Índice de Capítulo

    O sangue de Léo escorria enquanto buscava regenerar, mas Ui fitava-o com desprezo. Segurou-lhe o braço e, de súbito, parte do corpo desfez-se em migalhas, lançando-o ao chão. Nesse instante, Loi desesperou-se e desferiu golpes contra o rosto da inimiga, porém nada surtiu efeito.

    — És a próxima vadia!

    Apunhalou outra vez. Todavia, não se espantou pela falha, mas porque a amiga lhe sustinha o braço.

    — Idalme, o que isso significa?

    — Vamos conversar, Ui — disse, com pesar.

    A mestiça hesitou por um instante, fitou Izumi inconsciente no chão e perguntou, aflita:

    — O Izumi… está bem?

    Idalme permaneceu sem voz. Ui, então, certa da escolha, jurou ceifar a vida daquela vadia. Apontou a mão contra o peito de Loi, enquanto a companheira buscava impedi-la em vão.

    — Me desculpe, Idalme — disse, franzindo a testa enquanto olhava para a amiga.

    Com um gesto, afastou a peituda e tornou a apunhalar. Outra vez foi detida, mas agora por Dam, que lhe alvejou a mão com um tiro.

    — Até você, Dam?

    Ela soltou Loi no chão, virou as garras para os amigos e perguntou, com a intenção assassina transbordando:

    — Mais alguém quer me impedir?

    Max, que até então permanecia em silêncio, aproximou-se devagar e falou com voz contida:

    — Ui, eu não ligo se quiseres matar esses dois — fez uma pausa, olhando-a nos olhos —, só que agora não é o momento.

    — Max, você não sente raiva? — ela arfou. — Ela fez…

    — Eu sei. — Cortou, calmo, quase como quem segura uma tempestade. — Mas estou satisfeito com o castigo que implantei.

    — Castigo?

    — Sim. — assentiu, firme. — Mas não é por isso que a mantive viva.

    Impaciente, alertou:

    — Pare de enrolar. Não consigo esperar mais.

    Respirou fundo, ao olhar para o chão onde o Léo jazia, falou com calma:

    — Primeiro, preciso daquele cara ali para chegarmos ao próximo quartel inimigo — explicou, pausando para que ela entendesse. — Segundo, Loi é a única agora que pode estabilizar a Lei no corpo do Izumi se alguma coisa der errado.

    Ui fechou os punhos, mas a fúria cedeu pouco a pouco. A mudez pesava; todos aguardavam sua palavra, exceto Max, que desejava enfrentá-la, embora cuidar de Izumi fosse prioridade. O corpo da jovem retomou a forma comum. Levou a mão à nuca, sorrindo.

    — Então é isso… — murmurou, resignada. — Não há muito o que fazer.

    Todos se espantaram com a mudança súbita, como se anunciasse que qualquer dúvida faria daqueles dois apenas lembrança. Aproximou-se do corpo de Izumi, ergueu-o aos ombros e disse:

    — Vamos? 

    Todos anuíram, mas a tensão persistia. Loi nada disse, preso à preocupação com o irmão, cuja cura avançava devagar. Forçou-se a carregá-lo, embora as forças lhe faltassem. Perguntava-se o que ocorreu com o próprio corpo, desde que Ui lhe tocou o pescoço; as habilidades falhavam e a fraqueza crescia. Dam, ao vê-la vacilar, ofereceu ajuda.

    Quase chorou, resmungando contra ele, que sentiu a vida esvair-se antes da morte. No fundo do peito, desejava apenas que a jornada se encerrasse, longe daqueles mestiços sedentos de sangue.

    Avançaram por horas. Idalme ignorava Ui, seus pensamentos se prendiam à forma de se reaproximar da amiga, sem saber como agir.

    Dam, exausto, implorou por descanso. Pararam num vale cercado por montanhas e pedras de todos os tamanhos. Ui afastou-se do grupo e sentou-se sozinha, enquanto Loi, Dam e Léo permaneciam no outro canto, conversando em voz baixa. Idalme, próxima de Max, sentiu-se sufocada pela presença dele e afastou-se, desconfortável.

    A mestiça percebeu o afastamento e observou a amiga, que não ousava encará-la. Quando os olhos finalmente se cruzaram, a baixinha sorriu, mas a peituda desviou o olhar. Irritada pela indiferença, Ui pegou uma pedrinha e lançou-a com precisão; a pequena pedra acertou em cheio o peito dela, arrancando um leve grito de surpresa.

    Idalme olhou para sua amiga, preocupada, mas encontrou um sorriso desafiador. Outra pedrinha voou e acertou novamente seu peito, arrancando-lhe um arrepio de surpresa.

    Ui, segurou os próprios seios, zombeteira. Irritada, a peituda pegou outra pedra e lançou. Começou, então, uma disputa silenciosa: quem acertaria mais vezes. Mas a armadura dela protegia os seus peitos; as pedras apenas ricocheteavam.

    Quando se aproximaram, Idalme a envolveu em um abraço e sussurrou desculpas por impedi-la de matar Loi.

    — Tudo bem — disse ela, com voz leve —, eu não fiquei com raiva.

    — Mas eu…

    — Me desculpe por ter te empurrado. Você se machucou?

    — Não, estou bem. E você, tá mesmo bem?

    — Não sei… — a voz falhou por um instante. — Quando vejo aquela vadia, sinto uma raiva enorme. Quero matá‑la, mas não posso — baixou a cabeça. — O Izumi é mais importante.

    — Sim. — peituda respirou fundo. — Quando tudo acabar, a gente a mata.

    — Sim. — Ui sorriu, aliviada. — Obrigada, amiga.

    Enquanto isso, no grupo de Dam, Loi temeu que, ao fim da jornada, pudesse ser morta. Sugeriu, então, fugir com o atirador. Ele, porém, respondeu:

    — Sua idiota — sussurrou, pálido —, ela ouviu tudo.

    — Ela? — A voz saiu fina, incrédula.

    Loi desviou o olhar para Ui e percebeu o sorriso frio no rosto da inimiga, que abraçava Idalme. A mestiça levou o dedo aos lábios, solicitando silêncio, e, em seguida, riscou lentamente o próprio pescoço, sinal inequívoco de morte. O gesto fez o coração de Loi disparar, e uma sensação de impotência tomou conta.

    Naquele instante, a certeza de que escapar de seu destino era impossível caiu sobre ela como uma sentença. Tremendo, voltou-se para Dam e buscava alguma esperança, mas a voz falhou, e só conseguiu gaguejar, cheia de medo:

    — O que eu faço, Ham? Eu vou ser morta…

    — Você só está colhendo o que plantou.

    — Me ajude, Ham… eu não significo nada para você? Aquela noite… foi só uma noite?

    Loi agarrou os ombros de Dam e implorou por ajuda, a voz trêmula e urgente. Ele fitou Ui e percebeu que cada palavra era observada, cada gesto, registrado. Um peso caiu sobre ele ao pensar na enrascada em que se meteram.

    — Escuta… — ele baixou a voz. — A única maneira de você se salvar é comportar‑se e rezar para que, quando o Izumi acordar, ele não te mate.

    — Ele? — ela arfou, assustadiça.

    — Sim. Se a Ui que é um amor de pessoa, não hesitou antes de tentar te matar, imagina o que o Izumi fará ao despertar.

    — Quê? — perguntou, o medo engolindo as palavras.

    — Nem ias notar que morreste. Ele te despedaçaria, e só saberia que morreu em outro mundo.

    Loi ajoelhou-se no chão, ao perceber que não havia escapatória, e perguntou, com a voz trêmula:
    — O que eu faço, Ham? Eu não quero morrer.

    — Não tem nada que você possa fazer — respondeu ele, seco. — Nem fugir. Você perdeu a chance quando podia. Aquela mulher… mais parece com o Izumi.

    Ele pousou a mão no ombro de Loi, firme, e continuou:

    — Deve ter reparado que ela não dormia à noite, igual ao Izumi.

    — Sério? — sussurrou, incrédula.

    — Sim. — Ham assentiu, sombrio. — Izumi é assim, e ela acabou ficando parecida com ele.

    Loi empalidecia a cada nova informação que chegava. Em desespero, não cessava de implorar por ajuda a Dam.

    — Mas não se preocupe, Loi.

    — Não? — murmurou, desconfiada.

    Ele segurou o queixo dela, esboçou um sorriso de canto e disse, sem pressa:

    — Resumindo… você se fodeu.

    Naquele instante, Loi percebeu que Dam também a abandonou. Restavam apenas ela e o irmão, quase morto.

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