Capítulo 11 – Aspirante Novamente
— O que você está lendo aí? — perguntou Will ao seu amigo.
— Ah, nada interessante — respondeu Michael, afastando-se de sua mesa para se espreguiçar.
Ambos estavam na biblioteca da instituição. Nas mãos do veterano havia um livro de capa de couro, volumoso como uma enciclopédia. O título era Crônicas das Planícies, e ao lado direito via-se seu registro pessoal. Will observou a cena, sentou-se à mesa e continuou a conversa, pois todo final de tarde Michael repetia o mesmo ritual.
A obra reunia histórias milenares sobre os fundadores do Sacro Reino, servindo como ponto inicial para qualquer estudo sério sobre o tema. Em Ventria, livros tão valiosos eram inexistentes, substituídos por tratados regionalistas e genealogias dos nobres. Michael lia um parágrafo sobre a fundação da capital, onde se narrava o mito de um “povo do escudo” profetizado para desenvolver as planícies.
O texto era altamente enviesado, sem qualquer preocupação com neutralidade, o que tornava difícil distinguir lenda de fato. Will indagou:
— Como você aprendeu a estudar desse jeito?
— Ou eu aprendia, ou eu seria… — Michael completava por falta de termo melhor: — punido.
— Hum — murmurou Will, fingindo acreditar, e mudou de assunto: — Aliás, ouvi rumores sobre você e a Lady Magnava.
Michael parou por um instante, pensou e respondeu encarando o jovem:
— Não foi nada demais. Apenas paguei o que fiz naquela manhã.
— Sei.
Uma semana se passou na segunda vida de Michael como aspirante. Os dias eram curiosamente calmos e nostálgicos para ele, uma mudança tão abrupta de horizontes. Apenas um mês atrás ele havia matado dois inimigos, azarados em situações análogas ao dele, em Vesangres. E há apenas um ano, estava em sua verdadeira casa. Mas esse era um pensamento que recusava-se a concluir.
Ele se tornou apenas mais um jovem de origem plebeia entre centenas de cadetes. Aos olhos dos outros, nada além de um aluno esforçado. Até que, numa tarde qualquer, toda a sua classe foi levada para a primeira aula prática de esgrima, ministrada por um homem de meia-idade.
O professor proclamava aos presentes:
— Meu nome é Maximus Algren. Porém, quem me chamar de Maximus pagará duzentas flexões. Vocês, infantes, me chamarão de senhor Algren e nada mais!
A turma toda respondeu em uníssono:
— Sim, senhor!
Michael já imaginava que ele seria o típico sargento-instrutor estereotipado, até que o senhor Algren continuou:
— Eu ouvi dizer que há dois aqui presentes que não são covardes! Michael Leone e Will Tebalus, um passo à frente, por favor.
O duo, que estava lado a lado, se entreolharam brevemente e cumpriram a ordem. O instrutor prosseguiu:
— Estes dois foram à guerra! E da guerra retornaram! Assim como eu. Por isso, quero ver a habilidade de vocês contra eles.
O homem dirigiu-se a uma grande caixa de madeira, destampou-a revelando dezenas de espadas de treino, e pegou um par de exemplares:
— Peguem suas armas e avancem contra os dois.
Os alunos correram para pegar as réplicas. O professor entregou as armas a Will e Michael. O jovem ruivo contestou, bravo:
— Professor. Que porra é essa?
— Acalme-se, jovem irritado — falou Algren, exibindo um meio sorriso maldoso e se afastou.
O que se seguiu foi uma carga descoordenada. Assim que cada um empunhava sua arma, corriam contra a dupla. Michael assumiu rapidamente uma postura defensiva básica, ensinada por seu antigo mestre, e ergueu o olhar a tempo de ver dois garotos avançando em sua direção. O da esquerda tentou uma estocada direta.
Michael aproveitou o momentum exagerado do adversário, colocando o pé em seu caminho e o fez cair de cara no chão. No mesmo instante, sentiu as costas arderem com o baque de outro golpe vertical, que usava a lâmina falsa como um porrete. Will reagiu rapidamente, desferindo um ataque poderoso nas costelas do rival, que caiu de joelhos, sem ar.
Ambos ganharam alguns segundos para pensar. O veterano ordenou:
— Não saia do meu lado!
Formaram uma pequena parede contra a massa humana que avançava. Resistiram por quatro confrontos individuais, até que Will recebeu um chute na perna esquerda e cedeu. Em seguida, Michael foi empurrado por vários com tanta força ao chão, que causou uma dúzia de cadetes cair sobre ele.
O professor assobiou e gritou:
— Voltem às suas posições originais!
Michael levantou-se e tirou a poeira da calça. Após todos retornarem, Algren apontou aleatoriamente para alguns alunos do outro grupo, ordenando que formassem o time da dupla. Ficaram duas equipes com cerca de vinte membros cada. Então o instrutor proclamou:
— Vocês têm dez minutos para elaborarem uma estratégia. Pensem bem. Quando eu ordenar, a prática recomeçará. Façam seus times vencerem.
De forma rápida, o veterano reuniu os membros em círculo e perguntou:
— Algum problema se eu coordenar isso?
Recebeu apenas respostas desinteressadas, mas nenhuma objeção. Ele continuou:
— Formem uma coluna única. Eles vão avançar, nós vamos segurá-los, protegendo uns aos outros.
— Como assim? — perguntou um dos colegas.
— Quem aqui tem o mínimo de experiência com a espada? — questionou Michael.
Cerca de nove levantaram a mão.
— Ótimo. Vocês vão formar a primeira fila junto comigo — disse o veterano, complementando: — Will, você vai ajudar na segunda fileira.
O jovem acenou com a cabeça. Michael explicou que, posicionados lado a lado, a capacidade defensiva aumentaria, e com a coluna atrás, não seriam derrubados facilmente em um avanço total do inimigo.
— Tempo! Tomem suas posições! — gritou o senhor Algren, que, instantes depois, assobiou para o reinício da prática.
Assim como Michael previra, a equipe rival lançou-se em uma carga frenética. O conflito falso no terreno da academia transformou-se em uma verdadeira batalha campal. Ainda um pouco cansado da luta anterior, Michael segurou a ponta esquerda da linha.
Aos poucos, os opositores caíam de dor ou desistiam, incapazes de romper a defesa improvisada. Will e seus comandados apoiavam a primeira fileira, segurando as costas dos companheiros. Após nove minutos de gritos e golpes, uma grande quantidade de garotos estava ferida no chão, a maioria do time rival.
Intervindo, o senhor Algren decretou o fim da atividade e proclamou:
— Michael e sua turma venceram!
E assim se encerrou a aula mais diferente da vida do veterano, que fora obrigado a utilizar táticas clássicas de combate físico. O professor o elogiou pessoalmente:
— Jovem Leone. Você tem potencial. Agora sei por que o diretor disse que Ervirgius os recomendou.
— Obrigado, senhor Algren.
No anoitecer do mesmo dia, Michael estava sentado sozinho em um banco de madeira em frente ao internato, aproveitando a água do poço. Detinha as mangas da camisa arregaçadas e fazia, com um pano limpo, compressas molhadas nos hematomas dos braços e costelas. As das costas ele não conseguia alcançar. Havia também pequenos cortes nas mesmas regiões.
A prática decorria tão eficientemente em causar lesões quanto uma verdadeira. Até que escutou passos e nem precisou erguer o olhar para saber quem era. Falou em tom calmo, mas evidentemente irônico, sem parar o que fazia:
— O que foi? Nunca viu alguém trabalhando?
— Ah, por favor, cale a boca — respondeu Lady Magnava, com a voz carregada de irritação diante do sarcasmo do colega plebeu.
O veterano conteve uma gargalhada e finalmente ergueu os olhos para Asrid. Ela perguntou, ao notar os roxos em seus braços e os pequenos filetes de sangue:
— O que houve com você?
— O que houve com todos da minha turma. A existência do senhor Algren.
— Ah — disse a princesa ducal, compreendendo rapidamente. Observou a compressa improvisada de Michael, feita apenas com a temperatura natural do reservatório, e comentou sem pensar:
— Isso deveria estar mais frio.
— Eu sei, mas é o que tem pra hoje.
— Me dá aqui — falou Asrid.
O veterano, após um breve momento de hesitação, estendeu o pano. Pela segunda vez, presenciou algo que quebrava as leis da física. Asrid murmurou baixinho enquanto segurava a compressa, e a água absorvida congelou instantaneamente. Magia. Michael ficou surpreso, mas não demonstrou, apenas dizendo:
— Obrigado, vai ajudar bastante.
Lady Magnava estranhou a reação calma do veterano e perguntou, quase irritada:
— Você realmente odeia fazer perguntas, né.
— Apenas para as pessoas certas — respondeu Michael, continuando a aplicação e sentindo pequenos calafrios pelo corpo. Então, em um tom mais sério: — Bom, na verdade eu tenho uma pergunta, mas não a que você está pensando. O que veio fazer aqui?
Pega no flagra, Asrid tentou disfarçar que estava procurando Michael para pagar sua dívida. Deu uma desculpa qualquer:
— Eu estava indo para o refeitório.
— Hum — resmungou o forasteiro, fingindo acreditar. Continuou, com tom um pouco mais sério: — Não precisava. Foi minha culpa aquela vez.
E, de repente, levantou-se. Antes que ela pudesse replicar, vestiu o casaco branco e seguiu seu caminho.
No dia seguinte, numa rara ocasião de tempo ocioso, Michael descansava de olhos fechados, com as costas e a cabeça apoiadas contra uma árvore. Foi despertado por um chute leve no pé. O veterano abriu os olhos e viu Will, que disse:
— Acorda. O senhor Algren está te procurando na sala do diretor.
Ainda confuso, Michael estendeu o braço para o ruivo enquanto agradecia:
— Valeu por avisar.
Will o puxou para cima e falou em tom de brincadeira:
— Espero que não seja expulso.
— Eu espero o contrário — respondeu Michael, com ironia.
Chegando à porta do diretor, Michael bateu três vezes e adentrou. Na sala, Havit estava sentado atrás de sua mesa, enquanto o professor Algren permanecia de pé, de braços cruzados, apoiado na parede.
— Senhor, ouvi dizer que estava me procurando — disse Michael.
— Isso mesmo — confirmou o diretor, com ar pensativo. — Michael… Você destruiu, no bom sentido, a dinâmica do professor Maximus.
O veterano permaneceu impassível, esperando o restante.
— Todo ano, no meio do semestre, escolhemos dois alunos de cada ano para um estágio na guarda da cidade.
— Certo, mas não estamos nem no segundo mês de aulas? — questionou Michael.
— Sim, mas graças à guerra perdemos gente demais. Precisamos justificar nossa existência aos olhos de quem nos financia… — Havit hesitou por um instante antes de continuar: — Mesmo que nem eles tenham nos chamado para o conflito em primeiro lugar.
— Então já estamos coordenando com as unidades. Aparentemente vão realizar alguma operação envolvendo cidadãos que não pagam seus impostos. — completava o diretor.
— Certo… Quem vai ser o segundo aluno da minha classe? — perguntou Michael.
— O seu colega ruivo — respondeu o senhor Algren.
— Ok, quando estaremos lá? — indagou o veterano.
— Em quinze dias — replicou o senhor Havit.
— Certamente, senhor — disse Michael, acenando positivamente antes de se virar para sair da sala. Quando sua mão tocou a maçaneta, o diretor falou:
— Me desculpe, jovem Leone.
Michael parou por um instante, sem realmente compreender o que aquelas palavras queriam expressar, e saiu da sala.

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