Índice de Capítulo

    Akemi ficou visivelmente constrangido e tímido pela ação repentina de uma desconhecida curvada em perdão; foi um abraço súbito e impessoal, como quem avistasse um conhecido distante após anos de separação. Não houve calor naquele gesto, apenas uma formalidade estranha que deixou o garoto sem reação por alguns segundos.

    A Miyazaki também parecia envergonhada pelo que vez, mas no fundo de seus olhos verdes, via-se uma forte concentração, pois aparentemente, havia ali o desejo por uma conversa importante; para tal, era preciso um sorriso. — Então, seu nome é Akemi, não é? Que nome bonito! — elogiou ela, enrolando uma mecha vermelha do cabelo e oferecendo um cumprimento — prazer em te conhecer!

    — O-o prazer é todo meu — receoso, Akemi correspondeu ao aperto de mãos e notou de imediato a rigidez daqueles dedos. Não foi a delicadeza que esperou de uma mão tão delicada por fora: foi um aperto forte, confiante, de alguém acostumado ao posto de comandante. A pele era quente, com a textura de alguém que treinava constantemente. “As mãos dela tão firmes demais pra quem age com tanta casualidade… e o cheiro desse perfume… parece caro e refinado. Definitivamente não é qualquer pessoa.”

    — Vem comigo.

    Akemi mal escutou o pedido, mas não foi necessário. — Eu? Espera, pra onde você v-AAAAH!!! — A garota puxou sua mão direita com força, descendo as escadarias num ritmo alucinante. — EI! EU VOU CAIR DESSE JEITO!

    Passos batiam contra os degraus em alta cadência enquanto Akemi tropeçava. No amplo térreo, ambos cruzaram o hall de entrada ainda em velocidade.

    “DE ONDE TIRARAM TANTA FORÇA DESSA MENINA!?”

    A recepcionista de vestido gótico ergueu os olhos por um segundo e observou os dois jovens disparando ruma à porta principal. Depois voltou ao lixamento de unhas com a mesma expressão tediosa de sempre.

    Cap-15-Scene-1


    Do lado de fora, Akemi finalmente foi solto com o fôlego irregular.

    Próxima, a jovem curiosa inclinou a cabeça. — Você tá bem?

    Uff, eu… uff… eu acho que sim — um sinal de “ok” assegurou.

    — Ótimo! — A garota iniciou uma caminhada pelo pátio da ASA com as mãos cruzadas atrás das costas, exibindo uma postura ereta e confiante que parecia ensaiada desde a infância.

    “Ela veio atrás de mim? Por quê?” Akemi ficou parado por um momento, observando-a seguindo em frente pelo caminho de brita sem que olhasse para trás. “Não, eu não tenho que ficar pensando nisso! Tenho que dar o meu máximo pra conhecer pessoas novas independentemente se as verei de novo!” Ele apressou os passos e alcançou-a. — Com licença! Por que você tava me procurando?

    A menina o olhou com uma ternura amigável, demonstrando uma felicidade radiante enquanto andava. — Você é interessante. Tenho certeza de que podemos nos entender muito bem.

    O comentário pegou o garoto de surpresa.

    “Hã!? Como assim ‘entender bem’? Mal nos conhecemos! Mas no fundo, sinto quase como se ela tivesse… me avaliando?”

    — Ah, seu nome é Akemi mesmo, né? Posso te chamar assim?

    Embora em Asahi um chamado pelo primeiro nome indicasse proximidade, a forma como Miya fez a pergunta soou mais prático que pessoal.

    — Bom, acho que não tem problema.

    — Certo!

    Enquanto ambos seguiram em silêncio, Akemi sentiu-se incomodado por uma coisa. Porém, a questão na qual o ansiava parecia difícil demais para alguém que nunca conversou com uma garota de mesma idade antes. — Éhm… você não vai… dizer o seu nome?

    A jovem parou bruscamente. Akemi deu mais dois passos e virou-se quando percebeu, confuso.

    — Você… não sabe meu nome? — A pergunta veio incrédula.

    O rapaz reencontrou-se com o sentimento de culpa, nada o salvaria do vexame. — A-ah! Perdão! Eu… eu sou novo por aqui, então eu não conheço muito as pessoas — ele abaixou a cabeça, relembrando o passado e o presente — é tudo muito novo pra mim, e talvez eu nunca tenha pertencido a esse lugar.

    Vários sentimentos ruins inundaram a mente do garoto: a vergonha pela ignorância, a tristeza pela derrota, e a dor pela conclusão de que nada daquilo fosse o que imaginava.

    Todavia, diante dele, estava alguém que mudaria tudo. 

    — Me chamo Hiromi Miyazaki! Mas se quiser, pode me chamar de Miya!

    Akemi levantou a cabeça, e viu a proximidade da garota irradiando confiança e alegria contida, como se estivesse orgulhosa de um tesouro encontrado. No caso, o desconhecimento do seu nome não a chateava, muito pelo contrário, a aliviava. 

    — Você não me odeia por não saber seu nome?

    — Jamais! Mas me surpreende que você não sabia meu nome. Eu venho de uma família nobre… e sabe, tô cansada do apreço exagerado que demonstram por mim apenas por causa da minha herança. Só queria uma amizade normal.

    “Ela quer minha amizade…? Ela quer minha amizade! Só que pera aí, olhando de perto…”

    O rosto da garota confirmou o que Akemi já suspeitava desde o momento em que viu aquele cabelo bicolor e olhos esverdeados.

    A semelhança era inegável. Naomi Miyazaki, a lendária marechala que comandou inúmeras operações de proteção a Asahi, a ex-matriarca da Família Miyazaki cuja morte em combate chocou o país inteiro anos atrás.

    Akemi lembrava vagamente sobre ela em jornais antigos que lera, destacando genialidade tática e técnicas revolucionárias de dobra de fogo.

    Contudo, informações sobre sua morte eram escassas, muitas vezes, evasivas.

    “Se essa garota é filha dela… então não estou diante de uma Miyazaki qualquer.”

    Aquilo explicaria muita coisa: postura, confiança, movimentação, fala. Miya não era apenas uma jovem áurica talentosa; ela estava sendo preparada desde criança para as posições mais importantes de Asahi.

    Akemi sentiu a curiosidade crescendo e quis a confirmação dos fatos que comentou com Sho, mas sabia que questionamentos sobre a vida e o passado de uma garota que provavelmente passou por inúmeras responsabilidades seriam invasivos. O processo de seleção do matriarcado também era uma dúvida, e bem provavelmente a resposta se encontrava num sigilo envolto em tradições ancestrais que não cabiam ao conhecimento de pessoas fora da família ígnea.

    No fim, os questionamentos se deram por um elogio sincero. — Eu costumava acompanhar a sua família em jornais e livros de história. Mal posso acreditar que tem uma integrante bem ao meu lado que… não queira me matar.

    — Hihi, relaxa, não vou te machucar. Fico lisonjeada pelo seu fascínio — Miya levou uma mão à cintura e olhou de soslaio, divertindo-se — mas me conta aí, você é o garoto inscrito de última hora nas lutas, não é?

    “Como ela sabe disso!?”

    — S-sim, eu e mais um cara chegamos hoje à tarde, mas… parece que só o bobo aqui não sabia que ia lutar. Que otário…

    — Você não sabia da prova física?

    — Não. É uma longa história.

    A jovem curvou-se honrosamente. — Peço perdão pela nossa falta de hospitalidade.

    Akemi se curvou também, constrangido. — Ah, não se preocupe! Eu escolhi vir aqui por vontade própria. Mesmo que ninguém tenha me avisado sobre o que aconteceria, você não tem culpa. Eu que deveria ter me informado melhor antes de criar expectativas na minha cabeça.

    Miya retomou a postura e tocou delicadamente o centro do peito. — Parte dessa culpa é minha. Os Miyazaki e parte do Exército Asahiano são os responsáveis pela ideia das lutas.

    — Eita, não imaginava que vocês tivessem tanta influência sobre a instituição.

    — Não sei como te chamaram, mas esse método de ingresso na ASA é novo, pouca gente conhece — a caminhada foi retomada. — Depois da nossa guerra recente, muitos jovens se recusam a entrar no exército. O baixo número de shihais em atividade deixa o governo desesperado por novos recrutas. Seja lá quem te inscreveu pra aquela luta, com certeza ocultou os detalhes por medo de uma possível desistência sua.

    — Hm, seu relato me faz pensar muito. Mas pelo que vi, ainda temos pessoas fortes e promissoras aqui.

    — Hoje em dia é difícil achar jovens áuricos que desejam se tornar shihais, e os que querem, agem como você viu na arena. É repugnante.

    — Você também não gosta dessa violência?

    — O que me chateia é a maneira como minha família trata os jovens que entram naquela arena. Toda essa brutalidade é incompatível com a paz que afirmam que nosso país deseja.

    “É exatamente o que eu disse!”

    — É-é, não se preocupe! Mesmo que essas situações insanas aconteçam, no final, ninguém sai ferido.

    — Independente. Como você mesmo disse, ver jovens lutarem contra os da mesma pátria é revoltante. Suas palavras dentro da arena me tocaram, e é por isso que estou falando com você agora.

    Akemi ficou sem jeito. — … O-obrigado! Hehe, espero não causar problemas daqui pra frente por conta dos meus poderes descontrolados.

    — Saiba que você já tem a minha torcida — declarou Miya, e pela primeira vez desde que iniciaram a conversa, um brilho genuíno alcançou os seus olhos — até porque… a sua aura… ela parecia agir por conta própria pra te proteger das chamas, foi impressionante!

    — Então, eu também não sei o qu-

    — Olha! Um banco! — Miya apontou para um banco vermelho próximo, e interrompendo, agarrou a mão do garoto e puxou-o na direção.

    “Por que ela é assim!?”

    Sentados lado a lado, Miya tomou uma postura analítica. — Sabe, Akemi, eu tenho uma pergunta. Qual é o seu sonho?

    — Meu sonho?

    — É! Você deve ter algum objetivo na vida, não?

    — Bem, eu queria entrar na ASA e… ser um shihai, mas…

    — Maaas…? — Miya apoiou as mãos no assento do banco e trouxe o rosto para mais perto, estreitando os olhos.

    Akemi desviou o rosto imediatamente, massageando o braço com desconforto.

    — Eu… tô completamente perdido sobre o que eu queria.

    — Por quê? — Miya aproximou o rosto ainda mais, invadindo o espaço pessoal.

    O garoto se encolheu brevemente e fechou um dos olhos. Conversas com desconhecidos já eram difíceis, mas com alguém da mesma idade? Pior ainda quando a pessoa invadia o espaço como se fosse a coisa mais natural do mundo.

    Sem que soubesse onde enfiaria a cara, ele virou para o lado, e inusitadamente, deu de cara com o completo absurdo para si:

    No caminho de brita, Picuinha, o macaco-fantasma da ASA, juntava as mãos formando um coração batente enquanto estalava beijinhos no ar com a boca, todo empolgado com uma cena que só existia na cabeça dele.

    A expressão de Akemi virou uma careta torta, confusa, e ofendida. “Mas que…?” Aquilo sequer fazia sentido, em momento algum passou pela sua cabeça, nem de raspão.

    Ele encarou a garota num tranco, como quem precisava urgentemente apagar aquela visão da memória e atropelou as próprias palavras: — Olha, eu sempre me imaginei enfrentando criminosos nas ruas, protegendo a vizinhança, sendo uma pessoa forte e confiável, um verdadeiro herói! — uma respirada curta acalmou os ânimos. — Só que hoje notei que a realidade é muito diferente do que eu pensava — o olhar à brita voltou, garantindo que o bicho não estava mais lá.

    Miya recuou à posição original, e pensativa, encarou os próprios dedos entrelaçados sobre as coxas. — Compreendo. Sendo sincera, eu também pensava assim há uns anos atrás. Foram certos acontecimentos que me fizeram entender a realidade da vida de um militar áurico.

    Akemi contemplou o céu, sentindo o peso daquela comparação. — Nunca pensei ver tanto sangue e ódio, é demais pra mim. Na minha mente, tudo parecia mais simples, como se bastasse ter uma aura e bastante vontade.

    Miya virou-se com uma expressão séria. — Akemi, não é somente a aura que faz alguém forte. Você, por exemplo, foi muito bem quando disse aquelas coisas na arena. Mais uma vez, eu nunca vi algo assim. Sua mentalidade é rara pra uma pessoa que quer entrar na ASA.

    Akemi retrucou prontamente; a exaustão perante tudo o que passou descontrolavam seus sentimentos. — Mas eu não quero mais isso! A real é que só quero voltar pra casa e esquecer que tenho esses poderes. Posso acabar machucando mais alguém, tenho que evitar isso.

    — Olha, eu também não quero machucar ninguém. Aliás, não quero que ninguém mais seja machucado… esse é o meu sonho. Mas infelizmente, aprendi muito cedo que é praticamente impossível restaurar a paz sem que algumas pessoas sofram.

    O garoto foi tocado pela revelação, acalmando-se e interessando-se. — Você tem um desejo louvável.

    — Acredito que há alguma maneira de todos viverem em harmonia, por isso, entrei na ASA.

    — … Você é aluna daqui!?

    — Entrarei numa das turmas de recrutas que estão começando agora — esclareceu Miya, observando o horizonte — no entanto, meu objetivo vai além de simplesmente me tornar uma shihai. Quero transformar os símbolos do caos desta academia em emblemas da paz, espalhar isso por toda Asahi e, depois, pro mundo inteiro.

    — Símbolos… do caos?

    Miya respirou fundo, um relato importante estava próximo. — Há indivíduos detestáveis no comando do exército asahiano. Muitos dos atos grotescos que cometeram foram e continuam sendo ocultados pela mídia. Como você só acompanha jornais, sei que é uma das pessoas que veem apenas a ponta do iceberg e imaginam nossos militares como nobres heróis. Enfim, toda essa patifaria começa aqui, nesta instituição.

    Akemi ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo a gravidade daquelas palavras.

    — Nossa, eu… nem sei o que dizer. Você parece saber de muitas coisas. Confio que conseguirá fazer o bem.

    — Obrigada pelo apoio, mas eu não consigo sozinha. Preciso de mais alguém, e não sei se encontrarei pessoas de propósito confiável ou sequer bondoso na minha turma — uma pausa mediu as palavras seguintes — é por isso que… eu preciso de você.

    — … Eu!?

    — Sim, A ASA precisa urgentemente de pessoas como você, e até agora, és o único que pode me ajudar a tornar esse mundo num lugar melhor, nem que tenhamos que enfrentar outra guerra pra isso.

    — Mas eu nem consegui passar no teste! Eu não sei lutar! Na verdade, não tenho ideia do que posso fazer pra te ajudar em algo tão radical e grandioso! Mal comecei e já sou um fracasso dentro dessa academia!

    Miya segurou Akemi pelos ombros com firmeza. — Não! Você não é fracassado, é perspicaz! Não deixe as palavras do meu primo abalarem você.

    — O Nihara?

    Miya soltou os ombros dele e cruzou os braços, enojada. — Sim, Nihara é meu primo de primeiro grau. Nossa família é muito grande, e ele representa muito do ego inflado e jeito rude dos Miyazaki.

    — Então seus pais também são como ele?

    — Meu pai é sério e profissional, mas é tranquilo. E minha mãe… — Miya hesitou — ela…

    As palavras suspenderam-se no ar num momento desconfortável.

    Akemi percebeu o assunto delicado, e não precisou mais da busca pela resposta: a dor momentânea no olhos de Miya confirmava tudo. Naomi Miyazaki, a marechala e ex-matriarca morta em combate, definitivamente seria sua mãe.

    Entretanto, enquanto o garoto buscava outro assunto, o som de passos apressados ecoou pelo pátio, quebrando o silêncio tenso que se instalara.

    “Tem alguém vindo?”

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