutindo — salientou Mayumi, focada no papel — a teoria é que falhamos no objetivo principal: salvar a refém sem intervenção externa.
Nikko gesticulava sua frustração. — Mas aquilo era impossível! A Rin criou um buraco negro! UM BURACO NEGRO! Como a gente ia lidar com aquilo!?
Sho ajeitou os óculos de maneira reverente. — Tecnicamente, a classificação correta seria um vórtice de distorção espacial com propriedades similares a um horizonte de eventos, mas sem a singularidade real que caracteriza um-
Kyoko cortou com os dois olhos abertos. — Ninguém pediu uma aula de física áurica, garoto.
— Desculpa — murmurou o animado, ainda reluzente enquanto lembrava da cena espacial.
Minoru seguia passando o dedo no papel. — Tá… mas nem todos tiveram a mesma nota. “Hiromi Miyazaki: ‘NC’”… Que diabos é “NC”?
— Não calculado — respondeu Akemi.
Nikko rebuscou outros detalhes. — Hm, eu realmente não vi mais a Miya depois da aula teórica do instrutor Masaru… Onde será que ela tava aquele tempo todo?
Minoru soltou um assobio baixo. — Caraca, deve ser bom ter essa liberdade toda. Mas não julgo a ausência dela, conhecendo aqueles punhos de fogo desde o Instituto Taira, ela com certeza teria um desempenho invejável.
— Falando em desempenho… preciso te dizer uma coisa, Akemi — chamou Mayumi, olhando para o garoto.
— O-o que aconteceu? — indagou, surpreso.
— Você serviu de muita motivação nos andares iniciais do castelo — disse ela, direta e sincera. — Além de me ajudar a superar minhas fraquezas, você foi de suma importância quando me convenceu a entregar a katana ao Sasaki. Eu estava prestes a agir baseado no orgulho que adquiri em minha família, e você me fez quebrar aquela barreira emocional e realmente servir ao time da forma mais eficiente, embora nada tenha saído como planejado, obrigada pela sua ajuda.
Não teve como, Akemi perdeu o jeito. — A-ah! Ééé… e-eu só… achei que fazia sentido, sabe? A espada era sua, mas o Hikaru era mais rápido naquele momento específico.
Nikko colocou uma mão no ombro do colega carismático, seu sorriso voltou ao rosto. — He hiii! E eu também queria dizer uma coisa, Akemi! Você sempre se prontificou quando a situação precisou. Mesmo sem saber se daria certo, você se saiu super bem nas vezes em que te joguei pelos ares com o vento! Suas tentativas foram essenciais para a progressão do time, e eu me diverti bastante!
— Ah, para — Akemi riu baixo, levemente vermelho — eu só fiz o que devia ser feito.
— Negativo — Minoru tocou o outro ombro do colega. — A maioria das pessoas desse mudo teria congelado de medo, e olha, vou ser sincero: você errou. Tipo, errou feio quando eu tive que salvar a sua pele, e errou mais feio ainda quando acertou aquele raio no Nihara em vez da oponente correta. Mas sabe o que eu reparei? Você demonstrou que no fim, independente da dor ou da culpa, você se permite continuar. Você quer sempre procurar a melhor forma de contornar as situações. Isso é resilência de verdade!
Akemi ficou quieto por um momento, seus olhos marejaram sorrateiramente. Entretanto, um pigarro limpou a garganta e retomou a compostura honrada. — Obrigado, pessoal. Sério. Mas… eu jamais teria ido tão longe se não fosse por vocês três.
Ele olhou pra cada um.
— Mayumi, você me educou. Me mostrou que existe a hora de ceder controle e confiar nos outros, que orgulho pode ser um obstáculo e que o trabalho em equipe vale mais que ego individual.
A ruiva assentiu feliz, contrastando o semblante normalmente sério.
— Nikko, você me motivou. Sempre com essa energia absurda, sempre me lembrando que dá pra enfrentar as coisas com coragem e até dar risada no meio do caos. Você faz tudo parecer menos impossível.
A extrovertida abriu um sorriso largo abaixo dos olhos brilhando em verde. — He hiii! Pode contar comigo pois esse é o meu trabalho! — Um joinha animado foi estendido.
— E Minoru… Você me protegeu. Literalmente. Além de ser perfurado por uma lâmina no peito pela minha falha em guarda, você demonstrou que está apto a defender os outros mesmo que isso te machuque. Isso… isso é algo que eu nunca vou esquecer, e quero aprender muito com isso.
O confiante sentiu-se homenageado, e bateu o punho contra a mão. — Haha, se quiser eu te ensino umas manhas sobre como se servir de escudo humano.
Antes desconhecidos dos detalhes da trajetória do Grupo Fênix, os irmãos Yamamoto se emocionaram com os belos relatos. Kyoko, como sempre, “cagava e andava” para tudo, qualquer coisa que lembrasse aquela maldita prisão no castelo de gelo traria à ela o mais puro ódio.
— Mas aquilo não devia ter acontecido — alertou Akemi a Minoru, sério — e prometo que vou melhorar. Vou treinar mais, vou pensar melhor nas estratégias, vou-
Nikko deu um tapa nas costas dele que quase o derrubou. — Já chega de drama, a gente entendeu. Agora vamos focar no que importa: descobrir por que diabos todo mundo tirou zero e se isso vai afetar nossa permanência na academia.
Aruni continuava apertando as mãos, preocupada. — E-eu espero que não… Seria terrível ser mandada embora logo nos primeiros meses…
— Relaxa — disse Kyoko — a ASA não expulsaria a turma inteira. Só estão mandando um recado: a missão na Floresta Estelar é daqui alguns dias, e ainda somos fracos demais pra sermos chamados de recrutas, quem dirá shihais.
Akemi olhou pro chão, pensando. “Ela tem razão. Fomos completamente dominados pela Kurosawa, que tecnicamente é uma aluna iniciante da academia. Se não fosse pelo Shihai do Tempo, o Nihara estaria… morto? Haah, nem eu sei se minha aura me salvaria do pior. Talvez realmente tenhamos muito chão pela frente.”
— Falando nisso — ressaltou Nikko, olhando ao redor — cadê o resto da turma?
Mayumi respondeu calmamente. — Alguns viram a nota e saíram exaltados, outros olharam com indiferença como se já esperassem ver algo parecido, e ainda tiveram os que nem apareceram pra checar.
— E onde eles estão agora?
— Espalhados por aí — respondeu Kyoko — estamos liberados pro horário de intervalo noturno. Alguns devem estar fazendo treinamentos extras, outros descansando, outros sei lá o quê.
Nikko intrigou-se por uma aluna em específico. — Mas… e a Rin? Ela tava em péssimo estado no final. O corpo dela tava literalmente se despedaçando por causa daquela… — uma palavra fugiu.
— Singularidade? Ah, sim — relembrou Kyoko, meio sarcástica — aquela condição áurica é realmente devastadora. A Kurosawa tá descansando no nosso quarto. Pediu privacidade total. Acho que ela quer pensar um pouco sozinha.
— Mas ela tá bem? Tipo, fisicamente? — questionou Sho, tomado pela preocupação mal disfarçada.
— Por que você se importa tanto? — investigou Kyoko, claramente acusatória.
Sho ficou vermelho. — E-eu só tô preocupado com uma colega de classe!
Aruni puxou levemente a base do gakuran do irmão. — S-Sho, todo mundo percebeu que você fica olhando pra ela durante as aulas…
— EU NÃO FICO!
— Fica sim — concretizou Minoru.
— Ô se fica — concordou Nikko.
— Totalmente — acrescentou Akemi.
Mayumi assentiu com a cabeça.
— GENTE! — gritou Sho, completamente vermelho. — Eu só acho a aura dela fascinante do ponto de vista científico! É uma anomalia áurica extremamente rara, e desafia nossa compreensão atual sobre manipulação elemental! Claro que eu ia prestar atenção!
— Sei — julgou Kyoko, discretamente descrente. — De qualquer forma, ela tá bem. Ou pelo menos fisicamente inteira. O emocional… é outra história.
Nikko mordeu o lábio, ainda preocupada. — E a Miya? Alguém viu ela depois que o desafio acabou?
Akemi abriu a boca, hesitou, e então falou. — Eu sei onde ela tá.
Todos os olhares se viraram pra ele.
— Você sabe!? — indagou Nikko — Como?
Akemi deu um meio sorriso. Possivelmente ele falou demais; e quando olhou para o relógio de parede atrás da recepcionista, percebeu que faria uma corrida contra o tempo. — E-então… E-ela tá num lugar… secreto. Super secreto! E eu preciso ir pra lá agora, se não ela vai me torturar até que meus ossos virem pó! Até mais! — Com a maior pressa do mundo, ele acenou em despedida e saiu correndo pela entrada do prédio principal.
Todos os jovens ficaram desentendidos perante aquela saída que mais pareceu uma fuga, exceto a recepcionista, que misteriosamente no fundo de seu coração, se divertia e sentia nostálgica presenciando toda aquela afobação energética.
— Hum, juventude — riu ela, voltando ao livro que lia.
Lá fora, o sol finalmente se pôs por completo, e a noite cobriu a ASA com seu manto estrelado.
O primeiro dia de verdadeiros desafios havia terminado.
Mas a jornada de Akemi Aburaya estava só começando.
Ao centro do dojo iluminado apenas pelo brilho âmbar das tochas nos pilares de jade, Hiromi Miyazaki meditava sozinha, esperando pelo próximo treino onde moldaria aquele garoto elétrico e receoso de essência em algo maior.
Algo que, talvez, mudaria suas relações de uma vez por todas…
- andando com dificuldade[↩]

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