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    A noite rapidamente virou e Li, sendo o primeiro a acordar, levantou-se cedo, tomou um recheado café da manhã e saiu pela porta. Assim que a abriu, deparou-se com Malik.

    — Veio me acompanhar?

    — Aparentemente, vou ter que fazer isso todos os dias… — respondeu.

    — Parece ser uma droga.

    — E é, me alistei em Arcádia para alcançar grandes voos, mas estou preso em ser um vigia… poxa, que droga é ser um novato!

    Li achou um pouco engraçada a situação, afinal, há pouco tempo ele também era um novato e nunca teve que fazer nada do tipo.

    — Mas, não é de todo mal! — exclamou Malik, animado. — Em compensação, a senhorita Lorena me falou que posso acompanhar as aulas que ela vai te dar. Mesmo que não sejam pontuações direcionadas a mim, ainda poderei aprender muito!

    — Bem, acho que vamos nos ver bastante — disse Li, estendendo a mão.

    Malik estranhou a atitude amigável, mas logo estendeu a mão.

    — Enfim, vamos logo, a senhorita Lorena odeia atrasos — disse, virando-se.

    Li o seguiu. Após alguns minutos andando, chegaram ao lugar marcado.

    — Finalmente chegaram.

    — Perdão, senhorita — disse Malik.

    — De qualquer forma, vamos prosseguir… Primeiramente, gostaria de te pedir desculpas, Jihan, vou ter que acelerar o seu treino, gostaria que ganhasse alguma forma antes de partirmos para a expedição.

    Li notou que Lorena estava falando da expedição abertamente perto de Malik e supôs que ele também faria parte dela.

    — Então?

    — Terei que usar medidas mais… grossas… para canalizar o seu intentio.

    — Grossas?

    — Bem, é melhor te mostrar do que falar, mas primeiramente vamos revisar o que é Intentio — disse a mulher. Do ar, um livro apareceu em sua mão, ela o abriu e o leu. — “Quando um indivíduo decide, com clareza suficiente, que algo deve acontecer, e sustenta essa decisão, o Prana se organiza em torno dessa escolha. Não porque o indivíduo é especial, mas porque o Prana é obediente à estrutura da mente.”

    Virando a página, Lorena continuou.

    — “Intensio é a quantidade de intenção aplicada sobre algo, não em termos poéticos, mas mensuráveis. Quanto mais Intensio, mais o Prana se curva. Quanto mais refino, mais precisa é essa curvatura. Quanto mais controle, menor o desperdício.

    — Senhorita Lorena… ainda não entendi onde você quer chegar com isso — disse Li.

    Fechando o livro, ela virou-se para Jihan.

    — O que quero dizer, Li, é que oque penso que falta no seu processo é focar-se na Intenção, Intenção é vontade e creio que te falta a vontade bem direcionada.

    — É mesmo isso?

    — Perdão, Li, mas me pareceu por um momento que você discordou de mim — falou, ameaçadoramente.

    — Não, não foi isso!

    — Estou só brincando, por que as pessoas têm medo de mim… de qualquer forma, me deixe te fazer uma pergunta, Jihan… como você está se sentindo agora?

    — Me sentindo? — questionou, estranhando.

    — Sim… você está feliz? Triste? Com Raiva?

    — Hm… eu só estou… bem? Eu acho?

    — Nada mais?

    — Creio que não?

    — Veja bem, Li, talvez esse possa ser um problema. Você consegue ficar com raiva agora, com uma lembrança?

    — Acho que sim.

    — Me diga — Lorena se aproximou e ficou face a face com ele. — Me conte um momento que realmente faz o seu sangue ferver.

    — Um momento… de ódio…

    Passando por suas memórias, Li relembrou cada momento onde havia tido uma onda de emoções. Sua mente o levou de volta para o Battle Royale, quando viu Wang com Irmin; mas sentiu que não era o suficiente. Percebendo isso, notou que raramente ficava realmente com raiva.

    — Precisa necessariamente ser um momento meu de ódio contra outra pessoa?

    — Hm… Vejo que pensou em alguma coisa, não, contanto que seja uma emoção muito forte, deve ser o suficiente.

    “Não sei se vai funcionar, mas não custa nada tentar…” pensou.

    Jihan tinha uma memória perfeita, uma agoniante que, se durasse tanto tempo, poderia corroer sua mente. Fechando os olhos, ele se concentrou ao máximo no sentimento que a memória o trazia. No dia em que compartilhou do sentimento de Nasháh ao receber a maldição que o fazia carregar as memórias da mulher que servia sua filha.

    Concentrou-se no aperto do coração, na dificuldade de respirar, no vazio mental e na incessante vontade de arrancar a própria vida. Uma mistura de tristeza profunda e um ódio de si mesmo tremenda ao mesmo tempo em que uma ausência de sensações tomava conta de seu corpo.

    No próximo momento em que abriu seus olhos, Lorena arregalou os dela.

    “O que é isso, o que é essa memória, Li!”

    Seus olhos cor de âmbar, que geralmente brilhavam, estavam opacos, distantes, como se toda a vida tivesse sido sugada delas.

    “Como uma pessoa tão jovem consegue ter uma dor tão profunda?”

    O que os olhos de Jihan refletiam não era apenas o momento, era o resultado de dezenas, talvez centenas de anos de sofrimento contínuo, algo incomparável por qualquer vida humana comum. Com a mente que o permitia sentir exatamente o mesmo sentimento que sentiu no momento e a experiência de ter compartilhado os mesmos sentidos de Nasháh, as emoções do dragão se tornaram as dele.

    — E agora? — perguntou calmamente.

    — Ah, claro. — Lorena quase havia se esquecido do que estavam fazendo. — Intenção é vontade, a vontade também pode ser alimentada por outros sentimentos, então, tente canalizar seu sentimento em vontade.

    — Como…

    — Pense na Prana como um alvo de seus sentimentos, estenda sua mão e faça o que você faria com a fonte dessa dor?

    Mesmo com os olhos abertos, Jihan não parecia estar enxergando, ainda assim ele esticou a mão.

    “Como posso fazer isso…” pensou. Porém, em um instante, lembrou de uma sensação clara. “Quando Kali aniquilou aquele demônio… era como se a Prana estivesse se curvando a ela…” E Li logo se perdeu em pensamentos.

    Subitamente, Lorena sentiu a energia de Prana ao seu redor ser sugada na direção da palma do homem.

    — Impossível! — exclamou a mulher. — Li, pare!

    Mas ele não parecia ouvir, sua mente estava consumida pela tortura. A Prana parecia gritar em agonia enquanto era puxada para um vórtice de energia.

    “A Prana está confusa e não sabe como se manifestar? Ele está canalizando sem comanda-la em uma função… como um monstro enlouquecido sem alvo”, pensou. “Tenho que pará-lo… mas, como vou fazer isso sem machucá-lo?”

    Porém, antes que pudesse fazer alguma coisa, a energia começou a tomar forma.

    “Uma… pessoa, uma criança?”

    Mas, assim que uma linha de sangue começou a descer pelo lábio de Jihan e uma lágrima desceu pelos seus olhos, a energia em sua mão começou a se escurecer.

    “Está se corrompendo?”

    — Li! — gritou.

    — Ahhh!

    Repentinamente, Vivi saltou de dentro do peito de Jihan e, grudando em sua cara como uma máscara, ela brilhou em dourado. A energia na palma do homem lentamente se acalmou e eventualmente se dissipou.

    A dragão, largando o rosto de Li, caiu desacordada, mas antes que pudesse atingir o chão, Lorena balançou a mão e uma fina camada de água a segurou no ar e a trouxe até a sua palma.

    Jihan, de joelhos e com dificuldades, apoiou-se no chão com as duas mãos, respirando com dificuldades.

    — Eu… consegui? — perguntou pausadamente entre respirações.

    — Bem… seria uma mentira se eu te dissesse que não chegamos a algum resultado… mas, vou ter que lhe pedir para que nunca mais pense nisso… sei que não deve ser nada prazeroso, mas não posso te ter perdendo o controle assim. — disse ela. — De qualquer forma, o que você estava tentando fazer?

    — Como assim?

    — Digo, parecia que você estava tentando exercer uma vontade específica sobre a Prana…

    — Ah… desculpe, eu estava imitando a Kali.

    — Imitando… a Kali? A deusa?

    — Sim?

    — Você é burro?

    — Que?

    — Não tente isso novamente, Li — avisou. — A forma como a Prana responde a seres intitulados de Deuses é diferente da forma que ela responde a não deuses… é como tentar acessar um banco sem saber a senha só porque você sabe onde fica o cofre…

    “Sei que ele tem potencial, mas de nada adianta se ele não pode controlá-lo… dito isso, é minha função ensiná-lo… mesmo assim, como esse pivete conseguiu copiar a Deusa, isso é bizarro, caralho…” Pensou Lorena.

    — Foi mal… não sabia dessa parte.

    — Tá tudo bem, vamos pensar em outra coisa — afirmou. — Você não teria uma memória feliz, algo reconfortante… além disso, apesar de não copiar a Deusa, tente adequar o método a você…

    Ela gostaria de perguntar o que era aquilo e porque ele estava chorando, mas parecia tão doloroso que Lorena impediu sua curiosidade. Pensando por um momento, Li lembrou-se de uma curta memória que estava em sua mente há algum tempo. Realizando o mesmo processo, ele se concentrou e lentamente uma energia branca começou a se formar em sua mão, uma energia calma e quente.

    “Dois extremos, uma é densa, obscura e quase sufocante, a outra é puro conforto…”

    Li não parecia estar sendo consumido por aquela lembrança, mas sim consciente, ele olhava aquela energia com uma expressão acalentadora.

    — Do que você está se lembrando?

    — Que eu tive uma mãe um dia.

    — Não temos todos?

    — Sei que parece ridículo, mas não possuía nenhuma lembrança de como ela era até pouco tempo atrás, na verdade não consigo nem dizer com exatidão como era o rosto dela.

    — Achei que sua memória fosse praticamente perfeita…

    — Também não sei explicar bem… mas… queria poder lembrar melhor dela — falou. — Esse sentimento… será que era assim que eu me sentia quando estava com ela?

    — Se era assim, posso te dizer ao menos que ela deveria ser uma boa mãe.

    Com os olhos de Jihan refletindo aquela luz calorosa que refletia em seus olhos fazendo com que brilhassem ainda mais, ele disse:

    — É… eu suponho que sim.

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