Índice de Capítulo

    Ui despertou na enfermaria, cercada por soldados gravemente feridos. A luz pálida do amanhecer filtrava-se pelas janelas empoeiradas, iluminando os rostos exaustos ao seu redor. Levantou-se com dificuldade e sentiu o peso da batalha recente em cada músculo.

    Caminhou entre as fileiras de camas improvisadas, perguntando por Mito. Os olhares cansados e as respostas vagas apenas aumentavam sua ansiedade. De quarto em quarto, onde ao menos dez pessoas se amontoavam em cada um, nenhum sinal dele. 

    Decidida, Ui deixou a enfermaria. O ar fresco da manhã revigorou-a levemente enquanto seguia para o centro da cidade. 

    Ao alcançar a casa murada do líder, atravessou o jardim florido, onde pétalas coloridas balançavam suavemente ao vento. A casa de Izumi erguia-se a frente e Ui supôs que ele não estaria em casa àquela hora do dia.

    Ainda assim, um sorriso tímido brotou em seu rosto. Sempre acreditou na vitória do seu amado, mas o desejo de vê-lo em segurança pulsava em seu peito.

    — Izumi!!! — gritou.

    Ao ouvir seu chamado, olhou em sua direção com indiferença e logo abaixou a cabeça, mergulhando em reflexões. Ui, que corria até ele, notou a mudança em seu comportamento. No entanto, precisava perguntar algo importante.

    Ao se aproximar, tentou abraçá-lo, mas Izumi a deteve e afastou o rosto dela com a mão. Confusa e preocupada, olhou para ele.

    — Izumi, o que foi? — perguntou, desconfortável, recuando um passo.

    Ele ignorou-a e, sem hesitar, abriu a porta de sua casa. No entanto, Ui o deteve, questionando a razão de seu comportamento tão indiferente. Ele a olhou, mas sem revelar qualquer emoção. 

    Perdida em seus próprios pensamentos, não conseguia decifrar o que se passava em sua mente. Um medo sutil a envolveu, e, impulsionada pela dúvida, ela decidiu fazer a pergunta que não saía de sua cabeça.

    — O Mito, você sabe onde ele está? Perguntei para várias pessoas, mas ninguém sabia de nada.

    Izumi, que abriu a porta, a fechou lentamente. Olhou nos olhos de Ui e, com um sorriso enigmático, respondeu:

    — Eu o matei.

    Naquele instante, o mundo dela desabou novamente, como se a terra sob seus pés cedesse. Seus olhos, antes vivos e brilhantes, agora estavam vazios, incapazes de refletir qualquer emoção. 

    As palavras que ouviu cortaram como lâminas afiadas: a pessoa que ela amava, havia tirado a vida de quem ela também amava. O impacto foi tão profundo que o tempo paralisou tudo ao seu redor. 

    A mente de Ui ficou em frangalhos, e, como se a dor física fosse a única forma de exprimir o que sentia, ela colocou as mãos na cabeça e apertava como se tentasse controlar o turbilhão em seu interior. 

    Então, um grito desesperado rompeu os lábios, enquanto as lágrimas desciam sem cessar, como uma cascata de tristeza e confusão. Cada gota parecia carregar consigo um pedaço de sua sanidade, e ela sentiu o medo de estar à beira da loucura.

    — Eu te odeio! Eu te odeio! Eu te odeio!

    Ela gritou, as palavras saía em um turbilhão de dor. Então, olhando para Izumi, lágrimas começaram a descer de seus olhos, enquanto ele a encarava com total indiferença. Sentindo o peso da ausência de qualquer arrependimento, ela falou, a voz embargada:

    — Era isso que você queria? Me afastar?

    Novamente permaneceu em silêncio, limitando-se a observá-la com um olhar distante. Essa ausência de palavras, feriu Ui ainda mais profundamente. Cada segundo que se arrastava sem uma resposta parecia corroer o que restava de seu coração. 

    O amor que ela nutria, começava a se dissipar, como se estivesse sendo sugado por um vácuo. 

    Ela sempre acreditou que Izumi era alguém com princípios, alguém que jamais mataria por simples capricho. Mas naquele momento de angústia, em meio ao caos de suas emoções, Ui foi consumida pela cruel aceitação: ela já não sabia o que acreditar. Aquele silêncio entre eles se tornou mais doloroso que qualquer palavra dita.

    — Assassino — murmurou. — Seu assassino!

    Tomada pela raiva, fechou o punho e, com toda a força que pôde reunir, socou o peito dele. O impacto foi pesado, mas ele não se moveu. Permaneceu parado, imóvel, como uma estátua, com os olhos fixos nela, sem emitir uma palavra sequer. O silêncio dele, mais uma vez, a feriu profundamente. 

    Seus próprios sentimentos, agora descontrolados, pareciam a consumir. Sem forças para continuar a luta, ela se deixou cair contra ele, repousando a cabeça em seu peito. Lá, envolta pelo vazio daquele abraço não correspondido, murmurou, quase como uma súplica:

    — Por que não se esquiva? Por que não diz nada? Eu não consigo… Isso está me destruindo, essa dor no meu peito… Por favor, diga alguma coisa… Por favor, Izumi… Diga que tudo isso é mentira, eu vou acreditar em você…

    Izumi permaneceu em silêncio por um momento, seu olhar vazio e distante. Então, com uma frieza temível, respondeu:

    — Eu o matei. Não há mais volta.

    O corpo de Ui tremia incontrolavelmente, como se suas forças estivessem se esvaindo. Cada pensamento, cada emoção, a paralisava, e ela não conseguia decidir o que fazer. Desesperada, começou a morder seus lábios com tanta força que o sabor de sangue invadiu sua boca. 

    Implorava silenciosamente para que tudo aquilo não fosse real, para que fosse apenas um pesadelo do qual pudesse acordar. Mas, em meio ao caos em sua mente, a verdade cruel não poderia ser negada. Ela sabia que precisava decidir, e o peso dessa escolha era insuportável.

    Amor contra amor. Abandonar um deles, ou viver com a dor de ter perdido o outro. A opção era clara, mas odioso. 

    Deveria aceitar a morte de Mito e seguir com Izumi, aquele que agora parecia tão distante de tudo o que ela acreditava, ou deveria renunciar a Izumi e amaldiçoá-lo por tirar a vida de Mito? A dúvida a consumia, mas, gradualmente, a expressão em seu rosto foi se tornando mais firme.

    Ela afastou o rosto do peito dele, fitando-o com um sorriso. Era um sorriso estranho, quase vazio, como se uma decisão tivesse sido tomada, mas sem alegria alguma. No silêncio que se seguiu, parecia que, naquele momento de reflexão, ela havia finalmente escolhido o caminho a seguir.

    — Eu não te amo mais! — declarou.

    Izumi ouviu suas palavras, mas manteve-se impassível, como uma pedra diante da tormenta. Mesmo diante de tanta dor e revelações, ele permaneceu em silêncio, sem uma única palavra de consolo ou explicação. 

    Ui, incapaz de entender o que se passava em sua mente, sentiu, pela primeira vez, a cruel certeza de que ele jamais se importou com ela como ela acreditava.

    Com um suspiro profundo, se afastou lentamente, o peso das emoções ainda pairando sobre ela. Caminhou sem direção, seus passos pesados, até passar pelo jardim de flores. A beleza das flores, com suas cores vivas, parecia um contraste cruel com o vazio em seu coração. 

    Ela as observou por um momento, enquanto as lágrimas finalmente cessavam. Lentamente, começou a limpar o rosto, sentindo a suavidade de sua própria pele, como se fosse a primeira vez que ela se enxergava realmente. 

    Ela não escolheu amaldiçoar Izumi, não procurou mais o culpar. Apenas decidiu seguir em frente, sem ele, sem o príncipe encantado que tanto idealizou. O peso da perda, por mais difícil que fosse, a conduziu a um novo propósito: ela viveria sua vida, por si mesma, sem mais ilusões.

    — Melhor assim — murmurou Izumi.

    Mesmo a distância, Ui ouviu as palavras murmuradas, e, de imediato, as lágrimas começaram a cair novamente, sem controle. Ela havia tomado uma decisão momentos antes, decidido seguir em frente, mas o som daquela voz, a presença dele, trouxe uma dor inesperada. 

    Ela se virou lentamente, seus olhos fixos em Izumi enquanto ele entrava em sua casa. Por um instante, o mundo ao seu redor pareceu parar, e a dor da escolha a invadiu com mais força.

    Estou amaldiçoada a te amar!

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