Capítulo 10 – Vida Antes da Honra
Os dias subsequentes foram uma correria intensa. Michael e Will tiraram medidas para os uniformes e assinaram uma montanha de documentos para oficializar suas matrículas. A Real Academia Militar de Artel era uma instituição totalmente financiada pelo governo, portanto pública, sem custo de mensalidade. No entanto, a confecção dos uniformes ficava por conta dos próprios alunos. Michael descobriu que o diretor anterior havia instituído contratos de devolução para auxiliar os mais necessitados.
A Academia também oferecia ensino básico de matemática e gramática, devido à ausência de um sistema escolar padronizado no reino. As fardas consistiam em camisas azul-escuras de cinco botões com mangas longas, coletes e casacos brancos, além de calças de tecido resistente na mesma cor clara. Michael pensou, com ironia: “Realmente não pensaram no trabalho de lavar isso.”
A dupla estava tão atrasada que perdera até mesmo a cerimônia de entrada. Sua classe já iniciava a segunda semana do primeiro semestre. Os uniformes demoraram quatro dias para ficar prontos. Quando finalmente puderam buscá-los, Michael e Will pagaram uma moeda de prata por cada conjunto completo, a última grande quantia que o veterano ainda guardava de seu tempo trabalhando com o senhor Hans.
Na volta, Michael comentou em tom irritado, mas irônico:
— Como eu amo minha vida. Sem dinheiro e sem cigarro. Ótimo.
— Fique tranquilo, só receberemos salário fixo a partir do segundo ano — brincou Will.
— Muito engraçado.
E então, pela primeira vez, Michael vestiu seu uniforme. Um sentimento estranhamente nostálgico o invadiu. Não havia um único defeito em seu modo de trajá-lo. Ainda assim, murmurou para si mesmo, quase sem voz:
— Qual o próximo passo? Yorktown?
O uniforme era assustadoramente semelhante aos usados no auge da Guerra Revolucionária. Mesmo ele não tendo visto sequer uma arma de fogo desde Vesangres. E assim, o veterano se tornou um cadete novamente. Naquela mesma tarde, foram para sua primeira aula, acompanhados pelo diretor, que se dirigiu à frente da classe para explicar a situação aos demais alunos:
— Senhores, estes dois serão seus novos companheiros. Michael e Will estavam muito ocupados matando e morrendo na recente guerra. Portanto, relevem seus atrasos.
Michael examinou a sala por alguns instantes. Havia cerca de quarenta alunos, todos homens e da mesma idade aproximada de Will. Alguns ignoraram completamente a nova presença, outros olharam com curiosidade e alguns com evidente desdém. A origem dos aspirantes era majoritariamente de famílias camponesas. Alguns vinham de mercadores, outros eram descendentes de cavaleiros ou nobres de baixo escalão, baronetes, um título que podia ser comprado para fins de status e que fora criado como forma de arrecadação pela corte.
A primeira aula de sua nova vida era de matemática, disciplina que Michael dominava com facilidade graças ao seu antigo curso de engenharia mecânica. O professor, claramente um civil contratado, explicava com paciência conceitos básicos para jovens adultos que mal haviam aprendido a fazer soma e subtração. O conteúdo era dezenas de vezes mais simplório na visão de Michael, uma consequência da escassez de conhecimento geral da sociedade na área.
O período vespertino seguiu-se dessa forma, e todos se dirigiram ao refeitório para o jantar. A refeição consistia de uma sopa leve de vegetais e pão branco. Michael e Will sentaram-se juntos e conversaram enquanto comiam:
— Parece que vai ser difícil conviver aqui — comentou o ruivo.
— Relaxe, é só o primeiro dia — respondeu Michael.
— Você parece assustadoramente adaptado para isso — observou Will.
— Do mesmo modo que fui adaptado para liderar os ventrianos naquela carga — disse o veterano, com um meio sorriso.
— Que nojo dessa sua presunção — retrucou Will, fazendo uma careta exageradamente enojada que fez Michael rir.
Neste momento, o burburinho ao redor do refeitório cessou subitamente. Michael foi o primeiro a perceber a mudança no ar e, com cautela, procurou a causa ao redor do saguão. Seus olhos então encontraram um grupo de garotas vestidas com o mesmo uniforme dos cadetes. No centro delas, caminhando em direção a ponta, estava uma jovem de cabelos prateados.
A maioria dos primeiranistas a encarava abertamente, enquanto os alunos das classes mais adiantadas pareciam mais acostumados com a visão. Michael ouviu um de seus colegas sussurrar para outro:
— Então é verdade que a herdeira dos Magnava foi expulsa da Sacra Academia?
O outro rapaz respondeu baixinho:
— Sim, mas isso fica entre nós. Nunca mencione isso na frente dela.
O veterano soltou uma fungada curta, rindo de si mesmo, e pensou em como havia ido parar numa situação como aquela. O elitismo “tradicional” que sustentava aquela sociedade, mantido apenas pela própria inércia, parecia encarnado bem à sua frente. Ele iria estudar ao lado de uma herdeira da casa ducal que carregava o lema mais absurdo que já vira: “Morte Antes da Desonra”.
Michael concluiu que aquilo simplesmente não seria problema dele e cutucou Will:
— Ei, está ficando feio já.
— Ah. Desculpe — respondeu o ruivo, desviando o olhar.
Na manhã seguinte, todos da classe do veterano estavam presentes no campo, sendo instruídos pessoalmente pelo diretor. Havit gritava em tom imperativo:
— Senhores! Vocês são o futuro de Artel!
O diretor fazia uma varredura pelos alunos e notou que Michael já estava em posição antes mesmo de ser ensinado. Questionou-lhe:
— Cadete Leone! Seu pai estudou aqui?
— Não que eu saiba, senhor!
— Então quem lhe ensinou esta postura?
Michael suspirou discretamente e respondeu, omitindo a verdade que não seria crível:
— Eu não sei, senhor!
Havit deixou passar e se aproximou do forasteiro, usando-o como exemplo:
— Aspirantes! Olhem a postura do jovem Leone! Ele nasceu para isto!
Todos ficaram em silêncio, fitando a estatura de Michael. Internamente, o veterano se culpava por ter sido “flagrado”. Aquilo era natural para ele, especialmente no ambiente em que se encontrava. O diretor continuou sua aula durante todo o período matutino, ensinando os rapazes a como se apresentar diante de superiores e como marchar. Havit sempre encarava Michael de forma nada discreta, percebendo que o rapaz cometia erros propositais.
Depois disso, durante o almoço, a dupla conversava tranquilamente na fila para pegar suas refeições:
— Hein, você realmente ama chamar atenção dos instrutores — brincou Will.
— É um talento inato… — respondeu Michael, complementando em seguida: — Assim como filosofar nas horas erradas.
— Já estava sentindo falta dessa sua sabedoria — disse o jovem ruivo, com uma leve expressão de desdém saudável.
Michael recebeu seu prato na bandeja e virou-se para ir até seu assento quando trombou com a única pessoa que desejava evitar, a sucessora dos Magnava. As roupas dela agora estavam sujas por causa da colisão. Por uma fração de segundos, Michael pensou em vários xingamentos contra si mesmo, mas manteve a expressão neutra. Espertamente, pediu desculpas de imediato:
— Minhas mais sinceras desculpas, minha lady.
A herdeira dos Magnava exibia no rosto uma raiva transbordante, como um pavio prestes a explodir. Porém, foi surpreendida pelo tom calmo e respeitoso do homem à sua frente. Percebendo que sairia como a errada caso explodisse, ela se conteve e respondeu, desviando o olhar:
— Não… Não foi nada.
— É… Com certeza. Permita-me limpá-la — falou Michael, pegando um lenço e estendendo o braço para começar a esfregar a sujeira. A moça segurou seu pulso subitamente e disse:
— Não precisa… Irei resolver isso eu mesma.
E saia de cena.
— Bem, isso foi impressionante — comentou Will, quase rindo, para o amigo que se tornara o centro das atenções do refeitório.
— Eu realmente amo minha vida — disse Michael em tom quase cínico, enquanto o ruivo gargalhava de sua situação.
O dia seguiu de forma tranquila até que foram liberados de seus deveres estudantis no período da tarde. Michael saiu para dar uma caminhada pelo campus, analisando cada detalhe da instituição. O sol começava a se pôr e os candeeiros dos corredores eram acesos quando ele se deparou, perto do poço artesiano em frente ao internato, com uma figura conhecida de cabelos prateados ajoelhada na grama.
Sem perceber, Michael aproximou-se o suficiente para que ela o notasse. A lady Magnava disse, com tom afiado:
— O que foi? Nunca viu alguém trabalhando?
Um pouco surpreso, Michael respondeu de forma imperturbada:
— Certamente não alguém do seu calibre.
Observando melhor, ele percebeu que ela usava um vestido chique, inadequado para lavar uniformes, e ainda por cima, estava fazendo do jeito errado. Michael agachou-se e falou em um tom firme, mas controlado:
— Me dá aqui. Eu disse que ia limpar.
Relutantemente, ela entregou o balde junto com uma tábua de madeira ondulada, sem esconder o orgulho ferido. O problema da composição era que não havia sabão. Michael perguntou:
— Onde você arrumou este balde?
— No depósito. — respondia de forma seca.
— Eu já volto.
Em poucos minutos, ele retornou com uma barra de sabão feita de banha de porco e água quente do refeitório. Trocou a água suja, deixou ensaboar e começou a limpar a camisa da moça.
— Você precisa de água quente e sabão para este tipo de coisa — explicou Michael enquanto esfregava o tecido.
— Eu… nunca tinha feito isso. — com a voz baixa e um pouco tensa ela admitia. — Apenas observava minhas empregadas de relance —
— Eu imagino… — disse Michael, complementando em seguida: — Meu nome é Michael. Michael Leone. E o seu?
— Eu sou Asrid Magnava, filha de Einor Magnava, herdeira do ducado de Nareno — respondeu ela, tentando projetar certa superioridade mesmo na situação.
— Hum, prazer — respondeu Michael, concentrado na tarefa.
Com certa hesitação, Asrid perguntou vexatoriamente:
— Você não vai questionar por que estou fazendo isso?
— Isso o quê?
A resposta demorou um pouco para sair, por vergonha:
— Trabalho manual…
Michael parou por alguns segundos, processando o que ouvira, e respondeu em tom irônico:
— Bem… Não. E mesmo se eu questionasse… A resposta seria provavelmente uma patada.
Asrid o encarou irritada, e rangeu os dentes, murmurando:
— Você nem me conhece!
— Talvez tenha razão — disse o veterano, trocando a peça que estava higienizando.
Suas palavras criaram um estranho silêncio, que foi quebrado apenas quando Michael terminou a tarefa, exibindo um meio sorriso irritante no rosto:
— Pronto. Agora a senhorita tem um uniforme limpo, uma dívida paga e um novo conhecimento.
Asrid desviou o olhar, irritada, e arrancou o balde com as roupas limpas e molhadas das mãos de Michael. Sem dizer uma palavra de agradecimento, ela se virou e saiu da cena.

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